Arquivo do dia: 15/01/2011

Sempre por um triz …

Quando A Última Palavra Grita Solidão

O curta-metragem A Última Palavra nos convida a reflexões de ordens várias: lá estão as íntimas ligações entre amor e morte de que nos fala o cientista social Zigmund Bauman…

É clara a influência da obra incisivamente poderosa do poeta Augusto dos Anjos em sua vocação inescapável para os temas da finitude: são imagens de cemitério que ilustram os diálogos cruciais das duas personagens principais. E, embora possa até não ter pensado nisso conscientemente, o diretor coloca na tela diversas cenas cuja inspiração notamos vir de nomes como Caravaggio ( primeiro grande representante do estilo Barroco na pintura),  da teatralidade imagética do diretor mineiro Gabriel Villela (codificado no pé da cigana que nunca pára estático), e até Arthur Bispo do Rosário, ícone da Arte Contemporânea do Brasil, que utilizava a palavra como elemento pulsante – como pulsantes são os fragmentos de discursos amorosos que abrem e fecham o curta de Chico Cavas.

 Já o precioso espírito dos artistas impressionistas – acostumados a trabalhar ao ar livre e sob a luz do sol -, como Monet, Renoir, Mondrian está patente na cena em que a cigana encontra sua futura partner, em passeio matinal numa praça qualquer de uma grande cidade – o filme traz essa ambiência sem localizar uma geografia específica, portanto, a trajetória da cigana é atemporal  e recôndita, embora lídima – poderia se passar em qualquer lugar do mundo. Também intuímos a opacidade plástica de Magrit (maior representante do Surrealismo na Bélgica) através de seu célebre quadro dos amantes que se beijam de olhos vendados, afirmação de dois desconhecidos ante o mesmo desejo.

O amor, que tanto pode suplantar a morte como causá-la, está disposto em A Última Palavra, conforme bem definiu o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu: A morte e o amor. Porque o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma, dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.

Assim, a harmoniosa fotografia de Lília Moema facilita a construção de um arcabouço imagético sensível e poderoso, conseguindo extrair do mais banal uma rica palheta de cores e significados que desafiam um olhar mais acurado e a atenção aos detalhes mais sutis, como no insólito ambiente da última morada. Essa construção também nos transporta ao universo barroco de Aleijadinho, trasmudado nas estátuas e símbolos ecumêmicos evidenciados nos insólitos quadros de um cemitério deserto, entregue ao abandono físico e sensório, tão maior e cruel quanto tão profunda é a dor pela perda de um amor, encerrado sem sequer uma palavra de adeus.

Afinal, de quem é o olhar que olha Carmen e sintoniza Esther ? Quem nos convida a prestar atenção na cigana e a prescrutar as sonoridades de sua inquietação existencial ? De quem o farol a guiar o espectador por este mundo insólito de sombras e dúvidas onde os horizontes semelham labirintos e parecem estágios de solitude e descompreensão diante do nada, do finito, da instabilidade emocional ?

Este olhar que nos desassossega do estado de não-imersão é o mesmo que nos remete involuntariamente para tentar decifrar os sentimentos de Carmen, os caminhos e descaminhos que a personagem perfaz, quer por vontade própria ou por circunstâncias alheias à sua voluntária decisão. Estes, são tantos quanto estão representados na instigante concepção das Sete Vidas, trazodas ao ecrã pela opção estética da apresentação dos felinos no cemitério… eles são sete e ilustram o último diálogo das amantes, cujo fim é trágico, como sói acontecer na quase totalidade das histórias que se constroem entre iguais ou dos amores que existem e se afirmam fora das obsoletas e toscas visões de um tipo único e idealizado de par amoroso.

Tudo que ali nos parece estranho ou incompleto ao mesmo tempo desenha intersecções com experiências já vividas ou intuídas. A certeza de palavras já ditas, versos já ouvidos e sons de rascante intensidade aproximam o espectador da polaridade sentimental que invade a alma em certos momentos de angústia ancestral, não nos abandona e perpassa o leitmotiv do filme em todos os fotogramas.

Lília Moema e Aurora Miranda Leão: filmagens realizadas no centro de Fortaleza em clima de absoluta alegria…

Conseguir captar e traduzir isso tudo em apenas 15 minutos não é tarefa fácil. Necessário um roteiro competente, uma equipe bem entrosada, uma construção de ambiente e luz adequada ao clima que se quer imprimir na textura da obra, uma produção que atente para essas sutilezas do roteiro e uma câmera bem conduzida. Ressalte-se então o inovador e bem construído roteiro de Chico Cavas Jr. (estreante na função) e toda a disponibilidade da equipe envolvida na realização de A Última Palavra. Lília Moema é fotógrafa com anos de atuação no métier e aqui revela, mais uma vez, seu talento e vocação para os cuidados e afetos necessários à captação da luz, escolhendo ângulos que se aproveitem não só por sua beleza mas, sobretudo, pela delicadeza de sua significação e a sincronicidade com o que o roteiro desenha em palavras.

Em A Última Palavra, as saídas para o vazio que se interpõe entre as amantes são as estradas ermas de um espaço de contemplação da morte ou a areia da praia que fareja o mar e sua imensidão infinita. As cartas que um dia anunciarão o amor estão agora dispersas num túmulo que, apesar de tudo, é díficil negar. Por outro lado, o mar e o vazio que sua imensidão desenha no oceano infinito – disponibilizado em sua essência mais trivial para as personagens Esther e Carmen – é como uma foice afiada a amolar seus gumes no oco imenso e profundo que dilacera a alma ante a desilusão do amor que podia ter sido e morreu antes de florescer.

Será assim o amor, sempre por um triz, como tão sabiamente canta Herbert Vianna em uma de suas pérolas ?

A Nobre PENHA de Gilson Martins

Pão de Açúcar, Corcovado e, agora, a Penha. O bairro é o mais novo homenageado do designer Gilson Martins, conhecido por transformar paisagens cariocas em estampas de bolsas, sucesso mundo afora.

Gilson fez pré-lançamento da exposição Penha Nobre, no lounge da Firjan, no Fashion Rio, e lançará a coleção de bolsas, terça-feira, na galeria de arte de sua loja de Ipanema.

Foto: Felipe O´Neill / Agência O Dia

Tudo começou em novembro, na semana anterior à ocupação do Complexo do Alemão. “Minha fábrica, a GBlue, fica nos arredores da Penha e muitos dos meus funcionários moram na região. Passamos uma semana muito tensa. Após a ocupação, pensei numa maneira de transformar este assunto em algo positivo para a festa de fim de ano”, conta ele, que teve, então, a ideia de fazer um concurso entre os funcionários.

“A partir da sobra de materiais, eles elaboraram frentes de bolsas com imagens positivas da Penha e do Complexo do Alemão. No começo, poucos aderiram, mas um foi chamando o outro e os 23 participantes ficaram radiantes”, comemora Gilson, que fará um leilão, ainda sem data marcada, para vender as bolsas. “E 50% da renda será revertida para os seus autores”.

E a Penha vai entrar mesmo na moda. “Este é apenas o início. Vou criar uma linha Penha, com bolsa, porta-moedas, nécessaire, com ícones do bairro, como a igreja”, revela ele, adepto do estilo retrô da área. “É tudo muito autêntico. Tem casinhas lindas, com pastilhas e imagens de santos. A Penha lembra a minha infância”, declara.