BRÁULIO MANTOVANI Estréia na Ficção

Bráulio Mantovani, autor dos roteiros cinematográficos Cidade de Deus ( indicado ao Oscar em 2004), Tropa de Elite e Tropa de Elite 2, emprestará agora suas palavras à Literatura.

Corajosamente, Bráulio evita o caminho aberto pela fama para aventurar-se noutras paragens. Seu instigante romance de estreia em nada lembra as sagas do capitão Nascimento ou de Zé Pequeno. A overdose de realidade, fonte de inspiração dos filmes de Fernando Meirelles e de José Padilha, dá lugar à obsessão e à loucura.


Mais conhecido por tramas sobre a violência, Mantovani explora limites da sanidade. Foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Quem resolver encarar o livro de Mantovani deve se dispor a abrir mão da ´segurança` deste nosso mundinho aparentemente real. Perácio – Relato Psicótico (Editora Leya) é incômodo, estranho e não facilita em nada a vida do leitor. Esnoba com gosto a chamada literatura fast food.

Sonho, loucura, sanidade, realidade e delírio são a matéria-prima de Mantovani. Antes mesmo das primeiras páginas, o leitor já se depara com enigmas: a orelha do livro traz e-mails supostamente trocados entre Pascoal Soto, editor da Leya, e o psicanalista e escritor Contardo Calligaris. Assunto: Mantovani à beira de um ataque de nervos. ´Bráulio, juízo!`, aconselha o dono da Leya no texto da contracapa. Em vez do habitual prefácio, as primeiras páginas trazem uma ´carta` do narrador da trama a Pascoal Soto.

´São brincadeiras`, despista Mantovani. E faz a repórter jurar que não vai estragar a surpresa do leitor. O romance entrelaça as histórias de Perácio, CFD e de ´Bráulio Mantoan, il diavolo`. Espécie de avatar do escritor, o tal diabo não escapa do vertiginoso labirinto de tormentos do personagem CFD, cronista da saga de um suposto agente da ditadura chamado Perácio. Internado num manicômio paulista, esse ex-brucutu se dedica a medir o mundo com seu paquímetro.

Cabreiro com a aparentemente hermética história de CFD e Mantoan, o leitor, aos poucos, cai na armadilha. Fissurado, quer saber mais – mesmo quando nada faz sentido. O cineasta Fernando Meirelles confessou a Bráulio: ganhou uma baita insônia depois de ler o livro.

DIVÃ

Perácio – Relato Psicótico levou 16 anos para ficar pronto. Surgiu bem antes da parceria de Bráulio Mantovani com Meirelles, no início da década de 2000, para adaptar o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, para o cinema. O livro só saiu da gaveta porque Carol Kotscho, mulher do escritor, insistiu que o marido mostrasse os originais ao editor da Leya.

Desde pequeno, Bráulio convive com pesadelos. Tem 47 anos, é freguês assumido dos divãs. Sonhos ruins só lhe dão trégua quando frequenta sessões de análise. ´Confundo memórias reais com sonhadas`, conta ele. A tênue linha entre sonho e loucura o fascina. Bráulio Mantovani diz que ficção, para ficar verdadeira, tem de dar um desconto para a realidade, pois a vida real, muitas vezes, parece delírio. ´Se a realidade não for atenuada, a história fica inverossímil`, garante o experiente criador da saga do capitão Nascimento.

Escritor de cinema, de teatro e de livros, formado em letras e literatura pela PUC de São Paulo, Mantovani verte o onírico em verbo. Dedicado operário da sintaxe, explora a pontuação para expressar o conturbado universo mental de seus personagens. No começo do romance, CFD e Mantoan, aparentemente sadios, nos falam normalmente – com pontos, vírgulas e travessões no devido lugar. Perto do fim, quando a loucura se aproxima, já não há pausas nem tempo para respirar. A paranóia delirante engole vírgulas; tira o fôlego de quem acompanha a jornada de Perácio.

Bráulio, aliás, não se limita a perseguir palavras, vírgulas e as armadilhas da sintaxe. Também usa a tipologia como linguagem. No início, a fala de cada personagem ganha um tipo de letra. No final, quando as histórias se embaralham e o delírio se avizinha, as fontes das letras se misturam no mesmo parágrafo. Coisa de gente apaixonada por poesia concreta.

* Com texto de Ângela Faria

Uma resposta para “BRÁULIO MANTOVANI Estréia na Ficção

  1. Procuro contato com Bráulio Mantovani, sou autor do livro
    “Voando em um céu solitário” em sua 2ª edição. Minha intenção e enviar o livro para sua análise.

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