Arquivo da tag: O “parafuso” é de Lagarto

Por causa de Sergipe, bate em meu peito…

Desde adolescente, nutria uma espécie de namoro à distância com Sergipe. Um amigo, egresso das minhas andanças teatrais, me dissera sobre o quanto a graça de Aracaju o tinha encantado. E desde ntão fiquei com aquela vontade guardada de conhecer a capital sergipana.

Acabei demorando anos pra chegar em mais este ponto do Nordeste. Mesmo parecendo incrível, ir a Segipe, partindo do Ceará, é, no mais das vezes, mais caro que ir ao Rio Grande do Sul. E quase sempre tive de optar por um custo menor.

Comecei a escorregar do teatro para o cinema por conta da profissão de repórter: até tornar-me editora de Arte & Cultura, cobri para a imprensa escrita muitos eventos ligados ao teatro, à música, às artes plásticas. Depois, as ações na área do cinema passaram a ser maiores e mais constantes.

E foi indo ao Festival de Cinema do Maranhão, a convite de meu querido amigo Euclides Moreira Neto (!!!), que cheguei, por acaso, mais perto de Sergipe. Porque foi lá no Guarnicê - o encantador festival multicolorido da encantadora São Luís, comandado por Euclides décadas alvissareiras - onde conheci Rosângela Rocha, cineclubista e guerreira na vontade de incluir Sergipe no mapa do audiovisual brasileiro.

Eu, Rosângela e Celso Sabadin fomos jurados de videoclip numa das edições do lendário Festival Guarnicê de Cinema, a convite de Euclides. Tornei-me, a partir dali, assídua frequentadora do Guarnicê e amiga de Sabadin, a quem encontro com razoável frequência em festivais de cinema. Com Rosângela, os encontros foram mais esparsos, mas mesmo assim sempre benfazejos: encontrei-a algumas vezes em festivais em Goiânia, João Pessoa e outros tantos. Havia sempre um amável convite para conhecer Aracaju, mas alguma coisa sempre adiou este encontro.

Quando comecei a mergulhar com mais afinco na Cultura Popular, descobri o quanto Sergipe é rico na sua formação e o quanto tem de singular e múltiplo em suas matrizes culturais. Quando vi pela tevê a dança do Parafuso, típica do município de Lagarto, fiquei tomada de vontade de ver aquilo de perto. E, sobretudo, fiquei doida pra entrar na dança com os brincantes sergipanos. 

Mesmo descobrindo ser o Parafuso uma manifestação onde só dançam homens – todos vestidos de branco e com o rosto pintado de branco -, o que tenho vontade até hoje é de cair na dança rodando, rodando, como fazem os sábios brincantes do bailado tão original. Porque dançar é uma delícia e dançar rodando, então, nem há como definir.

   

“Quem quiser ver o bonito/Saia fora e venha ver/Venha ver os parafusos/A torcer e a distorcer”…

Pra quem não sabe, o Parafuso é uma dança criada pelos escravos, que fugiam das senzalas à noite para ter um pouco de alívio, e dançar. E para não serem reconhecidos por seus senhores, usavam branco e saíam rodando pelas fazendas para dar a impressão, a quem os visse de longe, que eram lençóis balançando ao vento. Daí o branco, dos rostos e das vestes.

Grupo de “parafusos” em foto de Álvaro Villela…

Sacada de mestre !

Essa história me fascina desde que a descobri. E como sou meio João Moreira Salles – “gosto de filmes ao contrário” – eu alimento a vontade de entrar nessa dança, toda de branco, rodando, rodando, parafusando…pra fugir sei lá de quem…

Ponte João Alves, ligando Aracaju à ilha de Santa Luzia…  

Mas essa digressão é apenas pra exemplificar o quanto Sergipe me despertava interesses vários, há tempos. Desde a vontade de conhecer a bonita e simpática Aracaju até a vontade de ir mais fundo nas profundezas culturais de um país enorme, desconhecido da maioria de seus habitantes, e cheio de histórias mirabolantes a revolver em seu redemoinho de crenças, simbolismos, etnias, manifestações artísticas e culturais, sons/cores/formas e gestos de seu imaginário.

A Ponte do Imperador, visitada em 1860 por D. Pedro II – O nome “Sergipe” tem origem na língua tupi e significa “no rio dos siris”…

Este ano, finalmente, deu certo ir a Sergipe. Passei uma adorável semana em Aracaju, a convite da aguerrida Rosângela Rocha.

A semana na capital sergipana foi motivada pela realização do CURTA-SE, um diversificado, importante, alegre e competente festival de Cinema, este ano em sua décima-primeira edição e com uma cartela de vídeos e filmes ibero-americanos.

Aguardem um próximo post onde falarei mais sobre o CURTA-SE.