Mirian Tavares e a LITERACIA: a Arte de decifrar as imagens

Mirian lap - Cópia

Mirian Tavares ensina a Literacia Fílmica para melhor compreensão do Cinema…

Qualquer forma de Audiovisual vale a pena ! Todas elas, que vemos hoje proliferarem pelo mundo em ritmo intenso, são filhas do Cinema. A partir dessa premissa, mergulhar no mundo do cinema se faz necessário. Ou melhor: é preciso entender como se processa o modo de criação de linguagem através das imagens.

Porque não se trata apenas de abrir os olhos e ver. Há na visualização das imagens uma multifária capacidade de produzir sentidos. Os resultados a alcançar vão ser inferidos a partir da visão mais ou menos abrangente do espectador, ou da menor ou maior alfabetização de quem acesse seus conteúdos.

Para ‘entender’ cinema, não temos necessidade de um “tradutor” – basta abrir os olhos e se veem as imagens – , como nos ensina Mirian Tavares, e é nesse ponto que começa o nó da questão: achar que o que vemos é a realidade ! Aqui é dado o start para que a LITERACIA se faça uma ferramenta de suma importância e acuidade: a sensação primeira de qualquer pessoa diante do ecrã (tela) é de acreditar que o que está sendo exibido é real. Quer seja em televisão, vídeos, fotos no Instagram, Face ou qualquer outra rede social, acreditamos de pronto que o que se mostra é a realidade. A sensação é de  “se eu vejo é porque existe”.

Acontece que essa operação que poderia parecer um plano-sequência óbvio, não tem nada de simples nem de resultados óbvios: para ser entendida em toda sua complexidade, a expressão imagética via tela requer um acurado conhecimento de diversas operações que constituem o cerne do que se chama Sétima Arte.

O Cinema fascina o olhar e instiga diversas sensações, ao mesmo tempo em que é uma linguagem altamente sofisticada, construída sobre um processo que remonta ainda ao Renascimento, baseado em elaborados processos matemáticos que partem da proporção para representar o mundo. Isto é, o que vemos na tela nada mais é do que uma REPRESENTAÇÃO. O CINEMA  e todas as artes ligadas à IMAGEM são representações. E não a vida real, como a maioria supõe.

“Toda imagem é filha de um recorte, tem uma visão autoral que decide o que quer mostrar e, portanto, define o que será visto. O que vai para a tela é uma escolha de alguém para dizer alguma coisa”, nos ensina Mirian Tavares.

Por conta disso, a LITERACIA então se faz relevante e necessária, cada vez mais, para que possamos entender que, por trás das imagens, há sempre um autor e uma intenção. Ou por outra: se você quer entender o que falam as imagens, ou se pretende decifrar o que uma imagem está a dizer, será preciso que conheça e entenda a LITERACIA FÍLMICA.

Basicamente, Literacia é uma alfabetização que oportuniza o aprendizado da leitura das imagens mas não apenas isso: a LITERACIA é uma ferramenta de aprendizado para ensinar a ver/ler imagens de CINEMA de forma crítica, como nos ensina Mirian Tavares.

Inicialmente, é preciso ter em conta que O OLHO é uma operação altamente sofisticada, ele não é um instrumento neutro: é um dos postos avançados do encontro do cérebro com o mundo, é o mediador entre a realidade e o cérebro. Nesse sentido, a intenção da Literacia é dotar as pessoas da capacidade de ler o mundo de forma mais profunda e mais completa do que simplesmente ver, conforme palavras da profa Mirian Tavares.

Partindo do princípio de que REALIDADE é tudo o que está fora do ecrã, ser um estudante ou seguidor da Literacia significa ter “a capacidade de manuseamento e apreensão crítica das imagens”.

Para que serve mesmo essa coisa chamada LITERACIA ?

Para dotar as pessoas de capacidade para ler o mundo de forma mais profunda e mais completa do que simplesmente ver, como nos explica a professora Mirian Tavares.

Porque na nossa relação com as imagens, além da parte físico/química, intervém ainda nossa capacidade perceptiva, os afetos, o saber, as crenças, a sua relação social, histórica, mas há também constantes trans-históricas e interculturais.

mirian e Bunuel - Cópia

Mirian Tavares e imagens do cinema de Buñuel, cineasta-tema de sua tese de Doutorado

Assim, o ato de ver seria comparar o que vemos com o que sabemos do mundo e, dessa forma, VER torna-se uma tradução de nossa capacidade de contextualizar as imagens e fazer conexões com o mundo. Mais ou menos como disse Ernest Gombrich: a imagem tem por função garantir, reforçar, reafirmar e explicitar a nossa relação com o mundo visual. E diante delas, há duas formas possíveis de investimento psicológico: o Reconhecimento e a Rememoração. Por isso, o Cinema é ponte, promove interligações com o que já trazemos de conhecimento do mundo.

O cinema seria então, como o sentia George Melliés, mágico e fazedor de espetáculos, um meio hipnotizador. Foi isso que o cineasta buscou no Cinema: seu aspecto  mágico, de entorpecimento da alma, de hipnotização dos sentidos. E entramos num estado de sonolência, a partir do qual tudo é possível. Cabe ao realizador a maior ou menor capacidade de instigar e contaminar o público, tornando-o parceiro de sua maneira de conceber o mundo.

Mirian entrevista

Para finalizar, as palavras de Mirian Tavares:

“É preciso termos em conta que dentro do quadro há uma realidade, e fora do quadro existe outra. Ou seja: entender a imagem é fazer uma abstração entre ela e o real. A Literacia nos mostra que só nos hipnotizamos se quisermos. A Literacia serve para nos deixar conscientes o bastante para saber que, só entramos no estado de hipnose, se assim nos deixarmos conduzir.”

Mirian Tavares no reino da LITERACIA 

aula Mirian - Cópia

Mirian Tavares diz que as imagens são um processo de construção…

Há pessoas que tem o dom de encantar. Seja de que forma for: pela delicadeza, pela inteligência, pela simplicidade, por nos contaminarem com seu escopo cultural e nos promoverem imediata adesão, por nos provocarem sintonias, ou por partilharem as mesmas preferências artísticas, ou até por nos trazerem, em sua seiva de conhecimento, laços por demais semelhantes aos que mantemos com nosso pai. Comigo, em relação à professora Mirian Tavares, emérita pesquisadora, Doutora e Mestre da Universidade do Algarve, foi isso que se deu.

Mirian Tavares, além de ser uma profissional que tem profundo conhecimento sobre o Cinema, área de atuação de sua preferência, é uma intelectual de alto gabarito: fala de temas os mais diversos, sempre partindo do cinema ou sendo por ele conduzida, com a segurança notável de quem fala sobre o que ama, e o faz com tanta categoria, que é impossível ouvi-la e não ficar completamente encantado. Com ela e com a Sétima Arte. Como se não bastasse tudo isso, Mirian Tavares ainda carrega consigo uma simplicidade que emoldura com delicada beleza seu potencial de Conhecimento.

Tive a honra de estar na seleta plateia de seu minicurso de Literacia Fílmica na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora. E posso garantir qe de todas as muitas aulas de cinema as quais assisti, as de Mirian foram as mais iluminadoras. Uma imensa alegria e gratidão ter partilhado de momentos tão singulares propiciados pela competência e profunda bagagem cultural da professora Mirian Tavares. Orgulho tê-la como conterrânea. Mirian Tavares Significa !

Nesse sentido, louvamos aqui o curso de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora, que está constantemente realizando eventos, jornadas, cursos, seminários, ou seja, ensejando ações que promovam o gosto pelo ato de estudar, que motivem alunos e comunidade de modo geral, a descobrir novos modos de aprender e de estar sempre em busca de novos caminhos por onde enriquecer nossos repertórios culturais.  O que a FACOM/PPGCom/UFJF oportuniza a seu corpo docente é o gosto pela busca de novas fontes de leitura e aprendizado sobre o Saber, e assim está sempre a promover a abertura de novas janelas ao conhecimento, o que por si só já torna a UFJF uma instituição cheia de méritos, merecedora de aplausos de aprovação e incentivo para seguir na trilha que nos oferta tão generosamente.

Nesse cenário, é preciso ressaltar o trabalho da professora Doutora Gabriela Borges, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFJF, bem como o de todos os seus colegas Mestres Doutores, que cuidam de multiplicar o Conhecimento e instigar novos saberes, repassando o que sabem com desvelo e prestimosidade sempre a postos.

Mirian e eu

Encontro com Mirian Tavares em minicurso na UFJF…

E para terminar, deixamos você, leitor amigo do #blogauroradecinema, com um precioso texto da professora Mirian Tavares:

O Turista acidental

A imagem como ponto de partida para um encontro ou reencontro

Quando a viagem está forçada por trabalho ou necessidade as sensações são diferentes
Quando a viagem está forçada por trabalho ou necessidade as sensações são diferentes
                                                                             * MIRIAN NOGUEIRA TAVARES

O cinema, pródigo criador de imagens, serviu em muitos momentos para suprir, de alguma maneira, ausências. Isto não é um cachimbo. Mas sua imagem pode trazer a boca um certo gosto conhecido, ao olfato um cheiro distante. Como as famosas bolachas de Madeleine que habitaram o imaginário (e os sentidos proustianos), uma imagem (real ou virtual) serve como ponto de partida para um encontro e/ou reencontro com algo que já não está, que nos falta, que foi nosso ou nunca nos pertenceu. Bazin, em seu já mais que célebre texto sobre a Ontologia da Imagem Fotográfica, requeria o carácter de verdade às imagens, realistas em sua origem, cuja função primordial era “salvar o ser pela aparência”[1] – mesmo que discordemos de sua visão do cinema temos que nos render a esta evidencia: “Não se acredita mais na identidade ontológica de modelo e retrato, porém se admite que este nos ajuda a recordar aquele e, portanto, a salvá-lo de uma segunda morte espiritual.” [2] Assim temos que a imagem surge, fundamentalmente, na arte, para salvar a todos da morte certa do esquecimento. Portanto o cinema funciona como o medium perfeito para traçar trajetórias de lembranças, como um álbum de recordações, e mais ainda, para mostrar, a sua maneira, como a nossa relação com o mundo é construída de fragmentos que vão sendo justapostos na tentativa de recriar algo que agora nos falta (ou que sempre nos faltou). Por isso alguns realizadores, em vários momentos de suas cinematografias, traduzem essa maneira especial de estarmos num mundo que não existe por si mesmo, ele é apenas o resultado da nossa invenção. Às vezes a necessidade de reinventarmos o espaço que vivemos torna-se mais premente, como por exemplo, quando estamos longe, deslocados, desterritorializados. Quando somos “turistas acidentais” levados, por vários motivos, a sair daquilo que chamamos lar e chegarmos a um outro lugar que poderá e/ou deverá tornar-se nossa nova casa. Ao contrário dos turistas do costume que viajam em busca da alteridade, esses buscam o mesmo no outro – pedaços reconhecíveis de uma história que ficou para trás.

“Moro no Menino de Deus, do qual Porto Alegre é apenas o que há em volta”. O escritor Caio Fernando Abreu, que escolheu o autoexílio dentro do próprio país, fala da sua cidade, que não é o todo que está em volta, mas seu cantinho, seu bairro, seu microcosmo. E assim resume a nossa relação com a cidade – ela é metonímica. Criamos a nossa própria cartografia, que se compõe de fragmentos que montamos através do traçado do nosso desejo. Saio do bairro se meu desejo está além, mas minha casa, minha cidade é bem mais pequena e circunscrita não só geográfica mas também emocionalmente. Há em todos nós, em maior ou menor grau, uma relação telúrica com o lugar que nos dizem ser o nosso, pátria, terra, casa. Mas somos conduzidos pelo desejo a errar por outras terras, o que nos faz sentir solitários, ou como os personagens de Wenders, eternos errantes. E é por Wenders que quero começar a falar desses turistas acidentais: que deixaram sua cidade natal e partiram. Vou então percorrer três cidades, vistas por 3 cineastas de origens diversas, cujos filmes só podem ser relacionados por mostrarem aqueles que vivem à margem, de uma maneira muito especial, no caso de Wenders, mas que estão “fora de sítio”, deslocados. O cinema, que não pode dizer o indizível, mostra. Revela na sua montagem, na sua essência de fragmentos que são recompostos, a dor que não pode ser sublimada, mas que habita os habitantes, muitas vezes invisíveis dessas cidades, Berlim, Paris e Lisboa, metrópoles que acolhem, mesmo sem querer, sonhos e pessoas que correm atrás deles.

As cidades, com suas particularidades e idiossincrasias, possuem em comum uma voracidade que a tudo devora, uma velocidade que obriga aos que nela vivem, a capacidade de síntese, pois é preciso reconstrui-la quotidianamente a partir de pedaços esparsos, de vazios. A modernidade trouxe consigo um novo conceito de espaço urbano, que aparece, por exemplo, nos ensaios de Baudelaire e de Benjamin. E trouxe também um novo modelo de visão: subjetiva, corpórea, direcionada. Para montar o puzzle que é o espaço urbano, caminhamos orientados por peças fundamentais que destacamos de todo o resto. E todo o resto fica à margem. E é assim que funciona o cinema – concentra o nosso olhar naquilo que realmente interessa à diegese. A nossa visão do mundo é subjetiva e composta de flashbacks: vemos o que nos prende a atenção e aquilo que nos chama a atenção relaciona-se com algo que já vi (vivi). Portanto, a cidade é construída através da montagem que faço com pedaços dela mesma e com outros tantos que já trago dentro de mim. Vivemos numa cidade, que é nossa, onde conhecemos os que passam e cada canto parece ser um velho amigo, só que por alguma razão, seja ela qual for, passamos a errância e acabamos por parar em outras cidades que outrora eram apenas um sonho, um desejo que se torna real deixando assim de ser desejo. E aquela cidade, lá no fundo de nós, que ficou para trás, apodera-se deste novo espaço, e cresce, adquirindo a aura da distância, como as histórias do marinheiro de Benjamin – ela é agora o que já não tenho.

O cinema que mostra os “turistas acidentais” revela o desejo do realizador de desvelar a visão dos que saíram de casa e ainda não sabem bem se aquele lugar que os acolhe será seu novo lar. Assim, Wenders, que é um errante, perde-se na cidade natal (Asas do Desejo), trazendo seres invisíveis que não pertencem a lugar nenhum. Talvez a um céu imaginário. Os anjos de Wenders pousam sobre as coisas e estão ao lado das pessoas mas ninguém os vê. E seu mecanismo de atenção dilui-se e já não ouvem mais nada, só murmúrios indecifráveis e deles filtram apenas a dor. Para participar da cidade, ser parte dela, integrar-se, é preciso estar preparado para a queda. E qual estrangeiros vagueiam pela cidade que agora concreta, torna-se uma estranha, com novos traçados que deverão ser aprendidos, palmilhados e descobertos aos poucos. Vê-se a cidade de baixo e ela não é a mesma – a grande distância entre o sonho e a realidade é mostrado de uma maneira sublime, pensado no sublime como o abismo que nos espreita. O anjo caído de Wenders é uma recorrência no seu cinema, há muitos anjos caídos e sobretudo deslocados e sem destino. Não importa a cidade, podemos ser estrangeiros no lugar mesmo que nos viu nascer. E aí, a cidade que é nossa, deixa de nos pertencer. Torna-se uma estranha cuja cartografia não dominamos e acabamos por nos perder num labirinto interior que se projeta na urbe que nos envolve.

Na obra de Solanas, realizador argentino, somos apresentados a pessoas que partiram porque não podiam ficar (Tangos – O Exílio de Gardel). Paris era o destino sonhado. Mas a visão que eles têm da cidade é uma estação – onde se chega, mas também se parte. Um lugar no meio, entre dois destinos. Um telefone que traz as vozes que ficaram e o desejo de fazer de Paris a Buenos Aires natal. Paris não é o destino turístico dos amantes, sejam eles de qualquer espécie, aqui é um lugar no meio – estão exilados, não podem voltar. Os turistas comuns são também pessoas que chegam e partem, que se relacionam com a cidade de uma maneira impermanente. O que marca profundamente a diferença é que estes, os turistas do costume, percorrem a cidade cartão postal, sem surpresas, sem recantos, sem nostalgia, pois a sua casa está lá, em outro lugar que é o seu ponto de chegada e partida. Mas os outros, de que fala o filme de Solanas, chegaram e não sabem se vão partir, mesmo que não desejem ficar. Não pertencem à cidade e vivem à margem com os olhos voltados para a estação – partir… Não há o gozo do sonho, há a angústia e a nostalgia embalada pelos tangos de Gardel. O realizador faz uma estranha homenagem a uma cidade que acolhe seus personagens que querem e não querem estar ali. Que querem trazer para junto de si a cidade que ficou para trás. Assim vão reconstruindo uma Paris que só existe dentro de cada um deles. O exílio torna-se menos duro quando a memória reinventa o espaço.

O realizador Walter Sales realiza uma viagem à Lisboa no seu filme Terra Estrangeira. Seus personagens escolhem Lisboa como destino para um autoexílio após uma grande desilusão com seu próprio país. Lisboa é estrangeira, mas é também a cidade mãe, centro de um país que partiu para o atlântico e desbravou uma nova-velha terra. É, de alguma maneira, uma terra não estrangeira, uma doce recordação, um déjà-vu. “Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar estas futuras dores dilaceradas”[3] . Mas ao chegar à Lisboa, aqueles que vieram, talvez para ficar, sentem-se como se estivessem “por fora do movimento da vida” e parece que desaprenderam “a linguagem dos outros”. Há um código especial que eles não conhecem. Há uma palavra-passe que não lhes foi fornecida. E a cidade, tão grande, faz com que eles se misturem no mundo dos invisíveis, que passam pelas ruas e ninguém os vê. Ninguém cumprimenta, ninguém conhece. É uma existência que nega a própria existência. É como se o corpo se fundisse com a calçada e as ruas e os carros e a poluição. E os olhos do invisível, não vê a cidade nova que se está à sua frente, mas vê o porto, o atlântico, tão imenso, atravessado na garganta. E o filme mostra: Lisboa fragmentada, marginal, magnífica quando distante, intangível. E os personagens correm para a praia. E um navio ao longe parte, ou chega. Partir e chegar, como diz a canção, são só dois lados de uma mesma viagem. Moro no menino de Deus… Todos moramos no Menino de Deus, de alguma maneira. E o mundo é apenas o que há em volta.

Notas

[1] BAZIN, André. O Cinema. São Paulo, Brasiliense, 1991, p. 19.
[2] Idem, ib. p.20
[3] Trechos retirados do conto “Dama da Noite” de Caio Fernando Abreu.

E quando passarem a limpo, a Teledramaturgia dirá PRESENTE…

 OS DIAS ERAM ASSIM: história revisitada com coragem e qualidade artística                                                                                                                                                                                                                                 *Aurora Miranda Leão

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Tenho ficado um tanto macambúzia a cada vez em que termina um capítulo desta nova minissérie da TV Globo, obra que a emissora decidiu categorizar como supersérie – porque menor que uma novela tradicional e maior que o formato consagrado das minisséries –, o que facilitará também a venda para o mercado internacional. Mas Os dias eram assim é uma Supersérie não só por isso: a construção narrativa de Os Dias faz de sua teledramaturgia uma obra com todas as qualidades para demarcá-la como um divisor de águas.

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A história começa no dia da vitória da seleção brasileira na Copa de 1970. E segue a partir daí num enredo que tem a política como ponto central, do qual partem todas as ações e referências. A política está na escolha das músicas, na direção de arte, nos espaços cênicos, no foco diegético, enfim.

Cada um observa a obra pelo viés que melhor lhe apraz, mas não vale dizer que Os dias eram assim é apenas mais uma história de amor e que, por causa dela, a questão política aparece apenas como pano de fundo.

Dizer isso é faltar com a verdade. Uma obra que tem a abertura com imagens em preto e branco reportando ao período nefasto que tomou conta do Brasil nos anos 60 -70 – 80, embalada pela canção Aos nossos filhos, de Ivan Lins e Victor Martins, por mais que se queira, jamais poderá deixar de ser política, desde sua gênese.

Arrepio toda vez que escuto a canção: Aos nossos filhos semelha uma ode. É quase um estribilho (cantado na abertura pelos próprios atores, mas a música ganhou o país quando de seu lançamento com a gravação emblemática de Elis Regina), um emocionado/emocionante pedido de ‘perdão’ às gerações que se seguiram após às que viveram/sobreviveram ao período da ditadura no país. Escutar “Perdoem a falta de ar… os dias eram assim” é como um estilete penetrando fundo na alma. Precisa não conhecer nada de história para não se sensibilizar com  o que a supersérie mostra todas as noites na tela da TV (excetuando a quarta, para tristeza nossa), e de forma absolutamente bem realizada.

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A maestria com que a direção cuida de cada cena – os enquadramentos, os movimentos de câmara, a fotografia, a condução do elenco, a escolha das músicas -, a interpretação dos atores (todos numa entrega notória e necessária para dar veracidade às cenas), a caracterização e a reconstituição de época (direção de arte esmerada), a qualidade da produção, e a primorosa edição fazem de Os dias eram assim a teleficção mais relevante exibida pela TV Globo este ano, até então.

Acompanhar a supersérie, sabendo que o enredo foca nos anos 70-80, é visitar aquele tempo sombrio um pouco a cada noite. Não é agradável ver o que vemos, mas é necessário, importante, corajoso e iluminador.  Cada cena é apresentada com inegável rigor estético e dramatúrgico, perpassada com muita coerência e com implícito vigor moral e psicológico. O país vivia uma convulsão sócio-política que deixou profundas marcas em sua história, e a supersérie apresenta tudo isso num painel pungente que inaugura uma página nova, e altamente expressiva, na teledramaturgia.

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Cláudia Abreu e Betty Lago em cena de Anos Rebeldes

Gilberto Braga e Sérgio Marques foram os pioneiros na teledramaturgia ao mostrar os abomináveis anos de chumbo em sua linda e inesquecível Anos Rebeldes, de quem Os dias eram assim claramente descende. Nesta como naquela, a qualidade estética e dramatúrgica são inegáveis e dignas dos maiores aplausos. 

O que hoje Os dias eram assim traz de novo e de suma relevância é a abordagem por um viés inaugural. Motivado decerto pelo galope indomável do tempo, este “senhor dos enganos” de que nos fala a canção de Herbert Vianna, o enfoque que conduz a supersérie é fruto da contemporaneidade veloz e tecnologicamente conectada que liga o mundo em redes, das quais seus criadores, em saudável sintonia, não esqueceram na hora de retomar a questão. Em Anos Rebeldes, a notável criação do querido Gilberto Braga (!), a abordagem foi pioneira também. E tão meritória que até hoje é alvo de estudos e pesquisas no país e além fronteiras. Os dois marcos que as minisséries simbolizam enriquecem nossa Teledramaturgia.

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Gilberto Braga quando do lançamento do livro sobre Anos Rebeldes em 2001

Os dias eram assim acrescenta uma nova perspectiva para a memória teleaudiovisual do país naquele período, não abordada até então.  Mostrar que os padrões do empresariado e da classe dominante do país eram avessos à liberdade e à justiça social, ou seja, estavam contaminados pelos mesmos valores sórdidos, abjetos, deploráveis e desumanos que motivaram parte dos militares a promover o cerceamento de todas as liberdades no país, é novo, forte, corajoso, relevante.

Isso é o que mais avulta em Os Dias Eram Assim !

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Antônio Calloni em atuação digna de todos os prêmios: Colossal !

Quando você assiste a um painel televisual com a intensidade e a qualidade – histórica, imagética, dramatúrgica – de Os dias eram assim, e de repente ouve músicas como Deus lhe pague (Chico Buarque), Pra não dizer que não falei de flores (Geraldo Vandré), e Cálice (Chico Buarque e Milton Nascimento), a emoção lhe toma de assalto. Mais ou menos como diria nosso saudoso amigo e emérito cronista Artur da Távola:

“Quando a razão volta, o coração já se derramou”.

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Portanto, desliguem o botão do preconceito e assistam à obra com coragem de se emocionar e revisitar um passado nem tão distante assim. Sugiram a filhos, netos, sobrinhos, pais, mães, tios, primos, amigos, alunos e vizinhos que assistam à supersérie. A hora não é mais problema na grade televisiva: quem não pode ver no horário marcado, assiste quando couber na agenda ! Basta ligar no Globo Play ! Ainda por cima, é de graça.

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*Já elogiamos aqui a interpretação magistral de Antônio Calloni, o esteio visceral de Os dias eram assim. Mas nossos aplausos estendem-se a todos, em especial para Gabriel Leone, Sophie Charlotte, Cássia Kiss, Daniel de Oliveira, Renato Goes e todos os demais, incluindo a prodigiosa equipe técnica, que participa de um marco da nossa Teledramaturgia.

Voltaremos ao tema.

* Confira a letra de AOS NOSSOS FILHOS 

Perdoem a cara amarrada

Perdoem a falta de abraço

Perdoem a falta de espaço

Os dias eram assim

 

Perdoem por tantos perigos

Perdoem a falta de abrigo

Perdoem a falta de amigos

Os dias eram assim

 

Perdoem a falta de folhas

Perdoem a falta de ar

Perdoem a falta de escolha

Os dias eram assim

 

E quando passarem a limpo

E quando cortarem os laços

E quando soltarem os cintos

Façam a festa por mim

 

E quando largarem a mágoa

E quando lavarem a alma

E quando lavarem a água

Lavem os olhos por mim

 

Quando brotarem as flores

Quando crescerem as matas

Quando colherem os frutos

Digam o gosto pra mim 

Perdoem a falta de ar…. Precisa dizer mais ?

Cinema é Fundamental: saiba mais com a Literacia Fílmica

 Literacia

A professora Mirian Tavares, titular da Universidade do Algarve (UAlg) é a convidada especial semana da Universidade Federal de de Juiz de Fora. A eminente mestre irá participar de dois valiosos momentos no campus da tradicional universidade mineira: Mirian fará palestra no projeto Pão de Queijo e vai ministrar minicurso de LITERACIA FILMICA.

O Pão de Queijo será às 17: 30h da próxima quarta, com entrada aberta ao público, enquanto o minicurso em Literacia Fílmica será realizado de terça a quinta, das 10h às 12h, no prédio da FACOM.

Mas o que é mesmo essa nova modalidade de apreensão das imagens, a LITERACIA FILMICA ?

Esse conceito parte da ideia de que as imagens nos dizem muito mais do que está em sua aparência. Por isso, torna-se fundamental que, antes de tudo, saibamos “ler” as imagens para que elas possam dialogar conosco: “Para lê-las, temos que treinar o olhar e perceber que toda e qualquer imagem é uma construção sócio-econômico-cultural, que não são nem neutras nem ingênuas. A partir disso, é possível contextualizá-las e decodificar o seu funcionamento, “importante, sobretudo, porque o cinema é também o modelo que diversos outros meios utilizam para criar imagens”, arremata a professora convidada da UFJF.

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Mirian Tavares, pesquisadora da UAlg, enriquece semana de estudos na Faculdade de Comunicação da UFJF. (Foto: Daniel Pina – Universidade de Algarve)

MIRIAN TAVARES vai explorar o conceito de literacia fílmica partindo da ideia de cinema como arquivo, responsável por parte significativa da memória ocidental: “Por um lado, ele é responsável pela criação dessa memória, com suas imagens que eternizam e difundem e, por outro, age como um repositório de gestos e modos que, de outra forma, poderiam se perder”, aponta.

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A Mulher do Lado, filme de François Truiffaut, é uma das obras estudadas pela professora Mirian Tavares…

Mirian Tavares ressalta a importância de, antes de tudo, sabermos “ler” as imagens para que elas possam dialogar conosco: “Para lê-las, temos que treinar o olhar e perceber que toda e qualquer imagem é uma construção sócio-econômico-cultural, que não são nem neutras nem ingênuas.” A partir disso, é possível contextualizá-las e decodificar o seu funcionamento, “importante, sobretudo, porque o cinema é também o modelo que diversos outros meios utilizam para criar imagens”, completa.

O objetivo principal do curso de LITERACIA FÍLMICA é promover uma autêntica alfabetização, não só do cinema, mas do mundo das imagens em geral: “Cada tela que nos cerca traz um universo que absorvemos, muitas vezes, sem nos darmos conta do que, de fato, estamos vendo”, explica. “Para alunos da área da comunicação, é fundamental ter esta formação, bem como para alunos de outras áreas, como as artes, por exemplo.”

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O minicurso com MIRIAN TAVARES vai  trabalhar o assunto por meio da exibição de filmes e excertos, de quadros, publicidade e da discussão de conceitos fundamentais para  apreensão do cinema:. “Com esse material, pretendo desenvolver uma metodologia que permita aos alunos um espaço de intervenção e de reflexão”, diz.

Segundo a professora Gabriela Borges, coordenadora do Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCom) e responsável pela iniciativa, o curso vem em um momento importante para desenvolver o campo de estudos em literacia na Universidade. “É muito relevante para os nossos alunos ter a possibilidade de acompanhar o trabalho de alguém que estuda cinema há muitos anos e pode apresentar uma perspectiva europeia sobre o assunto”, esclarece. “O trabalho da Mirian Tavares também dialoga com diversas pesquisas desenvolvidas no PPGCom, o que permite a troca de experiências com o grupo”.

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Além do minicurso, a professora MIRIAN TAVARES atuará como consultora do projeto de doutorado a ser apresentado para a Capes e participará do Pãodequeijo.com, evento bimestralmente promovido pela Pós-graduação de Comunicação da UFJF. Na edição desta quarta, 17 de maio, o tema será Estética e Política, e o início do encontro está grifado para às 17h30, na sala de pesquisa do PPGCom.

Quem é MIRIAN TAVARES

Mirian Tavares é cearense, mestre em Comunicação, Semiótica e Estudos Culturais, com doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas na Universidade Federal da Bahia (UFBA). A professora é também coordenadora do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC), diretora do Doutoramento em Comunicação, Cultura e Artes da Universidade do Algarve (PT) e subdiretora do Doutoramento em Média-Arte Digital da Universidade Aberta e da Universidade do Algarve.

Com grande conhecimento em cinema africano de língua portuguesa (objeto de seus estudos e investigações), a pesquisadora Mirian Tavares é responsável pela criação de vários cursos de Licenciaturas, Pós-Graduações, Mestrados e Doutoramentos na área de Artes, Literatura e Cinema, integrando também várias associações profissionais / científicas, como a Socine (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual); a SOPCOM (Sociedade Portuguesa de Ciências da Comunicação); o NUCA (Núcleo de Comunicação e Arte, onde é também investigadora); e o GIIACT (Grupo Internacional de Investigación de Análisis Cinematográfico y Televisivo).

Parceria
A parceria da Universidade de Algarve (UALG) com a UFJF já tem história. Além de um protocolo de cooperação entre as duas instituições, que permite o doutoramento nas mesmas condições de alunos nacionais, a colaboração tem gerado trabalhos em conjunto, visitas e co-orientações de projetos. “No momento, temos dois professores da UFJF fazendo o doutorado em Algarve”, diz Mirian Tavares. “Por outro lado, a professora Gabriela Borges colabora conosco lecionando um módulo do Doutoramento em Media-Arte Digital, bem como participa de diversos projetos que desenvolvemos no campo da Literacia dos media”.

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Gabriela Borges, pesquisadora e profa Doutora da UFJF, é colaboradora do Doutoramento de Algarve com o módulo Media-Arte Digital. (Foto: Alexandre Dornelas)

Um dos projetos que conta com o envolvimento da professora GABRIELA BORGES (UFJF) é o Centro de Investigação em Artes e Comunicação (Ciac). Coordenado por Mirian Tavares, o Centro desenvolve pesquisas no campo das artes, cultura e mídia, tanto na parte teórica quanto prática. O grupo participa de diversos projetos europeus liderados pelo British Film Institute sobre a literacia dos media, especificamente sobre a fílmica.

Mirian Tavares também afirma que o sucesso da colaboração provocou novas ideias: “Estamos preparando um projeto com outras instituições no campo da literacia para desenvolver uma rede de investigação que produza congressos, encontros e materiais de divulgação científica nesta área”, arremata a professora da UALg.

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MIRIAN TAVARES: “O Cinema assume um papel absolutamente inquestionável em qualquer sociedade que se denomine sociedade do conhecimento e da informação”.

UFJF põe Mídia e Literatura em pauta

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A Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora realizou com êxito sua I Jornada de Mídia e Literatura, encerrada ontem, 9 de maio.

Durante dois dias, estudantes de pós e de graduação, professores de várias disciplinas e profissionais ligados às áreas de Letras e Comunicação estiveram em palestras e grupos de trabalho discutindo assuntos pertinentes ao momento atual de intensa ebulição nos processos comunicacionais, priorizando temas a partir do enfoque Narrativas em tempos de convergência.

Navegação fluvial: do rio Pomba ao Tietê passando pelo Paraibuna foi o título da palestra de abertura da Jornada, a cargo do jornalista e escritor Luiz Ruffato, que lotou o auditório da FACOM. Sem esconder que sofre de profunda timidez, o escritor mineiro de Cataguases, fez uma palestra onde informalidade, inteligência, interatividade e espontaneidade convergiram em belas palavras e francas sintonias.

“Estudar narrativas hoje é essencial para conhecermos a sociedade”, disse Ruffato logo no início de sua fala. O escritor  declarou ter compulsão por  reescrever seus livros, e conta que o mais recente trabalho – Inferno Provisório – é um relançamento: “A reescrita que fiz do Inferno Provisório foi uma tentativa de melhorar a partir do que percebi de retorno do leitor”.

Após a conferência de abertura, Luiz Ruffato conversou com o público em mesa que contou com os pesquisadores de sua obra, Rodrigo Cerqueira, doutor pela Faculdade de Letras da UFJF, e Michele Pereira, mestranda do PPGCOM/UFJ. O público fez diversas perguntas e Ruffato respondeu a todos com galhardia. Muito espontâneo, o escritor contou passagens de sua vida, da abordagem de leitores nas redes sociais e mesmo em encontros ao acaso, e disse que sempre o procuram para comentar as crônicas do jornal.

Com relação a questões polêmicas como imigração, Ruffato é taxativo: “No Brasil, somos todos imigrantes. É ridículo falar em xenofobia aqui: só uma pessoa muito burra pode ter esse sentimento no Brasil”, disse o escritor, afirmando que “se houvesse um movimento para tirar imigrantes do país, os primeiros a sair tínhamos que ser todos nós que chegamos tomando o lugar dos índios”.

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Luiz Ruffato e a importância do estudo de Narrativas…

Cronista com publicações semanais no jornal El País, Luiz Ruffato angariou aplausos e reafirmou sua imensa capacidade de sintonia com o leitor: “Meu objetivo é propor uma reflexão política, sendo que nas crônicas está minha opinião pessoal, Nos livros, é o leitor que tem de construir. Numa versão eu sou o cidadão, na outra eu sou o cara que promove a reflexão.”  E com seu jeito bem peculiar de escamotear a timidez, não deixou de ser bem sincero: “Queria encontrar alguém que me conhecesse pela leitura de meus livros…”, ao que se seguiram muitos risos. Afinal, Ruffato é autor de diversas obras, todas com amplo número de vendas no país – algumas já levadas ao teatro e ao cinema (como o premiado filme Redemoinho) -, e bela carreira (inclusive com muitos prêmios) no exterior.

Em seguida à palestra, Luiz Ruffato autografou Inferno Provisório, cujos exemplares, antes mesmo do final de sua fala, já estavam esgotados. O livro é uma edição da Companhia das Letras, e reúne, num único tomo, os cinco volumes do projeto que recria literariamente a história do proletariado brasileiro dos anos 1950 ao início do século XXI.

À tarde, os encontros começaram com apresentações do GT Narrativas Migratórias: Crônicas e Depoimentos Memorialísticos com mediação da professora Doutora Cláudia Thomé. Em seguida, o tema foi Narrativa Jornalística: novas funções e competências com mediação do professor Doutor Marco Aurélio Reis (Unesa- RJ).

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Dia seguinte, a manhã foi aberta com palestra da professora Fabiana Piccinin (Unisc) sobre Narrativas Audiovisuais e a circulação: o real construído pela mídia e pela audiência. Em seguida, a professora Cláudia Thomé enfocou a temática Deslizamento da crônica nos meios de comunicação, seguindo-se apresentações do GT sobre narrativas audiovisuais. Programas como o Globo News em Pauta e Jornal das Dez, ambos da Globo News, e Cidade Alerta, da Record, estão entre os programas jornalísticos tematizados por novas pesquisas de alunos da UFJF.

Na tarde da terça, os assuntos em pauta foram Narrativas do pós-guerra na Itália e a paratopia de Alberto Savínio, a cargo da professora Doutora Sônia Cristina Reis (Letras, UFRJ), seguindo-se palestra sobre Imprensa de Imigração e literatura italiana no Rio de Janeiro oitocentista, tendo como palestrante a professora Doutora Gisele Batista (Letras, UFRJ). E encerrando a jornada, foi a vez do GT Narrativas do pós-guerra na Itália, com mediação da professora Dra. Sônia Cristina Reis.

Outra palestra muito interessante foi a da professora Cláudia Thomé, coordenadora da Jornada, que falou sobre sua pesquisa de pós-doutorado, cujo foco é a crônica e sua trajetória no jornalismo. A atual pesquisa de Cláudia Thomé vem na sequência da publicação de seu livro Literatura de Ouvido, que é a concretização de sua tese de Doutorado, na qual o foco foram as crônicas da escritora Dinah Silveira de Queiroz para o rádio. Para realizar a pesquisa, Cláudia Thomé esteve vários dias em Fortaleza (cidade onde Dinah morou alguns anos pois foi casada com o embaixador cearense Dário de Castro Alves). Foi na capital do Ceará que Cláudia Thomé conseguiu ter acesso às crônicas escritas pela escritora de ‘Floradas na Serra’(1939), romance que tem por tema a vida dos tuberculosos em Campos do Jordão (a obra recebeu o Prêmio da Academia Paulista de Letras), e que chegou ao cinema em filme protagonizado por Cacilda Becker e Jardel Filho.

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Sobre a obra, publicada pela editora Appris (Curitiba, 2015), diz o professor Fred Góes: “Literatura de Ouvido é um livro que vai interessar não somente aos leitores das áreas das letras e das comunicações. É para o grande público. Ao trazer as crônicas de Dinah Silveira de Queiroz escritas para o rádio, amplia os estudos sobre essa forma literária tão brasileira, com fisionomia tão própria e plural, escrita pela grande maioria dos nossos escritores (prosadores, poetas e dramaturgos), como também abre uma nova perspectiva para a reflexão sobre a produção do rádio no Brasi”.

A I Jornada de Mídia e Literatura da UFJF foi organizada pelo grupo de pesquisa Mídia e Literatura CNPq/UFJF, vinculado ao PPGCOM, e cadastrado na Pró-Reitoria de Extensão da UFJF, tendo como proposta central divulgar pesquisas sobre o entrelaçamento de produções jornalísticas, literárias e de outros campos culturais por meio de uma narrativa que se encontra em tempos de convergência. A Jornada teve apoio da Fapemig e reuniu pesquisadores de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Direitos Humanos na tela de Vitória

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A 11ª edição da Mostra de Cinema e Direitos Humanos será aberta nesta terça, 9 de maio, em Vitória. Ao todo, serão exibidos 37 filmes no Cine Metrópolis/ Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). 

Nesta edição, o circuito principal conta com 29 filmes entre curtas, médias e longas-metragens, divididos em três mostras: Panorama, Temática e Homenagem – com foco na obra da cineasta Laís Bodanzky.

Uma das novidades deste ano é a Mostrinha, voltada para o público infanto-juvenil, na qual serão exibidos 8 curtas-metragens. A mostra é acessível, tendo duas sessões com audiodescrição, dia 12, às 14h , e dia 13, às 16h; duas sessões com closet caption, dia 11, às 14h e às 15h30. Além dessas, haverá ainda duas sessões com debates, nos quais serão abordados os temas “Racismo e Intolerância Religiosa” e “Gênero”, dias 11 e 12, após a sessão das 15h30. Todas as exibições serão gratuitas.

Para a Secretária de Cidadania e Direitos Humanos, Nara Borgo, o evento é muito importante não só para a capital, mas também para todo o Estado: “Esse é um tema que deve ser discutido cada vez mais com a sociedade”.

Segundo Nara Borgo, discutir o tema por meio da cultura faz com que as pessoas possam conhecer e refletir sobre o assunto, além de desfrutar de belos trabalhos artísticos: “É uma forma de valorizar a arte e sensibilizar para os direitos humanos”, diz a Secretária de Cidadania e Direitos Humanos.

A iniciativa é uma realização do Ministério dos Direitos Humanos e tem apoio da Prefeitura de Vitória.

Mostra Panorama

Na tela do cine Metrópolis, serão exibidos 17 filmes entre curtas, médias e longas-metragens, que contemplam aspectos como direitos das pessoas com deficiência, população LGBT/enfrentamento da homofobia, memória e verdade, crianças, adolescentes e juventude, pessoas idosas, população negra, população em situação de rua, mulheres, direitos humanos e segurança pública, proteção aos defensores de direitos humanos, direito à participação política, combate à tortura, situação prisional, democracia e Direitos Humanos, saúde mental, cultura e educação em Direitos Humanos.

Mostra Temática

Apresentará a questão de gênero. Para essa categoria, foram selecionados 7 títulos que abordam temas relacionados a mulheres, orientação sexual e identidade de gênero, como empoderamento feminino, violência contra a mulher, estereótipos de gênero, LGBTfobias, conquistas sociais, políticas e econômicas, o direito à igualdade e à não discriminação, dentre outros.

Mostra Homenagem

Tem como tradição homenagear cineastas cuja filmografia explora a temática Direitos Humanos, trazendo-a para o foco dos debates. A homenageada desta edição é a cineasta Laís Bodanzky, cuja obra tematiza um mundo onde todos possam se reconhecer e viver a igualdade e direitos de oportunidades. Cinco filmes da cineasta fazem parte da programação.

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Laís Bodanzky é a cineasta a ser homenageada em Vitória

Mais informações: 


 

Narrativas jornalísticas em debate na UFJF

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A ascensão de programas como o Profissão Repórter e A Liga provam: o fazer jornalístico vem se metamorfoseando cada vez mais no contexto da convergência. Além de o produto  ter-se diferenciado, também o perfil do profissional está mais multifacetado, e a forma de interação também mudou com o público estando cada vez mais ativo.

Para debater as narrativas jornalísticas que vêm surgindo nesse contexto e sua relação com outros campos culturais, o Grupo Mídia e Literatura, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação (Ppgcom) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), promove a I Jornada de Mídia e Literatura – narrativas em tempos de convergência

Reunindo pesquisadores mineiros, gaúchos e cariocas, a Jornada da UFJF tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) e será realizada dias 8 e 9 de maio, das 9h às 17h, no Auditório da Faculdade de Comunicação (Facom).

Segundo a professora Cláudia Thomé, uma das coordenadoras da Jornada, o objetivo principal é promover o diálogo interdisciplinar entre pesquisas de Letras e de Comunicação num momento em que as duas áreas se aproximam ainda mais, em função das narrativas migratórias e convergentes: “O grupo pretende promover o debate sobre as narrativas literárias e midiáticas no contexto da convergência das mídias, a partir de seus deslizamentos de um meio a outro, e do fluxo de referências que as levam a um processo de mutação e de novas produções de sentido”, diz Cláudia.

Cláudia Thomé acredita que, além de divulgar as pesquisas do grupo, o evento é uma forma de proporcionar o debate interdisciplinar sobre a narrativa midiática. “Nós também temos a oportunidade de consolidar parcerias acadêmicas para uma futura rede de pesquisa, tanto com as professoras convidadas, quanto com a Faculdade de Letras da UFJF.”

Para os organizadores, a Jornada é uma forma de proporcionar o debate interdisciplinar sobre a narrativa midiática atual.

Programação e inscrições

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Luiz Ruffato estará na UFJF conversando e lançando livro novo…

A conferência de abertura caberá ao emérito escritor Luiz Rufatto, autor bastante conhecido e, natural da zona da mata mineira e com crônicas publicadas até no El País. O tema é “Navegação fluvial – do rio Pomba ao rio Tietê passando pelo rio Paraibuna…”.

A Jornada também contará com a participação da professora Sonia Cristina Reis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que discutirá narrativas de pós-guerra na Itália; com a professora Fabiana Piccinin, da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), debatendo narrativas audiovisuais; e o professor Marco Aurélio Reis, da Universidade Estácio de Sá (Unesa-RJ), analisando narrativas jornalísticas e crônicas. 

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até segunda-feira, 8, através de um formulário online. Os participantes inscritos que tiverem o mínimo de 75% de frequência receberão certificado emitido pela UFJF.

Saiba mais: http://www.ufjf.br/ufjf/

UFSCar prepara sua XIV Feira do Livro

A Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) vai realizar semana que vem a XIV Feira do Livro. Além da presença de editoras universitárias e comerciais oferecendo descontos de até 50%, a Feira também terá programação cultural, incluindo oficinas e palestras. Todas as atividades são gratuitas.

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Nesta edição, estarão presentes as editoras: 34, Aleph, Blucher, Boitempo, Carochinha, Cortez, Estação Liberdade, Expressão Popular, Girassol, Global, Grupo Companhia das Letras, Grupo Editorial Record, Junqueira & Marin, L&PM, Martin Claret, Rocco, UBU, Senac, Summus, Unesp, Vozes e Zahar, além da EdUFSCar.

Dentro da programação cultural, na terça, 9, às 14 horas, no Auditório 1 da Biblioteca Comunitária (BCo), acontecerá a primeira parte da oficina literária O conto segundo os escritores, ministrada por Wilson Alves-Bezerra, docente do Departamento de Letras (DL) da UFSCar. No mesmo dia, Rosana Pinheiro-Machado, docente visitante do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), ministra a palestra Caos político: os desafios dos movimentos sociais e dos intelectuais na reconstrução do futuro, às 16h30, no Teatro Florestan Fernandes.

Dia 10, haverá duas oficinas: Desenhando letras: introdução ao lettering, com a arquiteta Juliana Ottaviani, às 14 horas; e Encadernação criativa, com a artesã Fernanda San Juan, às 16 h. E já no último dia da Feira, 11, às 14 h, será realizada a segunda parte da oficina literária O conto segundo os escritores. Essas oficinas também acontecerão no Auditório 1 da BCo. Finalizando a programação cultural, às 16 h, haverá sessão de autógrafos do livro Páginas latino-americanas, de autoria de Alves-Bezerra, na Livraria da EdUFSCar.

A XIV Feira do Livro da UFSCar é aberta ao público e pode ser visitada das 9h às 20h na área externa da BCo, localizada na área Norte do Campus São Carlos da UFSCar.

Mais informações: comercialedufscar@ufscar.br ou pelo (16) 3351-8927

Paul McCartney volta ao Brasil em outubro

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Paul McCartney, o idolatrado ex-Beatle, estará de volta ao Brasil em outubro !

McCartney vem com a turnê One On One e vai cantar na capital gaúcha dia 13 de outubro, no estádio Beira-Rio. As vendas de ingressos começam HOJE, 5 de maio, para clientes cartão ELO e 8 de maio para o público em geral. O Grupo RBS divulgará em breve sobre as áreas Premium a serem disponibilizadas para compra.

A nova turnê de Paul foi lançada nos Estados Unidos em 2016 com 41 apresentações em 12 diferentes países para um público de mais de 1.2 milhão de pessoas. Clientes cartão ELO terão pré-venda exclusiva para os shows de Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte, entre os dias 5 e 6 de maio, começando às 0h01 do dia 5 pela internet (www.ticketsforfun.com.br), 10h na bilheteria oficial de Porto Alegre (sem taxa de conveniência – Estádio Beira-Rio), bem como nos pontos de venda espalhados pelo Brasil. As vendas para o público em geral começam a partir da 00h01 do dia 8 de maio pela internet e 10h nas bilheterias oficiais e pontos de venda. A turnê, no Brasil, é apresentada por Cartão ELO e tem realização de MPL, Marshall Arts, TIME FOR FUN e Planmusic.

One On One apresenta uma produção nova, utilizando áudios e vídeos de última geração para garantir uma experiência inesquecível ao público. Painéis de LED gigantes, lasers, fogos de artifício e uma seleção surpreendente das melhores canções escritas e interpretadas por Paul fazem parte do espetáculo. Cada show de Paul McCartney promete uma noite que transcende e eleva o potencial da música ao vivo.

Abrangendo toda a sua carreira – do trabalho mais antigo com The Quarrymen até sua mais recente colaboração com Kanye West e Rihanna –, bem como os tesouros mundiais do The Beatles, Wings e também sua carreira solo –, não faltarão surpresas em seus shows, ainda mais em 2017, ano em que o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, um dos discos mais emblemáticos da história do rock, completa 50 anos.

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Em sua primeira visita ao Brasil, em 1990, Paul estabeleceu um novo recorde mundial tocando para o maior público de shows: foram mais de 184.000 pessoas assistindo à sua apresentação no Maracanã, na capital carioca.

A última visita de Paul McCartney ao Brasil foi em 2014 com a turnê Out There, que teve todos os shows lotados. O notável músico também levará seus shows para São Paulo, Belo Horizonte e Salvador.

Mais informações: www.ticketsforfun.com.br

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PAUL McCARTNEY – ONE ON ONE TOUR

Apresentado por: Cartão Elo

Cerveja Oficial: Heineken

Realização: TIME FOR FUN

PORTO ALEGRE (RS)

Data: Sexta-feira, 13 de outubro de 2017.

Local: Estádio Beira-Rio – Av. Padre Cacique, 891 – Praia de Belas – Porto Alegre -RS

Abertura dos Portões: 17h30

Horário do show: 21h30
Capacidade: 49.500 pessoas
Ingressos: a partir de R$ 175 (ver tabela completa)

– Os clientes cartão ELO contarão com pré-venda exclusiva entre os dias 05 e 06 de maio de 2017,começando dia 05 – 00h01min pela internet e 10h na bilheteria oficial – e finalizando dia 06 de maio – às 23h59.

– O público em geral poderá adquirir os ingressos a partir do dia 08 de maio de 2017, começando 00h00 pela internet e 10h na bilheteria oficial.

– A compra poderá ser parcelada em até 5X para clientes cartão ELO durante o período da pré-venda exclusiva. Após o período de pré-venda, os clientes cartão ELO poderão parcelar a compra do ingresso em até 3X.

– Na venda geral, os ingressos poderão ser parcelados em até 2x (demais bandeiras de cartão de crédito)

– Será possível comprar até 6 ingressos por CPF na pré-venda ou venda geral.

– Na pré-venda para clientes cartão ELO será possível comprar apenas um ingresso meia-entrada por CPF.

BILHETERIA OFICIAL – SEM TAXA DE CONVENIÊNCIA

Estádio Beira-Rio – Av. Padre Cacique, 891 – Praia de Belas – Porto Alegre -RS

Domingo: Fechado.

Segunda-feira a sábado: das 10h00 às 18h00.

LOCAIS DE VENDA – COM TAXA DE CONVENIÊNCIA

Pela Internet: www.ticketsforfun.com.br

Taxas de conveniência e de retirada.

Pontos de venda no link: http://premier.ticketsforfun.com.br/shows/show.aspx?sh=pdv

Eu sou apenas uma moça latino-americana…

 Música perde Belchior: Brasil fica mais pobre                          

                                                                        *Aurora Miranda Leão

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A hora avisava o tempo. Despertar, estudar. Bom Dia ! Foi o que disse no Instagram…

“Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria/ Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais…”

E uma foto do pequeno cidadão comum, apenas um rapaz latino-americano, conterrâneo gigante do Pessoal do Ceará, convidava à legenda:

“Ouvi dizer num papo
Da rapaziada
Que aquele amigo
Que embarcou comigo
Cheio de esperança e fé
Já se mandou...”

BELCHIOR estava indo e uma tristeza imensa foi tomando conta de mim…
Mas música é desmesura incendida e me sussurou, belchianamente:

“E vou viver as coisas novas
Que também são boas
O amor, humor das praças
Cheias de pessoas
Agora eu quero tudo
Tudo outra vez…”

Eis que o coração guardou uma frase pra mim dentro da canção:

“Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos, lhe direi:
Amigo, eu me desesperava
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português…”

Outrossim, deixando a profundidade de lado, relembro como um analista amigo meu:

“Cada um guarda mais o seu segredo,
A sua mão fechada, a sua boca aberta
O seu peito deserta, sua mão parada,
Lacrada e selada,
E molhada de medo.”

BELCHIOR veio chegando de mansinho: educação e gentileza sempre a postos, um sorriso ingênuo e franco do rapaz que permaneceu novo encantado.  Tarde ensolarada, era dia de entrevista nos estúdios da Universitária FM, doce vivência de nossa estrada profissional. Acabamos por bater um longo papo, nutrido pela inteligência afiada, a sensibilidade inconteste e o bom humor dele, todo especial.

Com o camarada Fagner (outro cearense do coração), Belchior ensinou que saudade não é pra dar medo. Afinal,

“Moro num lugar comum, perto daqui, chamado Brasil.
Feito de três raças tristes, folhas verdes de tabaco e o guaraná guarani”.

Brazil, raças, guaraná, guarani... Belchior e suas letras cheias de bela e sábia poesia. As sintonias aportam conexões num salto de mágica. Assim como um antigo compositor baiano nos dizia… Gilberto Freyre, Darcy Rineiro, Sérgio Buarque, Raymondo Faoro, estudos para entender esta Nação, precisamos retomar a leitura. Que também me traz à lembrança o cronista Artur da Távola… qual as dele, também temos nossas Dissonâncias Cognitivas a avisar das mensagens na caixa precisando respostas, dos amigos que é preciso abraçar, das risadas tantas que não podem faltar… e sobrevêm o mestre Raimundo Rodriguez e sua criatividade tão linda, ‘louca’ e tão oxigênio para a força popular e o Brasil que precisamos destacar ! E junto dele o guerreiro Jorge, notória inspiração, aviva nossos Latifúndios com seu mosaico elegantemente colorido, que sintetizou nosso Pedacinho de Chão e encharcou nosso sonhário, poeticamente frutificado na sincronia inspiradora do mago Luiz Fernando Carvalho, esse gigante da nossa dramaturgia audiovisual. Sim, tudo porque ele era um cara tão sentimental:

“Era um homem de bons modos: ‘Com licença; – Foi engano’
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que caminha para a morte pensando em vencer na vida
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que tem no fim da tarde a sensação
Da missão cumprida”

Também sentimos assim… e o remédio é cantar – como indicou outro grande menestrel, o seu Humberto Teixeira do Iguatu… e cantamos:

“Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol
Porque bate lá o meu coração”.

E pedimos licença, mas neste domingo dispensamos carona da metodologia porque hoje quem dá o tom é a voz do poeta e a canção nos embala:

“Eu estou muito cansado/ De não poder falar palavra/ Sobre essas coisas sem jeito
Que eu trago em meu peito…” 

Sim, “Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja”.

Mas o relógio indômito avisa: é hora do almoço e

“Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo”

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E na parede da memória, saudades escondidas:

“Eu era alegre como um rio,
um bicho, um bando de pardais;
Como um galo, quando havia…
quando havia galos, noites e quintais.”

Embora haja tantas outras, embaladas agora em material de fina estampa… É, os dias eram assim… E a emoção canta agora o perdão assinado pela dupla titânica, Ivan Lins e Vítor Martins:

“Perdoem a cara amarrada/ Perdoem a falta de abraço/ Perdoem a falta de espaço/ Perdoem a falta de folhas/ Perdoem a falta de ar/ Os dias eram assim…”

Emblema imortalizado na voz de ELIS, que descobriu Ivan e anunciou ao mundo a grandeza de Belchior, este pequeno cidadão comum que o poeta Drummond inspirou… ele também, o cearense que pedia “guarde uma frase pra mim dentro da sua canção”, está há muito a merecer obra grandiosa de nossa teleficção audiovisual para embalar sua canção: a teledramaturgia só tem a ganhar !

Como nossos pais é música que já nasceu filme, moldura bela e profunda, e o Brasil, encantado, fará eco:

“Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa…”

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Será que eles venceram ? Não, estaremos sempre na luta !

“Também estou vivo, eu sei,
mas porque posso sangrar
e mesmo vendo que é escuro,
dizer que o sol vai brilhar…”

Sim, precisamos todos rejuvenescer !

STOP: “Eu não estou interessado/ Em nenhuma teoria/ Em nenhuma fantasia/ Nem no algo mais…”

Nossa dor é perceber que ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais: nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não…

Resta, a FELICIDADE, essa arma quente, e constato que sou apenas uma moça latino-americana, sem parentes importantes e sem dinheiro no banco…

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Vai com Deus, BELCHIOR !

Obrigada por tudo… Emoção, lágrimas e meu aplauso caloroso pra você e sua obra divinal…

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Enquanto as letras calam, a vitrola sintoniza a voz rascante do rapaz de Primeira Grandeza, que insiste em dizer “eu quero é que este canto torto corte a carne de vocês”:

E eu fui embora sorrindo, sem ligar pra nada; como vou ligar
Para essas coisas quando eu tenho a alma apaixonada ?

Do outro lado, ele e o parceiro Ednardo, deixaram AURORA sobre a mesa:

Sonhos de aurora eu sonhava
No colo de minha irmã
Clareia manhã, clareia
Abre as janelas, manhã
Clareia manhã, clareia
Abre as janelas manhã
E deixa essa casa cheia
Do teu cheiro de romã

E o coração dialoga:

_ Sou o que escondo sendo uma mulher
Igual a tua namorada
Mas o que vês,
Quando mostro estrela de grandeza inesperada…

_ A força masculina atrai não é só ilusão/ A mais que a história fez e faz o homem se destina/ A ser maior que Deus por ser filho de adão/Anjo, herói, prometeu, poeta e dançarino/A glória feminina existe e não se fez em vão…

Sigamos BELCHIOR como ele nos ensinou:

É louco que pensou na vida sem PAIXÃO !

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BELCHIOR: saudade e muita emoção na partida do mestre…

Antônio Calloni e Sophie Charlotte destacam-se em lados opostos

Os Dias eram Assim     

  *Aurora Miranda Leão

Os Dias eram assim teve ontem (sexta 28 abril) um capítulo antológico.

No post anterior, quando nosso enfoque foi inspirado pela ‘queixa’ de alguns que afirmam ser a supersérie uma simples história de amor, prometemos voltar para falar do elenco. Sim, o elenco traz nomes relevantes da nossa Dramaturgia e merece ser destacado.

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Vamos aos nomes: Sophie Charlotte, Daniel de Oliveira, Renato Goes, Antônio Calloni, Natália do Valle, Marco Ricca, Gabriel Leone, Cássia Kiss, Letícia Braga, Susana Vieira, Mariana Lima, Bukassa Kabengele, Bárbara Reis, Letícia Spiller, Marcos Palmeira, Carla Salle, Maurício Destri, e teve ainda uma especialíssima participação de Caio Blat no capitulo de estreia.

Queremos ressaltar também os nomes dos profissionais que assinam a direção de OS DIAS ERAM ASSIM – ontem indicamos somente os nomes de Walter Carvalho e Carlos Araújo porque não conseguimos descobrir os demais via web. Foi preciso aguardar a exibição do capítulo dessa sexta para anotar todos eles. Vamos lá: Carlos Araújo é o diretor artístico, enquanto Walter Carvalho, Isabella Teixeira e Cadu França assinam a direção de cenas ou capítulos. O destaque é para ressaltar que há outros profissionais igualmente empenhados no desenho visual da teleficção, que é, sem favor algum, um marco referencial do horário. Uma obra super bem realizada com um elenco coeso e grandes atuações, uma trilha sonora condizente, e um pungente convite a uma reflexão, que perpassa temas como o machismo, a violência simbólica, o massacre das liberdades individuais, o menosprezo pela mulher, a arrogância da elite dominante, o conflito de gerações, a censura e o cerceamento da liberdade, a repressão, a opressão, enfim, temas muito caros e bem entranhados no cerne da sociedade brasileira.

Para essas primeiras considerações de elenco, destacamos as atuações mais marcantes: Sophie Charlotte, Natália do Valle, Daniel de Oliveira e Antônio Calloni, disparado o grande destaque do elenco !

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Sophie Charlotte e a liberação feminina que se começava a desenhar…

SOPHIE CHARLOTTE – a alemãzinha que aportou no Brasil e foi adotada por uma imensa legião de fãs que aprecia sua beleza, simpatia e talento. Tudo isso soma para que Sophie protagoniza a supersérie com enorme domínio de sua condição de mulher bela, cheia de talento e cantora com belo futuro a seguir (Sophie é voz que se destaca desde O Rebu, e depois ganhou o apreço de Roberto Carlos, com quem dividiu o palco num Especial de Natal do Rei).

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Sophie encarna a autêntica e destemida Alice, e o faz com espontaneidade, leveza, carisma e indiscutível competência. Sua escalação foi muito feliz e este é mais um personagem que vai marcar a carreira da atriz. Vendo Sophie em cena, não há como não lembrar de Cláudia Abreu e sua Heloísa, a impávida lourinha dos  Anos Rebeldes, a inesquecível minissérie do querido Gilberto Braga.  A Alice de Sophia Charlotte entra para a galeria de heroínas da teleficção brasileira com méritos semelhantes aos que em 1989 alçaram Cláudia Abreu a essa qualificada galeria. PARABÉNS  a quem escalou a moça e aplausos para Sophie Charlotte, que encara com garra e coragem um papel difícil e de muitas nuances.

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NATÁLIA DO VALLE é Kiki, a mulher oprimida e ultrajada pelo marido, o empresário fascista Arnaldo Sampaio. Kiki é mãe de Alice e da pequena Nanda (Letícia Braga), mas tem o jeito e a expressão sempre sofrida de quem vive uma vida marcada pela grosseria, o menosprezo, o descaso, a não realização pessoal nem profissional. Kiki é uma típica mulher dos anos 60: “bem casada”, dona de casa e salvaguarda do lar, em quem a vontade própria inexiste: vive para as filhas, a casa e o marido, que lhe agride constantemente e avilta sua condição de esposa. É um ótimo viés para se observar questões de gênero pertinentes à situação da mulher no contexto do país.

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O empresário tirano e a mulher reprimida: Calloni e Natália do Valle em bela contracena

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DANIEL DE OLIVEIRA é Vítor Dumonte, o mocinho mimado e repressor. Ex-namorado de Alice, ele quer se casar com a moça para herdar a fortuna do milionário Arnaldo, e é capaz de qualquer coisa para atingir seu objetivo. É um sujeito abjeto, típico dos anos em que a masculinidade foi posta em cheque a partir da conquista da liberdade sexual feminina, possível graças à invenção da pílula, que chegou trazendo avanços e provocando a fúria dos conservadores, doutrinários e repressores. 

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ANTÔNIO CALLONI é o nefasto milionário Arnaldo Sampaio. Dono de uma das mais importantes construtoras do país, ele tem escusos negócios com o poder constituído, e é daqueles tipos bem conhecidos de prepotentes do “Sabe com quem você está falando ?”. Defensor contumaz da repressão e declaradamente a favor da ditadura, é um exemplo clássico e abominável do déspota que se acha o dono da bola.

O personagem é figura central no enredo de OS DIAS ERAM ASSIM e o ator engrandece o personagem com uma construção ricamente detalhada, fruto de sua meritória competência para simbolizar, através de Arnaldo, todo o mal que a tirania representa. Arnaldo não é só o empresário vil, corrupto e corruptor, mas aquele clássico sátrapa que quer ganhar todas as batalhas no grito ou angariando apoios pela força do dinheiro, tiranizando os mais fracos. Sendo Antônio Calloni um Ator dos mais conhecidos por sua educação, inteligência, doçura e refinamento intelectual (Calloni é Poeta e dos bons !), é ainda mais emblemática sua escalação para o papel do monstruoso empresário.

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Arnaldo e seu pretenso futuro genro: Calloni e Daniel de Oliveira vivem com brilho personagens abomináveis…

Antônio Calloni, que parece ficar na supersérie apenas em seus 20 primeiros capítulos, atua com incontestável brilho, alcançando um nível de excelência interpretativa que ganha ainda mais destaque por estarmos falando de uma obra feita no ritmo intenso de produção que exige a teledramaturgia. Nesta não há o tempo de elaboração que existe no teatro e no cinema: televisão é pulsação intensa, com muitas cenas para decorar, interpretar e gravar em poucas horas, sendo um trabalho hercúleo construir um personagem nesse andamento galopante. Pela qualidade de sua interpretação, Antônio Calloni insere o personagem Arnaldo Sampaio à galeria dos Grandes Personagens da Teledramarturgia Brasileira. O ator fará falta à trama mas marca sua presença com impressionante força interpretativa. É um luxo ver um Ator do quilate de Calloni atuando na nossa telinha, todas as noites, e de graça.

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Elenco da supersérie Os Dias eram Assim

Quem não está assistindo à Supersérie, que passa por volta das 23h, pode acompanhar esta obra-prima pelo Globo Play, de graça e na hora de sua preferência. Vale muito a pena !

*No próximo post sobre OS DIAS ERAM ASSIM, um passeio pela trilha musical.

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