Saara e Pagodinho na Telona

Estevão Ciavatta parece ter saído do trauma do acidente de cavalo que quase o deixou paralítico, no final de 2008, com o fôlego renovado. Depois de 10 anos dedicados à televisão, o autor do curta-metragem Nelson Sargento (1998), cujo sucesso comprou-lhe o título de promessa da retomada, ensaia retorno com força total ao cinema brasileiro. O documentário Programa Casé, sobre o pioneiro do rádio Adhemar Casé (1903-1993), exibido na competição do recém-encerrado Festival de Paulínia, é apenas o ponto de partida dessa reabilitação profissional, que inclui um filme sobre Zeca Pagodinho e um longa de ficção ambientado na região da Saara, o mais popular centro comercial do Rio.– A minha ida para a TV foi tão forte que virei patinho feio do cinema – compara o diretor de programas como Brasil Legal e Um pé de quê?, apresentados pela mulher, a atriz Regina Casé, neta de Adhemar. – Depois do acidente, me vi procurando algo de bom para mim. Retomei o projeto do Programa Casé, que teve início há quase 10 anos, e desenvolvi outros. Agora, tenho a ficção como o meu norte. Os anos que viajei pelo Brasil fazendo programas documentais me deram essa bagagem.  

Sem o olhar do fã  

Assim como Programa Casé, que recupera a trajetória do pernambucano que lançou nomes como Carmen Miranda e Noel Rosa, com estreia prevista para 27 de agosto, o documentário sobre Pagodinho é um projeto de longa gestação. Ciavatta não quer que o filme fique contaminado pelo olhar do fã que é do músico – Pagodinho já está, inclusive, confirmado para a trilha sonora de S.A.A.R.A. (sigla de Sociedade dos Amigos dos Arredores da Rua da Alfândega).

 

O que estou buscando é o lado não glamouroso do Zeca. Quero acompanhar o cotidiano dele, a vida em casa, a companhia dos amigos, enfim, capturar o estilo de vida de um sujeito cuja música encanta desde um bando de playboys da Barra da Tijuca a um mendigo de Xerém, e de como isso tudo é incorporado à música que ele faz. Para isso, preciso conviver mais com ele, conquistar a intimidade do artista. E isso leva algum tempo – explica o diretor de 41 anos, que foi fotojornalista antes de se formar em cinema pela Universidade Federal Fluminense.

  

O documentário sobre Pagodinho, portanto, será captado ao longo dos anos, à medida em que as melhores oportunidades vão surgindo. Os cabeças de elenco de S.A.A.R.A, que ainda está em fase de captação de recursos, no entanto, já foram escalados: Regina Casé, Lázaro Ramos e Otávio Augusto. O trio movimentará uma história de amor dentro de uma trama que explora a convivência entre árabes, judeus, chineses e coreanos do centro comercial carioca. O roteiro é de Rosane Lima (Bendito fruto) e Patrícia Andrade (2 filhos de Francisco).O filme conta pequenas histórias que se entrecruzam entre o Natal e a festa de São Jorge do cotidiano daquela área, conhecida como uma pequena ONU encravada no centro da cidade. É durante a temporada comercial mais quente do ano que a velada rivalidade entre a comunidade árabe-judaica e os recém-chegados concorrentes chineses se acirra, interferindo no triângulo amoroso que se forma entre uma vendedora de loja, um vigia e a filha de um comerciante chinês.– É uma comédia romântica colocada contra uma situação de miscigenação única no mundo. A ideia é explorar as contradições dessa aproximação interracial. Há, por exemplo, a fantasia do homem ocidental pelos mitos eróticos orientais, a jovem chinesa que quer se abrasileirar.

* Texto de Carlos Helí de Almeida

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