LG Miranda Leão e os Melhores de 2010

A Ver e Rever, Decididamente

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Ilha do Medo, melhor do ano na lista do crítico L.G. de Miranda Leão: filme é marcado pela competência de Martin Scorsese na direção, driblando percalços do roteiro

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Ricardo Darín, em O Segredo dos seus Olhos, do argentino Juan José Campanella: Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009

 

Em mês de vacas magras nos cinemas, o crítico L.G. de Miranda Leão enumera os 10 melhores filmes de 2010. Oito já estão disponíveis em DVD. Os demais chegam este mês às locadoras.

 

 

 

 

A exemplo de muitos verões, o Diário do Nordeste relaciona a seguir os 10 Melhores Filmes de 2010, conforme vistos, revistos e analisados pelo crítico e escritor L. G. de Miranda Leão, colaborador do jornal desde os anos 80. Seguem comentários sucintos sobre as qualidades intrínsecas de cada um dos filmes escolhidos. Ei-los:1.  Ilha do Medo (Shutter Island), de Martin Scorsese. “É um filme alucinatório”, nas palavras do renomado crítico e autor Jorge Coli em sua seção Ponto de Fuga da Folha de S. Paulo. “Traumas, choques, memória individual e coletiva, o crime e o massacre são os grandes temas capazes de adquirir forma cinematográfica, forma feita, ela própria, de memória”.

Apesar de alguns percalços no roteiro, decorrentes do romance policial de Dennis Lehane (o mesmo autor do excelente “Sobre Meninos e Lobos”, de Clint Eastwood), Scorsese, sempre um diretor de peso, sai-se a cavaleiro do labirinto no qual penetrou como realizador. Pois em “A Ilha do Medo” há criminosos loucos ou loucos transformados em criminosos, além de outros personagens mentalmente perturbados.

Assim, é como se coisas mortas voltassem a viver, como se espectros do passado interferissem no presente, “vistos” aqui e ali mediante utilização inteligente do PPVS (plano-ponto-de-vista-subjetivo) do qual um dos seus melhores exemplos se encontra em “A Face Inocente do Terror” (The Other), de Robert Mulligan (1972), quando o irmão gêmeo do garoto já não existe, mas o espectador o “vê”, ou de quando vemos breve cenas do almoço ao ar livre pela mente agônica do personagem vivido por Michel Piccoli em “As Coisas da Vida” (Les Choses de La Vie), de Claude Sautet (1969).

Quanto ao mais, Scorsese conduz com segurança todos os intérpretes, com Leonardo di Caprio e Ben Kingsley à frente, assim como o ritmo das ações sempre imprevisíveis até o desfecho. Quanto a este, basta lembrar como o percurso interior do personagem supera a descoberta final. A nosso ver, o Melhor Filme de 2010.

DRAMAS

2. O segredo dos seus olhos (El Secreto de sus Ojos), de Juan José Campanella. Muito bom como cinema, tendo ganho nos EUA o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Apesar da narrativa complexa e fragmentada, com base no livro “La Pregunta de sus Ojos”, de Eduardo Sacheri, com muitos nomes e recuos e avanços no espaço-tempo, não há nada inverossímil ou indecifrável.

O filme de realizador argentino traz instantes inesquecíveis como o “plongée” em movimento sobre um estádio de futebol ou a despedida dos dois amantes (Irene Menendez e Ricardo Darin) na estação ferroviária, quando a mulher põe a mão espalmada no vidro do trem como signo de um futuro encontro entre eles, enquanto uma melodia harmoniosa reforça a expressividade da separação momentânea. Atores de primeira são conduzidos com maestria por Campanella, enquanto a direção fotográfica de Felix Monti surpreende.

3. Coração Louco (Crazy Heart), de Scott Cooper. De há muito Hollywood estava devendo um Oscar a Jeff Bridges, excelente ator de vários filmes relevantes, dentre os quais “A Última Sessão de Cinema”, de Peter Bogdanovich, quando foi premiado como Melhor Ator Coadjuvante, e em “O Suspeito da Rua Arlington”, de Mark Pellington, quando foi injustamente esquecido.

Desta feita, no papel de um cantor country, meio decadente e um tanto ultrapassado, ele suplantou a si mesmo: sobrevive a um deastre e reencontra o amor com uma jornalista (Maggie Gyllenhaal) determinada a desvendar o homem atrás do microfone e do álcool. Um tento para Scott Cooper.

4. O Refúgio (Le Refuge), de François Ozon, um dos melhores diretores da safra deste século, elogiado por uma “mise-en-scène” atenta em “Oito Mulheres” (2002). O Refúgio trata do amor e dos encontros e desencontros dos personagens.

Desta feita, uma jovem descobre estar grávida depois da morte do amante, vítima de overdose. Morando sozinha numa casa de praia, ela acaba recebendo a companhia do cantor e compositor Paul, irmão do morto. Arma-se assim nova equação. Isabelle Carré, a protagonista, transmite discreta sensualidade apesar da barriga de seis meses e acaba tendo um caso com Paul.

Filme adulto valorizado pelo desempenho do elenco e até de pontas, bem assim pelos versos e melodia criados por Paul em noite de inspiração. “Prises de vues” da praia e dos exteriores de sol brilhante enriquecem a ambiência dentro do qual atuam os jovens. Destaquem-se algumas cenas fortes e a iluminação de interiores, assim como a desenvoltura de Isabelle em momentos de difíceis escolhas.

MODERNISTAS
 
 5. Coco Chanel & Igor Sravinsky, exibido no Espaço Unibanco quando do Festival Varilux do Cinema Francês, traz a assinatura de Jean Kouben, realizador holandês pouco conhecido por estas plagas, mas de quem lemos boas referências ao seu trabalho diretorial.

Drama biográfico inspirado em caso real, Coco Chanel & Igor Stravinsky reconstrói o “affair” da famosa estilista francesa interpretada por Anna Mouglais com o compositor russo, quando se conheceram em 1913, após uma exibição pública de Stravinsky (sua música hoje é bem aceita pelos russos, antes não era porque este se manifestou contra o regime soviético).

Com sua ida à França, o caso entre Coco e Igor passou pela Grande Guerra (1914-18) e se estendeu até 1920, isso porque Coco ofereceu sua casa de campo a Igor de modo pudesse o artista dedicar-se mais à sua carreira artística. A aproximação erótica entre os dois em plena residência se revela pelas imagens-rosto e a troca de olhares entre eles, tudo isso percebido por Katharina (Yelena Morizova), mulher de Stravinsky.

Há imagens ricas no filme a partir mesmo do concerto de gala onde os amantes se viram pela primeira vez e onde a música de Stranvisky se revelou renovadora e fora dos padrões clássicos. A visão panorâmica do grande teatro se enriquece quando a iluminação em p&b capta a platéia de ângulos diferentes no enquadramento seletivo das imagens e no corte preciso.

Coco e Igor acabam chegando à cena do êxtase, “scène filmée en plongée”, como escreveu um crítico francês, bastante sugestiva da completude de um gozo absoluto, mesmo quando temporário, como estabeleceu Wilhelm Reich em sua obra (confira “A Função do Orgasmo”, Brasiliense, 1975). Sem dúvida, um dos melhores do ano.

CONFLITOS

6. O Profeta (Le Profette), do diretor parisiense Jacques Audiard, vencedor de nove prêmios em festivais internacionais, como o de Cannes e também do Bafta inglês. Audiard enfoca um tema político-social sugestivo dos desentendimentos entre grupos religiosos de muçulmanos estabelecidos na França.

O grande público não apreendeu bem o quanto Audiard pretendeu dizer com seu enfoque (“Ninguém é dono da verdade”, “Ubi veritas?”, teria dito ele a um grupo de manifestantes), antes uma denúncia e um alerta de tal forma não se criem conflitos religiosos em plena sociedade francesa democrática. Cenas de rua expressivas, assim como a direção de atores, máxime quando a proximidade dos rostos e as expressões fisionômicas podem sugerir um “quem cala consente”…

7. Amor sem escalas (Up in the Air), com roteiro de Sheldon Turner e Jason Reitman, baseado no livro de Walter Kim, tem direção de Reitman e surpreende pelo tratamento cinematográfico dado a um tema difícil, como o do consultor de uma empresa, incumbido de demitir funcionários mediante considerações de ordem vária, como aquela de não mais servirem aos interesses da produção, etc.

George Clooney protagoniza o filme com categoria e tem tido uma carreira das melhores no cinema, pois já ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante em “Syriana” e de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original em “Boa Noite e Boa Sorte”, ambos de 2005, e também de Melhor Ator em “Conduta de Risco” (2007).

Solteiro convicto, Ryan, o personagem vivido por Clooney, só pensa em si mesmo, pois toda sua atividade profissional se concentra em aviões, aeroportos e hotéis, sendo seu maior objetivo profissional obter no fim de contas um cartão ultra “VIP”, caso consiga 10 milhões de dólares de milhas voadas…

O aeroporto é o único lugar no qual Ryan se sente conectado, justamente onde todos, estranhos de procedências e de línguas diferentes, estão juntos mas completamente separados… as relações humanas são apenas o peso na mala, única coisa capaz de impedi-lo de viver agilmente…

Para Reitman, nossa felicidade possível nesta curta vida irá depender de nossas escolhas e do chamado jogo de acasos, esse conjunto de causas imprevisíveis e independentes entre si, as quais não se prendem a um encadeamento lógico e racional…

O desenlace do filme, bem dirigido e com eficiente poder de síntese e ritmo, combina o irônico da situação profissional de Ryan, agora também com um caso amoroso, com a surpresa reservada tanto para ele como para o espectador. No elenco, além de Clooney, atuam com classe Anna Kendrick e Kristen Stewart, duas mulheres capazes de mudar a vida do personagem de Clooney. Um filme de muito alcance e competênciCinéfilo e crítico de cinema.

DEZ MAIS de 2010

1. Ilha do Medo (Disponível em DVD)

2. O Segredo dos seus Olhos (DVD)

3. Coração Louco (DVD)

4. O Refúgio (DVD)

5. Coco Chanel & Igor Stravinsky (DVD em pré-venda)

6. O Profeta (DVD em pré-venda)

7. Amor sem escalas (DVD)

8. Tropa de Elite 2 (DVD)

9. A Fita Branca (DVD)

10. A Ressaca (DVD)

L.G DE MIRANDA LEÃO*
ESPECIAL PARA O CADERNO 3

* Matéria publicada no jornal Diário do Nordeste

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