O CARTEIRO – Filme de Reginaldo Faria assume inspirações e faz convite à ternura e ingenuidade das primeiras paixões

CANDÉ FARIA: estreia na telona com atuação  convincente e digna de aplausos…

Primeiro trabalho em longa-metragem de ficção da produtora gaúcha TGD Filmes, O Carteiro é o mais recente filme do ator/diretor Reginaldo Faria, que estava há 27 anos sem filmar. O filme encerrou a mostra competitiva do Festival de Gramado este ano e foi exibido na competitiva internacional do VIII Amazonas Film Festival.

Integrante de um dos clãs do cinema brasileiro, Reginaldo Faria cresceu no meio. Ao lado do irmão, Roberto Farias (que dirigiu e produziu os três filmes emblemáticos com o Rei Roberto Carlos), viveu a rotina dos sets e estreou como diretor em 1969 com a comédia “Os Paqueras”, sucesso de público, com as divas Leila Diniz e Darlene Glória no elenco. Fez outros filmes do gênero, experimentou o policial em “Barra Pesada” (77) – que ele considera seu melhor filme – e o último foi a comédia “Aguenta, Coração” (84).

Na volta de Reginaldo aos sets, após longo hiato, motivado por problema de saúde que o deixou meses de cama, percebe-se os sentimentos motivadores a nortear o diretor, fazendo-o optar por fazer uma comédia romântica, leve, cujo foco está entre a nostalgia de um tempo feliz e a esperança de dias menos áridos, violentos, descartáveis, tal como o diretor declarou meses atrás: “Estamos vivendo tempos de extrema paranóia e neurose, as pessoas e o sistema estão partindo para uma loucura. Resolvi sair disso.”  

Ao lado do filho Marcelo, Reginaldo diz: Trabalhar em família é algo que vem de longa data. Virou tradição”.

Como homem de cinema, Reginaldo não poderia deixar de colocar esses sentimentos em seu mais recente trabalho autoral. Assim, a delicadeza tão bem representada em O Carteiro por seu filho mais novo, o jovem e talentoso Candé Faria, é bem um espelho do que o próprio diretor pensa da vida e desses novos tempos, onde a modernidade nem sempre significa melhoria e progresso:

“A nossa cultura está se esvaindo, está indo para o bueiro. Na música popular, o refrão é mais importante do que a letra. Hoje você fica vendo um monte de besteira porque as pessoas não têm imaginação nenhuma, não têm criatividade. Você vai se perdendo dentro desse esvaziamento cultural, inclusive no cinema brasileiro.”

O Carteiro mostra um artista por trás das câmeras, interessado sobretudo em dialogar com gerações mais jovens, arriscando-se a falar sobre um tema tão em desuso como a elaboração de cartas. Em plena era de e-mails e redes sociais, Reginaldo se aventurou num tema aparentemente desinteressante, mas afirma que amou fazer o filme:

“Não se pode subestimar a inteligência e a sensibilidade da plateia. Não acredito que as pessoas estejam se afastando tão radicalmente do que é mais humano. Quanto mais você tocar no assunto, mais sensibiliza as pessoas. O que a gente tem de fazer é atrair as pessoas para isso. Como ? Fazendo um filme como eu fiz.” 

De fato, O Carteiro tem uma ambiência de romantismo, bem temperada com momentos de descontração e bom tom de comédia – especialmente através dos personagens principais. O diretor consegue conduzir o espectador por um benfazejo estado de afetividade e pureza, quase perdido na voracidade destes tempos modernos  nos quais ter a informação “da hora” e o smartphone mais moderno parece ser o grande trunfo para a maioria.

Candé Faria faz o carteiro atrapalhado e romântico do filme O Carteiro…

Ressalte-se: para alcançar êxito nesta sua empreitada, o cineasta encontrou na dupla vivida por Candé Faria e Felipe de Paula intérpretes à altura. Os atores, em atuações convincentes, parecem dois amigos de longa data, tal a sintonia contagiante com a qual contracenam. Não resta dúvida: Candé Faria e Felipe de Paula são os grandes luminares de O Carteiro.

Candé Faria e Felipe de Paula: dupla super afinada conduz trama de O Carteiro

Argumento inusitado e interessante, baseado em história veridica acontecida na localidade gaúcha de Vale Vêneto –  distrito de colonização italiana de São João do Polêsine, próximo a Santa Maria, no Rio Grande do Sul -, o roteiro é do próprio Reginaldo e foi filmado nos meses de maio e junho de 2010.

Foi na pequena localidade do interior gaúcho – cuja paisagem contribui fortemente para a beleza da fotografia de Roberto Henkin – onde Reginaldo encontrou o cenário ideal para ancorar o universo de Victor, o carteiro fascinado por poesia e Machado de Assis, cujo hábito cotidiano é violar a correspondência dos moradores. Victor conhece todas as paixões e intrigas da comunidade, e conta com a cumplicidade do companheiro de trabalho, Jonas (Felipe de Paula). Os dois se divertem interferindo nas mensagens, tanto para confundir, como para dar ‘uma mãozinha’ a corações desesperados. Até o dia em que Victor se apaixona por uma jovem recém-chegada à cidade (interpretada com a docilidade necessária pela atriz Ana Carolina Machado), que faz sua estréia em longa com O Carteiro.

Como diz o próprio Reginaldo, “Sou apaixonado pelo cinema italiano: Fellini, Monicelli, desde o neorrealismo, eu tenho um pouco essa influência, me fascina essa linguagem europeia de fazer cinema”. Portanto, nada tão bom como encontrar Vila Vêneto para contar essa história, assumidamente influenciada pelo tom de comédia italiano, e indubitavelmente disposta a espalhar a ternura, valorizar afetos, destacar a candura dos gestos mais banais e corriqueiros entre os apaixonados, de todas as idades, e proporcionar momentos de ‘escape’ da agitação, tantas vezes doentia do mundo contemporâneo.

Consagrar a delicadeza como  pedra fundamental para o bom andamento das relações, parece também ser um dos objetivos do diretor, alcançado com grande dose de acerto.

Segundo o produtor executivo de O Carteiro, Beto Turquenitch, a produção foi orçada em R$ 3 milhões, mas custou R$ 1,3 milhão, com equipe 90% composta por gaúchos.

Candé e Reginaldo Faria nas filmagens em Vale Vêneto, interior gaúcho…

Com uma acurada direção de fotografia de Roberto Henkin, direção de arte de Eduardo Antunes e boa trilha de Ricardo Leão, O Carteiro tem no elenco – além da citada dupla Candé Faria e Felipe de Paula, e da estreante Ana Carolina Machado -, Anselmo Vasconscelos, Zé Victor Castiel, Ingra Liberato, Fernanda Carvalho Leite, Dany Stenzel, André José Adler, Marco Suhre, Marcelo Faria e o próprio Reginaldo em participação especial. A estreia está prevista para o primeiro semestre de 2012. 

Semana passada, o filme esteve em exibição em Portugal, e foi escolhido para encerrar o 6° Funchal International Film Festival, na Ilha da Madeira, considerado um dos mais importantes da Europa.

* Candé Faria, Ingra Liberato, Felipe de Paula e Ana Carolina Machado são os integrantes do elenco de O Carteiro que estiveram em Manaus para realçar a exibição do filme na mostra competitiva do concorrido Festival. Conquistaram a todos com simplicidade e simpatia. Não faltaram fãs à procura da bela e sempre cordial Ingra Liberato nem adesões imediatas às carismáticas figuras de Candé Faria e Felipe de Paula, nem o carinho pela meiguice da atriz Ana Carolina Machado.

O elenco  principal de O Carteiro com o cineasta Reginaldo Faria…

Quem acompanhava a equipe em todas as circunstâncias era uma bonita, simpática e alegre Fabiana Santana da Silva, baiana adotada pelo Rio Grande, que assina toda a produção de finalização de O Carteiro, e fez bonito na divulgação do filme em todos os espaços do Amazonas Film Festival. 

 Reginaldo Faria: “Minha faculdade de cinema foi feita através da luta, do trabalho. Eu só queria ser um cineasta de qualquer maneira.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s