Arquivo do dia: 01/12/2011

Às vésperas do Festival de Cinema da Fronteira, Bagé respira CINEMA

Para uma cidade que em 19 de setembro de 1897, um domingo de sol, surpresa e alegria, recebia ‘com uma assistência maravilhada’ as primeiras imagens animadas através do “Cinematographo  Edison” (conforme registro do jornal O Comércio, do dia 22 de setembro daquele ano), o momento atual é auspicioso e revitalizador, e olhar para a embrionária história do Cinema em Bagé é um impulso oxigenador dos mais relevantes.

A Igreja Nossa. Senhora da Conceição e o prédio histórico que abriga a Prefeitura Municipal de Bagé…

Estamos às vésperas do início do III Festival de Cinema da Fronteira, painel audiovisual responsável pelo intenso movimento que já se observa entre artistas, amantes da arte e da cultura, imprensa e cinéfilos, com o decisivo aval da Secretaria de Cultura do Município, os quais encontram em Sapiran Brito – ator/cantor/escritor/radialista – o intérprete ideal para os anseios da população por mais Arte, Cultura e seus saudáveis e libertários derivativos.

De 10 a 17 deste dezembro que está chegando, Bagé – encantadora cidade no coração da fronteira Brasil/Uruguai – vai respirar cinema, viver arte, propagar cultura, repensar educação e respeito ao meio ambiente, incentivar a produção audiovisual, e disseminar o devir libertário e sem fronteiras que só o CINEMA – A ARTE MAIS RICA DE TODAS, como bem diz o mestre LG de Miranda Leão, pode consagrar.

O III FESTIVAL DE CINEMA DA FRONTEIRA é uma realização da Prefeitura Municipal de Bagé, através de sua Secretaria de Cultura, e é fácil perceber o quanto o prefeito Dudu Colombo está empenhado pessoalmente em sua realização por entender a importância crucial que a Sétima Arte tem no contexto do desenvolvimento sustentável de qualquer cidade que trabalha o Hoje, respaldada num ontem que cultiva a tradição, de olho no Amanhã, que pode ser ainda mais pródigo que as sementes que fundamentam seu Presente.

Este entender sensível e fundamental para que Bagé esteja às vésperas de realizar seu mais profícuo e intenso evento de Cinema, traduz-se no contundente texto do Secretário Sapiran Brito que você acompanha a seguir.

Viva o III FESTIVAL DE CINEMA DA FRONTEIRA ! 

Bagé, um pólo cinematográfico no pampa

As cidades têm as suas marcas culturais que vão além das características geográficas e socioeconômicas. 
 
A maioria dessas marcas são frutos de ações político-culturais criadas e desenvolvidas pelo poder público com o objetivo de vender a cidade turisticamente. Outras marcas são espontâneas e se formam ao longo do tempo pela tradição. Por exemplo: Santa Maria é a cidade universitária, marca consagrada ao longo do tempo. Já foi a capital ferroviária. Joinville hoje é a cidade da dança, graças à movimentação do poder público e da iniciativa privada. Gramado, cidade eminentemente turística, ficou conhecida como centro de congressos e convenções e, especificamente, pelo Festival de Cinema, sendo hoje reconhecida como cidade do cinema brasileiro. Mesmo nunca tendo produzido um só filme, atrai para lá milhares e milhares de visitantes, turistas culturais que para lá acorrem para assistir aos filmes e ver de perto as celebridades.

Quando, no primeiro ano do governo Mainardi, ocupei função na Cultura, tentei convencer o prefeito, e, quase consegui, criar para Bagé a marca “Cidades das Artes Plásticas”, ancorado na marca mundial que temos e que não valorizamos: o Grupo de Bagé, nacionalmente conhecido como exponencial da pintura brasileira e mundialmente reconhecido pela importância da produção em gravura dos integrantes, ímpar em toda a América Latina.

Ainda não desisti da ideia e hoje posso declarar que já tenho o apoio do prefeito Dudu para a implantação da Fundação Grupo de Bagé que deverá ser a grande usina da produção e difusão das artes plásticas, hoje ditas visuais, não só dos nossos grandes mestres, como também dos jovens artistas que surgem a cada dia nesta cidade iluminada.

Paralelamente, trabalho em um outro projeto, que é o de transformar Bagé em um pólo de produção cinematográfica. Paulínia, lá em São Paulo, já tem o seu pólo, que apóia e fomenta a produção cinematográfica. Porto Alegre, pela tenacidade dos realizadores, que não contam com o maior apoio do poder público, está se transformando no terceiro ou segundo pólo de produção em cinema. No interior do Estado, não temos ainda nada semelhante, mas poderemos ter se vingar a nossa ideia.

E explico: Bagé é o centro histórico e geográfico do modelo cultural gaúcho, além do que, temos a paisagem diversificada, uma das melhores luminosidades do mundo, e quem diz isso não sou eu, e sim os pintores e fotógrafos do mundo inteiro que por aqui passam. Temos ainda, graças ao avanço das comunicações, especialmente da internet, uma juventude inquieta e criativa, já fazendo o seu cinema com câmeras digitais e até com aparelhos celulares. Temos 300 anos de história épica. Só para lembrar, o ciclo do western americano se reduz a 30 anos de história. Hoje, com a Uergs, Urcamp, Unipampa e mais o IFSul, temos uma clientela potencial de milhares de jovens sensibilizados para a música, para o cinema e para outras artes.

Graças ao avanço da tecnologia, hoje está bem mais barato fazer cinema. O que os realizadores precisam é que também sejam sensibilizados os poderes públicos e a iniciativa privada. Talentos não nos faltam, basta um empurrãozinho e meninos e meninas, logo ali, estarão produzindo obras artísticas da melhor qualidade. Temos é que largar na frente e tratar o quanto antes de cunhar esta marca “Bagé – Polo de Produção Cinematográfica”. O embrião já existe: Festival de Cinema da Fronteira, que, neste ano do bicentenário, irá para sua terceira edição, devendo atrair este dezembro para Bagé, não só filmes, mas também realizadores, críticos e artistas de países limítrofes, bem como, quiçá, profissionais de outros países que aqui, além de exibir e debater seus filmes, por certo deixarão sementes que, regadas e cuidadas por nossos jovens, resultarão, em breve, em frondosas árvores da cinematografia. Isso, a médio prazo, poderá se transformar em atividade econômica, bem como estimular o turismo cultural, que também resulta em fonte de renda para os habitantes e para o governo.

As coisas, porém, não acontecem de uma hora para outra, é preciso incentivo e continuidade. Faz-se necessária a fixação de uma política cultural de governo que conte com a simpatia e o apoio da iniciativa privada. Isso é o que nos mostram as experiências bem sucedidas em outras localidades. É fundamental que a comunidade, como um todo, se aproprie da ideia. Cultura também é produto para fomentar o desenvolvimento. Material humano temos de sobra, os equipamentos são acessíveis, o público consumidor está aí, ansioso pela fruição cultural, temos que fazer valer a vontade política, e esta vontade não diz respeito só ao governo do município, que a ela já é simpático. É preciso que a comunidade como um todo acredite que o sonho de uns poucos pode vir a se tornar a realidade de muitos.

Bagé, cidade emblematicamente cultural, merece grandes eventos e realizações nesse campo. Este humilde administrador cultural acredita e fará todo o esforço para que isso um dia aconteça. Como sei que já somos uma meia dúzia, vislumbro o dia em que seremos uma multidão a defender esses valores, mais valiosos que quadras de campos ou recheadas poupanças.

Compre você também, meu leitor, essa ideia e saiba que não lhe estou vendendo porcaria. Aposte no cinema e dê um crédito de confiança a nossos futurosos jovens que, logo ali, nos darão projeção além-fronteiras, quando você poderá também se incluir como construtor de um sonho que se tornou realidade graças a essa luz que brota do solo de nossa terra, iluminando nossos criativos, os quais tanto se orgulham de sua “bageensidade”. Seja o bicentenário o tempo em que o cinema floresceu em Bagé. 
 
Sapiran Brito – Secretário Municipal de Cultura de Bagé (RS)