Arquivo do dia: 10/07/2011

Gilberto Braga: Sempre um Sucesso na Telinha

 
Tomamos uma’carona’ no jornal EXTRA e fazemos uma singela homenagem ao sucesso da novela VALE TUDO, clássico da TV que é recorde de audiência no canal Viva, em sua reprise. Antes de os últimos capítulos irem ao ar, convidamos três atrizes veteranas para um brinde: Beatriz Segall e Nathália Timberg, representantes da sala de estar mais chique da trama, e Maria Gladys, a inesquecível empregada, dona das melhores tiradas do folhetim. No tim-tim, um bate-papo delicioso com as intérpretes de Odete Roitman, Tia Celina e Lucimar.

Beatriz Segall, Nathália Timberg e Maria Gladys 

Beatriz Segall, Nathália Timberg e Maria Gladys Foto: Urbano Erbiste / Extra

A pergunta que o Brasil fazia era: “Quem matou Odete Roitman?”. Para garantir o sigilo, todos os atores do elenco foram convocados para a gravação do capítulo em que seria revelado o assassino. “Lembro que cheguei e Nathália estava sendo maquiada. Todos eram suspeitos. Só que um contra-regra chegou e disse: ‘Dona Nathália, não foi a senhora, não precisa ser maquiada’. Imagina se tivesse sido ela? Que tinha atuado brilhantemente como a irmã boa…”, lembra Beatriz.

Maria Gladys emprestou seu jeito cômico a Lucimar, dando destaque para a empregada na trama. “Lucimar não falava muito. Um dia, em cena, abri a geladeira e tinha um queijo velho dentro. Peguei e disse ‘É maionese ou sabonete?’. E aí ela começou a ter mais falas”, festeja ela, que atuou até no figurino: “Uma camareira tinha uma blusa de oncinha bem justinha que gostei e achei que cairia bem na Lucimar. Usei em uma cena e a roupa acabou entrando no armário da personagem para sempre. A camareira adorou!”.

A morte de Odete mexeu tanto com o povo brasileiro que o número do túmulo da personagem virou aposta no jogo do bicho. Beatriz, que na época não soube dessa febre no jogo do bicho, se surpreendeu alguns anos depois ao saber da história por um taxista. “Entrei no carro e ele disse que precisava me agradecer. Contou que deixou passar um mês do final da novela para ganhar sozinho, e jogou no bicho o número do túmulo da Odete. Falou que, com a bolada que ganhou, comprou o táxi e deu conforto para a família.”

“Com a Odete a gente também aprendia lições de boas maneiras. Lembro que ela dizia que temos que servir água em coquetéis. Toda vez que vejo água num evento, lembro dela. E também ensinava que não precisa servir a água num pratinho, que pode ser direto da nossa mão”, lembra Maria, divertindo Nathália e Beatriz, que logo a corrige. “A própria dona da casa pode servir direto da mão, mas, se for a empregada, ela deve servir com um pratinho”, esclarece.

É inevitável. Fala-se em “Vale tudo” e logo Lídia Brondi vira assunto. “A ausência da Lídia é uma coisa que você dificilmente engole. Era uma atriz de uma sensibilidade… Nunca mais a vi. Dá saudade de vê-la”, lamenta Nathália. Beatriz interrompe: “Ela é uma excelente psicóloga, é uma gracinha de pessoa e está muito feliz”.

Vale Tudo teve autoria de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. Aguinaldo e Gilberto negam briga, mas no meio artístico comenta-se que os autores não se dão muito bem desde a novela. Maria lembra quando a rixa começou: “Encontrei Gilberto na rua e agradeci pela personagem. Sabe o que ele me disse? ‘Agradeça ao Aguinaldo, é ele quem escreve os papéis de pobre’”. E Beatriz complementa: “Ele sempre dizia isso. Vai ver que é por isso que eles não se dão bem hoje”.

Maria Gladys, numa cena de 'Vale tudo' 

Maria Gladys, numa cena de VALE TUDO, recorde de audiência mais uma vez

Nathália, no ar em “Insensato coração”, lamenta não ter tempo para acompanhar a novela atualmente. “Acordo 5, 6h da manhã. Não sou uma dondoca. Uma vez ou outra vou lá para matar a saudade”. Já Beatriz, em cartaz com a peça “Conversando com mamãe”, tem um esquema em casa: “Tenho uma pessoa que grava para mim. Fiquei embasbacada com a cena na casa da Celina depois do assassinato da Odete. Foi sensacional. O capítulo é uma perfeição, que atores! Foi a melhor novela que a Globo já fez!”, diz, elogiando a atuação de Nathália em seguida. Já Maria, assume que a novela virou uma festa em sua vida: “Quando começou a reprise eu não assistia. Agora, não perco um capítulo. Tenho ficado tão emocionada com a novela que volto correndo para casa na hora em que vai passar”.

Selton Mello: calorosa acolhida na estreia d’O PALHAÇO

Selton Mello acerta em “O Palhaço”

Em seu segundo filme como cineasta, ator diverte e emociona; grande público quase provocou tumulto em Paulínia

“Sabia que o Selton era popular, mas nem tanto.” Essa foi a frase da apresentadora Marina Person ao subir ao palco do Paulínia Festival de Cinema, depois de uma hora e meia de atraso do início da projeção de “O Palhaço”, segundo filme dirigido por Selton Mello, na noite de sexta. A enorme fila em frente ao Theatro Municipal, depois da exibição do documentário “Uma Longa Viagem”, atravessava todo o tapete vermelho, dobrava pela calçada e seguia adiante. Dentro do teatro, pessoas paradas em linhas que davam voltas e voltas esperavam sua vez de entrar. 

 

Houve princípio de tumulto, contornado com a promessa de que se fariam quantas sessões fossem necessárias. Funcionou: na madrugada de sábado, depois das celebridades esvaziarem a sala, 500 espectadores assistiam ao filme. É verdade que “O Palhaço” foi quase todo rodado em Paulínia, mas não deixa de ser uma prova da popularidade do ator que se tornou diretor. Um filme, então, que se propõe a investigar a magia circense, uma comédia com um tipo de humor que não se faz mais, tem apelo quase que imediato ao público. 

Público que vai ao cinema ver Selton Mello e, de fato, só dá ele em cena. Benjamim é o palhaço Pangaré, que coordena com o pai, o também palhaço Puro Sangue (Paulo José, soberbo), o Circo Esperança, uma trupe itinerante no interior do país, talvez na década de 1980. Ele faz as rotinas típicas do personagem, diverte a plateia no picadeiro, só não é feliz. Benjamim tem a fala baixa, sobrancelhas caídas e ar melancólico – melancolia, aliás, que dá o tom nos bastidores (curioso como um nariz de palhaço na testa pode traduzir tristeza). Um depressivo em potencial, vivendo em conflito. “Eu faço o povo rir, mas quem vai me fazer rir?”, pergunta em determinado momento.

É uma história de autodescobrimento clara e direta, sem firulas. Essas sobram para adornar o filme, um primor visual. O figurino, direção de arte e fotografia fazem não só o circo explodir em cores, mas até mesmo a terra vermelha, os canaviais e as casas judiadas do interior brasileiro. “O Palhaço” naturalmente enche os olhos. E os ouvidos, graças ao belo desenho de som e à trilha sonora inspirada de Plínio Profeta.

 Selton Mello em “O Palhaço”: jornada de autodescobrimento com doçura e genuinidade 

Preenchendo a jornada de Benjamim estão esquetes de humor ingênuo, porém muito eficazes. A turma do circo se encarrega disso, das figuras esdrúxulas (o anão, a mulher peituda, o magrelo estranho) às tradicionais (o mágico, os músicos, a dançarina exótica). Há, também, as participações célebres – são muitas, mas o destaque fica por conta de Tonico Pereira, Jorge Loredo e Moacyr Franco, numa sequência hilariante.

O acerto é que as piadas não apenas divertem, mas ajudam a estabelecer a ideia de família naquele grupo. A identificação com o espectador acontece e, por isso, “O Palhaço” emociona. Emociona também pelo anacronismo, um espírito inocente personificado pela menina que acompanha a trupe e que se espalha por toda a trama. Filmes com essa doçura e genuinidade, comuns ao universo circense, ficaram perdidos no tempo

Selton Mello resgata essa energia e apresenta uma atuação contida, menos histriônica, embora ao mesmo tempo particular – difícil imaginar outra pessoa em seu lugar. Como cineasta, conseguiu domar as afetações que atrapalhavam o drama de “Feliz Natal” (2008), sua estreia em longa-metragem, e transformou isso em estilo. Opta por enquadramentos estudados, planos silenciosos e um humor peculiar, que remete a “O Cheiro do Ralo” – caso, por exemplo, da obsessão de Benjamim por ventiladores.

 

Dependendo do lançamento que tiver nos cinemas, “O Palhaço” possui potencial para gerar certo boca a boca e acontecer nas bilheterias. Carisma, simpatia e um astro popular, isso ele já tem.

* Marco Tomazzoni, enviado a Paulínia