Arquivo do dia: 09/05/2011

Documentário Celebra José Lewgoy

O texto é do colega José Geraldo Couto, do Estadão, o qual reproduzimos pela preciosidade a que se refere, com absoluto conhecimento de causa.

José Lewgoy em ‘Quando a Noite Acaba’, de 1950

Todo grande ator é único, mas José Lewgoy (1920-2003) foi talvez o “mais único” de todos. Nenhum outro trafegou com tanta desenvoltura – e estilo inconfundível – de Strindberg à chanchada, de Terra em Transe à novela das 7, de Werner Herzog a Eu Dou o Que Ela Gosta.

Um vívido retrato desse artista múltiplo é o documentário Eu, Eu, Eu, de Claudio Kahns, que deve chegar às telas em junho. Amigo de Lewgoy desde as filmagens de O Judeu (de Jom Tob Azulay), no final dos anos 80, Kahns não chegou a filmar depoimentos do ator para o documentário. “Ele sempre rechaçava”, explicou ao Estado. Dizia: “Isso é para quem está com o pé na cova, você está querendo me matar”.

Mas não faltam no filme entrevistas de Lewgoy, um homem que sempre gostou de falar de si mesmo. O próprio título Eu, Eu, Eu vem daí. É Paulo César Pereio que conta no documentário a saborosa história. Lewgoy estava falando ao telefone com Carlos Reichenbach, que se recuperava de um enfarte. Lá pelas tantas o cineasta pergunta ao ator: “Escuta, você não quer saber como eu estou? É só “eu, eu, eu”?”.

O proverbial mau humor de Lewgoy era, de acordo com os amigos, apenas aparente, superficial. “Ele é como o mar. Você passa aquelas primeiras ondas, na arrebentação, e depois é tranquilo”, diz o cartunista Chico Caruso no filme. O cineasta Guilherme de Almeida Prado, que o dirigiu em Perfume de Gardênia e A Hora Mágica, define lapidarmente: “Lewgoy tinha senso de mau humor”.

A ranzinzice do ator tinha certamente a ver com sua aguda consciência do próprio valor. E talvez, também, com o fato de ter vivido na profissão periódicas “quedas” – ou mudanças percebidas como tal por ele quando ocorreram.

Um exemplo foi sua volta ao Brasil, no final dos anos 40, depois de ter estudado arte dramática na Universidade de Yale, nos EUA, com uma bolsa conseguida graças à ajuda de Erico Verissimo, que o vira atuar no Teatro do Estudante de Porto Alegre.

“O navio nem tinha zarpado e eu já me arrependia da decisão de voltar”, diz o ator no documentário. “Deixei naquele cais (de Nova York) minha carreira de ator internacional.” O golpe foi duro. Após conviver com a nata do teatro norte-americano e atuar com sucesso em peças de Strindberg e Molière, Lewgoy se viu reduzido a papéis de vilão em chanchadas da Atlântida e sentiu isso como uma humilhação.

Paradoxalmente, foram esses papéis que lhe deram fama instantânea no Brasil. Lewgoy vivia tão duro que um amigo lhe pagou o ingresso para assistir à estreia de Carnaval no Fogo (Watson Macedo, 1949), no Rio. “Entrei no cinema desconhecido e saí famosíssimo”, relembra o ator no documentário.

De acordo com o jornalista e crítico Sérgio Augusto, estudioso da chanchada, passar de repente a ser reconhecido na rua serviu como uma compensação para o que o ator sentia como um “rebaixamento”:

 “Com sua experiência de teatro moderno e sua visão de cinema – pois tinha visto muitos filmes nos EUA -, Lewgoy era muito mais preparado que os atores brasileiros, que vinham do rádio, do teatro de revista, do circo”, explica o crítico em depoimento ao filme.

Mas a carreira do ator teve outras guinadas espetaculares. Depois de cinco anos de chanchada, durante os quais cristalizou sua persona de vilão, foi convidado para o Festival de Cannes de 1954. Foi para passar 15 dias, acabou ficando dez anos na França, onde, entre outras coisas, atuou sob a direção de Georges Rouquier (em S.O.S. Noronha, 1958) e contracenou com Louis Jourdan e Jean Marais, de quem se tornou amigo.

Na nova volta ao Brasil, em meados dos anos 60, viu-se sem lugar no mercado. A chanchada estava extinta. O Cinema Novo voltava seu olhar sisudo para a favela ou o sertão, cenários em que a figura de Lewgoy não se encaixava. A solução para o impasse veio num filme de exceção, em todos os sentidos: Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha.

O crítico e professor de cinema na USP, Ismail Xavier, resume ao Estado a importância de Lewgoy para a obra-prima de Glauber: “Sua contribuição foi fundamental para o filme como alegoria política. Ele compôs de forma extraordinária a entonação da voz, as oscilações da fisionomia e a retórica dos gestos largos do líder populista Vieira nas distintas fases de sua carreira, sua força e fraqueza, a faceta do “homem cordial” tomado pelos afetos (positivos e negativos) e o ar sombrio do político realista nos momentos de reflexão”.

Depois de Glauber, outra “queda” na cultura de massa. Em poucos anos, Lewgoy foi vilão em filmes de Roberto Carlos e coadjuvante num punhado de pornochanchadas como A Cama ao Alcance de Todos e Como é Boa a Nossa Empregada, e de telenovelas como Cavalo de Aço e O Rebu. De novo, a oscilação entre o reconhecimento “culto” e o êxito popular.

Essa versatilidade extrema, essa facilidade de transitar do registro mais sutil e refinado ao mais popular, quando não de fundir os dois, foi o que levou um de nossos cineastas mais cultos, Julio Bressane, a escalar Lewgoy em dois de seus longas (O Gigante da América, de 1978, e Tabu, de 82) e a escrever sobre ele um ensaio, José Lewgoy: Da Persona à Personalidade.

“A máscara de cera de Lewgoy era muito forte. Uma fácies espetacular”, disse Bressane ao Estado. “No Gigante ele fez coisas de improviso, inventou novos gestos, ressuscitou gestos antigos, numa sofisticada mise-en-scène do corpo. Ele trabalhava com muitos tempos heterogêneos. Era um ator e também um intelectual, leitor de Faulkner e Dos Passos. Citava de cor páginas inteiras de Camus.”

O cineasta Werner Herzog intuiu essa complexidade toda em Lewgoy ao vê-lo atuar em telenovelas brasileiras e resolveu chamá-lo para o papel de um barão da borracha em Fitzcarraldo (1982). O depoimento do diretor alemão é um dos pontos altos do documentário de Claudio Kahns.

“Eu ia enviar um cineasta alemão para captar o depoimento de Herzog, a partir de uma pauta que eu tinha preparado”, contou Kahns ao Estado. “Qual não foi minha surpresa quando Herzog preferiu que seu filho fizesse a entrevista, pois seria no final do ano com a família, numa casa que tem nos Alpes austríacos. Herzog deu um depoimento fantástico, quando recebi a fita nem acreditei. Ele inclusive tinha filmado alguns planos de cobertura, me mandou um recado dizendo como eu deveria utilizá-los.”

Não é preciso dizer que Lewgoy não só correspondeu às expectativas de Herzog como as superou, com seu extraordinário desempenho como o antagonista do alucinado Klaus Kinski em Fitzcarraldo.

Eu, Eu, Eu não chega a dar conta de todas as facetas e nuances desse artista singular, tarefa aliás impossível. Tampouco explica – nem poderia – seus enigmas e mistérios. Em compensação, traz cenas de boa parte dos cem filmes (84 brasileiros, 16 estrangeiros), bem como das 23 novelas e minisséries em que José Lewgoy atuou.

O próprio Lewgoy começou a escrever sua autobiografia, mas parou na primeira página. Ouvimos um trecho dela, na voz do ator, ao final do documentário: “Sou uma mistura de um personagem de Alice, aquele gato que sorri sempre, o Cheshire cat, que vai desaparecendo todo até ficar o sorriso, e o Mersault, de O Estrangeiro, do Camus. Quem quiser saber como eu sou, quem eu sou, leia Alice no País das Maravilhas e O Estrangeiro”. Então é isso.

José Wilker Dirige Primeiro Longa

São 20h e os corredores da Assembleia Legislativa do Rio estão movimentados. Mas não se trata de nenhuma sessão, e sim das gravações da comédia Giovanni Improtta, primeiro filme dirigido pelo ator cearense José Wilker.

Em torno de uma mesa redonda estão Wilker, Othon Bastos, Hugo Carvana e Milton Gonçalves, ou “D’Artagnan e os três mosqueteiros”, como define o último.

Eles estão passando o texto de cena em que fazem uma reunião da cúpula do jogo do bicho. Sob gargalhadas e charutos, a noite dá sinais de que será longa.

“Você não vai tirar a minha concentração”, diz Gonçalves a Carvana, que não pára de cantarolar.

Faltando ainda três semanas para finalizar as filmagens de um mês e meio, Wilker defende o clima de descontração, apesar da responsabilidade de rodar uma obra de R$ 6 milhões. “A gente trabalha 12, 15 horas por dia. Se isso não for prazeroso, não faz sentido”, diz.

  Paula Giolito/Folhapress  
Fotografias das filmagens de "Giovanni Improtta", dirigido e protagonizado por José Wilker.
Cena de “Giovanni Improtta”, dirigido e protagonizado por José Wilker.

SUCESSO

Giovanni Improtta foi criado por Aguinaldo Silva há 30 anos, quando lançou o livro “O Homem que Comprou o Rio”. Na obra, o personagem é um poderoso bicheiro. Mas a fama veio mesmo com a novela Senhora do Destino, em 2004.

Nela, Wilker interpretou o empresário da construção civil e presidente de uma escola de samba. Sua característica marcante é a forma incorreta de usar as palavras, como no bordão “o tempo ruge e a Sapucaí é grande”.

“Novela é uma coisa horizontal, e como o Giovanni para mim foi uma invenção muito saborosa, achei que valia a pena dar uma olhada mais vertical para ele. Então, eu e Aguinaldo escrevemos uma história, que não tem nenhuma ligação com a novela”, explica Wilker.

Nesta comédia, os bicheiros estão lutando contra a invasão dos cassinos. Para um debutante, Wilker parece bem confortável à frente de um filme de 62 atores.

“Eu sempre fiz isso. Minha origem como artista foi escrevendo, atuando, dirigindo. Estou trabalhando com amigos, que conheço há 30, 40 anos, como o Cacá [Diegues, produtor], que é a pessoa com quem mais trabalhei em cinema”, diz.

Com mais de 50 filmes no currículo, Wilker vê o país no caminho de consolidar sua indústria cinematográfica.

“A gente passou por vários surtos de cinema e, agora, estamos em um bom ciclo, mais duradouro. A gente ainda não tem cinema, a gente tem filmes. Mas estamos com boas perspectivas de criar uma indústria.”

* Texto de LUIZA SOUTO, do RIO

Teatro Baiano Inicia Turnê em Fortaleza

Projeto Trilogia Memórias  ocupará Teatro SESC Iracema e Hospital Universitário Walter Cantidio 
 

A capital cearense é a primeira cidade a receber as peças dramáticas que unem ficção e realidade, entrelaçadas à tragédia social de uma América Latina dominada por ditaduras militares. Cada uma conta, independentemente, recortes de uma história de mãe e filha, que os laços de vida deveriam unir, mas que o destino separou. 

Os três espetáculos – um deles encenado num hospital – reconstituem a História a partir de diversos pontos de vista, de trajetórias pessoais e de diferentes personagens. A Memória Ferida (que conquistou o Prêmio Braskem de Teatro de 2009 como melhor texto),A Morte nos OlhosNa Outra Margem, com textos assinados por Dinah Pereira, são três novas montagens que resultam de uma pesquisa dramatúrgica e cênica ancorada nas diversas possibilidades da narrativa como instrumento de reconstrução do passado e ressignificação do presente.Trilogia Memórias – Um grito contra o silêncio e o esquecimento: uma forma de compreender o outro e de atribuir sentido à experiência vivida. Três tentativas de explicar o que só o destino explica.  

 A Memória Ferida

   

Local: Teatro SESC Iracema

Data: 14/05

Horário: 20h

Ingresso: R$ 10,00 (inteira) e 5,00 (meia)

 

A Morte nos Olhos 

 Local: Teatro SESC Iracema

Data: 15/05

Horário: às 20h

Ingresso: R$ 10,00 (inteira) e 5,00 (meia)

 

Na Outra Margem  

   

Foto: Alessandra Nohvais

Local: Hospital Universitário Walter Cantidio (Hospital das Clínicas)

Data: 16/05

Horário: 19h

Ingresso: entrada franca

O PROJETO  

      Trilogia Memórias – Um Grito contra o Silêncio e o Esquecimento promove a circulação de três novas montagens teatrais baianas por cinco capitais brasileiras: Fortaleza (14 a 16 de maio de 2011), Aracaju (27 a 29 de maio), Recife (3 a 5 de junho), Porto Alegre (24 a 26 de junho) e Curitiba (1 a 3 de julho). A turnê, projeto vencedor do edital do Programa Eletrobras de Cultura, conta com patrocínio da Chesf.
     Com textos assinados por Dinah Pereira, como resultado de um pós-doutorado na Universidade de Quebec, no Canadá, a trilogia aborda a questão da memória e da alteridade, através de processos narrativos e tendo como pano de fundo a ditadura militar no Brasil. 
     Os espetáculos A Memória Ferida (que conquistou o Prêmio Braskem de Teatro de 2009 de melhor texto), A Morte nos Olhos e Na Outra Margem têm direção de Lucas Modesto e são encenados pela Companhia Estupor de Teatro e atores convidados. A produção da turnê é da ContraRegra Produções.
 

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SINOPSES 

A Morte nos Olhos é a fábula de uma moça desmemoriada que acorda num quarto de uma casa no Sertão do Nordeste sob os cuidados de uma Senhora muito generosa. Portando consigo apenas uma bolsa com um livro de mitologia e as páginas manuscritas de um conto fantástico inacabado, a moça decide continuar essa história, invocando seres mitológicos e imaginários, mergulhando num universo, onde ficção e realidade, pesadelo e memória se fundem.

 

A Memória Ferida reconstitui o trajeto de dois jovens de culturas diferentes que se reencontram e revivem um passado comum doloroso. Mas esse retorno ao passado esconde um outro passado ainda mais longínquo e agudo: Os Pais de Ana Kharima eram militantes que, tentando fugir dos militares no auge da ditadura militar, conhecem um destino trágico no Sertão do Nordeste, onde a filha é deixada sob os cuidados de uma Senhora num lugarejo árido e desértico.

 

Na Outra Margem ocorre num cenário hospitalar, num quarto com apenas um leito e conta a fábula de uma jovem vítima de um acidente grave de carro. Com vários traumatismos físicos e psíquicos, sob efeito intenso de grandes doses de morfina e outros tranquilizantes, a jovem vê desfilar diante de si os personagens da mãe, da enfermeira, dos médicos e de seus amantes, os quais lhe reconstituem, cada um ao seu modo, a sua história de vida.