Arquivo do dia: 19/05/2011

“Esse Homem Vai Morrer – Um Faroeste Caboclo”

Crônica de mortes anunciadas

Fé e teimosia’ – eis como o Padre Ricardo Rezende define sua perseverança na solidariedade aos lavradores sem terra e na denúncia do trabalho escravo, mesmo depois de frequentar uma lista de pessoas marcadas para morrer. Padre Ricardo é personagem e guia do docEsse Homem Vai Morrer Um Faroeste Caboclo”, de Emilio Gallo. Além das virtudes do sacerdote, o filme trata também do medo, da violência e da impunidade que adensam o ar de várias cidades do sul do Pará, nosso farnorte sem lei.

O doc foi lançado na última sexta, em DVD no Cine Glória (Rio de Janeiro), ao mesmo tempo em que entra em cartaz na sala e tem exibição programada no Canal Brasil. A estratégia ‘tudo ao mesmo tempo’ visa tirar do marasmo a distribuição de documentários no Brasil. Coisa que a Original Video e a Vitrine Filmes vêm fazendo também. Há por aí muita coisa boa limitada às sessões de festivais e de mostras.

Esse Homem Vai Morrer é uma delas. Foi realizado em 2006, quando Padre Ricardo retornou pela primeira vez à diocese de Rio Maria, onde vivera entre 1988 e 1996. Como ele, diversos religiosos, sindicalistas, advogados e juízes frequentaram e continuam frequentando as tais listas de morte anunciada. As vítimas potenciais sabem até quantos milhares de reais valem suas cabeças no mercado da pistolagem de aluguel. Ricardo teve mais sorte que a Irmã Dorothy Stang, assassinada em 2005. Esse episódio ecoa na voz de Dira Paes, que faz duas vinhetas ficcionais no filme e é uma das várias celebridades envolvidas com a denúncia das listas de morte no Pará.

Emilio Gallo reúne histórias de mortos e de sobreviventes, assim como ouve as razões de dois fazendeiros que se dizem atingidos por invasões de propriedade (a maior parte delas griladas, ou seja, apropriadas sem documentos de posse ou com documentos falsos). Não há aqui veleidades de estilo ou de modernidade narrativa. A câmera na mão do próprio diretor cria seu espaço dramatúrgico de maneira crua e incisiva. O que interessa é o que as pessoas dizem, não o que o filme pode fazer com o que elas dizem. Isso pode soar meio amador aqui e ali, com tomadas de cobertura e intervalo que reforçam o caráter um tanto doméstico da filmagem. Mas não se pode negar que esse despojamento é produtivo para a premissa do filme, que é chamar a atenção das pessoas para a grande tragédia paraense.

Os cinco anos que se passaram não tiraram a atualidade do filme. Hoje existe uma lista com 18 pessoas juradas de morte no sul do Pará. ‘A situação está no plenilúnio. Vai cair alguém não demora muito’, alerta Emilio, deixando claro que a personagem de Dira Paes se baseia um pouco nele mesmo. Esse Homem Vai Morrer é um pequeno filme feito contra a morte, contra o medo e a injustiça.

Acesse: http://carmattos.wordpress.com/ https://twitter.com/carmattos.

Esse Homem Vai Morrer” (Brasil201175’) Diretor: Emilio Gallo Com: Letícia Sabatella, Carla Marins, Leonardo Vieira, Marcos Winter e Bete Mendes, entre outros.

DVD: Menu interativoSeleção de cenas Tela: Widescreen (16:9) Áudio: Dolby Digital (5.1 e 2.0) Idioma: português Legendas: não informadoExtras: não tem

Distribuição: 2001 Vídeo

São Luís Terá Semana do Audiovisual

 A comunidade acadêmica de São Luís terá em junho mais uma oportunidade para expor seu talento no cinema.

Até amanhã estão abertas inscrições para a 1ª Mostra Universitária Audiovisual. Como parte da programação da II Semana do Audiovisual, em conjunto com a XI Semana de Comunicação, a mostra exibirá vídeos de estudantes e servidores universitários de todo o estado.

A 1ª Mostra Universitária Audiovisual objetiva incentivar a produção de vídeos no estado, além de dar visibilidade ao que se tem feito em, nessa área, São Luís e no interior. Estudantes de qualquer curso de graduação ou pós-graduação podem se inscrever, desde que regularmente matriculados numa instituição de ensino superior. Além disso, a mostra também é aberta a servidores de instituições acadêmicas.

Serão exibidos curtas-metragens com até 10 minutos de duração. Segundo o representante do Cineclube Casarão Universitário, Bruno Lacerda, a quantidade de vídeos a serem exibidos ainda não está definida: “Iremos trabalhar o ajuste do tempo dos vídeos com o tempo da mostra, que será de aproximadamente duas horas”, explica.

Para participar da seleção, basta realizar a inscrição na Semana de Comunicação pelo sítio virtual http://www.semanacomunica.ufma.br, no link Chamada de Trabalhos e apresentar o pedido de inscrição no Departamento de Comunicação Social da UFMA, no prédio do CCSo (Campus Bacanga). O candidato deve entregar, em envelope, uma relação de documentos (disponíveis no regulamento), duas cópias de cada vídeo em DVD e um CD contendo informações como fotos de divulgação, sinopse do filme, ficha técnica, etc. O diretor do vídeo também tem liberdade para publicar releases, cartazes e qualquer outro material de divulgação da sua produção.

A segunda edição da Semana do Audiovisual acontecerá entre 31 de maio e 3 de junho, na UFMA, durante a XI Semana de Comunicação. Além da Mostra Universitária, ganham destaque na Semana outras atividades, tais como o lançamento do filme Céu Sem Eternidade, dirigido pela cineasta Eliane Caffé.

O longa-metragem é um documentário produzido ano passado pelo coletivo da oficina audiovisual de Alcântara, reunindo quilombos da região, estudantes da UFMA e participantes dos Pontos de Cultura “Comunica”. Para as discussões acadêmicas, a Semana de Comunicação contará com a participação dos expressivos pesquisadores Marcos Palácios (UFBA), e André Pase (PUC-RS).

Inscrições ao FestCineAmazônia

O FestCineamazôniaFestival Latino Americano de Cinema e Video Ambiental recebendo inscrições para sua nona edição, a acontecer de 8 a 12 de novembro próximo, em Porto Velho.

Será aceita a inscrição de filmes (35 ou 16mm) nos gêneros Documentário, Ficção, Animação e Experimental até 1º de agosto; os vídeos podem ser em qualquer formato, com duração de 1 a 26 minutos, no máximo. As obras com tempo superior a 26 minutos poderão, a critério da comissão organizadora, ser inscritas e exibidas nas mostras itinerantes dos bairros e cidades, fora de competição.

Uma modalidade também é dirigida aos profissionais de televisão, os quais poderão participar apresentando trabalhos de vídeo-reportagem. Será a nona edição do Festival, que já homenageou  eminências do cinema, do teatro, da música e da literatura, como forma de reconhecimento a um trabalho que, de uma forma ou de outra, põe sempre em evidência a preservação do homem e da natureza.

Atriz CHICA XAVIER, uma das que já foram homenageadas no FESTCINE AMAZÔNIA

Constam da galeria gente reconhecidamente afinada com o lema proposto pelo Festival:  Stepan Nercessian (ator), Letícia Sabatella (atriz), Chico Diaz (ator), Vicent Carelli (antropólogo e documentarista), Marina Silva (ex-ministra Meio Ambiente), Antônio Pitanga (ator), Rita Queiroz (artista plástica), Chica Xavier (atriz), Geraldo Sarno (diretor de cinema), Paulo Mendonça (Canal Brasil), Antônio Pompêo (ator), Zelito Vianna (produtor e diretor de cinema), Roberto Werneck (produtor), Paula Saldanha (jornalista e escritora), Nelson Pereira dos Santos (cineasta), Marcos Palmeira (ator), Dira Paes (atriz), Hermano Penna (cineasta), Jorge Bodanzky (cineasta), Adrian Cowel (cineasta e documentarista), Frans Krajcberg (escultor e ambientalista), Othon Bastos (ator), Vicente Rios (cineasta e documentarista), Maurice Capovilla (cineasta), Manoel Rodrigues Ferreira (historiador), Vitor Hugo (historiador e comentarista), Lucélia Santos (atriz e diretora) e Thiago de Mello (poeta). 

A tendência é que esse corredor humanístico avance mundo afora reunindo idéias, pensamentos e toda ação dotada de princípios fundamentais para uma passagem de boa qualidade do homem no Planeta Terra. 

Como o festival contempla produções de qualquer parte do mundo, o regulamento está no site www.cineamazonia.com nas seguintes línguas: Inglês, Português e Espanhol.

Endereço para envio

FESTCINEAMAZÔNIA
Rua Paraguai, 320 Morada do Sol 2
Bairro Embratel CEP: 76820-404 – Porto Velho – RO – Brasil

Acompanhe também no twitter: @cineamazonia

Pimentel é Novo Presidente do CBC

  “Fazer com que o povo tenha acesso ao audiovisual é principal luta”

Recém-empossado, o novo presidente do Congresso Brasileiro de Cinema, João Baptista Pimentel Neto conversou com a Revista de Cinema sobre os desafios a enfrentar, no próximo biênio (2011-2013).

Cineclubista histórico, membro do CBC via Conselho Nacional de Cineclubes (CNC), Pimentel foi eleito numa disputa de chapa única, com a bandeira de continuidade de gestão e compromisso com o audiovisual brasileiro – foi, na última gestão, presidida por Rosermberg Cariry, o Diretor de Articulação e Comunicação. Para ele, a principal luta, herança do cineclubismo, é fazer com que o audiovisual chegue à população. 

Quais os desafios a serem superados em sua gestão?

Acredito que sejam os mesmos enfrentados nas gestões anteriores. Buscar encaminhar e concretizar as resoluções do CBC. E, para que isso ocorra, buscar que as entidades associadas realmente participem do dia- a-dia do CBC. Que manifestem suas opiniões de forma franca. Que realizem o debate necessário à construção de consensos. Que efetivamente apóiem e se envolvam nas lutas coletivas. Que lembrem que é a soma e não a divisão que confere maior ou menor força ao CBC. Por outro lado, acho que o desafio é dar conta da agenda legislativa, que se relaciona e afeta de modo importante todo o setor cultural e, em especial, o audiovisual. Precisamos ficar atentos e mobilizados. E novamente esta tem que ser uma tarefa coletiva. Não pode e não dá pra ser cumprida apenas por um presidente, uma diretoria e pelos conselhos. Somos uma federação. O CBC está hoje presente em todos os estados e portanto, de certa forma, esta agenda legislativa se replica nas Assembléias Legislativas e nas Câmaras Municipais. Então, como se vê, é tarefa coletiva e o CBC pode, de certa forma, articular e organizar isso. Serei apenas um dos coordenadores disso. Gosto muito das palavras: articulação, parceria, compartilhamento ! 

De que maneira o fato de ser um cineclubista histórico influenciará sua gestão?

A eleição de um cineclubista para presidir o CBC é realmente um fato histórico. Como é histórico o fato de as entidades que participam, apoiaram e votaram nesta chapa, entenderem que o cineclubismo é importante neste momento do cinema brasileiro. Afinal, somos nós, cineclubistas, que temos buscado levar a produção audiovisual brasileira para os 92% de brasileiros que não freqüentam os cinemas de shoppings centers e que, portanto, não tem acesso à produção nacional. Por isso afirmo que a gestão será coletiva. Foi isso o que aprendi no movimento cineclubista. Como também foi na militância cineclubista que aprendi a gostar e a dar a devida importância ao cinema e ao audiovisual brasileiro. E ao público brasileiro. E daí, como cineclubista, apenas continuo dizendo que filmes são feitos para serem vistos e que precisamos fazer com que o povo brasileiro tenha acesso ao audiovisual brasileiro. E que essa é a principal luta. Quanto maior o número de brasileiros com acesso ao audiovisual brasileiro, mais forte ficará o nosso audiovisual. Isso me parece que hoje é consenso. Os problemas estão na infra-estrutura, na distribuição e na exibição. E não podemos deixar de ficar atentos aos problemas que ainda resistem no setor da produção, principalmente de falta de recursos, da infernal burocracia, enfim, das mazelas que nos afligem a todos. Problemas que são de conhecimento de todo o setor e que tem que ser resolvidos. É o que penso como cineclubista e o que estou propondo às entidades associadas. O norte será dado pelas entidades. “Pelos consensos que conseguirem construir.” 

Você acredita na mudança de paradigmas ao votarem num cineclubista para presidente de uma das mais importantes entidades audiovisuais do país?

Acho que falar em mudança de paradigmas é muito forte. Mas acredito na tomada de consciência das entidades no sentido de união e reconhecimento de que o Brasil é um país imenso e diverso. E que o CBC tem que dar conta disso. Não é mero acaso que a nova diretoria conte com a participação de várias entidades representativas e de companheiros espalhados por todo o Brasil. Acredito esta ser a maior prova de que o país está se conectando de norte a sul. O CBC foi adentrando o Brasil de forma gradativa. Desde a sua retomada, ele teve, na Presidência, o “carioca” Gustavo Dahl, a “paulista” Assumpção Hernandez, com Geraldo Moraes contemplou os “gaúchos”, “candangos”, o centro-oeste. Com Paulo Boccato, tivemos um animador na presidência. Com Paulo Ruffino, um homem de TV. Com Jorge Moreno, sentimos os ares das alterosas e lembro que Rosemberg Cariry foi o primeiro presidente do CBC vindo do nordeste. E isso à época também foi um fato histórico. E ele fez uma das melhores gestões do CBC. Generosa. Pacificadora. Democrática. Franca e aberta. A favor do coletivo e do audiovisual brasileiro. Tenho orgulho de ter participado disso. Quero dar continuidade a isso. Tivemos, portanto, presidentes das mais diversas origens e perfis. E cada um ofereceu sua contribuição à história do CBC. Espero estar à altura e oferecer também a minha contribuição. 

Em que medida, haverá uma continuidade das gestões anteriores, em especial a última?

Bem, o nome da chapa foi Continuidade e Compromisso com o Audiovisual Brasileiro. E praticamente todos os membros da Diretoria e dos Conselhos da gestão anterior continuam participando. Portanto, será uma gestão de continuidade. 

O que se pode aprender com o 8º CBC e o que será levado em conta na nova gestão?

Reafirmo que a nova gestão do CBC terá por norte dois documentos: as resoluções do 8º CBC e a Carta dos Realizadores Brasileiros. São as diretrizes das ações que devemos empreender. Manual de vôo. Lembrando sempre a todos que uma andorinha só não faz verão. E, portanto, só celebraremos conquistas se nos empenharmos coletivamente na luta. O resultado do trabalho dependerá do que cada uma das entidades associadas ajudar a construir. 

Quais as principais reivindicações?

Todas. Pelo menos aquelas que estão nas Resoluções do 8º CBC e na Carta dos Realizadores Brasileiros. Todas elas são importantes e frutos de consensos. Defendemos todas. Sabemos que o setor é complexo e que cada atividade necessita de atenção e soluções especiais para cada um dos problemas. E valorizaremos isso dando igual atenção e nos colocando à disposição de todas. E também sabemos que, de certa forma, todas estão contempladas pela agenda legislativa que se coloca pela frente. Que precisamos ficar atentos e mobilizados aos interesses da cultura e do audiovisual brasileiro. PLC 116, Procultura, Vale Cultura, PEC 150. Direito Autoral. Lei de Diretrizes Orçamentárias. A lista é longa e posso ter esquecido algumas. Vamos também fortalecer e apoiar a idéia da implantação dos Fundos Setoriais Regionais utilizando recursos dos Fundos Constitucionais. Uma idéia lançada pelo Rosemberg e que a cada dia ganha força. Mas para enfrentar estes desafios precisamos de todos. 

Que postura manterá frente à gestão da ministra da Cultura, Ana de Hollanda?

Estou certo que a nova Diretoria do CBC manterá uma postura republicana e respeitosa em relação ao Ministro(a) da Cultura, seja quem for. A relação não pode se basear em nomes ou se gostamos mais ou menos do estilo de quem está Ministro. A relação e o diálogo devem se pautar sobre os temas de interesse do audiovisual e da cultura. Não nos envolveremos em manifestos, nem pró, nem contra. Não cabe esse papel ao CBC, até porque sobre esse tema não temos consenso interno. Por outro lado, a presença da Secretária do Audiovisual, Ana Paula Santana, e dos diretores da ANCINE, Mario Diamante e Glauber Piva, na Assembléia do CBC, em Atibaia, demonstram a vontade da atual gestão do MinC em construir o diálogo com o CBC e com todas as entidades associadas. 

Como sente que será o diálogo com as diversas frentes do audiovisual, como a SAV e a Ancine?

O diálogo está estabelecido. Não só com o CBC, mas também com as entidades associadas. Existem muitos temas específicos que devem ser dialogados entre a SAV e a ANCINE, diretamente com as entidades associadas, apoiadas pelo CBC. O CBC não pode exercer este papel. Tem que cuidar dos interesses maiores. De todos. Tem que lutar pela ampliação dos recursos e não de como eles serão depois divididos. É assim que entendo o papel do CBC. E acho que é sobre estes temas maiores, do interesse de todos – inclusive dos gestores governamentais – que o CBC deve concentrar seus esforços, contando com um efetivo apoio e participação das entidades associadas. A nova diretoria do CBC quer somar! Quer ir à busca de novas conquistas e de preservar todas aquelas alcançadas nas gestões anteriores. 

Por Gabriel Carneiro