Arquivo do dia: 08/05/2011

Desabafo de BRESSANE:”Há uma espécie de desaparição do humano no coração da sociedade”

 JULIO BRESSANE
‘Não me enterrem vivo’ 
Em Lisboa para mais uma retrospectiva europeia
de sua obra, o cineasta Julio Bressane diz
que no Brasil é ignorado pelos editais de
financiamento de filmes, as esquerdas e a
imprensa o boicotam há 40 anos e a opinião
pública de hoje é herdeira do fascismo 


Entrevista a Arnaldo Bloch
Foto: Enric Vives-Rubio, de Lisboa 

Como é ser um dito cineasta 
marginal no século XXI?

– Hoje a expressão marginal goza até 
de certo prestígio. Mas foi uma invenção
espúria no âmbito de um certo es-
querdismo que não perdoava
qualquer espírito de vanguarda
que não rezasse pela cartilha, co-
mo o meu. Não era um bloco mo-
nolítico. Afinal, Cinema Novo, em
termos de filmes, não queria dizer
nada. É sempre assim: no fim, co-
locam um rótulo para facilitar a
inserção no mercado.

Como a bossa nova…

– Ou como a Nouvelle Vague. Truf-
faut, quando indagado sobre o mo-
vimento, disse que eram uns contra
os outros. Mas o fato é que a coisa
do “marginal”, para esse grupo, sig-
nificava a abjeção suprema, o antis-
social. E essas pessoas criaram a
Embrafilme, tomaram conta das
fontes de financiamento e conti-
nuam no poder até hoje. Assim o
guichê da Embrafilme ficou vedado
a uma meia dúzia de desajustados,
entre os quais gente como eu e o
Sganzerla. Por isso precisei inventar
uma maneira de se fazer filmes sem
dinheiro, para sobreviver.

Mas como seus filmes são fi-
nanciados?

– Em geral, como qualquer filme:
através do dinheiro público. Mas
com orçamentos pífios, que va-
riam de R$ 200 mil a R$ 500 mil. Po-
rém, um dos meus projetos recen-
tes no qual eu mais apostava, “O
beduíno”, vem sendo barrado há
dois anos. Nos três editais de que
participei, solicitando R$ 600 mil
para produzir todo o filme, as co-
missões julgadoras concederam
seu aval para 65 longas-metragens
e eu fiquei de fora!

O que aconteceu?

– Além das razões que citei antes, há
esta mentalidade de que “filme de
público” ou “filme de mercado” têm
preferência. Ora, isso não existe.
Com raras exceções, não há filme
que dê lucro. A cada 50 filmes ame-
ricanos, um se paga. Se considerar o
custo do filme, o público não paga
nem a cópia. O dinheiro vem única e
exclusivamente das fontes, privadas
ou oficiais, de financiamento. São
elas que pagam as equipes, os dire-
tores, os atores. Os filmes brasilei-
ros, então… Com exceção de um ou
dois, é tudo deficitário.

Dos seus filmes, qual deu 
mais público até hoje?

– Nenhum deu “mais público”, já que
nenhum deu público algum… Mas
mesmo que nem eu vá, eles nunca
dão prejuízo em comparação com
esses colossos de custos astronômi-
cos. Filmes que custam R$ 200 mil já
estão no lucro só de irem à tela. O
mais recente, “A erva do rato”, ficou
nove semanas em cartaz numa sala.
Há grandes produções que ficam o
mesmo tempo e produzem grandes
rombos. Outra limitação é a impren-
sa. Venho sendo vítima de um traba-
lho prolongado de censura a mim e
a meus filmes. Quando fiz “Cleópa-
tra”, a maneira com que o filme foi
tratado foi de uma brutalidade e vul-
garidade sem par. É uma mentalida-
de genocidária. O que não quero é
que me enterrem vivo, isso é que
não pode. Essas coisas representam
uma espécie de veto à sua vida. Fei-
to por gente com sensibilidade de
barata. Esquecem que há gente sen-
sível. Às vezes o que para uma pes-
soa é uma coisa natural pode levar
outra à morte. Conheço em cinema
pelo menos três casos.

Bom, mas você não há de ser
um desses, certo?

– Não sei. A tentativa de me “matar”
tem sido feita sistematicamente. Ve-
ja minha trajetória de filmes e o que
tive eu de acesso e possibilidades de
produção e de fazer filmes. Você é
vetado, boicotado, silenciado, por
forças poderosas. Um adversário de
tamanha potência econômica como
eu! (Risos.) São mentalidades muito
antigas que nada mudaram, naque-
las mesmas cerebrações do que ha-
via de pior entre nós, essa praga es-
querdista. E estão todos, sem exce-
ção, em adesão total, indiscutível,
àquilo contra o que procuraram lu-
tar. Ou seja, na realidade, sempre
quiseram, mas jamais estiveram em
luta contra nada.

Por outro lado você está aí, em
Lisboa, sendo homenageado…

– Sim. Acabo de voltar da abertura do
Festival de Lisboa. Amanhã (sexta-
feira) começa a minha retrospectiva.
São 18 filmes, um catálogo de pri-
meira. Esta é, aliás, a décima-primei-
ra que estão fazendo dos meus fil-
mes no exterior. E estou filmando
“Fernando Pessoa”, um filme que dá
conta do grande xadrez ficcional, cu-
bista, deste que representou, na lín-
gua portuguesa, o que todos os mo-
vimentos de ruptura representaram
no pré e pós-Primeira Guerra. Vou
mostrar também em alguns festivais
da Europa meu último longa, “Rua
Aperana 52”, coprodução com o Ca-
nal Brasil graças ao Zelito Vianna.
Meus filmes passam no mundo intei-
ro. Tenho sido visto por olhos dife-
rentes. A questão é essa, não de ape-
nas ficar precisando desse ou da-
quele elogio, mas de não ser assas-
sinado em meu país.

E do que você vive?

– Normalmente, não de meus filmes.
Tenho algum dinheiro herdado de
meus pais, pouca coisa. Uso para
comprar livros. Porém, mais recen-
temente vendi 25 filmes para a Rai
(Radiotelevisão Italiana) por 9 mil
cada. E, apesar de extremamente ca-
seiro, vou ficar oito meses circulan-
do por festivais na Itália e gravando
apresentações de meus filmes para a
TV. Acho que é a primeira vez que
há uma compra desse porte, em ter-
mos de número de filmes, de um ci-
neasta brasileiro.

Como você avalia o cinema ho-
je feito no Brasil e no mundo?

O cinema, esse que foi feito e pelo
qual me empenhei, tenho impres-
são de que desapareceu. Não há
mais o espírito, a formação do ci-
neasta. O cinema é um transe, um
organismo intelectual que atra-
vessa as artes e as ciências. Um
transe caótico, químico, que de-
senvolve tudo. Um radical instru-
mento de autotransformação.
Mas, de uma maneira geral, 90% a
95% dos filmes de qualquer nacio-
nalidade, hoje, são pastiches da
vulgaridade, num contexto dese-
quipado de tudo. Faço o meu de
acordo com a minha consciência.
Mas sei que prevalece o triunfo
acrítico do homem medíocre.
Uma espécie de desaparição do
humano no coração da socieda-
de. A indiferença feita mercado-
ria. Há um contínuo processo de
mediocrização da criação e de sa-
tisfação do homem medíocre.

Mas o que você chama de ho-
mem medíocre não é o homem
comum, que sempre prevaleceu?

Sim, sim, sei que o homem me-
díocre é o destino da Humanida-
de. O homem é arrastado para a
mediocridade. Mas, normalmen-
te, o que contraria esse destino é
justamente o esforço e o contra-
apelo da arte. A coisa grotesca é
você fazer isso que se faz como
entretenimento, o chamado “fil-
me de público”, e achar que é al-
guma coisa semelhante à arte.
No Brasil isso é completamente
evidente. O triunfo do homem
medíocre é sem pudor. É uma exi-
bição de currioladas, cegueira de
reinos, de poderes, do gesto acla-
mativo do tirano substituído por
uma tirania sem rosto. Um facis-
mo de verdade que se agarra aos
valores, às almas, aos gestos, às
linguagens, a todo o corpo. Esse
fascismo hoje tem um nome: opi-
nião pública. São esses os con-
troladores. É o que manda hoje.
O garçom esteta. O lanterninha
de cinema que vira diretor. Toda
uma invenção e falta de proprie-
dade e preparo que representa
esse mundo que está ali. Isso na-
da tem a ver com ideologia da po-
lítica. Tem a ver com cada indiví-
duo. É cada uma das pessoas.
Não é uma malta de bandalhos.
Cada uma faz a sua “coisa”.

Bressane: “Precisei inventar uma maneira de se fazer filmes sem dinheiro”

‘Não me enterrem vivo’

Cineasta Julio Bressane reclama de boicote ao seu trabalho por parte das esquerdas e da imprensa

* Arnaldo Bloch para o jornal O Globo

 Julio Bressane em Lisboa, na Avenida da Liberdade - Foto Enric Vives-Rubio

Em Lisboa para mais uma retrospectiva europeia de sua obra, o cineasta Julio Bressane diz que no Brasil é ignorado pelos editais de financiamento de filmes, as esquerdas e a imprensa o boicotam há 40 anos e a opinião pública de hoje é herdeira do fascismo. 

Como é ser um dito cineasta marginal no século XXI?

JULIO BRESSANE: Hoje a expressão marginal goza até de certo prestígio. Mas foi uma invenção espúria no âmbito de um certo esquerdismo que não perdoava qualquer espírito de vanguarda que não rezasse pela cartilha, como o meu. Não era um bloco monolítico. Afinal, Cinema Novo, em termos de filmes, não queria dizer nada. É sempre assim: no fim, colocam um rótulo para facilitar a inserção no mercado.

Como a bossa nova…

Ou como a Nouvelle Vague. Truffaut, quando indagado sobre o movimento, disse que eram uns contra os outros. Mas o fato é que a coisa do “marginal”, para esse grupo, significava a abjeção suprema, o antissocial. E essas pessoas criaram a Embrafilme, tomaram conta das fontes de financiamento e continuam no poder até hoje. Assim o guichê da Embrafilme ficou vedado a uma meia dúzia de desajustados, entre os quais gente como eu e o Sganzerla. Por isso precisei inventar uma maneira de se fazer filmes sem dinheiro, para sobreviver.

Mas como seus filmes são financiados?

Em geral, como qualquer filme: através do dinheiro público. Mas com orçamentos pífios, que variam de R$ 200 mil a R$ 500 mil. Porém, um dos meus projetos recentes no qual eu mais apostava, “O beduíno”, vem sendo barrado há dois anos. Nos três editais de que participei, solicitando R$ 600 mil para produzir todo o filme, as comissões julgadoras concederam seu aval para 65 longas-metragens e eu fiquei de fora!

O que aconteceu?

Além das razões que citei antes, há esta mentalidade de que “filme de público” ou “filme de mercado” têm preferência. Ora, isso não existe. Com raras exceções, não há filme que dê lucro. A cada 50 filmes americanos, um se paga. Se considerar o custo do filme, o público não paga nem a cópia. O dinheiro vem única e exclusivamente das fontes, privadas ou oficiais, de financiamento. São elas que pagam as equipes, os diretores, os atores. Os filmes brasileiros, então… Com exceção de um ou dois, é tudo deficitário.

Dos seus filmes, qual deu mais público até hoje?

Nenhum deu “mais público”, já que nenhum deu público algum… Mas mesmo que nem eu vá, eles nunca dão prejuízo em comparação com esses colossos de custos astronômicos. Filmes que custam R$ 200 mil já estão no lucro só de irem à tela. O mais recente, “A erva do rato”, ficou nove semanas em cartaz numa sala. Há grandes produções que ficam o mesmo tempo e produzem grandes rombos. Outra limitação é a imprensa. Venho sendo vítima de um trabalho prolongado de censura a mim e a meus filmes. Quando fiz “Cleópatra”, a maneira com que o filme foi tratado foi de uma brutalidade e vulgaridade sem par. É uma mentalidade genocidária. O que não quero é que me enterrem vivo, isso é que não pode. Essas coisas representam uma espécie de veto à sua vida. Feito por gente com sensibilidade de barata. Esquecem que há gente sensível. Às vezes o que para uma pessoa é uma coisa natural pode levar outra à morte. Conheço em cinema pelo menos três casos.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/05/06/julio-bressane-reclama-de-boicote-ao-seu-trabalho-por-parte-das-esquerdas-da-imprensa-924399511.asp#ixzz1Ljsd7CGr

 

* N.R.: Cineasta de minha maior admiração, cuja obra O Mandarim, de 1995, foi tema de meu trabalho de conclusão da Pós-Graduação na UFC – Especialização em Audiovisual em Meios Eletrônicos -, JÚLIO BRESSANE é de nossos cineastas o mais erudito e um dos homens mais doces com quem já tive a oportunidade de conversar.

Fico profundamente triste e solidária ao desabafo de BRESSANE e, por isso, não posso deixar de expressar minha mais intensa sintonia com o pensamento e a obra magnânima deste Cineasta – a quem o mundo reverencia constantemente, seja através de mostras retrospectivas, palestras, debates e festivais de cinema, vide a homenagem que ora recebe em Portugal; a que recebeu no início do ano no Uruguai; e as homenagens anuais na Itália -, bem como minha completa repulsa a esta sensação de indiferença e desapreço que hoje se apossa de Julio, inexplicável por tudo quanto já doou à Cultura Brasileira e ao acervo emocional de tantas pessoas que, como eu, aprenderam a  admirá-lo por sua obra importante, singular, e necessária, e descobriram no cineasta um homem sábio, profundo conhecedor da cultura de seu país, sensível, de uma delicadeza que se expressa até na sua maneira pausada de falar e na sua voz sempre baixinha, e, sobretudo, um homem de Cultura e da Cultura, um erudito na verdadeira acepção da palavra.

Nosso APLAUSO mais carinhoso e solidário a JÚLIO BRESSANE e nossa profunda Admiração pelo seu Cinema e sua obra magistral.