Porque a saudade é o revés de um parto…

Velho Chico vive semana final marejando a tela de encanto, tristeza e saudade…

* Aurora Miranda Leão

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Camila Pitanga, Gabriel Leone e Domingos Montagner: últimos momentos de uma sintonia que a ficção abraçou com beleza e emoção…

Fatalidade que nos tirou SANTO DOMINGOS Montagner dos ANJOS imortaliza VELHO CHICO como obra trágica em que ficção e realidade duelaram…

Resultado de imagem para velho chico Bento e Santo

VELHO CHICO, a prodigiosa novela de Benedito Ruy Barbosa, Bruno Luperi e Luiz Fernando Carvalho, entra em sua derradeira semana. E o capítulo da segunda que iniciou esta reta final foi de A R R E P I A R !!!

Inédita em telenovelas, a solução encontrada pelos autores foi um emocionante acerto.

Assim como aconteceu conosco, li várias pessoas comentando nas redes sociais que terminaram o capítulo em lágrimas. É preciso ser muito insensível para não se ter sentido com os olhos naufragados…

Resultado de imagem para velho chico TEREZA salva Santo da morte

A aura de SANTO Domingos pairou em todas as cenas do personagem com sua família: além do delicado e poético efeito da luz incidindo sobre as lentes de Alexandre Fructuoso, os corações do elenco (visivelmente entrelaçados) emprestaram ternura e cravaram saudade às cenas em que Santo está presente mas sem Domingos… a poesia latente entre colegas que a ficção tornou’família’, escancarou uma ausência que machuca profundamente, e contaminou o público.

E como é lindo constatar quando um artista acerta a mão em seu trabalho e consegue o máximo da sofisticação que é a beleza do simples – como tão bem imortalizou Leonardo da Vinci. Assim foi nesse já histórico capítulo da última segunda-feira de Velho Chico, 26 de setembro de 2016.

irandhir

Que riqueza de simbologia num único capítulo ! Quantos acertos  flagrados em filigranas da mais sublime homenagem que autores e direção resolveram prestar ao querido Domingos Montagner ! A título de ilustração, os antológicos destaques para o brinde à nova vida que será trazida por Miguel e Oliva com todos os atores olhando para a câmera (simbolizando Santo) com o corte para uma belíssima imagem do Rio em absoluto clarão). O hino que embala a oração de são Francisco antecedendo encontro da índia Ceci com a terra seca herdada por Miguel – e a primeira imagem que surge é um céu  explodindo na beleza de seu azul escaldante -, Bento chamando o “mano véio” para se arrumar para a festa de casamento da filha, a troca de olhares ente Olívia e o pai (feixes de luz formando anéis brancos a simbolizar  a alma de SANTO abençoando a filha), as lindas palavras do padre Benício na hora da celebração,  Miguel recebendo do pai um violão, e tocando para a amada a simetria do Dia Branco de Geraldo Azevedo.

Detalhes significativos demais, só capazes de imperar em almas prenhes de luz e inspiração !

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Com o auxílio luxuoso de uma equipe que também marcou com a encantadora telenovela Meu Pedacinho de Chão – nela também constam os nomes de Raimundo Rodriguez, Tim Rescala, Thanara Schönardie, Rubens Libório, Myriam Mendes, Luisa Gomes Cardoso, Déborah Badauê, para citar apenas alguns -, Luiz Fernando Carvalho possibilitou  a construção de uma obra de arte do mais alto quilate, dando ao inteligente texto de Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Luperi, a dimensão de Obra-Prima da Teledramaturgia Mundial. Anotem aí, e ano que vem vamos conferir: VELHO CHICO ganhará incontáveis prêmios por sua excelência: seja pela belíssima estética de sua narrativa ou pela beleza de seu figurino delicado e atemporal; seja pela riqueza de uma trilha sonora que emprestou à narrativa um caráter de adágio, ou por sua fotografia primorosa; quer pela direção de arte ou pelas interpretações de um elenco notável. Por qualquer ângulo através do qual se queira analisar VELHO CHICO, a telenovela é um festival de acertos !

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Os irmãos Bento e Santo em trabalho soberbo de Irandhir Santos e Domingos Montagner

Orgulho de me inscrever entre a imensa legião de pessoas que acompanha a novela. Orgulho de profissionais que conseguem fazer de um extenuante trabalho cotidiano um painel riquíssimo, no qual se inscreve a Cultura Brasileira em sua multifária diversidade, e com o qual somos brindados diariamente, de graça, no conforto de nossas cadeiras ou no sofá preferido para nos desligarmos do mundo e embarcamos num mergulho antropofágico do quilate que é, sempre, uma obra que leva a assinatura de Luiz Fernando Carvalho.

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Doninha (Suely Bispo) e Cícero (Marcos Palmeira): fiéis servidores do Coronel Saruê…

VELHO CHICO entra para a história da Teledramaturgia como uma obra de notável narrativa e riquissíma produção de sentidos, símbolo de uma enorme rede de influências artísticas – que vão de Shakespeare a  J. B. Priestley e seu O Tempo e os Conways, passando por Ibsen e Albinoni, com mergulhos mesclando o Concerto de Aranjuez ao ritmo tradicional do forró pé-de-serra e às carrancas típicas do nordeste brasileiro, com ênfase para a riqueza da vertente africana de nossa ancestralidade, ou na direção poética que pulsa em manifestações como a Missa do Vaqueiro – que valeu à trama um capítulo antológico !

Outrossim, a novela de Benedito-Luperi-Luiz Fernando-Raimundo-Tim-Fagundes-Egrei-Irandhir-Pitanga entra para os anais da Teledramaturgia como uma narrativa na qual o clássico se misturou com o popular formando um crivo* precioso onde o único senão foi a intromissão – indevida, desnecessária, indesejável e corrosiva – da realidade na ficção.

*CRIVO é um bordado feito com o auxílio de bastidores, em que o pano é preparado com a retirada de alguns fios intercalados, formando furos que são contornados de pontos de linha, criando uma espécie de peneira.

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Miguel e Olívia: Gabriel Leone e Giullia Buscacio simbolizando um amor cheio de ternura…

Assim, ao falarmos de VELHO CHICO, sabemos estar diante de uma Obra-Prima porém perpassados por um profundo e lancinante silêncio, advindo de uma dor que insiste em latejar e nos açoita, dilacerante, a gritar nossa pequenez diante do Infinito.

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Descanse em PAZ, DOMINGOS Santo MONTAGNER dos Anjos !

Que Deus seja conforto e LUZ para todos os que com você partilharam a grandeza que foi sua vida e sua benfazeja presença em VELHO CHICO !

O caloroso #aplausoblogauroradecinema para todos os que integram a equipe da saga VELHO CHICO !

coronel

Como diria o saudoso cronista Artur da Távola,

Velho Chico seria uma obra popular de elite ou uma obra erudita de massas ?

VELHO CHICO crava assinatura contra machismo, opressão e preconceito racial

Em capítulo no qual Mariene de Castro brilha, Marcelo Serrado e Marcos Palmeira destacam-se com atuações primorosas…

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Mariene de Castro protagonizou cena forte em defesa das mulheres e contra o racismo

Velho Chico, apenas uma novela rural, centrada no sertão nordestino – como julgam apressadamente os que dizem que detestam novela (nunca entendi como de detesta uma coisa que não se conhece) – é, desde seu início, uma obra substancial, com uma estética claramente definida e nuances antropofágicas claras, importantes, bonitas e bem colocadas.

A novela já foi por nós abordada diversas vezes. Tem tantas qualidades que merecia um comentário diário. Mas o tempo nem sempre nos permite dedicar-nos exclusivamente ao que gostamos. A teleficção audiovisual me encanta desde garota, o que me fez seguir noveleira vida afora, e culminou com uma estreita e longa amizade nossa com o saudoso cronista Artur da Távola, o mais respeitado crítico de televisão, praticamente o pioneiro do ofício.

Dito isso, vamos ao capítulo de Velho Chico desse sábado, 24 de setembro: foi um capítulo crucial da grandiosa obra de Benedito Ruy Barbosa, Bruno Luperi e Luiz Fernando Carvalho. Nele foram exibidas as últimas cenas gravadas pelo ator Domingos Montagner, tragicamente vitimado logo após essas gravações em mergulho que terminou de forma infeliz no lendário rio São Francisco.

A exibição dessas cenas, por si só, já tornaram as principais sequências do capítulo arrepiantes. Ver um ator da dimensão cênica de um Montagner, cujas falas lhe saíam com tamanha espontaneidade, que pareciam sair-lhe do próprio coração, e não de roteiro que o ator decorava e aplicava seus conhecimentos técnicos para dar as falas à veracidade necessária a tornar o personagem crível. Por isso, quando um ator tem a magnitude de um Fagundes ou de um Montagner, o público mergulha de supetão na ficção e chega a “confundir” ator X personagem.

Teve destaque também a degradação existencial pela qual passa o coronel Saruê, que vive um dilema emocional com a perda da mãe, o abandono da filha e do neto, e a incerteza de seu único filho (com quem viveu às turras a vida inteira) ainda está vivo ou não. A situação do coronel, apesar de todas as ruindades que protagonizou, é digna de pena. E o diálogo do Coronel com seu capanga Cícero foi um primor ! Sobretudo pela meticulosa interpretação de Marcos Palmeira ! Que Ator Grandioso é este rapaz, filho do nosso conterrâneo, cineasta Zelito Vianna, e irmão da querida cineasta Betse de Castro.

palmeira

Marcos Palmeira é desses atores que trabalham “na dele”, sem nunca dar demonstrações de que pretender ser um Ator de grande Destaque… vai fazendo o trabalho dele, do jeitinho dele, meio que na “surdina”, mas como é grandioso em sua interpretação este garoto ! Com que riqueza de detalhes ele compôs este Cícero, sertanejo brabo, valentão, machista, iletrado, enciumado, defensor do patrão e bruto, que guardou por muitos anos uma paixão avassaladora pela filha do coronel, a bela Teresa.

Na conversa de hoje com o Coronel Saruê, Cicero foi de uma sinceridade desconcertante ao falar sobre a vida e tentar responder as questões existenciais que o coronel colocava. E com que riqueza de detalhes Palmeira fez a cena ! Que preciosismo de expressão, entre o ingênuo e o tosco, entre a pureza e a ignorância, entre o inculto e o selvagem… Que coisa linda ver um Ator trabalhar com tanto preciosismo, independente do tamanho do personagem que tenha nas mãos. Não custa lembrar que, recentemente, Marcos Palmeira fez o delegado da novela O Rebu e o prefeito corrupto de Babilônia, para citar apenas alguns, todos personagens completamente distintos, e aos quais o ator emprestou a mesma força de seu talento e a mesma pulsação de sua empatia. Um sonoro DEZ para Marcos Palmeira e seu ‘Cícero’ !

Mas, tirante o que citamos acima, o ponto alto do capítulo desse sábado de Velho Chico, foi o confronto de Dalva e do ex-deputado Carlos Eduardo, o “mofino” novo coronel Saruê, vivido com maestria pelo ator Marcelo Serrado. Dalva, papel que cabe à atriz e cantora Mariene de Castro (linda em toda a potência de sua vocação e grandiloquência de seu potencial artístico), resolvera deixar o trabalho na fazendo dos De Sá Ribeiro, cansada de ser tratada com grosserias e de ter de aguentar gritos e maus tratos do ‘novo coronel’, o terrível Carlos Eduardo. Ela então segue a vontade de libertar-se daquele julgo infame, lembra dos conselhos de Martim, e vai para o centro da cidade. Ali, entre um pensamento e outro, começa a cantar, e sua voz encanta Chico Criatura (Gésio Amadeo), e logo uma turma grande começou a chegar junto para ouvir Dalva cantar. E ela cantou e dançou bonito a noite toda, aplaudida e festejada por quem passava pelo bar de Chico Criatura.

serrado

Marcelo Serrado: primor como o famigerado e corrupto deputado Carlos Eduardo…

Dia seguinte, ele vai à fazenda conversar com Doninha (Suely Bispo), a amiga de longa data com quem dividia o trabalho na fazenda. E no meio da conversa, contente a dar gosto, surge Carlos Eduardo e começa a desfazer de sua vibração (vale um registro para a sonora e sarcástica risada do nojento e famigerado ex-deputado, um primor na criação de Marcelo Serrado !).

E é nessa cena que a tensão se eleva e Dalva escancara um sonoro repúdio ao preconceito racial, ao machismo, à opressão e à vilania do tal Carlos Eduardo. A palra foi forte e construída com esmero por Bruno Luperi (o neto de Benedito Ruy Barbosa que escreve a novela com o autor). Vale um estrondoso aplauso ao juntarmos a eloquência do diálogo e a fortaleza da interpretação de Mariene de Castro !

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“A gente tem que olhar pra gente é com orgulho, orgulho de quem nós somos, orgulho de onde a gente veio, do fundo de nossa alma… orgulho de ser mulher, de ser negra, de ter sangue de reis e rainhas correndo em mim”

Ao que Carlos Eduardo responde chamando Dalva de “negra, imunda” e depois ainda ameaça matá-la,  caso ainda a encontre na fazenda.

Quem perdeu a cena, ou quer revê-la, aqui está o link: http://gshow.globo.com/novelas/velho-chico/videos/t/cenas/v/carlos-ameaca-dalva/5330507/

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O pernambucano Batoré, que faz o abominável Secretário de Segurança de Velho Chico…

  • No capítulo de ontem também, é mister ressaltar a ótima participação de Batoré (que faz o nefasto Secretário de Segurança Queiroz, pau-mandado de Carlos Eduardo): ator, nordestino, sempre visto apenas fazendo humor, Batoré vem mostrando como é bom no ofício, interpretando com extrema habilidade um personagem deplorável e que causa repulsa na audiência.
  • Destaque-se também a lindeza colossal do interior da fazenda dos Saruê, composição requintada e preciosa em riqueza de minúcias, fruto da sumidade inconteste do artista plástico Raimundo Rodriguez, notável em sua criação de ambiências cênicas multifárias e pertinentes em gênero, número e grau ao que propõe a diegese da obra.

Findamos deixando um enorme APLAUSO para todos os que fazem de VELHO CHICO esta obra-prima da Teledramaturgia Mundial, que nos enche a alma de emoção e já deixa a saudade a invadir nossas retinas.

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Os cenários de Raimundo Rodriguez com detalhes preciosos que colaboram de forma substancial para a estética referecial de Velho Chico

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Antônio Fagundes, Camila Pitanga e Gabriel Leone em cena na fazenda Saruê…

Velho Chico e o imperscrutável: novela vira elegia em honra de Domingos SANTO Montagner

santo

Por Aurora Miranda Leão*

“Pregue que a vida é emprestado estado/Mistérios mil que desenterra enterra”

Velho Chico é uma obra acentuadamente marcada pela eloquência de muitas injunções. Estreou para suprir a demanda de audiência do horário, por isso foi tocada em tempo recorde e exigiu trabalho dobrado de sua equipe de pré-produção. A missão era hercúlea: colocar no ar uma novela apta a recuperar o público do horário nobre, e a intenção dos ‘autores’ Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho (LFC) era contar uma história para tocar fundo o coração do telespectador, tocando em temas caros aos sentimentos mais nobres e remontando às origens da formação do Brasil. A opção foi ambientar a saga das famílias De Sá Ribeiro e Dos Anjos no mais árido sertão nordestino, tendo o rio São Francisco – afetivamente codinominado Velho Chico -, como testemunha silenciosa e matriz emotiva onde se desaguassem dores, chorassem tristezas, e também se renovassem sonhos de melhoria para um país no qual a ética se sobreponha à politicagem, onde a terra seja produtiva para seus ribeirinhos, e onde o bem o bom e o belo terminem vencedores. Valorizar a importância do grande rio nordestino e servir como libelo para sua preservação sempre foi um subtexto notório.

Velho Chico foi alvo de vários comentários nossos, seja aqui neste blog, seja em nossas postagens diárias via Instagram, Face, Twitter e Flickr. Desde o início, a obra nos pegou com sua extrema beleza, referências artísticas prodigiosas, um texto de extrema eloquência, belos diálogos, atuações primorosas, uma fotografia deslumbrante, a estética belíssima e inconfundível do artista plástico Raimundo Rodriguez, e a condução admirável de Luiz Fernando Carvalho, um mago da Teledramaturgia de Escol.

Agora mesmo, quando a novela aproxima-se de seu final, já aparecem as vinhetas publicitárias da próxima novela. Faz-nos lembrar as chamadas antecedentes de Velho Chico (VC) bem como as de Meu Pedacinho de Chão. Não é preciso muito esforço para perceber quando a telenovela que vai ao ar leva a assinatura de Luiz Fernando Carvalho: é como se todas as outras fossem novelas. As obras assinadas por LFC estão noutra categoria: são Obra de Arte, é um outro nível. Sem desmerecer nenhum dos demais. Afinal, falo porque sou uma noveleira contumaz, e não tenho pudor algum em dizer isso. Ao contrário: orgulha-me ser de um país que faz a melhor Teledramaturgia do mundo, e onde o público tem acesso gratuito ao trabalho de um time espetacular de notáveis artistas, que se superam a cada nova obra. Basta citar alguns exemplos para confirmar nossas palavras: Avenida Brasil, Amores Roubados, O Canto da Sereia, Verdades Secretas,  AmorteAmo, Felizes para Sempre ?, Ligações Perigosas, Justiça…

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Teresa e Santo: um Romeu & Julieta encravado no sertão nordestino…

Voltando a Velho Chico: agora que a novela está em seus capítulos finais, e que fomos tristemente surpreendidos semana passada com a trágica morte do querido ator Domingos Montagner, cabe-nos agregar mais um dado insólito que torna a novela de Benedito-Bruno Luperi-Luiz Fernando Carvalho–Raimundo Rodriguez um marco divisor da Teledramaturgia Brasileira: a par de toda a qualidade da obra portentosa que é VELHO CHICO – que mescla de Shakespeare ao Tropicalismo, de Visconti à Cultura Popular, de Gregório de Mattos a José Miguel Wisnik, e da religiosidade típica do povo nordestino à espiritualidade indígena e aos mistérios da natureza aos talentos de Tim Rescala, Tom Zé, Vital Farias, e muitos outros -, gerando ademais o riquíssimo Barrococó Neoclássico assinado conjuntamente por “Raimundo Carvalho e Luiz Fernando Rodriguez” -, um marco épico da produção teleaudiovisual brasileira, a novela ganhou matrizes de autenticidade, inimagináveis e indesejadas, claro, mas que a inserem como transgressora do modelo paradigmático até então consolidado.

É a primeira vez, em todos os anos de nossa Teledramaturgia, que existe em formato diário desde 1963, que o herói morre, não na ficção, mas na vida real. Enquanto em vários outras obras o herói entristece o telespectador ao morrer – mas este sabe que logo depois o verá nas ruas ou em outras tramas -, no caso especial de VELHO CHICO, o herói permanece vivo na ficção mas foi tragado pelas águas sinuosas do rio São Francisco. Isso é de uma dor abissal.

Essa transgressão no correr ‘normal’ da narrativa está eivada de simbolismo: a mudança paradigmática que acometeu a narrativa ficcional criou uma intersecção indesejada e jamais imaginada entre os mundos real-ficcional-lúdico, conforme tão bem explicita o professor e pesquisador francês François Jost.

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Quem assiste à novela, sabe: semanas antes do trágico fim de Domingos, seu personagem morria na ficção, mas consegue voltar à vida, tempos depois, trazido pela força do amor da amada Teresa e por sintonias com rituais indígenas milenares. O tempo em que Santo esteve morto foi um tempo de muita tristeza na trama e a vibração na cidade de Grotas – quer entre seus moradores, bem como no seio das famílias do coronel e de Santo -, mudou radicalmente. Ali era só tristeza, revolta, desassossego. Não é difícil engendrar uma analogia com a situação real, arrepiante, que hoje é vivida no Projac entre os pares de Domingos. A todo instante, deve perpassar na emoção de todos: antevisão, premonição, atavismo cósmico ? Porquê ? Como dizia meu sábio avô, o médico pediatra Dr. Miranda Leão, “Os desígnios de Deus são imperscrutáveis”.

E olhemos a força que ganha a letra da música, de Paulo Araújo e João Filho:

Há um rio afogando em mim
Secando, secando, secando
Tem rompante os mistérios que já vi
Esperando, esperando, esperando o fim

Foi na margem do meu peito
Que você pisou e se fez dona
Só pra magoar minha ciranda
Que desanda, que desanda, se diz andar”

Infelizmente, a dolorosa e inaceitável morte que agora choramos não é a de SANTO e sim a do ator Domingos Montagner, que com a força de seu talento e carisma emprestou veracidade à trama de VC e conquistou inúmeros fãs por sua esmerada atuação, oxalá sendo um dos maiores responsáveis pelo êxito da novela que o tempo escreverá em seu histórico livro de ouro como uma das mais belas e relevantes de toda a produção teledramatúrgica brasileira.

A tristeza que devastou e assola a numerosa equipe de Velho Chico, contaminando o país pela perda de um ator tão querido, ainda jovem e no auge da carreira, nos remete a força da argumentação de Umberto Eco quando afirma “o texto é construído por emissor e receptor”. No caso específico de Domingos SANTO Montagner dos Anjos a afirmação resplandece com uma evidência solar.

Embora embevecida ante à beleza e a capacidade de prosseguir que assoma em Velho Chico, escrevemos cravejada de imensa saudade, tristeza e solidariedade. E queremos deixar aqui um enorme e carinhoso abraço a toda esta brava equipe que assina conjuntamente obra de tal magnitude, e um estrondoso aplauso de gratidão por nos encantarem cotidianamente com tanta verdade, beleza, dedicação e generosidade.

*E agora, “tudo em volta é só tristeza…”

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Camila Pitanga, Gabriel Leone e Domingos Montagner após a últimas gravações do ator em Piranhas, no sertão de Alagoas…

Domingos Montagner: vida real invade a ficção e eterniza VELHO CHICO

        * Por Aurora Miranda Leão

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É ainda sob forte impacto e completamente mergulhada em tristeza e dor que escrevemos este post. Escrevemos sobretudo por causa de você, leitor amigo, e para que nossa solidariedade possa chegar ao coração de form mais contundente a toda a prodigiosa equipe que realiza, sob a batuta do maestro Luiz Fernando Carvalho, esta obra prima colossal que é VELHO CHICO.

Você que nos acompanha bem sabe de nossa imensa admiração pela telenovela, de nosso apreço pelas obras do autor Benedito Ruy Barbosa, e de nosso imenso carinho pelos trabalhadores, famosos e anônimos, que tornam possível a realização de uma obra de proporções tão gigantes como uma telenovela, sobretudo as do horário nobre – as mais difíceis, as mais vistas e também as mais atacadas pela crítica – ainda tão preconceituosa e assaz conservadora, mesmo em pleno terceiro milênio.

A notícia do trágico fim do ator Domingos Montagner, protagonista de Velho Chico,  deu-nos uma quinta-feira de perplexidade absoluta. Diante do imponderável,  o real invadiu nosso cotidiano de forma brutal e fomos jogados na vala fria e dolorosa de um desaparecimento  fatal, nefasto, inconcebível, inaceitável.

Enredados numa abjeta narrativa, infelizmente encharcada de realidade, dramaticamente infeliz, e dessa vez não engendrada por nenhum Coronel Saruê, a notícia do afogamento começou a chegar à redes sociais pouco depois das 14h. Passava um pouco das 16h quando li no site da Globo as primeiras informações. Mesmo sabendo dos riscos que é mergulhar e não voltar à superfície, acreditava em “Santo” em alguma paragem do São Francisco, salvo por algum ribeirinho. Confesso não ter pensado nunca no pior final.

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Mas ele veio, infelizmente. Foi a pior de todas as notícias do dia, aquela que você nunca quer ler, a consciência reluta em aceitar, o coração não quer acreditar, e que um jornalista jamais quer divulgar. Infelizmente, o pior do pior aconteceu, e foi na sempre eficiente Globo News que o desaparecimento funesto de Domingos Montagner foi confirmado, pouco depois das 18h.

Quem acompanha este #auroradecinema também no Instagram, Flickr, Twitter ou Facebook, sabe que, nessas redes, acompanhamos o desenrolar dessa tragédia inconcebível. E o que a torna ainda mais grave: a fatalidade era EVITÁVEL !

Segundo matéria do Jornal Nacional na noite desse sábado, 17 de setembro, a chamada “Prainha” onde Domingos mergulhou e foi colhido pela brava correnteza, era um lugar muito perigoso, proibitivo, e até pouco tempo, havia ali bóias sinalizadoras de que o local era proibido ao banho. Sabe-se lá porquê as bóias foram retiradas do lugar, e como aparenta ser muito tranquilo, por isso convidativo ao mergulho, o ator foi ali celebrar suas gravações finais do personagem “Santo dos Anjos” às margens do São Francisco.

Tivera a prefeitura e os órgãos competentes tido o necessário cuidado em manter os avisos de que aquela área era perigosa e não oferecia segurança ao banho, e nosso Domingos Montagner não teria sido vitimado. Quantos como ele não devem ter perdido a vida ali também, naufragados no descaso com a vida humana, na negligência com o respeito aos princípios básicos da civilidade ? Será preciso que um ator famoso perca a vida de forma tão brutal para que, finalmente, possamos pensar em cobrar das autoridades competentes (?) o devido cuidado com o que devia ser sua tarefa cotidiana  ?

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É URGENTE que o Ministério Público seja convocado a interpelar esse descaso, negligência, desleixo e execrável desrespeito à vida humana para que os responsáveis sejam devidamente punidos e acidentes iguais não venham mais a ocorrer !

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Que Domingos Montagner, nosso eterno Santo dos Anjos, possa agora correr livre nos vastos campos do céu, abençoado por Deus e guiado pelos mais belos anjos do Senhor !

Velho Chico está em suas semanas finais. A novela, obra-prima de Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho (os dois aqui representando a enorme equipe que torna possível a realização primorosa de VELHO CHICO) teve um desfalque no elenco em seus capítulos iniciais, quando o ator Umberto Magnani, que fazia o Padre Romão, sofreu um AVC e não mais se recuperou. Agora, em seus capítulos finais, Velho Chico perde – de forma dolorosa ao extremo -, o talento, o carisma, a força e a grandeza do talento de DOMINGOS MONTAGNER.

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Se nada disso tivesse acontecido, Velho Chico continuaria sendo a obra-prima magistral que É ! Luiz Fernando Carvalho (LFC) reuniu a NATA DA NATA e esmerou-se na ousadia: partiu da Antropofagia Tropicalista e mergulhou em diversas inspirações artísticas definindo uma estética multifária, cheia de dissonâncias e belas sincronicidades. Mesclou a inteligência de suas muitas inspirações poéticas e casou suas percepções imagéticas e sensórias com a inventividade criativa do artista plástico Raimundo Rodriguez. Assim nasceu o Barrococó Neoclássico que encheu nossa telinha de vigor artístico e infinita beleza. A condução fotográfica de Alexandre Fructuoso (que assumiu seu lado fotógrafo graças ao impulso recebido de LFC) nos proporcionou, todas as noites, um mergulho num universo que estourava em beleza e convidava a uma sucessão de referências cognitivas e ressignificações para um cotidiano tão banal (?) como o da vida numa pequena cidade do interior nordestino.

Não tenho dúvida alguma de que o final de VELHO CHICO vai ser apoteótico, não no sentido de espetacularização, mas seguindo pelo viés que sempre conduziu a novela, entre o drama e a tragédia, com cores tantas vezes sombrias a esconder mistérios da família Saruê, e as influências de várias culturas que ali foram mostradas com igual respeito e a devida deferência.

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O final de VELHO CHICO vai coroar uma obra que foi majestosa do principio ao fim e que é um marco relevante e sui generis da Teledramaturgia Brasileira. 

Orgulho-me de ter visto e acompanhado a obra com a maior das atenções.

E acredito: quando um personagem com o nome de SANTO – com toda a fortaleza que o personagem de Domingos simbolizava para a trama – morre na vida real, e não na ficção, isso vai agregar um valor ainda maior à obra, da qual ela não carecia em sentido algum, mas que surge e se impõe com a força avassaladora de uma tragédia shakespereana, autor que Luiz Fernando tão grandiosamente homenageou com sua singular direção.

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Nos  400 anos da morte do dramaturgo considerado o Pai da Dramaturgia Mundial, Shakespeare, que foi colocado no centro da trama de VELHO CHICO através do personagem do coronel Saruê ( vivido com brilhantismo pelo magnânimo Antônio Fagundes, misto de Hamlet e Rei Lear), e o amor cheio de obstáculos de Teresa e Santo (Romeu & Julieta), o desaparecimento mórbido de Domingos Montagner (que partiu no auge da carreira e em plena felicidade com o papel de Santo) transforma-se numa narrativa de arrepiante interferência do real nas trilhas da ficção. Obviamente, sem propósito nem intenção, Shakespeare é agora o autor que assoma numa tragédia nordestinamente brasileira, ancorada às margens do São Francisco, rio fundador de nossa brasilidade (como afirmava o escritor Machado de Assis). Pois é completamente inimaginável deparar-nos com a morte de um personagem principal em pleno período de gravações. Nem a ficção ousou imaginar semelhante despautério.

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Desde a infância, o aprendizado nos confidenciou um mistério que nos aliviava diante da ficção, fosse qual fosse: aprendemos (e como era reconfortante saber disso) que “personagem principal não morre”. E agora choramos a partida daquele que chamaremos eternamente de SANTO. Partida, morte ? Mas Santo é personagem principal, e principal não morre. SANTO é Anjo, no céu ou na terra. Como pode ? Sumiu no mundo sem nos avisar…

O SANTO de Domingos era a Fortaleza da família dos Anjos, o Pai amoroso e dedicado, o filho honrado, o homem do povo – honesto, justo, trabalhador – amado e admirado por seus pares. O SANTO que Benedito e Bruno Luperi entregaram a Domingos Montagner era pra ser um herói quase mitológico, com a força imbatível dos justos, a grandeza dos puros de alma, o fascínio indormido dos grandes heróis, a bravura indomável do rio São Francisco.

Sem o saber nem jamais imaginarem, Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Luperi legaram a Domingos Montagner um epíteto sacrossanto que só pode ter sido bendita e espiritualizada inspiração shakesperiana – e que emocionante que assim tenha sido.

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Domingos SANTO Montagner dos ANJOS é uma espécie de herói mítico que une frações de personagens de Shakespeare, de Brecht, de Ibsen e de tantos clássicos da Dramaturgia Universal. Na versão tropicalista de Velho Chico, podemos dizer que SANTO seria (livremente inspirado em Péricles, o Príncipe de Tiro) nosso Príncipe Popular de Grotas.

Afinal, “Há mais coisas entre no céu e a terra do que possa sonhar nossa vã filosofia”.

Cultura Popular e Cotidiano em novos livros de Euclides Moreira Neto

Euclides capa

O professor e pesquisador maranhense Euclides Moreira Neto (Mestre em Comunicação Social) está em São Luís recolhendo dados para sua tese de doutoramento em Estudos Culturais pela Universidade de Aveiro, em Portugal. Nos intervalos de sua investigação doutoral, Euclides, um notório apaixonado pela cultura popular, escreveu os livros “O vai querer dos Blocos Tradicionais”, “Ajuntamento de Memórias” e “Provocações do Cotidiano”, os quais estão em fase de revisão. Os livros deverão ser publicados pela editora da Universidade Federal do Maranhão (EDUFMA) em breve.

Vai Querer

Em O vai querer dos Blocos Tradicionais, Euclides revisita a história que gerou o Inventário dos Blocos Tradicionais do Maranhão (BTM), relatando as etapas que o antecederam e mostrando como a comunidade ludovicense se envolveu com a pesquisa que inventariou aquela manifestação cultural na gestão do ex-Prefeito João Castelo (2009 a 2012). No livro, o autor conclama gestores e apreciadores dos BTMs a retomar a proposta de transformar essa manifestação em Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil junto ao IPHAN, e demonstra como é importante desarquivar o processo que inventariou a manifestação.

No livro sobre os BTMs, Euclides Moreira faz merecida homenagem à produtora cultural Maria Michol Pinho de Carvalho, que coordenou o trabalho de pesquisa do INRC e faleceu em novembro de 2012. São quase trezentas páginas de texto e fotografias rememorando as várias etapas desenvolvidas para se chegar ao INRC dos Blocos Tradicionais. Em 2012, quando a documentação foi entregue ao IPHAN/Ministério da Cultura, São Luís contava 49 grupos de BTMs. Atualmente, são pouco mais de 30 grupos, daí a importância de manter viva a proposta de salvaguarda desta manifestação cultural, reafirma Euclides.

Ajuntamento capa

Outro livro a ser lançado por Euclides Moreira – Ajuntamento de Memórias – refere-se a uma longa e providencial entrevista realizada com a saudosa produtora cultural Zelinda de Castro e Lima, na qual ela relembra como eram praticadas as manifestações culturais da cidade de São Luís a partir da década de 1930, do século passado. Dona Zelinda, como é chamada pelos integrantes do meio cultural ludovicense, é uma personagem mais que legitimada com intensa atuação na área cultural local tendo sido gestora de vários equipamentos públicos ligados à cadeia produtiva da área da cultura e do turismo.

Nessa obra, Euclides Moreira Neto incluiu (além da entrevista propriamente dita) um capítulo intitulado “Considerações  sobre  Memorizar”,  quando  reflete  sobre  o  ato  de violar memória oral, como pensou José Carlos Sebe Bom Meihy (1996; 2007)  nas  obras  “Manual  de  História  Oral”  e “História oral: como fazer, como pensar”, além de um item que ele denominou de “Decupagem de Memórias” para reafirmar os conceitos emitidos pela entrevistada, com a sua ótica de entendimento, objetivando fixar esses conceitos e afirmações, produtos da memória oral de dona Zelinda Lima.

Coube a Euclides ouvir, testemunhar, gravar, transcrever, corrigir e tornar  público – por  meio do  livro Ajuntamento  de Memória (alusão a uma expressão utilizada pela entrevistada quando respondeu a uma pergunta por ele realizada referente à definição do que seria bloco) – o legado de Dona Zelinda. Ao responder objetivamente sobre o que era bloco, disse: “Bloco é o ajuntamento de pessoas…”, o que iluminou o autor para chegar ao título do livro.

PROVOCAÇÕES DO COTIDIANO

Prov capa

O terceiro livro que Euclides Moreira vai lançar reúne 20 crônicas e artigos do autor referente a vários assuntos palpitantes na cidade de São Luís, no Maranhão, no país e em Portugal. A obra é uma coletânea de crônicas, artigos e relatos de fatos elaborados jornalisticamente a partir das vivências culturais do autor, testemunhadas por ele e fruto de investigações científicas desenvolvidas durante seu desempenho no Programa Doutoral em Estudos Culturais na Universidade de Aveiro (UA), Portugal. Seu conteúdo reúne visões críticas do autor enquanto investigador cultural, atuante no Maranhão e em Portugal.

Euclides Barbosa Moreira Neto nasceu em 13 de abril de 1957, na cidade de Cururupu-MA. Cursa doutoramento no Programa Doutoral em “Estudos Culturais” na Universidade de Aveiro (PT) desde 2014 (com previsão de conclusão no ano de 2017), sendo seu objeto de investigação os “Blocos Tradicionais do Maranhão”, manifestação cultural do ciclo carnavalesco. Sua formação educacional e acadêmica ocorreu em instituições de ensino público. Atualmente, Euclides é Professor Universitário, lotado no Curso de Comunicação Social do Centro de Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, ministrando as disciplinas “Jornalismo Cultural”, “Jornalismo de Revista” e “Laboratório de Telejornalismo”.

Ao longo de sua carreira como docente, Euclides esteve sempre envolvido com a área de extensão e cultura, desenvolvendo atividades em todas as áreas de expressões artísticas, principalmente na área audiovisual. A nível administrativo na UFMA,  coordenou o Núcleo de Atividades Visuais do Departamento de Assuntos Culturais da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Estudantis, além de ter sido diretor daquele Departamento (CD4) por 12 anos consecutivos (1996-2008).

Como diretor do Departamento de Assuntos Culturais, Euclides Moreira desenvolveu extensa grade de projetos e atividades artístico-culturais, motivando sempre o envolvimento dos Departamentos Acadêmicos nas ações executadas, objetivando revelar novos talentos e propiciar a participação de alunos e professores nos projetos propostos e/ou desenvolvidos por aquele Departamento. Entre os projetos e ações desenvolvidos sob sua coordenação, até o ano de 2008, na UFMA, destacam-se: 12 edições da Mostra Brasileira de Humor no Maranhão (HUMORMARÁ), 25 das 32 edições do Festival Guarnicê de Cinema, 4 edições da Mostra Guarnicê Itinerante de Cine Vídeo, 13 edições do Festival Brasileiro de Canto Lírico no Maranhão (MARACANTO), 12 das 23 edições do Festival Brasileiro de Poesia no Maranhão (POEMARÁ), 12 edições do Festival Universitário de Reggae – UNIREGGAE, 8 edições da Mostra Brasileira de Miniatura Artística no Maranhão.

 

Euclides Moreira coordenou ainda 12 das 33 edições do Festival Brasileiro de Canto Coral no Maranhão (FEMACO), 11 edições da Mostra Maranhense de Arte Efêmera, 12 edições da Tocata de Bandas e Fanfarras do Maranhão, 12 edições da Cantata Natalina, 12 edições da Exposição Presépio, 6 edições do Salão de Artes Plásticas 31 x 31, 6 edições do Projeto Carcará de Cara Nova, 3 edições do Curta Lençóis: Festival de Cine-Vídeo dos Lençóis Maranhenses, 2 edições do Projeto LUSOBRAS: Festival Luso-Brasileiro de Arte Cultura, 10 edições do Programa Regional de Apoio às Artes Plásticas, 2 edições do Maranhão Vídeo de Bolso – Festival Regional de Vídeo de Bolso no Maranhão, e 9 edições do Encontro de Teatro de São Luís na Periferia.

Quase todos os projetos coordenados por Euclides Moreira eram de abrangência regional e/ou nacional, destacando-se que parte deles era de periodicidade semanal e/ou quinzenal, como foi o Projeto Carcará de Cara Nova, executado toda quinta-feira, às 12h30min, no auditório central da UFMA; o Projeto Quarta Cultural, executado toda quarta, às 19 horas, no Espaço Reinaldo Faray do Palacete Gentil Braga; Projeto Sexta Poética, executado toda sexta, às 19 horas, no Espaço Reinaldo Faray do Palacete Gentil Braga; e o Programa Regional de Apoio às Artes Plásticas, que promovia, a cada 15 dias, exposições de artes plásticas na Galeria Antônio Almeida e na Sala Maia Ramos, ambas no Palacete Gentil Braga.

Euclides e noix MA 2008

Teca Pereira, Aurora Miranda Leão, Fafy Siqueira e Euclides Moreira Neto na edição 2008 do Festival Guarnicê, em São Luís (MA).

Dos projetos de abrangência nacional, destacam-se: Festival Guarnicê de Cinema; Festival Brasileiro de Canto Coral no Maranhão (FEMACO); Festival Brasileiro de Canto Lírico no Maranhão (MARACANTO); Festival Brasileiro de Poesia no Maranhão (POEMARÁ); Festival Universitário de Reggae (UNIREGGAE); Mostra Brasileira de Humor no Maranhão (HUMORMARÁ), e Tocata de Bandas e Fanfarras do Maranhão.

A intensa ação desenvolvida por Euclides Moreira na área cultural da capital maranhense o levou a atuar como produtor cultural, ator, crítico de arte e cineasta. Na atividade audiovisual, dirigiu e produziu vários filmes, obtendo diversas premiações em festivais de cinema e vídeo pelo Brasil, destacando-se os filmes “Mutações”, “Colonos Clandestinos”, “Bom Jesus”, “A greve da meia-passagem”, “Alegre Amargor”, “Feições”, “Mamucabo”, “Periquito Sujo”, “Jardins Suspensos” e o vídeo “O lavrador de palavras”.

No quadriênio 2009-2012, Euclides Moreira Neto foi Presidente da Fundação Municipal de Cultura, órgão vinculado à estrutura da Prefeitura de São Luís; em 2012, recebeu do Governo do Estado do Maranhão o título de Comendador, considerando os bons serviços prestados à cultura maranhense. Como integrante da comunidade universitária, Euclides Moreira Neto dedica-se a pesquisar a atuação das manifestações culturais “reggae” e “carnaval”, no meio cultural maranhense.

Euclides e eu 15 ago 15 - Cópia

Aurora Miranda Leão e Euclides Moreira Neto: reencontro feliz em Fortaleza…

O Barrococó Neoclássico de Raimundo Rodriguez e Luiz Fernando Carvalho

A Teresa de Camila Pitanga: presença destacada por uma composição artística que semelha quadro de um grande pintor: obra de Raimundo Rodriguez !      #aplausoblogauroradecinema

Parceria profícua dos dois Artistas de Velho Chico são parte fundamental do êxito da novela do horário nobre !

Luiz Fernando dirigindo as primeiras cenas parece inserido num quadro, cuja estética leva a assinatura de Raimundo Rodriguez…

Você que nos acompanha aqui pelo #blogauroradecinema, ou por nossa presença em redes sociais como Instagram, Flickr, Twitter e Face, já deve saber o quanto somos fãs de Raimundo Rodriguez e de seu singular trabalho criativo.

Rai edit

Raimundo Rodriguez em seu atelier…     foto #auroradecinema

Raimundo Rodriguez trabalha com Arte há muitos anos, e deve vir inventando coisas novas desde o berço. Tão simples quanto criativo, o artista tem a nobre tarefa de responder por todo o visual plástico da novela Velho Chico. Ele foi convidado pelo diretor Luiz Fernando Carvalho logo que este foi ‘convocado’ pela direção artística da TV Globo para ‘aprontar’ em tempo recorde uma nova novela para o horário das 21h – quando ainda estava no ar A Regra do Jogo e a audiência começava a dar sinais de combustível na reserva.

E Luiz Fernando (que tem uma bela e vasta parceria com Raimundo) logo chamou o companheiro de tantos trabalhos belos e ousados. E os dois começaram a elaborar mentalmente como seria o visual da nova novela de Benedito Ruy Barbosa. Seria a estreia da dupla no horário nobre. Antes eles fizeram as minisséries “A Pedra do Reino”, “Hoje é Dia de Maria”,“Capitu” e “Alexandre e Outras Heróis”. E, com bastante destaque, a belíssima e inesquecível #MeuPedacinhodeChao, outra novela de Benedito Ruy Barbosa, exibida em 2014 no horário das 18h.

Teto sala

O teto da sala de Milagres em Velho Chico: obra de Raimundo Rodriguez…

“Com Velho Chico, estou voltando para minhas origens. Por ser cearense, a religião sempre esteve em minha vida e me influenciou demais. Ainda mais a religiosidade do sertão”, diz um artista cheio de talento e criatividade, completamente mergulhado no trabalho e contente com os elogios que suas criações vem recebendo em toda parte.

Não é pra menos: o que Raimundo Rodriguez cria – em geral de material reciclado: o artista não gosta de ver nada sendo descartado, logo imagina como transformar aquilo num objeto de arte – é impressionante !

oratórios

Os oratórios e santos definem o poderoso conceito estético de Barrococó Neoclássico

Para atestar o que dizemos, basta ver Velho Chico, ou qualquer dos outros trabalhos assinados por Luiz Fernando Carvalho em que os dois são parceiros, ou acompanhar os trabalhos de RR pelas redes sociais e em muitas galerias cariocas, como a Sérgio Gonçalves (que representa o artista) e na galeria do Café Baroni (da qual Raimundo é curador), no centro do Rio.

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A Sala de Milagres da igreja de Grotas…

O casamento de Afrânio e Leonor: preciosismo nos mínimos detalhes…

Raimundo Rodriguez é o responsável por toda aquela beleza que habita em Grotas do São Francisco, a fictícia cidade onde acontecem as pelejas entre as famílias de Santo e do Coronel Saruê. Quem conhece a obra de Raimundo, logo identifica a ‘presença’ do notável artista, não só nas obras de arte propriamente ditas mas em todo o pensar artístico que emoldura esteticamente as cenas da novela das 21h...

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Detalhe do altar do casamento de Afrânio e Leonor: como é luxuosa a Cultura Popular !

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A barraquinha de Santos em dia de festa na praça de Grotas…

É de Raimundo Rodriguez a arte que inunda as cenas através da religiosidade tão própria do nordeste, impregnada nos artefatos da cultura popular (nas muitas festas que acontecem em Grotas), nos diversos oratórios, altares e santos dos personagens. Assim como aconteceu nos casamentos de Afrânio e Leonor (sua falecida esposa), e de Teresa e Carlos Eduardo, sem esquecer da riqueza visual que assomava na Missa do Vaqueiro (e sobre a qual falamos em post anterior).

Doninha altar

O oratório do quarto de Doninha, a governanta da fazenda dos Saruê…

Raimundo ajeita

Raimundo Rodriguez passa o dia no Projac e cuida pessoalmente de todos os detalhes de sua criação para a novela Velho Chico

Velho Chico explode em beleza e nordeste agradece

Novela chega ao acme emocional com Missa do Vaqueiro…

                        *Aurora Miranda Leão

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Os ‘vaqueiros’: Domingos Montagner e Marcos Palmeira em ótimas atuações !

O nordestino que habita em Luiz Fernando Carvalho (filho de mãe alagoana) encontra no artista e parceiro Raimundo Rodriguez  um esteio fabuloso ! Cearense que é, mesmo tendo deixado a terra natal há muitos anos, Raimundo Rodriguez com seu magnânimo “latifúndio” de preciosidades da cultura popular (que ele transforma em Arte num piscar de olhos), deve ter ficado com o coração tonto de tanto cantar, vexado de alegria com o resultado plástico tão lindo que foi este capítulo da Missa do Vaqueiro e da Pega do Boi.

belmiro

Belmiro dos Anjos (Chico Diaz) quase salta da tela para conferir a Missa em sua homenagem, tal a perfeição da pintura de Raimundo Rodriguez…

O padre Benício organiza a missa para celebrar a data festiva, na qual o grande homenageado é Belmiro dos Anjos, o pai assassinado de Santo e Bento. Então, mesmo os que estavam à toa na vida foram à praça, que se enfeitou de alegria para festejar a nordestinidade, emoldurada com seus chãos sagrados nas bandeiras de todos os estados da região – e quando a câmara tirou o foco do padre (Carlos Vereza com a competência que todos conhecemos e aplaudimos !), a primeira bandeira que se viu foi a bandeira do Ceará de Raimundo ! Que delicadeza grandiosa de Luiz e sua equipe com o parceiro das terras de Alencar !

vaqueiro missa

Uma tradução da Missa do Vaqueiro por Raimundo Rodriguez, também autor da foto…

Com a inconteste capacidade de conseguir que toda a equipe mergulhe sem freios na ideia central do espetáculo, o que se vê através de Velho Chico (desde o início, diga-se de passagem) é um país que ganha relevância e aprofunda raízes através de uma inequívoca brasilidade que a novela expressa e tanto bem faz aos olhos e ao coração.

A partir do reencontro Teresa e Santo – conforme já dissemos aqui em matéria anterior -, a novela inaugurou uma terceira fase. Desde então, tudo está mais aflorado, mais denso e mais emocionante, por isso mais belo.

O capítulo desta segunda, 25 de julho, foi especialmente tocante ! Quem não arrepiou diante da tela é porque nada de brasileiro tem, ou pode ser que tenha ‘coração de gelo’, como dizia um famoso personagem de desenho infantil que minha filha gostava de ver.

Luzia e Santo

Lucy Alves vive a ardilosa Luzia, que trama mil e uma pra ficar com Santo…

O capítulo de sábado acertou com ótimo gancho, deixando antever que na segunda viria um capítulo “importante” (entre aspas, porque em novela boa, todo capítulo é assaz importante). Pois o capítulo desta segunda tinha como temática a Missa do Vaqueiro, tradicional acontecimento do nordeste brasileiro. E o que a equipe da novela construiu, a partir da regência de Luiz Fernando Carvalho, foi um autêntico HINO DE AMOR AO NORDESTE !

Mesmo sendo essa missa já tão mostrada em fotos, filmes, livros, e vista por nós também no interior do Ceará, o que Velho Chico mostrou foi de uma fortaleza tão grande que gritava – entre figurinos, cavalos, uma constelação imensa de figurantes com seu figurino de gibão de couro e tudo o mais – “Este é o Brasil dos brasileiros e para os brasileiros, com a vastidão de sua riqueza cultural, e nem precisamos de muitos cortes, nem vasta tecnologia: mostramos a tessitura de que é feito este país, e porque mostramos com competência e sensibilidade, e destituído de preconceitos, a tela se encharca de poesia e a audiência retribui com um caloroso e silente aplauso,  depois confirmado pelas estatísticas !”

vaqueiros

Antônio Fagundes e Marcelo Serrado: competência em Lá Maior !

Mesmo nós, que do sertão propriamente dito não viemos, sentimos pulsar ali – na escolha dos closes, dos grandes planos, na emoção estampada no olhar de cada ator, no figurino magnífico de Thanara Schönardie (mesclando o ousado e o tradicional), na escolha de cada take, em cada enquadramento, nos diálogos, nos sentimentos latentes, enfim, em todo o desenho estético minuciosamente pensado e realizado com invejável esmero – a inteireza de nossa alma, filigranada em várias camadas sobrepostas (qual labirinto ou filé de toalha de renda), e um fio condutor, a Paixão !

Teresa

Teresa (Camila Pitanga) foi ver de perto a tradicional ‘pega do boi’ onde o amado era figura central…

Fora a telinha caseira de cada um de nós um dispositivo compartilhado numa sala de cinema ou num teatro, e ali estaríamos todos a aplaudir a excelência do capítulo desta segunda, 25 de julho, em que Luiz Fernando Carvalho e sua equipe extrapolaram do direito de ser notáveis !

tensçao

Lucy Alves e Irandhir Santos em momento de tensão de seus personagens…

Encerrar com Santo entregando a corda do boi por ele conquistada na batalha travada na caatinga ao grande amor de sua vida (Teresa), depois de toda a tensão que ronda o personagem vivido com galhardia por Domingos Montagner desde o capítulo anterior, foi um dos mais lindos happy ends de capítulo que já vi !

ANTOLÓGICO !!!

Santo

A Vitória: Teresa é a grande vencedora na ‘pega do Boi’…

SENSACIONALLLLLLLLLL !!!

Como diria Mestre Vinícius, “Sua bênção, oh Luiz Fernando… sua bênção, Benedito… sua bênção, oh Domingos, sua bênção Fagundes, que a gente gosta tanto que até aceita vê-lo fazendo um coronel… sua bênção, Camilinha, menina linda, de sorriso doce, que só dela podia ser a Teresa… sua bênção, oh Mestre Raimundo Rodriguez, que não és um só, és tantos, tantos como o meu Brasil de todos os santos, inclusive meu São Sebastião… Saravá !”

camila ri

O sorriso lindo e meigo que Camila Pitanga empresta à Teresa é trunfo da empatia da atriz com o público…

Velho Chico e a riqueza da criação de Raimundo Rodriguez

                                                 Aurora Miranda Leão*

altar 1                                                                          

Não é preciso muito para se encantar diante da obra de Raimundo Rodriguez. O artista, que assina todo o conteúdo cenográfico da novela Velho Chico, tem um vasto e aplaudido currículo nas artes visuais e há uma década trabalha junto com o diretor Luiz Fernando Carvalho.

Os dois trilham uma harmoniosa parceria na qual sobram talento, dedicação, conhecimento, inventividade e mergulho profunda num repertório de múltiplas inspirações artísticas. É difícil saber onde começa a criação de hoje e por onde envereda a cumplicidade do outro. Porque o casamento artístico de Raimundo Rodriguez (RR) e Luiz Fernando Carvalho (LFC) assoma na copa de muitas hortas, depois de suas raízes beberem em reservatórios de intensa sensibilidade, mergulhando em águas salobras que dá um Velho Chico de beleza e imensidão de referências.

É por isso que quando se olha para uma obra teledramatúrgica com a assinatura de Luiz Carvalho, a sensação primeira é de ENCANTAMENTO !

Como num quebra-cabeças, a sensibilidade vai juntando as peças que, unidas, causam aquele esplendor, e nesse exercício sensorial, você vai chegar, indubitavelmente, ao trabalho precioso de Raimundo Rodriguez !

Vamos falar especificamente de Velho Chico, a novela do horário nobre que ora Raimundo Rodriguez assina junto com Luiz Fernando, maestro de uma laboriosa e notável equipe que faz da obra atual de Benedito Ruy Barbosa um marco da Teledramaturgia Brasileira.

Muito antes de a novela começar, Raimundo Rodriguez, Luiz Fernando e mais uma equipe numerosa, seguiu para os grotões do Nordeste em busca de locações que representassem as entrelinhas e os entremeios da criação de Benedito, Edmara Barbosa e Bruno Luperi. Vasculhando as terras castigadas pelo inclemente sol nordestino, ancoraram entre a Bahia e a Paraíba e aí decidiram ambientar a fictícia Grotas do São Francisco, cidade onde manda e desmanda o Coronel Afrânio de Sá Ribeiro, o terrível Coronel que a Sabedoria Popular em hora propícia cognominou de Saruê (alusão ao mais fedorento gambá de que se tem notícia na região).

Criações artísticas de Raimundo Rodriguez destacam  atuação do elenco…

A dupla Raimundo-Luiz Fernando fez um laboratório de pesquisa amplo, intenso e minucioso, bem registrado por Raimundo em fotos que acompanhamos com muito interesse via Instagram e em outras redes sociais, nas quais o artista está sempre presente com seu olhar acurado e disposição inata para descobrir o inusitado e flagrar o belo. Ali, naquelas primeiras imagens, há o que depois viraram detalhes no vasto território velho chiqueano, através dos quais a emoção mergulha e viaja em referências próprias de uma cultura que nos é familiar e tão corriqueira que, no mais das vezes, a deixamos escapar sem sequer saber traduzi-la.

Raimundo Rodriguez: o dom de transformar o cotidiano em obra de Arte !

É para que esse relicário de miudezas físicas e grandezas emotivas não se perca, nos desvãos do tempo e na insensatez da pressa que deixa o essencial escapar, que é fundamental, relevante e, sobretudo, NECESSÁRIA a existência de um artista como Raimundo Rodriguez !

Mas se fazia mister que esse olhar primoroso de RR encontrasse um outro olhar, tão sensível e poderoso como o seu, para que sua obra majestosa pudesse sair do restrito mercado das galerias e ganhasse outros espaços, uma dimensão que pudesse evidenciar toda essa magnitude que está no cerne de Velho Chico, bem como nas obras A Pedra do Reino, Hoje é Dia de Maria, Capitu, e Meu Pedacinho de Chão (!!!). E esse encontro de olhares aconteceu quando Luiz Fernando Carvalho visitou uma exposição de Raimundo Rodriguez, em 94. E logo veio o convite para que os dois trabalhassem juntos. E foi a televisão, ou mais precisamente, a TELEDRAMATURGIA, que ocupou esse bendito lugar, de tornar visível ao grande público, de ‘desencantar’, de fazer prosperar e reverberar as criações assinadas pelo mestre Raimundo Rodriguez.

Pedacinho 1

A partir de sua obra #latifúndios, Raimundo Rodriguez fez nascer o esplendor da mágica vila onde habitavam os personagens de #meupedacinhodechão…

Bendito seja pois Luiz Fernando Carvalho – e a dramaturgia que ele engrandece com sua notável incursão artística na televisão – ao tornar acessível ao grande público (são mais de 50 milhões de telespectadores envolvidos pelas telenovelas em todo o país) um trabalho importante e belo como o de Raimundo Rodriguez !

altar

Oratório de Eulália e Ernesto Rosa na primeira fase de #velhochico…

Ao evidenciar o trabalho artístico de Raimundo Rodriguez através da teledramaturgia, Luiz Fernando Carvalho não só propiciou que a criação de RR chegasse aos mais distantes e distintos locais do país – o que sem a força da TV jamais seria possível -, como elevou o nível de excelência artística da Televisão Brasileira (notadamente da TV Globo,  única emissora que investe pesada e maciçamente em literatura brasileira e conteúdo nacional). Portanto, ao perceber em Raimundo um futuro parceiro com quem muito poderia produzir, Luiz Fernando marcou um gol triplo (coisa só afeta a grandes gênios): evidenciou a criação de Raimundo Rodriguez, redimensionou seu trabalho (as melhores obras televisivas de LFC são as que tem RR como Artista Plástico), e deu um upgrade na qualidade da Teledramaturgia Brasileira ! E o maior dentre todos os beneficiados é o grande público, no qual nos incluímos, grata.

Julia

Assistir a Velho Chico é embarcar diariamente num rio de caudalosa beleza ! Impossivel assistir à novela que torna ainda mais nobre o horário, e não arrepiar a emoção a partir dos olhos, extasiados de encantamento ! Se você a assiste, deve conosco concordar. Em caso contrário, discorde: as dissidências farão pulsar mais forte os aplausos à novela. E se você não assiste por puro preconceito (nocivo e decadente como todos os outros), saiba que é você o grande perdedor.

Neste caudal de belezas e símbolos fortemente referenciados nos escaninhos de nossa cultura, avulta o que Raimundo Rodriguez e Luiz Fernando Carvalho chamam de estilo ‘barrococó neoclássico contemporâneo’.

Raimundo Rodriguez é o artista que assina toda a riquíssima ambiência cênica de #velhochico…

Raimundo Rodriguez, que tem a simplicidade própria aos verdadeiros sábios, sempre fala com prazer sobre seu trabalho e enaltece a parceria com o diretor: “O Luiz é muito culto e me dá sempre referências”, afirma. “Às vezes, ele fala apenas uma palavra e eu trabalho em cima”. Foi assim com “rica” e “miscigenação”. A primeira definiu o caminho da estética religiosa das peças da matriarca Encarnação (Selma Egrei no melhor papel da carreira). A segunda, o altar de Doninha, a governanta da fazenda dos Sá Ribeiro, interpretada por Bárbara Reis/Suely Bispo: “Ali misturei índios e caboclos com imagens de santos católicos”.

Quando assistimos a Meu Pedacinho de Chão, ficamos completamente tomados por aquele vasto arsenal de beleza que Raimundo e Luiz Fernando criaram para a história de Benedito Ruy Barbosa. Porque se RR cria artesanalmente suas obras nos terrenos das Artes Plásticas, é Luiz Fernando quem está por entre câmaras, fios e microfones como maestro de uma prodigiosa equipe, para a qual contribuem os trabalhos também notáveis de fotógrafos, editores, iluminadores, sonoplastas, direção de arte, caracterização, produção, maquiagem, figurino e atores, e todos esses engrandecem e são engrandecidos pelo trabalho de formiguinha (ágil, indormida, astuta e laboriosa) de RAIMUNDO RODRIGUEZ !

Bento

Irandhir Santos é o aguerrido vereador Bento dos Anjos em #velhochico…

Benza Deus ! E que todos os Santos, sobre os quais Raimundo Rodriguez trabalha com tanto sentimento e afinco, digam AMÉM e proliferem esta saudável e profícua cumplicidade e parceria de Raimundo Rodriguez e Luiz Fernando Carvalho por tantos e fartos anos.

Afinal, como diz a belíssima canção do querido José Miguel Wisnik (emérito compositor e profundo conhecedor de Música e Literatura), sobre letra do saudoso poeta Gregório de Matos]),

“Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,
A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura”.
 

* Aurora Miranda Leão é atriz, jornalista e editora do #blogauroradecinema    

RR

“Firmar-lhe a vida em atadura … dura”…                                                

Tony Ramos e Sônia Braga: os homenageados de Gramado

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Na próxima edição do Festival de Cinema de Gramado, a acontecer de 26 de agosto a 3 de setembro, Tony Ramos receberá o Troféu Cidade  de Gramado, e Sônia Braga o Troféu Oscarito. O filme de abertura será Aquarius, do diretor Kleber Mendonça Filho, representante do Brasil na última edição do Festival de Cannes. Estrelado por Sônia Braga, o filme ganhou prêmio de melhor filme no Festival de Cinema de Sydney.

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Tony Ramos receberá justíssima homenagem em Gramado…

No compasso dos atuais movimentos cinematográficos, o Festival de Cinema de Gramado chega a sua 44ª edição refletindo e acompanhando a pluralidade da atual filmografia brasileira e latina, em franca expansão e consolidando um novo modelo de gestão e realização. Desde as mudanças firmadas na sua edição comemorativa de 40 anos, em 2012, o Festival tem redesenhado sua identidade sem perder os conceitos que lhe consagram como o maior evento ininterrupto do gênero no Brasil.

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Sônia Braga estará na serra gaúcha para receber homenagem do Festival de Gramado…

Observando os nomes que protagonizam o fazer cinematográfico contemporâneo sem deixar de enaltecer quem abriu os caminhos dessa arte para os talentos de hoje, Gramado se remodela e aposta em homenagear nomes de prestígio como Glória Pires, Juan José Campanella, Marília Pêra, Othon Bastos Rodrigo Santoro, Wagner Moura e Walter Carvalho.

Rubens Ewald Filho: a Enciclopédia Ambulante de Cinema !

Com curadoria assinada por Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho, o Festival de Cinema de Gramado também se fortaleceu como palco de importantes estreias: da primeira exibição em território nacional de “360”, filme realizado internacionalmente por Fernando Meirelles, à escolha do celebrado “Que Horas Ela Volta?” por começar sua trajetória no Brasil com exibição inédita na Serra Gaúcha, o festival ainda expandiu sua latinidade: somente em 2015, a mostra estrangeira apresentou filmes de sete países diferentes.

É sublinhando essa atualizada trajetória do Festival que a Gramadotur, autarquia municipal criada com a missão de fazer a gestão dos grandes eventos da cidade, realiza a 44ª edição do mais tradicional festival de cinema do país: “Ao longo de quatro anos à frente do Festival, a Gramadotur já sente amadurecimento na gestão e transparência nos processos do Festival. Isso nos permite pensar em projetos mais ousados e mais calculados a cada edição. Conquistamos a premiação em dinheiro para os vencedores dos Kikitos, por exemplo, uma reivindicação de longa data da classe”, comenta o presidente da Gramadotur João Pedro Till.

Diretor de eventos da autarquia e coordenador geral da 44ª edição, Enzo Arns acredita na realização de um festival responsável do ponto de vista de gestão sem perder a qualidade artística: “Esta é uma edição realizada com o devido planejamento de gestão que, ao mesmo tempo em que amplia o diálogo com as entidades de cinema do Rio Grande do Sul, incrementa parcerias e abre novas janelas para o cinema brasileiro, latino e internacional. Gramado este ano apresenta um festival maduro, atento a seus acertos e preocupado com aperfeiçoamentos. Para esta edição, também nos dedicamos às novas possibilidades do audiovisual, com programações paralelas que colocam Gramado nas pautas sobre os avanços da plataforma on demand e também como polo de encontros que fomentam a ideia do cinema como negócio”, projeta Arns.

Direção artística

Para sua 44ª edição, a Gramadotur agrega ao time da comissão executiva a figura de um diretor artístico.: Edson Erdmann assume a função e, juntamente com a curadoria e Gramadotur, trabalha o conceito criativo da edição, propondo diferenciais estéticos e de conteúdo. “Estamos pensando em um festival mais envolvente e glamouroso. Queremos aproximar cada vez mais Gramado da linguagem dos grandes festivais, sem nunca perder o charme e as características que tanto tornam esse evento especial e único dentro da cinematografia brasileira. Essa edição deve surpreender e encantar, valorizando o público que celebra o evento. Estamos propondo um Festival que vai ultrapassar o Palácio dos Festivais e toma conta da cidade emocionando público e convidados. Um conceito novo, contemporâneo, dinâmico e que vai trazer um movimento diferente ao evento”, afirma Erdmann.

KIKITO, a cobiçada estatueta de Gramado, troféu relevante em qualquer estante

Museu do Festival de Cinema de Gramado

Está agendada para a semana do evento a abertura do Museu do Festival. O empreendimento, esperado ao longo de décadas, visa celebrar a sétima arte sob a luz do Kikito e seus melhores filmes, diretores, atrizes e atores. Grandes momentos da história do evento serrano estarão eternizados no Museu. Instalado ao lado do Palácio dos Festivais e da Igreja São Pedro, o empreendimento conta uma área de 584 m² e vista panorâmica para o centro da cidade. A proposta é um museu interativo com  tecnologia e dinamismo, que, além do acervo, deve oferecer exposições e atrações durante todo o ano. A administração é do grupo Gramado Parks.

O cinema gaúcho em Gramado

O Festival é internacional, mas os holofotes nunca deixam de dar protagonismo ao cinema gaúcho. Neste ano, duas importantes novidades para os realizadores do Estado: o Prêmio Assembleia Legislativa – Mostra Gaúcha de Curtas ganha uma nova sessão – na sexta-feira à tarde, antes da abertura -, ampliando a sua janela de exibição, e incrementa a sua premiação em dinheiro, que agora distribuir R$ 48 mil no total, um aumento de 16% em comparação aos anos anteriores.

O Festival pelos gramadenses – Educavídeo

Iniciativa já definitivamente incorporada à programação oficial do Festival de Cinema de Gramado, a avant première para a comunidade gramadense segue celebrando os alunos da rede municipal que participam do Educavídeo, projeto que dá acesso a diferentes manifestações culturais, como criação, edição e produção com as novas tecnologias, gerando mercado de trabalho e renda com a formação de novos talentos. Os grupos conhecem toda a rotina da realização de um filme e fazem de tudo, desde a pré-produção até a edição das imagens. Em 2016, eles exibem os resultados de seus trabalhos mais recentes na noite do dia 25 de agosto no Palácio dos Festivais.

Luiz Fernando Carvalho mergulha em Shakespeare e Machado e faz elegia de amor ao nordeste

Por AURORA MIRANDA LEÃO*

VC

Audiência responde e novela chega ao capítulo 100 com recorde de audiência

Assistir a Velho Chico tem sido um convite diário ao encantamento !

A primeira imagem que, habitualmente, ganha a tela depois de exibido o título da novela do horário nobre, é um plano geral sobre o rio São Francisco, e não há má vontade nenhuma que não se aperceba dessa maravilha de cenário.

É um episódio relicário que o artista num sonho genial A letra da canção de Martinho da Vila se achega como trilha precisa para a emoção que aflora ao nos reportarmos à novela, escrita por Benedito Ruy Barbosa e seu neto Bruno Luperi, e dirigida com maestria por Luiz Fernando Carvalho (LFC).

Luiz Fernando Carvalho costuma dizer que seu intuito é tornar o invisível visível. Diz que, em geral, parte de um som, de uma cor, de uma música: “Tenho um delírio de associações muito amplas, e boto todos os meus colaboradores nessa energia. É um processo alquímico.” E não é difícil perceber essa forma de mergulho artístico que Luiz Fernando faz: basta reparar em quaisquer das obras assinadas por ele – desde o filme Lavoura Arcaica, baseado na complexa obra do escritor Raduan Nassar, e um divisor de águas na carreira do ator Selton Mello – para entender direitinho que essa alquimia acontece mesmo, como a transformar tudo ao calor da entrega e ao sabor da paixão. Quem viu Hoje é dia de Maria, A Pedra do Reino, ou Meu Pedacinho de Chão há de concordar conosco. Afinal, é como se o olhar de quem assiste fosse convidado, diariamente, para contemplar o belo e, delicadamente, fosse convocado a pensar o cotidiano por outro viés, tomar novos caminhos, buscar atalhos, e daí então fique fácil perceber a multiplicidade de questões que tantas vezes nos são roubadas pela avalanche de informações do dia-a-dia e a pressa habitual do time is money.

FAZENDA

A fazenda do Coronel Afrânio na primeira fase da novela, quando o padre ainda era interpretado pelo saudoso ator Umberto Magnani…

Santoro

Rodrigo Santoro marcou com brilhantismo sua participação na primeira fase…

Em todas essas obras, nota-se claramente que a equipe realizadora – do elenco aos maquiladores – está mergulhada num mesmo caldeirão, envolvida até a alma para que a obra televisual em produção se defina com beleza, magnitude e força aos olhos do telespectador. E assim LFC criou um estilo de direção diante do qual o público se apercebe tocado por uma sensorialidade diferente, capaz de sentir-se convidado a embarcar num outro universo, bem distante de uma fruição rápida, respingada de ofertas consumistas e inserções que em nada acrescentam à teledramaturgia.

Fag menor

Antônio Fagundes é o perverso e todo-poderoso Coronel Afrânio…

Velho Chico estreou em março com a árdua tarefa de recuperar a audiência do horário das 21h. Mesmo diante de uma novela de João Emanuel Carneiro – notabilizado por sua incomparável Avenida Brasil -, o público foi escasseando ao longo de A Regra do Jogo. A par do enorme talento da maioria de seus atores, era duro ver, com frequência, um Cauã Reymond de arma em punho, ou um Tony Ramos desferindo maldades e matando quem em seu caminho ousasse se intrometer. Mesmo sendo ações exigidas aos personagens, eles não deixam de ser Cauã e Tony, fortemente assimilados e amados pelo público.

Aí chega Velho Chico e nos mostra – como no potente capítulo da sexta-feira, 8 de julho – um perverso Coronel Afrânio (Antônio Fagundes) jogar sua arma no chão e declinar da vontade de agredir ao receber das mãos da matriarca da família rival, Piedade (vivida com enorme competência pela atriz paraibana Zezita Mattos) um ramo de flores, explodindo num gesto comovente e altamente simbólico de fraternidade e onipresença do AMOR.

Fag e Mig

Fagundes e Gabriel Leone em momento tenso da trama de #VelhoChico

E ao final da cena, os três personagens masculinos, agora membros da mesma família (vividos por Domingos Montagner, Irandhir Santos e Gabriel Leone) riscarem no chão barrento um triângulo como vórtice da família Dos Anjos, e nele jogarem o ramo de flores, que o vento leva como a inscrever na aridez da terra que a PAZ deve prevalecer.

A potência que tem para o telespectador mais comum dos comuns, ou mesmo entre aqueles que nem assistem à novela mas passam por algum lugar na hora em que a cena é exibida, é incomensurável ! Tem um valor simbólico inestimável em defesa da PAZ, do respeito às diferenças, da necessária convivência dos contrários e do respeito ao próximo.

Se outros méritos não tivesse, só uma cena desse quilate já faz de VELHO CHICO um marco relevante, sério e NECESSÁRIO para a produção teleaudiovisual do país. Aplausos de pé !!!

Cel e vó

Então… chegou um momento em que a audiência de A Regra do Jogo ficou preocupante e a direção da TV Globo acelerou o fim da novela: convocou Benedito, Luiz Fernando e sua trupe para o centro da cena  fim de dar uma guinada nesse panorama. E o intuito foi alcançado. Velho Chico estreou com uma audiência das maiores do horário, trazendo de volta à produção audiovisual brasileira o ator Rodrigo Santoro, que hoje vive na ponte Rio-EUA, e é o ator brasileiro de maior reconhecimento no exterior. Rodrigo, Carol Castro, Rodrigo Lombardi, Chico Diaz e Fabíula Nascimento foram alguns dos atores que participaram da primeira fase da novela, e a segunda estreou cerca de 4 semanas depois (novela estreou em 14 março e segunda fase começou dia 11 de abril).

Nós dissemos que uma terceira fase da novela começou no dia em que os personagens de Teresa e Santo se reencontraram, trinta anos depois do tórrido romance que tiveram na adolescência. E nas cenas emocionantes que, desse reencontro, explode em sensação latente o clássico  Romeu e Julieta.

tereza e santo

Belíssimo figurino de Thanara Schönardie é um reforço ao belo que inunda #VelhoChico…

Como de resto é de amor e paixão que todos estamos a falar – mesmo os que disso parecem fugir -, o reencontro de Teresa e Santo foi qual uma assinatura da obra, como a dizer “Estamos a falar de muitas coisas, mas de todas elas a mais importante é o AMOR”.

A ideia motriz de Velho Chico, fácil perceber, é uma disposição antropofágica, inteligentemente ressignificada por LFC no sentido de estabelecer uma espécie de neo-barroco, lindamente anunciado desde a vinheta de abertura com a música-tema de Caetano (um dos ícones do tropicalismo) sendo ‘ilustrada’ por cores vivas e traços acentuadamente originários dessa matriz cultural.

A justaposição de imagens e conceitos é capaz de provocar  uma multiplicidade de interpretações, desaguando num farto território de amplos signos culturais, focando num manancial de referências profundas e formadoras do povo brasileiro. Assim, o Velho Chico – que estoura em beleza na fotografia da novela, assinada por  Alexandre Fructuoso -, figura como o símbolo decantado por nosso mais célebre escritor, conforme citou LFC em entrevista no dia do lançamento da novela – “Machado de Assis dizia que o São Francisco é o rio da integração nacional. Ele reúne as culturas fundadoras da identidade brasileira”. E é desse VELHO CHICO que tudo o mais deriva, nasce, renasce, volta e se recria. Na vida brasileira, como no rico contexto teledramatúrgico de que falamos.

DIRA

Lee Taylor, Dira Paes e Irandhir Santos: figuras de destaque no cotidiano de Grotas…

Essa inspiração em parâmetros ancestrais se faz notar também, de modo a evidenciar uma estética pensada com amplos mergulhos nas mais variadas fontes, quando se coloca o velho coronel Afrânio num misto de Rei Lear e Hamlet ao defrontar-se com o espelho e pronunciar um discurso existencial sobre como chegou até aquele ponto, que momentos o fizeram tornar-se o que é hoje, figura da qual não pode mais abrir mão mas que não era o que ele próprio idealizara quando jovem; assim como se nota em força e beleza a presença dos cânones shakespearianos quando os personagens de Tereza e Miguel se deparam com a ‘tragédia’ de ter vivido 30 anos debaixo da mentira de uma família que nunca existiu de verdade, ou por outra, nunca foi integralmente de sangue.

Camila Pitanga e Gabriel Leone, mãe e filho, em ótimas atuações…

A forma como LFC se ‘apropria’ de um ícone do valor de um dramaturgo como Shakespeare – cuja morte chegou este ano aos 400 – e o coloca numa obra popular como uma telenovela (que atinge a marca de mais de 50 milhões de telespectadores no país – marca que deixou os americanos que fizeram matéria sobre as olimpíadas no Brasil de queixo caído) é simplesmente revolucionária e genial !

Revolucionária porque coloca Shakespeare no cerne de uma questão que se passa no interiorzão do Brasil, há mais de 400 de sua morte; e genial porque reafirma o valor do bardo e ressignifca sua inconteste importância e atemporalidade. Outrossim, ao atualizar a obra de Shakespeare, evidenciando-a num veículo ainda tão desprezado pela elite intelectual do Brasil como a TV, Luiz Fernando confirma o que tanto diz: que só trabalha com absoluta condição de liberdade e que seu objetivo é sempre procurar o novo e traduzi-lo.

Quando LFC junta Shakespeare (que não tem nada de antigo e sim de PERMANENTE), a Antônio Fagundes (ator de notável envergadura e desde sempre um apaixonado por teatro), Caetano Veloso, Raimundo Rodriguez, Gabriel Leone, Irandhir Santos, Camila Pitanga, rio São Francisco, Machado de Assis, santos tradicionais, e ícones da cultura popular, entre tantos outros, ele está simplesmente elevando o nível da nossa Teledramaturgia, mostrando que é possível fazer (basta ter Talento, bagagem cultural, não ter viseira nas retinas e estar aberto à procura do novo), fazer com galhardia e ainda tornar essa alquimia assimilável pela audiência.

Egrei

Selma Egrei interpreta a ranzinza Dona Encarnação, matriarca do clã Sá Ribeiro…

Gésio Amadeo é Chico Criatura, o popular dono de boteco de Grotas…

Assim, a novela é um banho de beleza, cultura, dramaturgia, música, fotografia ! Enfim, VELHO CHICO é uma inovação que requer um olhar atento, arguto e não pré-concebido de quem pretende entender a complexidade que é fazer telenovela – produto caríssimo, de ampla repercussão social, e sérias implicações mercadológicas -, e fazer com um nível de excelência que o exterior inteiro aplaude, e do qual devemos nos orgulhar !

Quem está à frente e por trás das câmeras são todos profissionais brasileiros (à exceção de um ou outro, como é o caso da atriz francesa Yara Charry, que faz a Sophie), num trabalho hercúleo (os que fazem protagonistas, mal tem tempo de parar em casa), que em termos artísticos e técnicos corresponde mais ou menos a fazer um curta-metragem por dia. E nós, que também lidamos com o cinema, sabemos o quão difícil é realizar um Curta-Metragem, que dirá um por dia, durante 8 meses… benza Deus !

Rai VC

A riqueza dos santuários criados por Raimundo Rodriguez

Nós aplaudimos com louvor ! Sobretudo em se tratando de uma obra com as fartas qualidades que apontamos em Velho Chico. 

E é com inteligência, simplicidade, coerência e inegável paixão, que Luiz Fernando Carvalho resume o trabalho complexo, intenso, sensível e quase artesanal que vem fazendo, à frente de uma equipe super competente, na qual figuram nomes como os de Raimundo Rodriguez (que assina a obra como Artista Plástico, assim como foi em Meu Pedacinho de Chão e tantas outras em parceria com LFC) e o da figurinista Thanara Schönardie):

“Eu coloco todo mundo para trabalhar em torno disso, trazendo experiências, estudiosos, elementos, para fundamentar e contextualizar o que é isso que estou chamando de neobarroco, que neoantropofagia é essa, que engole a própria linguagem da televisão para gerar uma nova televisão, uma televisão em que acredito. Uno todo mundo para produzir esse novo olhar sobre o país”

 

 

 

 

 

 

 

 

Luiz Fernando Carvalho dirigindo Antônio Fagundes… 

Do lado de cá da poltrona, rendemos homenagens a estes profissionais e ousamos afirmar: é como se Velho Chico fosse do país, a partir do nordeste (e toda sua imensa soma de valores – música, atores, folguedos, festas populares), “A sua mais completa tradução… e os novos baianos (artistas nordestinos em papéis de destaque na novela) passeiam na tua garoa, e novos baianos te podem curtir numa boa”

*Aurora Miranda Leão é atriz, jornalista, e editora do #BlogAuroradeCinema