Arquivo do dia: 12/12/2011

Em Bagé, Cinema tem dança, filmes, missa e boa comida…

Aberta ontem a tarde a Mostra Competitiva BiNacional de Curtas-Metragens do III Festival de Cinema da Fronteira

Antes do início da Mostra, no belo cenário da Centro Histórico Vila de Santa Tereza, a exibição do longa Antes que o mundo acabe (!), da cineasta gaúcha Ana Luíza Azevedo, contando com a presena do jovem ator Eduardo Cardoso, que fez bonito subindo ao palco e conversando com o público sobre como foi fazer o trabalho – sua estréia em longas – e como vê a inclusão do filme no festival de cinema de Bagé.

Eduardo revelou simpatia, simplicidade, disposição e genuíno gosto por atuar e participar de festivais, respondendo com espontaneidade e carinho às perguntas da platéia. Um luxo e uma alegria contar com Eduardo Cardoso no III Festival de Cinema da Fronteira.

Ontem também, chegaram a Bagé o realizador gaúcho Diego Müller, cujo filme A Invasão do Alegrete abriu a mostra competitiva e foi bastante bem recebido pelo público. Uma delícia ver a típica história gaúcha contada de forma tão leve e divertida num roteiro bem amarrado e interpretado por atores do naipe de Sirmar Antunes e Danny Gris, que estavam, ambos, na platéia, abrilhantando a mostra competitiva do Festival. 

Denise Del Cueto, Aurora e Sirmar Antunes, que curte em Bagé o Cinema da Fronteira…

Mas antes da exibição dos curtas, houve uma apresentação de dança – item no qual Bagé é pródigo -, em coreografias criadas pela professora Keilla, que também subiu ao poalco e dançou um número com sua turma.

Sobretudo os dois garotos que dançaram mostraram vocação, talento, tomando conta do palco com leveza e altivez; soltos, leves, concentrados, com um suingue super bacana e mandaram muito bem, recebendo por isso muitos aplausos.

Aliás, as coreografias de Keilla foram bem recebidas, estreladas por belas e dispostas garotas bajeenses, tudo muito bom, apenas com um senão: todas as danças tinham como trilha músicas americanas.

Não que também não haja belos exemplares musicais na América do Norte (quem não curte Bee Gees, Lionel Ritchie, Donna Summer, George Benson ?), mas especialmente quando trabalhamos com crianças e adolescentes, faz-se necessário incutir nelas o gosto, o respeito e a vontade de se expressar através da Cultura que nos identifica e nos toca ao coração primeiro.

Conversei com a simpática Kelly sobre isso e ela me prometeu criar uma coreografia com trilha dos Paralamas… estou aguardando… Saravá !!!

Depois da exibição dos primeiros concorrentes da Mostra Binacional, foi a vez de dar uma chegadinha à Catedral de São Sebastião, onde o bispo Dom Gílio Felício oficiou uma Benção em homenagem aos artistas da Sétima Arte.

A Catedral é um importante prédio histórico de Bagé e estava quase lotada, repleta de jornalistas, realizadores, artistas, a turma da produção, e a comunidade bajeense, que atendeu ao chamado do III Festival de Cinema da Fronteira e compareceu à celebração para disseminar boas energias ao festival que começa com as melhores vibrações.

Em nome do Festival, falou o presidente de Honra, senhor Aristides Kúcera.

Tenor Flávio Leite encantou a platéia do Festival de Cinema de Bagé…

O ponto alto foi a participação do afinadíssimo Coral Auxiliadora e a eloquência da voz do tenor Flávio Leite, que arrancou aplausos calorosos de uma platéia extasiada com sua bela voz e sua emocionante participação.

Encerrada a Bênção aos Artistas, a praça da Catedral parou para ver O Banheiro do Papa, premiada produção uruguaia, que cumpriu a etapa Rodacine do Festival de Cinema da Fronteira.

E para encerrar a noite, um jantar especial no aconchegante Madre Maria, um dos belos restôs de Bagé.

Logo mais, um passeio pelo cemitério de Bagé para conhecer mais sobre a Arte Cemiterial, enquanto em Santa Tereza a programação terá início às 15h com a Mostra da Lusofonia – FestIN Bagé, a ser apresentada pela jornalista Adriana Niemeyer, que também integra o júri da Mostra Binacional.

Aguardem novos posts por aqui…

Porque Resta Um atrevido gosto pelos filmes incompreensíveis…

Porque o Resto é sempre maior que o principal… 

Antes que os desavisados venham me perguntar o que resta em um de meus mais recentes trabalhos, o curta RESTA UM, prefiro responder numa das formas onde sou mais afoita: escrevendo. 

Resta você que entende a intenção da obra ou resta você que vai sair do cinema perguntando sobre o que é mesmo o assunto do filme, ou ainda, qual o sentido deste filme. 

Porque…. 

Resta Um filme a ser feito, um fotograma a ser exibido. 

Resta Um desejo de falar da vida e contar da alegria através do cinema. Resta Um desejo de contagiar e fazer coro ao convite de Sílvio Tendler para tentar fazer mais gente entrar nesta canoa. 

Resta Um ator que não estava nas filmagens, um vinho que não foi tomado, e um beijo que não foi roubado. 

Resta até mesmo você que pensa que o filme homenageia o Cinema Marginal, que de marginal só tem mesmo a má vontade e incompetência dos que não tem coragem de ousar porque se pelam de medo de errar, e errando, revelar-se, afirmando sua ignorância suprema ante a importância e história do Cinema Brasileiro. 

Resta um ator que não entrou neste filme mas estará num próximo, feliz da vida pela alegria de celebrar o encontro e a verdade das palavras. 

Resta Um espectador que chegou atrasado e um diretor que não foi convidado. 

Resta Um convite que não foi aceito e um amor que não se realizou. Resta Um filme que não foi feito e um roteiro inacabado, um caminho a ser seguido e um piano esquecido no canto da sala. 

Resta Um punhado de bons filmes a ver e belas músicas pra ouvir. 

Resta Um violão que emudeceu e um canto de passarinhos que não se reproduziu.  

Resta Um carinho esquecido, um afago a ser lembrado e um afeto nunca recebido.

Resta Um filme a ser visto, um aplauso a ser ouvido e um som a ser imitado.

Resta Um enquadramento por fazer, um som e uma luz em sintonia. 

Resta Um coração a ser tocado, um amor a ser encontrado.

Resta Um barco no oceano e um barco-olho rumo ao infinito.

Resta Um motivo a mais para se cultivar a ética, um passo a mais a ser dado, um gesto a menos a ser esquecido.

Resta Um belo quadro na parede, flores viçosas na varanda e um roteiro a ser escrito.

Resta Um canto triste a embalar a solidão e um tango sempre disposto a tocar. 

Resta Um coro de pássaros a anunciar uma manhã na qual os jornais só estampem boas notícias e um amor de pai e mãe que nem a dor da ingratidão abafou. 

Resta Um gol argentino a ser aplaudido, um drible de Messi a ser imitado e uma canção de Lupicínio ecoando na sala. 

Resta Um desvario a ser socorrido, um cotidiano de sonhos a percorrer o imaginário e um arrojo de Kubrick a ser lembrado. 

Resta Um quadro de Picasso a querer ver, um Renoir ainda intacto, um Rembrandt pra quem desconhece as nuances da cor, e um bolero de Ravel acordando as madrugadas douradas. 

Resta Um caminho novo a buscar, uma ousadia transgressora a perseguir e um lixo amontoado na calçada que Vik Muniz precisa transformar. 

Resta Um samba em homenagem à nata da malandragem, um swingue de Gil e Mautner, uma atriz com a grandeza e a competência genuína de Helena Ignêz, um desejo de ouvir a contagiante gargalhada de Zéu Brito e mais algumas pérolas de Wisnik. 

Helena Ignêz evidencia beleza e altivez da mulher brasileira no cinema…

Resta Um canto feliz de andorinha a sonorizar a espera tão acalentada, e um movimento de Tchaikovsky tocando pra quem não tem medo da música clássica. 

Resta Um verso de Ferreira Gullar pra ler, um texto de Graciliano que não nos sai da cabeça, um personagem para Selton Mello interpretar, e um ator da grandeza de Emiliano pra gente ensinar aos que ainda vão chegar. 

Resta Um brilho no olhar da criança esquecida nas madrugadas soturnas das grandes cidades, e um brilho de esperança no gesto de quem vivencia a solidariedade. 

Resta Um take a mais de Zeca Ferreira, mais um documentário que Gui Castor está a concluir, uma nova inquietude imagética de André da Costa Pinto, e uma constante disposição de celebrar as invenções fílmicas de Zeca Brito. 

Resta Um outro Benjamim de Gardenberg para Paulo José, um outro Suassuna para Nachtergaele, um texto com a concisão de Carlos Alberto Mattos, um novo documentário com a assinatura de João Moreira Salles e o precioso olhar de Coutinho. 

Resta Um livro a ser lido e um grande autor a ser celebrado.

Resta Um disco bonito na vitrola, um guardanapo com um poema que a noite revelou, um lenço para amparar lágrimas de amor.

Resta um quadrilátero de paixão nas esquinas nas quais ela em vão aguardou um adeus. Resta Um um sinal de que a vida é o bem maior.

Resta Um poeta que a noite teima em querer despertar e um silêncio revelador que o ouvido atento antevê.

Resta Um desassossego da alma em desalinho pela paixão que arrebata e se intromete nas horas mais improváveis. 

Resta Um violão dedilhando Bossa Nova e um bar em Ipanema rememorando Vininha.

Resta Um choro de flauta aguardando Pixinguinha e um verso ousado de Clarice, Coralina ou Adélia Prado.

Resta Um solo de Toquinho, uma marchinha do Lalá, um twiiter de Carpinejar e um olhar acurado de Caetano que a manhã precisa revelar.

Resta Um minuto para que possamos afirmar a palavra necessária e um espanto ante à embriaguez do luar.

Resta Um comovido apelo à Paz e uma busca incessante pela alquimia dos grandes amores.

Resta Um olhar sempre atento à obra de Truffaut e à dramaturgia de Fassbinder, um interesse crescente pelo bandoneon de Piazzolla e um espanto ante à indiferença da sociedade do descartável. 

Resta Um motivo sempre novo para ver Fernanda representar e reler a grandeza necessária de Ibsen. 

Resta Um atrevido gosto pelos filmes incompreensíveis e um incontido apego aos lugares onde a emoção fez amigos e plantou saudades.  

Resta Um cantinho, um violão, um microfone para celebrar Mário Reis e um anseio de ouvir cantar como Francisco Alves. 

Resta Um filme de Bressane a ser visto e estudado, e um olhar acurado sobre a cinematografia inspiradora da Belair.

 

Resta Um dilacerante silêncio ante a brutalidade do desaparecimento de John Lennon e um incontido mal-estar ante as ingerências nefastas da política no cotidiano. 

Resta Um infinito e revolucionário desejo de se perpetuar nos fotogramas que hoje são pixels nas alquimias da edição digital, tão rápida e eficiente que nos faz brincar com as horas e achar graça da facilidade de criar temporalidades diversas, fazer andar pra frente e retroceder nos ponteiros de nossa imersão cotidiana. 

Resta Um constante e permanente desejo de continuar abraçando o cinema brasileiro e um desejo intermitente de ouvir o som paralâmico da guitarra de Herbert Vianna.  

Resta Um indormido desejo de expressar-se e traduzir em imagens o que vai n’alma e no pensamento. 

Resta Um permanecente intuito de reaprender a amar pra não morrer de amar mais do que pude. 

Resta, sobretudo, essa vontade enorme de acertar e prosseguir fazendo CINEMA e apostando em coisas nas quais acreditamos, sejam elas concludentes ou não.  

Carvana e Milton Gonçalves em O Anjo Nasceu, segundo filme de Bressane…

Resta ademais um desejo de falar de vida, o aconchego do abraço amigo nas noites eternas, e a ânsia de chegar a um tempo onde a ingratidão morra de sede, a indiferença naufrague de tédio, a injustiça definhe por inanição e a estupidez se envergonhe de existir… 

Porque, enfim, Resta Um desejo de amar e ser amado

Amar sem mentir nem sofrer

Desejo de amar sem mais adeus… 

Enfim, Resta Um anseio de que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado. 

* O título deste artigo e as palavras finais nos foram inspirados por textos do cronista Artur da Távola, bem como as citações óbvias aos versos do saudoso poeta Vinícius de Moraes. 

 

Vinícius de Moraes, poeta que ilumina e inspira…