Arquivo do dia: 20/03/2010

FILME LIVRE Mostra CAMILO CAVALCANTE

Em atividade desde 1995 em Pernambuco, o curta-metragista Camilo Cavalcante incentivou cineastas pernambucanos que, já em sua segunda geração, intensificaram a produção no estado. A partir de terça-feira, todos os 13 curtas que compõem a obra de Camilo serão exibidos  na Mostra do Filme Livre, na qual o cineasta é um dos  homenageados.

A paixão que Camilo tem pelo cinema serve de inspiração até para a geração que antecedeu à dele. Ele é um sujeito que se movimenta, respira e sonha a 24 quadros por segundo – enaltece o cineasta Lírio Ferreira,diretor de Árido movie (2004) e O Homem que engarrafava nuvens (2008).

Diretor de Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2007), Claudio Assis, que assina com Cavalcante o documentário Eu vou de volta, faz coro a Lírio Ferreira:

Camilo é um cineasta que não para de ter ideias, é uma pessoa que está sempre se reinventando, além de ser um grande amigo.

Cineasta pernambucano, Camilo Cavalcante, detentor de vários prêmios, tem destaque na Mostra do Filme Livre, na capital carioca

Os elogios talvez sejam resultado da paixão que o pernambucano coloca em seus filmes. Para ele, sua maior inspiração é o ser humano.

Faço filmes de gente e para gente, gosto dessa possibilidade do cinema de tocar profundamente as pessoas. É uma capacidade de revolucionar, de certa forma, a vida de cada um – ressalta Cavalcante. – Também me inspira o que consegue me comover.

Para o diretor, fazer filmes em Pernambuco não é tão diferente de outros lugares do Brasil.

Fazer cinema independente é complicado em qualquer lugar, encontramos uma série de restrições na hora de conseguir apoio, patrocínio. Mas está melhor do que há 10 anos. Hoje em dia existem mais editais, tanto nacionais quanto estaduais – compara. – Mas ainda há pedras no caminho, principalmente no que diz respeito à iniciativa privada, que tem participação tímida no cinema independente fora do eixo brasileiro.

Cavalcante destaca a versatilidade da nova geração de cineastas pernambucanos, que acompanha de perto:

O grande mérito da produção de Pernambuco é justamente a diversidade. Aqui não existe um movimento coeso, uníssono, existe na verdade várias movimentações, pessoas com diferentes propostas artísticas. Isso fortalece muito o nosso cinema.

No último filme de Cavalcante, Ave Maria ou Mãe dos sertanejos , o diretor divide os créditos com os alunos que participaram da oficina dada em Serrita, cidade do interior de Pernambuco onde o curta foi filmado.

Não moro no sertão. Então, para evitar esse olhar estrangeiro, optei por um processo de mergulho – detalha o diretor. – Pessoas do próprio sertão participaram da elaboração do filme. Ele é muito de dentro para fora, não tem uma visão externa. O cinema, como todo mundo fala, é a escola viva da arte, tem muita gente participando, um caráter coletivo intrínseco. Nos reunimos para falar sobre a própria região dessas pessoas, que a conhecem com profundidade, por isso os créditos são de todos.

Cavalcante não acredita que o tema do sertão esteja desgastado. Para ele, ainda há muito que se explorar, desde que seja feito através de novas abordagens:

O sertão é muito mais que uma zona geográfica seca, árida. Ele representa um território da alma humana, das relações olho no olho, uma coisa sincera. Essa região emocional dá muito pano para a manga. O que está desgastado é uma abordagem estereotipada do personagem sertanejo.

O filme Ave Maria ou Mãe dos sertanejos , de 2009, faz parte de uma trilogia que começou com Ave Maria ou Mãe dos oprimidos , de 2003.

A terceira parte não tem nem roteiro pronto, mas ainda pretendo desenvolver. Vai ser sobre a visão da burguesia sobre a hora da Ave Maria – antecipa.

Além da retrospectiva de Camilo Cavalcante, a Mostra do Filme Livre tem como homenageado deste ano o diretor mineiro José Sette, com pré-estreia de Amaxon e exibição da cópia digital restaurada de Um filme 100% brazileiro, de 1985, com Paulo Cesar Pereio. A programação também conta com as pré-estreias , e de Mergulho, de Pedro Henrique Ferreira, e Rumo, dos Irmãos Pretti (moradores de Fortaleza), além de exibições de curtas, longas, e oficinas.

Mostra do Filme Livre

Centro Cultural Banco do Brasil, Rua Primeiro de Março, 66, Centro (3808-2020). Grátis. De 23 de março a 8 de abril, de 3º a dom., das 14h às 21h

Doc de Michael Jackson Estréia em Junho

O documentário Gone Too Soon (“Foi muito cedo”, em tradução livre) levará a história de Michael Jackson ao cinema a partir de junho, quando se completará um ano da morte do artista, noticia ontem a imprensa americana.

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O filme, de 88 minutos, foi realizado por Ian Halperin, autor do best-seller “Unmasked: The Final Years of Michael Jackson”, que conta os últimos anos de vida do rei do pop.

Gone Too Soon tem confirmada, por enquanto, sua distribuição na França e no Canadá com estréia em 25 de junho, exato um ano após a morte de Michael.

Segundo Halperin, que passou cinco anos investigando o artista para escrever o livro, a produção oferece um “tributo equilibrado” e é o filme que os “admiradores de Michael merecem”.

Em dezembro de 2008, Halperin disse que Michael estava com a saúde debilitada e, segundo uma revista, afirmou que o astro morreria em seis meses.

BEZERRA da SILVA em DOC

O Brasil inteiro conhece e cantou com Bezerra da Silva sucessos como Malandragem, Dá Um Tempo, Minha Sogra Parece Sapatão e Malandro É Malandro e Mané É Mané. Porém, pouca gente ouviu falar do pedreiro, do técnico em refrigeração, do carteiro ou do bombeiro que resgata cadáveres, autores desses sambas antológicos. É aqui que pega o documentário Bezerra da Silva – Onde a Coruja Dorme, de Márcia Derraik e Simplício Neto, que passa domingo no Auditório Ibirapuera, dentro do festival In-Edit Brasil, de documentários musicais. 

Chico Buarque já tinha cantado a bola: o verdadeiro malandro é trabalhador, mora longe e chacoalha no trem. O filme de Márcia e Simplício confirma a sentença e tem caráter de denúncia: nenhum desses compositores viu a cor do dinheiro fazendo música. Em entrevista ao Estado, um deles, Roxinho (autor de diversos sambas gravados por Bezerra), diz que até teve a ilusão de um dia viver de direito autoral. “Mas o próprio Bezerra tirou isso da cabeça da gente. O Carlos Colla (compositor) uma vez me falou que com um sucesso daqueles ele trocava de carro todo ano, mas ele tem advogado, tem os canais pra cuidar dos interesses dele. Nós, não”, diz o pedreiro compositor.

No filme, Bezerra confirma as denúncias e solta farpas contra editoras, gravadoras e profissionais de rádio. “Muita gente de renome no rádio não faz nada, só rouba.” O documentário, que foi feito há quase dez anos, até agora só foi exibido esparsamente em festivais. Ironicamente, nunca entrou em circuito comercial porque, segundo Márcia Derraik, as editoras até agora não liberaram os direitos e todas músicas desses compositores que são o foco do filme e nunca receberam o que lhes é devido.

“É uma loucura você pensar que esses caras fizeram hits que deram vários discos de ouro pro Bezerra e muitos deles hoje não têm onde morar”, diz a diretora. “Adezonilton, um dos compositores de Malandragem, Dá Um Tempo, que foi gravado até pelo Barão Vermelho, é morador de rua. É muito cruel.”

O longa originou-se do curta Coruja, realizado em 2001. Desde o início, a ideia era dar visibilidade aos compositores dos quais ninguém falava. Como lembra Roxinho, Bezerra foi o único cantor de renome a colocar os autores com ele nas capas dos discos. Acusado de fazer apologia da bandidagem, Bezerra, que apareceu empunhando revólver e acuado pela polícia em capas de discos, se defende: “Isso é o Brasil, e eu canto isso. Dizem que sou cantor de bandido, mas quem defende bandido é advogado e juiz. Eu canto os compositores da favela.” Em outra sequência arremata: “Não posso cantar o amor, porque nunca tive. Sou realista.”

O amor fica de fora, mas os temas recorrentes da música de Bezerra estão lá, cantados e comentados no filme, de maneira aberta, com pitadas de bom humor e sem preconceito: gírias, crenças, drogas, armas, malandragem, política, sogras. Se como diz o cantor, “o morro não tem voz”, ele teve essa função. Como Bezerra, o documentário fascina por desvendar o que há na toca da coruja.

* Texto de Lauro Lisboa Garcia