Arquivo do dia: 09/01/2011

BRÁULIO MANTOVANI Estréia na Ficção

Bráulio Mantovani, autor dos roteiros cinematográficos Cidade de Deus ( indicado ao Oscar em 2004), Tropa de Elite e Tropa de Elite 2, emprestará agora suas palavras à Literatura.

Corajosamente, Bráulio evita o caminho aberto pela fama para aventurar-se noutras paragens. Seu instigante romance de estreia em nada lembra as sagas do capitão Nascimento ou de Zé Pequeno. A overdose de realidade, fonte de inspiração dos filmes de Fernando Meirelles e de José Padilha, dá lugar à obsessão e à loucura.


Mais conhecido por tramas sobre a violência, Mantovani explora limites da sanidade. Foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Quem resolver encarar o livro de Mantovani deve se dispor a abrir mão da ´segurança` deste nosso mundinho aparentemente real. Perácio – Relato Psicótico (Editora Leya) é incômodo, estranho e não facilita em nada a vida do leitor. Esnoba com gosto a chamada literatura fast food.

Sonho, loucura, sanidade, realidade e delírio são a matéria-prima de Mantovani. Antes mesmo das primeiras páginas, o leitor já se depara com enigmas: a orelha do livro traz e-mails supostamente trocados entre Pascoal Soto, editor da Leya, e o psicanalista e escritor Contardo Calligaris. Assunto: Mantovani à beira de um ataque de nervos. ´Bráulio, juízo!`, aconselha o dono da Leya no texto da contracapa. Em vez do habitual prefácio, as primeiras páginas trazem uma ´carta` do narrador da trama a Pascoal Soto.

´São brincadeiras`, despista Mantovani. E faz a repórter jurar que não vai estragar a surpresa do leitor. O romance entrelaça as histórias de Perácio, CFD e de ´Bráulio Mantoan, il diavolo`. Espécie de avatar do escritor, o tal diabo não escapa do vertiginoso labirinto de tormentos do personagem CFD, cronista da saga de um suposto agente da ditadura chamado Perácio. Internado num manicômio paulista, esse ex-brucutu se dedica a medir o mundo com seu paquímetro.

Cabreiro com a aparentemente hermética história de CFD e Mantoan, o leitor, aos poucos, cai na armadilha. Fissurado, quer saber mais – mesmo quando nada faz sentido. O cineasta Fernando Meirelles confessou a Bráulio: ganhou uma baita insônia depois de ler o livro.

DIVÃ

Perácio – Relato Psicótico levou 16 anos para ficar pronto. Surgiu bem antes da parceria de Bráulio Mantovani com Meirelles, no início da década de 2000, para adaptar o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, para o cinema. O livro só saiu da gaveta porque Carol Kotscho, mulher do escritor, insistiu que o marido mostrasse os originais ao editor da Leya.

Desde pequeno, Bráulio convive com pesadelos. Tem 47 anos, é freguês assumido dos divãs. Sonhos ruins só lhe dão trégua quando frequenta sessões de análise. ´Confundo memórias reais com sonhadas`, conta ele. A tênue linha entre sonho e loucura o fascina. Bráulio Mantovani diz que ficção, para ficar verdadeira, tem de dar um desconto para a realidade, pois a vida real, muitas vezes, parece delírio. ´Se a realidade não for atenuada, a história fica inverossímil`, garante o experiente criador da saga do capitão Nascimento.

Escritor de cinema, de teatro e de livros, formado em letras e literatura pela PUC de São Paulo, Mantovani verte o onírico em verbo. Dedicado operário da sintaxe, explora a pontuação para expressar o conturbado universo mental de seus personagens. No começo do romance, CFD e Mantoan, aparentemente sadios, nos falam normalmente – com pontos, vírgulas e travessões no devido lugar. Perto do fim, quando a loucura se aproxima, já não há pausas nem tempo para respirar. A paranóia delirante engole vírgulas; tira o fôlego de quem acompanha a jornada de Perácio.

Bráulio, aliás, não se limita a perseguir palavras, vírgulas e as armadilhas da sintaxe. Também usa a tipologia como linguagem. No início, a fala de cada personagem ganha um tipo de letra. No final, quando as histórias se embaralham e o delírio se avizinha, as fontes das letras se misturam no mesmo parágrafo. Coisa de gente apaixonada por poesia concreta.

* Com texto de Ângela Faria