HELENA IGNÊZ: “Com a minha pequena contribuição, espero tornar o Brasil melhor, mais interessante”

Musa do cinema marginal, Helena Ignez fala da vida e da relação com Glauber Rocha: “Paguei um preço altíssimo”

A atriz que foi casada com dois dos maiores diretores de cinema brasileiros, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, fala sobre a vida e o cinema 


Helena Ignez continua em ritmo frenético de trabalho…

Naquela quinta-feira, 1º de dezembro, ela estava triste. Havia recebido a notícia de que um amigo querido, e pai de sua neta Helene, tinha falecido de câncer, na França. Ao telefone, sua voz parecia embargada, e a emoção trouxe lembranças de tempos bons, vividos em Salvador, onde o conheceu. Extremamente ligada aos sentimentos, e aos encontros que a vida lhe proporcionou, Helena Ignez, completamente baiana, como ela se define, é do mundo. Tudo por causa do cinema. Participa de festivais de cinema realizados fora e dentro do país, ou para receber homenagens, ou para divulgar os filmes dela e do cineasta Rogério Sganzerla, com quem foi casada.

Aliás, ter sido esposa dos cineastas Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, considerados pela crítica como gênios do cinema brasileiro, não seria o bastante para que Helena fosse reconhecida. Embora tenham sido fatos muitos importantes, são pouco para definir o que ela é, e o que significa para a cultura cinematográfica brasileira. Atriz de cinema e teatro, construiu sua carreira no Brasil, dentro do gênero do cinema marginal, termo, aliás, que ela discorda, pois para ela, “a própria essência do cinema brasileiro são esses filmes, no mais, os outros, ou estão muito ligados à televisao ou à outras áreas do consumo”.

Inventou uma forma nova de atuar, debochada, extravagante. Linda e provocante, aos 16 anos foi Glamour Girl em Salvador, tal como uma Miss, fez muitos homens das artes suspirarem, como João Ubaldo Ribeiro, com quem acabou só cultivando amizade. Começou a atuar com 17 anos, no curta ‘O Pátio’, de Glauber Rocha. Dentre tantos clássicos do cinema marginal, atuou em ‘A Grande Feira’ (1961), de Roberto Pires e ‘O Bandido da Luz Vermelha’ (1968), de Rogério Sganzerla. Aos 70 anos, continua trabalhando em um ritmo frenético. Em entrevista ao iBahia, Helena Ignez fala sobre seus projetos atuais e futuros, as dificuldades de se fazer cinema no país, a sua relação com Salvador, e a mágoa de não ter podido criar a sua primeira filha, Paloma Rocha. Confira.

Como está a sua vida atualmente?

A minha vida, hoje em dia, é uma vida completamente voltada ao trabalho, à arte e aos sentimentos, porque a arte é como a vida, é imensa. A forma de me dedicar a ela é acreditando nela profundamente. Levo uma vida de trabalho intenso, não só no Brasil, como fora do Brasil. Faço uma média de três a quatro viagens internacionais por ano, levando os filmes de Rogério Sganzerla e os meus, como ‘Luz nas Trevas’, que acabei de apresentar em Berlim, há cinco dias. Apesar de todas as dificuldades que nós, realizadores e artistas em geral, enfrentamos, meu trabalho tem se desenvolvido muito bem.

Aurora, Rosa Malagueta e Helena Ignêz durante o Amazonas Film Festival…

Quais são as dificuldades, especificamente?

A alta burguesia brasileira ainda não percebeu exatamente o valor da arte. Nesse momento da era Lula, o cenário se modificou um pouco. Todos os meus filmes, eu faço através de editais. De certa forma melhorou, porque pelo menos temos os editais e a possibilidade de, com isso, termos nossos filmes e peças de teatro realizados.

E o que você tem realizado? Fala um pouco sobre seus projetos.

Agora me descobriram para homenagens e como júri em festivais. Inclusive, em breve, vou receber uma homenagem no Festival de Cinema de Bagé. Atualmente estou em São Paulo com ‘O Belo Indiferente’. É uma instalação, da qual faço a direção, junto com André Guerreiro Lopes e minha filha Djim Sganzerla, e tem uma modernidade total. Uma instalação cênica extremamente ligada às artes plásticas, e que vai se tranformar num filme. Esse espetáculo foi considerado por algumas revistas brasileiras, como a Bravo, como um dos melhores do Brasil atualmente, e a Folha de São Paulo distinguiu entre os melhores espetáculos em cartaz. A grande alegria da minha vida é, junto com minhas filhas, está continuando essa obra, que comecei extremamente jovem em Salvador, com 17 anos, estreando e produzindo ‘O Pátio’, junto com Glauber.

Eu tenho três projetos. Um que é de transformar ‘Belos Indiferentes’ em filme, e já começamos a filmar. Tenho um roteiro, chamado ‘Ralé’, que é meu projeto maior, que pretendo filmar em maio. Ele fala um pouco do pensamento sobre o indígena, do antropólogo Eduardo Ribeiro de Castro, e tem no elenco muitos atores que fizeram o ‘Luz nas Trevas’, como Ney Matogrosso, que é um ator extremamente amado, Dijim Sganzerla, Aurora Miranda, que esta me ajudando na produção, Igor Cotrim, que ganhou um prêmio com ‘Elvis e Madona’, e tem o lançamento, em 2012, do ‘Luz nas Trevas volume 1 e 2’, a partir do edital em distribuição da Petrobrás, que ganhamos.

Helena Ignêz (con Alice Gonzaga): no Amazonas, onde foi homenageada, em defesa da reabertura do Cine Éden…

Você citou as homenagens que tem recebido. O que você acha sobre o reconhecimento do seu trabalho estar acontecendo?

Eu vejo que existe uma valorização desse trabalho que eu fiz com Rogério e com outros artistas, como Glauber e Julio Bressane, e isso tudo é muito valorizado principalmente pelas novas gerações. Acho isso bacana, porque vai ser jogado no futuro, sem a menor dúvida. Mas eu acho que não merecia. Sinceramente eu lutei sem ego. Acreditando numa coisa maior que eu mesma, sem esquecer jamais a frase de ‘O Bandido da Luz Vermelha’ “Sozinho a gente não vale nada”. Com a minha pequena contribuição, espero tornar o Brasil melhor, mais interessante.

O que você acha do título que te deram de musa do Cinema Marginal?

Essa palavra marginal carrega a dignidade vinda da frase de Hélio Oiticica “seja marginal, seja herói”, mas eu penso que não é marginal. A própria essência do cinema brasileiro são esses filmes, no mais, os outros, ou estão muito ligados à televisão, ou à outras áreas do consumo. Então esse cinema tem que ser considerado como muito importante, porque é um cinema livre, de pensamento, que questiona e que quer saber. Sou uma atriz que tem 70 anos de idade, que lutou sua vida inteira e que encontrou seus pares no mundo. É cinema marginal por isso, porque não é para a grande maioria.

Como foi a sua formação no cinema e no teatro, em Salvador?

A minha formação foi a mesma de Glauber, na Escola de Teatro, Música e Dança de Salvador, e assim até hoje venho desfilando esse colar de pérolas que, não sei se por sorte ou por carma, tenho a felicidade de ter nas mãos. Desde muito cedo eu venho sabendo o que é cinema e o que é arte, e com essa responsabilidade é que vou desenovolvendo a minha vida. Sou extremamente ligada emocionalmente a Salvador, e estou triste pela Salvador atual, que eu chamo de ex-Salvador.

Helena Ignêz passeia por Manaus com uma inquietação  criativa admirável… (foto de Aurora M. Leão)

Em que a cidade atual difere da Salvador presente nas suas lembranças?

Salvador se dedicou excessivamente ao comercialismo, ao axé, a cultura fácil e a cultura de massa, que não dignifica. Ela não acredita na inteligência do público, só no que há de mais medíocre. Eu conheci uma Salvador extremamente criativa, com artistas absolutamente geniais, como João Gilberto, o primeiro dos artistas baianos, que em nada é lembrado hoje em dia na música popular baiana. Tem surgido músicos extraordinários como Letieres Leite, que produz, mas não alcança o público por causa do axé, um axé estranho e que está, de certa forma, encobrindo essa grande força que é o ritmo, e sua riqueza. No momento a música está amarrada a esse Carnaval voltado para os camarotes. É um momento de vulgaridade e de desinteresse. Eu estou indignada porque faço parte disso também. Eu sou baiana, sou completamente baiana.

E o cinema baiano, você tem acompanhado? Se sim, tem gostado do que tem visto?

Adoro o cinema baiano. Ele tem sofrido muitíssimo, de certa forma, injustamente, porque foi onde nasceu um grande gênio, uma figura extraordinária e que tinha uma luz que cega, que é Glauber Rocha. Agora eu tive com um artista baiano da nova geração, o Henrique Dantas, que também está tentando trazer essa imagem de Salvador que a gente conheceu. Edgar Navarro é outro cineasta que eu acho interessante, o Pola, com ‘O Jardim das Folhas Sagradas’, o Gilson Rodrigues, quem conheceu de perto sabe o valor dele. E tantos outros baianos.

Houve um tempo em que você se afastou um pouco do trabalho, viajou muito, visitou muitos templos, e chegou a morar em um. Em que período da sua vida, isso ocorreu?

Eu tinha 30 anos, e achava que era uma idade extremamente madura! Hoje eu vejo que as pessoas começam a fazer seus trabalhos nessa fase, de 28 a 30 anos. E eu já tinha feito muitos filmes, e estava cansada. Ai resolvi parar um pouco a carreira e me dedicar ao tai chi chuan, e outras práticas energizadoras. A única coisa que me interessava era saber de onde viemos, e para onde vamos. Só queria saber a essência da vida, mas é uma coisa que a gente nunca vai saber, mas só o esforço de querer saber já traz alguma coisa muito boa. Hoje não pratico com a mesma intensidade, mas o que sobrou foi muito profícuo em mim, e eu nunca vou esquecer.


Sinônimo de elegância, simpatia e força, HELENA IGNÊZ agradece aplausos no Theatro Amazonas….

Para terminar, recentemente Nelson Motta lançou a biografia de Glauber Rocha, “A Primavera do Dragão”. Nele, seu nome aparece muitas vezes, e seu relacionamento com Glauber é contado minuciosamente. Você já chegou a ler?

Não cheguei a ler por inteiro, por estar trabalhando muito, e vários jornalistas têm me telefonado, querendo saber a minha opinião. Eu acho que é um livro dele. É mais uma ficção do que um livro documental, porque existe uma dramatização de fatos corriqueiros. Mas existe uma boa intenção no livro, eu sei que ele gostava muito de Glauber. É um livro de honra a Glauber, com quem fiquei casada durante cinco anos. Nossa relação sempre foi muito profunda, até próximo a morte dele.

No livro, ele cita os problemas vividos por vocês, durante a separação. Teve ficção em algum momento do relato?

Realmente houve aquele caso relatado por Nelson (no livro, Nelson Motta conta que Helena teve um namorado, enquanto era casada com Glauber). Eu me separei dele por causa de um motivo que, hoje em dia, seria totalmente natural, mas há alguns anos, foi um escândalo enorme! Vivi todos os preconceitos possíveis do machista. Eu acabei ferindo ele, sem nenhuma vontade. Eu simplesmente precisava viver a minha vida. Havia um sufoco muito grande dele pra mim. No fundo ele não acreditava nessa ética machista mas, ao mesmo tempo, ele sofria muito com isso.

Ele sofreu muito com a separação e eu também. Eu paguei um preço altíssimo, porque não criei minha filha, Paloma (Paloma Rocha é cineasta, e presidente do Templo Glauber Rocha, local onde está reunida toda a obra de Glauber, seu pai). Judicialmente, ele tomou ela de mim, simplesmente porque eu era uma atriz jovem, bonita, tinha 20 poucos anos, enquanto que, por traz, ele tinha uma família. E foi por ela que Paloma foi criada. Apesar de não ter tido nenhum impedimento, não fui eu a responsável pela criação dela. Ela já tem 50 anos e pra mim é um assunto do momento. Afinal, ela é minha filha.

Por Flavia Vasconcelos, do Correio da Bahia

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