BASTIDORES da ARTE, do cinema e da política nos anos 70

 

Cineasta, morto precocemente em 1984, participou como ator e assistente de direção de filmes com Antonioni, Rossellini, Bertolucci, Glauber e Neville de Almeida.

Um vento me leva: Lembranças de Jirges Ristum

Org. Ivan Negro Isola

Colaboração: André Ristum

Imprensa Oficial, 188 páginas, R$ 100,00 

Irreverente, contestador. Distante do convencional. Sempre bem-humorado. Uma figura apaixonante e também apaixonada pelo que fazia: cinema e versos.Alguém que amava a beleza. Assim era Jirges Ristum, um desses homens que, de tão especiais, são difíceis de esquecer.

Assim o descrevem familiares, amigos e colegas cujos relatos contribuem para remontar, tal como num quebra-cabeça, a imagem desse artista de múltiplas faces. Os depoimentos, somados a escritos do próprio Jirges, compõem a coletânea Um vento me leva: Lembranças de Jirges Ristum, editada pela Imprensa Oficial   

Ele era, como dizia Glauber Rocha, “o maior cineasta brasileiro não revelado”. A morte prematura, aos 42 anos, no começo da década de 80, silenciou uma obra que estava em expansão. De volta do exílio, após colaborar com realizadores como Antonioni, Bertolucci e Rosselini, ele acabara de lançar seu primeiro livro de poemas. Definia-se, na época, como “pós-freudiano, pós-marxista, antiplatônico e antiaristotélico” e, por isso mesmo, disposto a “imaginar as histórias sem censura”.  

“Este livro é uma homenagem a Jirges Ristum, uma espécie de almanaque sentimental para nos lembrarmos da sua performática figura”, afirma o organizador, Ivan Negro Isola. “Aliás, as performances do Turco frequentemente faziam lembrar uma chanchada protagonizada pelo José Lewgoy, com quem ele curtia se parecer. Com o Hugo Carvana também”. 

Como explica o organizador, Jirges não deixou uma obra sistemática. “Grafômano, escreveu cartas, bilhetes, guardanapos, anotou ideias, pensamentos, insights. Deixou-nos manuscritos esparsos que constituem relevantes vestígios de uma vida em sintonia com o seu tempo”, acrescenta Isola.

 Aos textos de Jirges combinam-se relatos de quem conviveu com ele: escritores, jornalistas e intelectuais como Aloysio Nunes Ferreira Filho, Cláudio Vouga, Carlos Vogt, Bernardo Bertolucci, Glauber Rocha, Neville de Almeida Tatiana Belinky. O clima e os acontecimentos narrados ajudam a relevar bastidores da arte, do cinema e da política dos anos 70. 

No projeto, ao lado do organizador, colaborou ativamente o cineasta André Ristum, que já havia dedicado ao pai o curta metragem “De Glauber para Jirges” (2007), realizado a partir de cartas enviadas por Glauber Rocha ao amigo Jirges Ristum, então na Itália, em 1976. 

 

“Conheci meu pai duas vezes, de formas diferentes. A primeira foi a mais comum, através do contato pessoal, da convivência, desde meu nascimento até o começo da adolescência. Mas esta era a visão do ponto de vista de uma criança, uma visão idealizada, infantilizada. A segunda forma foi após a morte dele, através dos relatos e histórias que os vários amigos e parentes foram trazendo ao longo dos últimos 25 anos. Aos poucos, essas histórias me ajudaram a construir uma imagem mais real, com uma visão mais adulta, entendendo quem foi meu pai”, afirma André Ristum 

Jirges Ristum nasceu em São Tomás de Aquino, interior paulista, em 1942. A família se mudou para Ribeirão Preto, onde passou a infância e parte da juventude. Estudou direito, e logo começou carreira na imprensa. No final dos anos 60, mudou-se para a Europa. Viveu em Varsóvia, Roma e Londres. Estudou sociologia na London School of Economics and Political Science. 

É já no começo dos anos 70 que se envolve com o cinema. Em Roma, participa da produção de “Anno Uno” (1973-1974), de Roberto Rossellini, como assistente de direção. É ator e diretor de “Claro” (1975), de Glauber Rocha. Depois, assistente de direção de Bernardo Bertolucci em “La Luna” (1978) e de Michelangelo Antonioni em “O Mistério de Oberwald” (1979). 

Com a Lei da Anistia, recupera seu passaporte brasileiro. Está de volta ao país no começo dos anos 80. Logo participa da realização de “Rio Babilônia”, de Neville de Almeida (1981). Pouco depois, publica “Guardanapos” (1983), sua estreia como poeta. Morre prematuramente, de leucemia mielítica aguda, em 18 de janeiro de 1984.  

 “Contraditório e, por vezes, conturbado, pautava sua vida por uma lógica revolucionária ao mesmo tempo em que, à deriva em sua condição romântica, quase que se deixava guiar pelas estrelas”, define-o a irmã caçula, Juçara Ristum Vieira.

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