Arquivo do mês: janeiro 2012

LG volta a Woody Allen e seu Cinema

Encontros e desencontros à meia-noite na cidade luz, ontem e hoje, antes que o tempo passe

 

Cinema é rever, pois é preciso retornar das últimas cenas para refazer toda a trajetória do filme

Nosso texto sobre Meia-Noite em Paris, realização ímpar na filmografia de Woody Allen, foi publicado em 23 de junho de 2011 no Caderno 3 do Diário do Nordeste, quando já naquela data antevíamos vê-lo ganhar o cobiçado prêmio de Melhor Filme do ano. Infelizmente, para seus admiradores, Allen foi alijado por criticas daqui e dali até mesmo da relação dos melhores, uma “Clamorosa Injustiça”, como bem a descreveu, domingo último (08 jan 2011), o jornalista e crítico José Augusto Lopes.


Para quem não leu os dois textos citados, sugerimos-lhe a leitura atenta e também a do nosso adendo sobre como as gerações de críticos e cineastas do nosso tempo vêem Woody Allen; e como esse intrigante criador jamais passa incólume diante de quem se interessa pelas expressões da arte, quer como simples receptores, quer como a leitura do olhar.

Humor e ironia

De fato, poucos artistas do cinema souberam refletir como Woody Allen sobre o vazio existencial e chegar ao topo da amarga ironia embutida nas imagens das suas comédias dramáticas ou nos diálogos das situações vividas por seus personagens angustiados, sexualmente desajustados, problemáticos, neuróticos e frustrados, todos como quase em busca de uma utopia da felicidade num mundo injusto como o nosso e, inexoravelmente, sem sentido algum.

Dale Bailey em entrevista a uma TV dos EUA, em 1983, afirmou: “Não choramos em seus filmes, estranhamente rimos neles de nós mesmos e do teatro da vida”, bem enfático. O mestre François Truffaut, em entrevista para o Paris Match, nesse mesmo ano, considerou Woody Allen um cineasta de quem as gerações do seu tempo não poderão esquecer. Destacou, incisivo, que no espaço de quatro anos seguidos, de 1977 a 1980, criou ele quatro jóias: Annie Hall; Interiors; Manhattan; e Stardust. Ressaltou, também, o fato de apreciar o filme ´Zelig´, de 1983, como um prodígio de inventividade visual.

Outro olhar

O crítico Enéas de Souza, autor de Trajetórias do Cinema Moderno; e de O Divã e a Tela, assinala, com propriedade, que, em Meia-Noite em Paris, Woody Allen mostra a astúcia e o feitiço do seu cinema, como de fato, já desde a antológica abertura do seu filme, Allen exibe tanto sua maestria no clarinete como nos arranjos musicais de Sidney Bechet (Si tu vois ma mère), Cole Porter (You do something to me), Juliette Greco (Parlez moi d´amour) e Josephine Baker (La Conga Blicoti), para citar, dentre tantos, apenas estes.

Músicas e imagens

São apenas seis minutos melódicos da melhor qualidade numa homenagem a tudo quanto existe de mais belo ou típico em Paris, seja nas manhãs de sol ou na chuva fina das tardes outonais e na visão das clássicas construções arquitetônicas vistas nas noites parisienses, seja ainda nos flashes do trânsito das pessoas por lugares típicos da urbe ou nas margens do Sena e do Palácio de Versalhes, onde, perdido lá perto, o roteirista Gil Pender (Owen Wilson) abraça afetuosamente sua noiva Inez (Rachel Mc Adams), mas ela não deseja morar nos EUA… Quando as imagens vistas pelo olho de Allen chegam ao seu ápice, confrontam a alvorada e a luminosidade incipiente, é como se sugerissem o retorno dos derradeiros planos para o espectador refazer toda a trajetória do filme e melhor compreendê-lo em sua abrangência e plenitude.

Elenco e Personagens

Quanto à condução dos atores e de personagens críveis, poucas vezes Allen foi melhor na tarefa de dar-lhes plena credibilidade aos seus papéis, máxime nas imagens-rosto (image-visage) das quais falava Truffaut. No tocante ao filme propriamente dito, lembramo-nos das palavras dos mestres para quem o sentido do cinema sempre se faz pela seleção das imagens e tempo de duração das tomadas, pela interação dos ritmos interno e externo, pelos efeitos sonoros, edição, continuidade e principalmente pela mise-en-scène, tão bem defendida pelo saudoso Andre Bazin, o pai da Nouvelle Vague. Daí o motivo pelo qual os críticos dessa arte tanto insistem na leitura das análises de Bazin e também . na de “O Cinema e a Encenação”, de Jacques Aumont.

Ficamos por aqui certos de termos demonstrado aos cinéfilos os motivos da escolha de Midnight Express de Woody Allen como sendo o Melhor de 2011.

O escritor Paulo Coelho (de letrista das melodias de Raul Seixas passou a ser o escritor brasileiro mais lido no exterior) redigiu oportuno depoimento sobre Meia-Noite em Paris, do qual transcrevemos o parágrafo de interesse para fãs e cinéfilos da realização de Woody Allen. Ei-lo: (Texto I)

Trecho – Texto I

Adorei o filme de Woody Allen e a forma criativa como nos mostra uma Paris de sonho, mais surreal em relação àquela na qual viviam os surrealistas. Trata-se, na verdade, de um conto de fadas: à meia-noite, após as doze badaladas, surge uma carruagem… Não, neste caso é um automóvel dos anos 20 que vem ao encontro de Gil numa viela deserta. Nele estão Zelda e Scott Fitzgerald, sua mulher, para surpresa e encantamento de quem apenas sonhava tornar-se romancista, embora fosse um roteirista de certo sucesso em Hollywood. Zelda e Scott o levam ao encontro de Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali… como certamente um dia o desejou o próprio Woody Allen em sua primeira e inesquecível visita a Paris, a Cidade-Luz. Quem lá esteve, jamais a esquece e faz tudo para visitá-la novamente, tantos os encantos.

Recursos expressivos na criação da atmosfera

Para o critico e escritor Enéas de Souza, de quem nos valemos para este arremate, o cinema de Woody Allen é a história trabalhada em cima da imagem encarnada em luz e sombra, no caso luz/cor. Veja-se a luz/cor branca dos ambientes da família de Inez, salvo o quarto dos noivos, onde existe um tom de suave atmosfera sensual.

Paris, sempre Paris

Vejam-se, no entanto, os ambientes de Paris dos anos 20, onde o jogo de luz e cores funciona tanto para as cores escuras, quentes, como para a luz propiciadora de um brilho de inteligência. Uma cena extraordinária nesse nível é a da dança de Josephine Baker. Ótima a escolha dos atores, como era com Minnelli. Gil é um jovem de modos ingênuos, cabelos românticos, olhos sempre espantados, boca e fala tímidas, porém com interesse intelectual para o literário.

La belle Inez

Já Inez é composta propositadamente com uma beleza carnal discreta, mas sempre presente, através dos decotes, dos ombros nus, ou de vestidos levemente eróticos. Os pais – credo! – representam a própria formalidade americana, abusiva, arrogante, sobretudo a mãe. E Paul Bates tem a tipologia do “scholar” pedante: corpo impositivo, barba composta com um misto de refinamento, de petulância, de exibicionismo e, evidentemente, de segurança burocrática.

As fronteiras

Enfim, o filme de Allen compõe uma permanente construção de atmosfera, seja gelada e vulgar da família e dos amigos de Inez, seja de aquecimento, de dinamismo, de febrilidade da fantasmagórica Paris da cultura. Com isso, a natureza da imagem de Woody Allen oscila entre o realismo da crítica e a poesia do imaginário. Não se esqueça da qualidade das imagens de Paris, todas colhidas pelo fotógrafo iraniano Darius Khordji. Indefectivelmente, um nome para guardar.

L.G. DE MIRANDA LEÃO
Critico de cinema

 

MESSI e Maradona eleitos os Melhores do Mundo… Saravá !

Foi este o resultado de um ranking elaborado pela revista americana ‘Sports Illustrated’ com os 100 melhores jogadores de futebol (soccer) de todos os tempos. Pelé aparece em quarto lugar e é desbancado por Messi, Maradona e Cruyff.

Craque argentino: competência reconhecida mundialmente…

“Será que eu preciso explicar? O júri pode questionar se Messi é o melhor de todos os tempos, mas já houve um ‘melhor jogador’ quando se fala em atitude, altruísmo e ritmo de trabalho?”, indaga o jornalista Raphael Honigstein para justificar seu voto no atual camisa 10 do Barcelona.

Conhecido como El Pibe de Oro, Maradona foi a grande estrela da Copa de 2010…

Para chegar à lista final, a revista reuniu 10 repórteres especializados em futebol para fazer um ‘draft’, no qual, após sorteio, o primeiro escolhe um jogador, que não poderá mais ser citado pelos demais votantes. Segundo na lista, Ben Lyttleton ficou com Maradona por ele “ter liderado a Argentina na Copa de 1986”, enquanto Jonathan Wilson elegeu Cruyff por considerá-lo o mais inteligente de todos os tempos.

MESSI e MARADONA: talentos do futebol argentino, legendas mundiais do futebol…

A lista dos 10 melhores jogadores

1 – Lionel MESSI (ARG)
2 – Diego MARADONA (ARG)
3 – Johann Cruyff (HOL)
4 – Pelé (BRA)
5 – Franz Beckenbauer (ALE)
6 – Lev Yashin (URSS)
7 – Michel Platini (FRA)
8 – Bobby Moore (ING)
9 – Zinedine Zidane (FRA)
10 – Ferenc Puskas (HUN)

Últimos dias para inscrições ao FESTin Lisboa…

Até a próxima terça, dia 31, prosseguem abertas as inscrições ao segundo FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, a ser realizado no Cinema São Jorge, em Lisboa, de 9 a 20 de maio, incluindo uma Mostra de Cinema Brasileiro Contemporâneo, a propósito do Ano do Brasil em Portugal. 

O Brasil será o país homenageado nesta 3ª edição, sucedendo a Moçambique (2010) e a Portugal (2011), no entanto, a partir do próximo ano, o festival passará a contar na sua programação, sempre, com a Mostra de Cinema Brasileiro, anteriormente produzida pela Fundação Luso-Brasileira.

 

Sede da Fundação Luso-Brasileira na capital portuguesa…

As inscrições para a Selecção Oficial Competitiva de Cinema de Expressão Portuguesa (longas e curtas) devem ser feitas, e o regulamento pode ser consultado, pelo site www.festin-festival.com 

Para além das secções competitivas de longas e curtas-metragens e de mostras temáticas paralelas, o FESTin promove ainda debates e oficinas para crianças e jovens. No próximo ano, a organização do evento pensa estender suas atividades às comunidades de língua portuguesa espalhadas pelo mundo. 

As jornalistas Adriana Niemeyer e Lea Teixeira, idealizadoras e produtoras do FESTin, que vai movimentar Lisboa em maio…

O FESTin –  Festival Itinerante de Cinema da Língua Portuguesa foi criado em 2010 pelas amigas Adriana Niemeyer e Léa Teixeira com o objetivo de celebrar e fortalecer a cultura de expressão portuguesa através do cinema, num ambiente de partilha, intercâmbio e inclusão social. É organizado pela Padrão Actual, em co-produção com a Fundação Luso-Brasileira e a EGEAC – Cinema São Jorge. 

Em 2011, a 2ª edição do festival realizou-se entre 26 de Abril e 1 de Maio, exibindo 78 produções dos oito membros da Comunidade de Países da Língua Portuguesa, que foram vistas por mais de 3000 espectadores. O filme vencedor da 2ª edição foi “Hortas di Pobreza”, da jovem realizadora Sara de Sousa Correia.

Mais informações: www.festin-festival.com

Siga o FESTin: www.facebook.com/festin.lisboa

Vem aí o II Festival de Cinema de Anápolis…

Com coordenação-geral de débora torres, Cidade goiana prepara nova edição de seu concorrido Festival

 

Na próxima semana, será divulgado o Edital do Festival, o qual este ano terá mais uma mostra competitiva: a de CURTAS DOCUMENTÁRIOS do CENTRO OESTE, além da principal Mostra – que reverencia a memória do pioneiro ADHEMAR GONZAGA – com exibição de LONGAS METRAGENS BRASILEIROS DE FICÇÃO PREMIADOS e curtas anapolinos de todos os gêneros.
 
 
 
Débora Torres envia um carinhoso convite, no qual reafirma seu propósito de realizar um amplo painel audiovisual e aprofundar os laços afetivos, a partir do fazer cinematográfico:
 
 
Conto com a presença de todos vocês! Alguns como convidados, outros como jurados, ou ainda como homeageados. Mas,sempre com grande prazer.
E VIVA O CINEMA BRASILEIRO !!!
 
 
 
Aurora Miranda Leão, Walter Webb e Débora Torres curtindo a primeira edição do Festival de Cinema de Anápolis…
 

Depois de virar “Bandido”, Ney Matogrosso conquista Sampa

Salva de Palmas: Aniversário da capital paulista terá show do magnífico Artista na praça da República …

A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo convida para os festejos de hoje quando a cidade comemora seus 458 anos. A grande atração é o show Beijo Bandido com Ney Matogrosso na Praça da República, a partir das 20h. 
Com direção musical e arranjos de Leandro Braga, o show mergulha numa atmosfera intimista, em contraponto à sonoridade roqueira do projeto anterior do cantor. O título, Beijo Bandido foi inspirado na letra da música Invento, integrante do repertório, de Victor Ramil.

A seleção das músicas é enfatizada pela excelência e singularidade vocal de Ney, com tangos e canções populares brasileiras, algumas nunca gravadas por ele, como Medo de Amar, de Vinicius de Moraes e Bicho de Sete Cabeças, de Geraldo Azevedo, Ramalho e Renato Rocha.

No espetáculo desta noite, sai de cena o figurino exótico que tornou conhecido e amado o ex-vocalista da banda Secos & Molhados para dar lugar a um terno de cor clara, criação do festejado estilista Ocimar Versolato.

A produção tem caráter acústico e a banda que acompanha NEY reúne artistas como Leandro Braga (piano), Lui Coimbra (violoncelo e violão), Alexandre Casado (violino e bandolim) e Felipe Roseno (percussão).

Com sua performance espetacular e voz singular de contra-tenor, Ney Matogrosso empresta sua original leitura a canções como Tango para Teresa, sucesso na interpretação de Ângela Maria; De Cigarro em Cigarro, e Segredo, ambas gravadas em trabalhos anteriores.

Nascido na pequena cidade de Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, Ney Matogrosso também vai mostrar no show desta noite clássicos como A Bela e a Fera, de Chico Buarque e Edu Lobo; e Nada por Mim, verdadeiro hino dos anos de 1980, criação do poeta Herbert Viannaque cedeu parceria a Paula Toller.

Cor do desejo é a única canção inédita do projeto e foi entregue pessoalmente a Ney por um dos compositores, Junior Almeida, durante a turnê do espetáculo anterior do cantor, Inclassificáveis, em Maceió.

Dentre as 19 músicas previstas para o show do aniversário da cidade de São Paulo, estão ainda As Ilhas, Doce de Coco, e À Distância, sucesso de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

TRADUZINDO: a praça da República de São Paulo viverá esta noite um de seus mais impactantes momentos artísticos com o imperdível SHOW deste Artista fenomenal que é NEY MATOGROSSO, um Midas da MPB – tudo que Ney canta vira preciosidade.

Arrisco-me até a dizer que, caso NEY resolvesse cantar o hit Ai, se eu te pego, do paranaense Michel Teló,  a música ganharia outra sonoridade, e talvez até se descobrisse nela algum valor a mais do que o de ser uma típica música-chiclete.

O que se comenta nas entrelinhas: depois de arrasar pelos festivais do mundo com sua magnífica performance como Ator, vivendo o BANDIDO DA LUZ VERMELHA, no filme de Helena Ignez – a partir de cuidadoso roteiro de Rogério Sganzerla -, Ney Matogrosso conquistou definitivamente o coração da paulicéia.

Quem já viu LUZ NAS TREVAS, o premiado filme da eterna musa Helena Ignez sabe do que estou falando. O filme se passa numa graande cidade qualquer, e é ambientado numa São Paulo moderna, caótica, contraditória, onde NEY vive o famoso Bandido da Luz Vermelha em outro momento de sua história – o primeiro foi em 1968, e o Bandido era Paulo Villaça.

Ney em cena de Luz nas Trevas: consagrado também como grande Ator

Helena Ignez colocou Ney Matogrosso para filmar em meio a comunidade de Heliópolis e ali NEY foi rigorosamente aclamado. O cantor, que iniciou carreira artística como ator, dá um show de atuação no filme e, sobretudo na cena final, onde aparece cantando e atuando, NEY conquista plateias e adesões, mundo afora. Não poderia ser diferente com Sampa. 

Os que ainda não viram, aguardem: LUZ NAS TREVAS será lançado nacionalmente em maio.

Viva São Paulo ! E PARABÉNS ao enorme público da capital paulista que tem hoje a chance de verouvir, de graça, UM SHOW  do mais alto quilate, o SHOW do Artista genial e singular que é NEY MATOGROSSO.

Todos à praça da República !

SARAVÁ !!!

 

Djin Sganzerla faz últimas apresentações de O Belo Indiferente…

Atriz está em cartaz no SESC Consolação em atuação magnânima. Espetáculo tem direção de Helena Ignez e André Guerreiro Lopes

É tão esmeradamemte bem cuidada a atuação de Djin Sganzerla para a cantora carente, insana, perturbada e sofrente da peça escrita por Jean Cocteau que é difícil não cair no lugar comum ao pretender dizer qualquer coisa sobre o espetáculo.

Mas deixar passá-lo em brancas linhas seria um pecado, no qual não quero incorrer.

Estive uma semana em Sampa e um dos objetivos de minha ida foi assistir à Djin no teatro. Estive na platéia muitas vezes e a cada noite fui tocada de modo diferente. Porque o grande intérprete não se repete nunca. Em geral, pulsa no ritmo dos espectadores, noutras vezes é ele quem conduz o público conforme o calibre de sua emoção.

Djin, Helena Ignez e Aurora Miranda Leão: teatro na noite paulista

O Belo Indiferente é um texto difícil. Não é fácil falar da dor da rejeição/solitude/desatenção/desamor/indiferença. Esses sentimentos carregam sempre muita dor, o que só acresce mais obstáculos ao seu desabafo, inda mais quando este é praticado em solilóquio.

Djin Sganzerla topou o desafio. Mergulhou fundo no abismo da busca interior por um personagem sofrido/sofrente, e saiu de lá com invejável fôlego. É esta a sensação que percorre o âmago do espectador que assiste a O Belo Indiferente, em cartaz no terceiro andar do espaço cultural SESC Consolação.

DJIN: beleza e maestria para falar de tristeza e rejeição…

A atriz tem a suprema sorte de carregar no sangue os genes artísticos do pai cineasta (o memorável Rogério Sganzerla) e da mãe atriz, cineasta, artista plástica, escritora, Helena Ignez. E é Helena quem assina a direção do espetáculo, compartilhada com o também ator, diretor, videomaker e grande fotógrafo André Guerreiro Lopes.

E é quase impossível uma receita dar errado quando todos os ingredientes estão certos, bem medidos, inteligentemente unidos.

O BELO INDIFERENTE que São Paulo e seus muitos visitantes podem conferir até a próxima sexta no SESC Consolação é um momento teatral de suprema relevância no contexto cultural contemporâneo. Vale a pena ser visto, mesmo por aqueles que não tem muita afeição pelo Teatro em versão monólogo.

Embora Djin esteja em cena ao lado de Dirceu de Carvalho, este não diz sequer uma palavra. O que também é ato difícil, corajoso, e digno de aplausos. Sabe lá o que ser Ator e ficar uma hora em cena ouvindo o que seu personagem ouve e não esboçar quase nenhuma reação, perfazendo toda a intensa curva dramática do espetáculo sem pronunciar sequer um Ai ? Pois Dirceu faz isso e o faz com competência. Teve a humildade necessária para assumir o papel e tem a grandeza exigida pelo eloquente texto de Cocteau. A ele também o nosso aplauso sincero.

Helena Ignez, que estreou no teatro fazendo este monólogo, teve papel decisivo na hora de indicar a montagem para Djin e André, casados na vida real, e amantes super modernos no filme Luz nas TrevasA Volta do Bandido da Luz Vermelha, cujo lançamento está agendado para maio, no Rio.

Esta aguerrida baiana que despontou para o teatro nos anos de 1960, e que em 1968 provocou uma revolução na forma de interpretar das atrizes brasileiras por sua atuação insólita, visceral e ultra transgressora no filme-marco de Rogério Sganzerla (a obra-prima O BANDIDO DA LUZ VERMELHA), tem mesmo ares de xamã, musa, e maga. Ou então deve carregar escondidinho por entre suas longas madeixas uma varinha de condão… só isso para explicar o porquê de Helena Ignez transformar em ouro tudo o que toca.

A montagem de O BELO INDIFERENTE é um acerto do começo ao fim. Impregnada do ritmo veloz destes nossos tempos, linkados em fruições de mil matizes, esta montagem ganha contornos de instalação visual, entrecortada por sons que dominam o ambiente, vindos de todos os quadrantes, dialogando com discursos visuais criados pela câmera ágil e sensível de André Guerreiro Lopes e o resultado não podia ser outro: O BELO INDIFERENTE é uma encenação inteligente e sensivelmente poderosa.

Djin Sganzerla numa cama que é o próprio retrato da lancinante rejeição…

Ainda pudesse alguém achar o texto entediante, repetitivo, doloroso de ouvir ou coisa que o valha, toda a ambiência cênica proposta por seus criadores, faz com que os aplausos ecoem de forma unânime e ninguém permaneça indiferente a este belo espetáculo. O que mais se alcança dos escólios da platéia, ou se consegue entreouvir quando as luzes de acendem, são as pessoas fazendo comentários de identificação, contando ter vivido tal situação, ou que fulana passou por isso, ou “coitada dela, ainda tá nessa…”, e coisas do tipo.

Em O Belo Indiferente, que Jean Cocteau escreveu especialmente para sua amiga, a cantora Edith Piaf, a dor do desamor e da rejeição, a facada do desafeto e da espera inútil, e o desvario do sentimento que tem como resposta a indiferença se confundem com a falta de amor próprio, com a inexistência de auto-estima, e/ou com a cegueira trágica de um ego mal resolvido ou abandonado. Tudo isso é magistralmente traduzível na cena acme do espetáculo, quando um dos símbolos do amor bem realizado, a cama, se afirma como um deserto de aspereza, iniqüidade, e morte de qualquer emoção aceitável entre duas pessoas que partilham o mesmo espaço.

A cena mais parece um quadro do genial artista belga René Magritte, de uma eloquência chocante, magnânima, necessária. Um luminar da Direção.

Não dá pra se dizer fã, apreciador, aprendiz ou estudioso de teatro ou das novas mídias e não compactuar deste momento forte, vibrante, memorável do Teatro Brasileiro.

E vamos à fabulosa equipe técnica: Simone Mina responde pela Direção de Arte, cenografia e figurinos; a iluminação cabe a Marcelo Lazzaratto; e a concepção sonora é de Gregory Slivar.

Para tornar possível a montagem, colaboram o Ministério da Cultura, a Mercúrio Produções, o Estúdio Lusco Fusco, a Sabesp e o Serviço Social do Comércio. E os colaboradores especiais são: Tufi Duek, e Casa da Sogra – Soluções Sonoras. Apoio: Gopalla Madhavi (restaurante de saborosa culinária – lacto vegetariana com sabores da Índia), Goa, Amazônia, Helaine Garcia, Dona Estética, Banana Verde, Yam, Barão da Itararé, Rota do  Acarajé, Vegacy (Cozinha Vegetariana), Cantina Luna di Capri, Cantina e Pizzaria Piolin, Planeta’s Restaurante, Alves Lavanderia e Tinturaria, Bar do Batata, e Pres Pizza.

Parabéns ao SESC pela aposta no ousado projeto de Djin, André e Helena. Um acerto com absoluto louvor !

E um abraço muito especial de PARABÉNS a esta trupe ultra charmosa e pra lá de competente que são Djin Sganzerla, André Guerreiro Lopes e a amada Helena Ignez.

Que O Belo Indiferente ganhe mais e mais palcos do país !

André Guerreiro Lopes e Djin Sganzerla constroem juntos uma bela carreira…

Enquanto não fica pronto e chega às telas o longa-metragem baseado na peça, que Helena Ignez e André Guerreiro Lopes elaboram juntos, com o auxílio luxuoso da câmera de André Dragoni, mais um jovem e promissor cineasta que o Brasil precisa conhecer.

O Bandido da Luz Vermelha leva Helena Ignez a Roterdã: atriz será homenageada num dos principais festivais do mundo

O professor Gabe Klinger, radicado nos States desde criança,  é um dos curadores, ao lado do holandês Gerwin Tamsma, da mostra A Boca do Lixo, uma seção especial do Festival de Roterdã, a ser aberto semana que vem na Holanda, e prosseguindo até 5 de fevereiro.

Um dos principais do mundo, o festival vai homenagear o cinema marginal produzido em São Paulo entre o fim dos anos 1960 e meados dos 1980. Serão exibidos 16 filmes, de títulos sugestivos como “Fuk fuk à brasileira”, de Jean Garret; “Orgia ou o homem que deu cria”, de João Silvério Trevisan; “Oh! Rebuceteio”, de Cláudio Cunha; e, claro, “Senta no meu, que eu entro na tua”, de Ody Fraga —todos agora enxergados como cult no exterior, mas praticamente ignorados em seu país de origem, o Brasil.

A Boca do Lixo era o termo utilizado para se referir a uma região no centro da cidade de São Paulo onde funcionavam produtoras, distribuidoras e empresas de equipamento cinematográfico, mais ou menos no local que hoje é chamado de Cracolândia. Seus filmes nunca tiveram uma temática única, mas foram associados aos movimentos do Cinema Marginal e da Pornochanchada.

Só que, no cinema produzido na Boca, foram feitos faroestes, melodramas, kung-fus, comédias eróticas e qualquer outro tipo de obra de baixo orçamento com caráter popular. Seu principal cinema era o Cine Marabá, uma sala bonitona que servia como palco para a estreia dos filmes daquela turma.

— O que a gente ganhava num filme, gastava no próximo, sempre procurando melhorar o nível artístico e profissional — afirma Cláudio Cunha, diretor de “Oh! Rebuceteio” e “Snuff, víimas do prazer” (ambos incluíos na mostra de Roterdã, que vai viajar para o festival holandês) .  Além de Cunha, destacaram-se diretores como Walter Hugo Khouri, Carlos Reichenbach, Ozualdo Candeias, Ody Fraga, Rogério Sganzerla, David Cardoso e José Mojica Marins.

Uns faziam filmes de vanguarda; alguns, aventuras comerciais; outros, comédias eróicas. Na lista do Festival de Roterdã estão “A margem”, de Candeias; “O império do desejo”, de Reichenbach; “O despertar da besta”, de Mojica; e “O Bandido da Luz Vermelha”, de Sganzerla.

Obra-prima de Sganzerla, O Bandido desperta cada vez mais a atenção do mundo…

A Cinemateca Brasileira ajudou na restauração de algumas das cópias.A maioria dos filmes nunca havia sido legendada antes, e um dos trabalhos mais áduos da equipe da mostra foi traduzir alguns dos tíulos selecionados. “Fuk fuk àbrasileira”, por exemplo, virou “Fuk fuk Brazilian style”. Já no caso de “Oh! Rebuceteio”, nã foi encontrada uma tradução apropriada.

—O cinema da Boca do Lixo é uma alternativa interessante ao Cinema Novo porque tem mais a ver com a realidade urbana contemporânea do brasileiro —explica Klinger. —A primeira ideia de Roterdã era fazer uma mostra sobre o sexo no cinema brasileiro. Mas aí percebemos que o recorte de filmes da Boca do Lixo era mais interessante, com mais a se debater. Há obras que exploram o sexo, e outras que mostram a realidade mais triste do brasileiro.  Além disso, é uma maneira de exibir São Paulo no exterior. A imagem mais comum que se tem do brasileiro internacionalmente é a do Rio, nunca a de São Paulo. O curioso quanto ao cinema da Boca do Lixo é que sua incessante busca pelo sucesso foi também a responsável por seu fim —e ainda serve de explicação para o preconceito existente hoje contra parte daqueles filmes. Durante os anos 1970, alguns de seus cineastas passaram a optar por incluir cenas de sexo explícito, principalmente após “O Impéio dos sentidos”, do japonês Nagisa Oshima, ter recebido autorização para chegar à telas brasileiras a partir de uma medida judicial. Por conta do polêmico filme japonês, os diretores da Boca descobriram o caminho do sexo e das medidas judiciais. E conseguiram exibir seus filmes com toda a sacanagem que pudessem imaginar.

A intenção era atrair cada vez mais púlico. Mas também afastou as famíias das salas e fez com que o cinema brasileiro ficasse marcado pelos anos seguintes como um cinema baixo, sujo e apelativo.

—A censura atacava por um lado, e a banda podre da mídia, por outro. Chamavam todos os nossos filmes de “porno” alguma coisa. Era pornodrama, pornocomédia, pornochanchada ou pornoterror. Eu fiz o “Sábado alucinante”e chamaram de pornodiscoteca —lembra Cládio Cunha. —Foi isso que acabou com o nosso cinema. Nó deixávamos os departamentos de censura com os filmes retalhados e depois enfrentávamos uma mídia que nos tratava como marginais.

Agora, após a homenagem em Roterdã, essa história pode ser revista. Gabe Klinger pretende aproveitar as novas cópias dos filmes e levar a mostra para outros cantos do mundo, sobretudo para o Brasil. Seria uma maneira de resgatar um gênero que foi taxado com vários nomes pejorativos. Mas que, sobretudo, deveria ser lembrado como uma importante escola do cinema brasileiro.

* Reportagem de André Miranda, do Globo

Brasileiros recebem esta noite o BRAFFTv …

Logo mais, às 19h30, acontece  a cerimônia de entrega do BRAFFTv – Festival de Cinema Brasileiro em Toronto, na sede da Cinemateca Brasileira. Após 5 edições, o prêmio terá estreia no Brasil.

Além de divulgar a diversidade cultural do Brasil e dar visibilidade a marcas e produtos brasileiros no exterior, o BRAFFTv – iniciativa da Puente (Brasil) e da Southern Mirrors (Canadá) -, o Festival contou ano passado com número recorde de exibições de filmes brasileiros, com 60 longas, médias e curtas na programação. Os vencedores das diferentes categorias foram definidos após votação do júri técnico e de público.

Realizado de 29 de setembro a 2 de outubro de 2011, o BRAFFTv consagrou vencedores os filmes “Boca do Lixo” (ficção), “Doce Brasil Holandês” (documentário), “As Mães de Chico Xavier” (júri popular para longa-metragem), “A Fábrica” (média/curta-metragem), “Segundo Movimento para Piano e Costura” (média/curta-metragem) e “Os Magníficos” (júri popular para média ou curta-metragem).

A cerimônia de premiação objetiva tornar o festival mais conhecido no Brasil , bem como aproximar o público e os produtores nacionais do BRAFFTv e de suas mostras paralelas, como o UpTo3’ – Mostra de Animação e Novas Mídias com até 3 minutos de duração, e o Pink Latino – de filmes com temática de gênero e GLBT

OS VENCEDORES

Júri TécnicoFicção curta e médiametragem

Andrew Knoll impõe força e seriedade como protagonista de A Fábrica

Melhor Ator: Andrew Knoll, por “A Fábrica”.
Melhor Atriz: Adriana Pires, por “Segundo Movimento para Piano e Costura”.
Melhor Diretor: Marco Del Fiol, por “Segundo Movimento para Piano e Costura”.
Melhor Filme: A Fábrica” e “Segundo Movimento para Piano e Costura”. (empate).

Júri TécnicoFicção longametragem

Via Negromonte: trabalho de Atriz reconhecido internacionalmente

Melhor Ator:Daniel de Oliveira”, por “Boca do Lixo”.
Melhor Atriz:Via Negromonte”, por “As mães de Chico Xavier”.
Melhor Diretor: Flávio Frederico, por “Boca do Lixo”.
Melhor Filme:Boca do Lixo”.

Júri TécnicoDocumentário

Melhor Documentário:Doce Brasil Holandês”.

Júri PopularFicção e Documentário

Melhor Filme Longa-metragem:As mães de Chico Xavier”.
Melhor Filme Curta/média-metragem:Os Magníficos”.

UpTo3′
Melhor de Público:Mr. Burguer”.

Aquele Beijo é inteligência, humor e sensibilidade de Miguel Falabella na telinha

Desde as primeiras cenas as quais pude assistir, a nova novela de Miguel Falabella, que vai ao ar no horário das sete e tem direção de Cininha de Paula, chamou-me a atenção.

Gosto de Miguel e de sua inteligência inquieta, atrevida, sarcástica, transgressora mas ao mesmo tempo extremamente sensível, delicada e bem humorada.

Infelizmente, os perrenques do dia-a-dia impedem-me de acompanhar a novela como gostaria mas tenho certeza de estar perdendo uma das melhores novelas das mais recentes neste horário das 19h. Miguel melhora a cada nova trama. Como se fora exemplar de uma boa safra de vinho, seu dom de comunicar com leveza, bom humor, alfinetadas sutis nos momentos certos, e lampejos de uma pessoa muito espiritualizada, perpassam toda a sua criação dramatúrgica e se fazem notar de forma mais lapidada, a cada novo trabalho.

Falabella deu a Diogo Villela a chance de, mais uma vez, mostrar seu excepcional talento e versatilidade…

Miguel Falabella é um dos grandes artífices das boas tramas televisivas, sabendo unir com precisão de quem entende fundo do riscado o luxo dos grandes espetáculos da Broadway (aos quais ele tem constantemente transposto para o teatro com público que confirma o acerto de suas criações), o inteligente e irreverente humor carioca, e a pitada de crítica social e política que perpassa toda a sua obra. Pra ele, tiro meu chapéu e ofereço um aplauso entusiasta. De noveleira atenta, de mulher que ama o teatro, de jornalista da área cultural que dedica à TV o mesmo olhar de Respeito que dedica ao Cinema, à Música e às Artes de modo geral, e sobretudo de cidadã que se tornou fã de sua maneira original e inusitada de dizer o que pensa através de obras dramatúrgicas com gosto e sabor de alegria, respaldas num afinado senso crítico e estético.

Miguel Falabella era ademais um dos grandes amigos de meu querido e saudoso dramaturgo de afeição primordial, o inesquecível Mauro Rasi, tão cedo partido de nosso convívio. Não fora por tudo o que já disse, só em ter partilhado do convívio com o genial Mauro Rasi, Miguel Falabella já teria meu respeito.

Pois tudo isso é só pra que ele saiba, e o enorme contingente de público que o acompanha há anos, que ele está fazendo de Aquele Beijo uma obra singular. Inovadora, quando coloca a própria voz do autor funcionando como uma espécie de ‘consciência’ ou alter-ego dos personagens. Isso é um achado magnífico ! Não há quem não pare pra ver. Até meu pai, avesso a novelas, outro dia elogiava os ‘off’ do autor. Uma das frases pronunciadas ontem, na qual Miguel faz uma associação entre Shakespeare, o teatro, a tristeza, o prazer, a dor e o uso de máscaras foi tocante. Pena que não anotei logo a frase e agora ela me foge à memória.

Prisicla Marinho é um dos destaques da trama de Falabella…

Se você ainda não viu Aquele Beijo, se ligue ! É uma novela supimpa, como diria meu querido Mestre Artur da Távola. E, do pouco que eu vi, posso enumerar alguns destaques que saltam aos olhos e ao coração: primeiro, registro o enorme afeto e generosidade que Falabella demonstra por seus amigos-atores. Ele tem esta saudável mania de gostar de dar oportunidade aos amigos, de escrever pensando neles, e de entregar-lhes papéis nos quais possam dar o melhor de si. É assim, desta vez, com Marília Pera, com a querida Zezeh Barbosa – que está ótima no papel e elegantérrima, como merece esta grande atriz -, Claudia Jimenez, Bruno Garcia; e Miguel ainda lembra, sempre, de dar chance a artistas que ficam no limbo – sabe-se lá porquê – e assim faz retornar à telinha nomes como Thelma Reston, Bia Nunes, Maria Gladys, Jorge Maya, Maria Lúcia Dahl, Stella Miranda, e criou um fabuloso papel para o amigo Diogo Villela, que está simplesmente ‘roubando as cenas’ onde aparece. Sem contar na ótima portuguesa Maria Ribeiro, e na volta de Mary Sheylla (!!!), Patrícia Bueno e Priscila Marinho.

Mas no estágio atual da trama, parece-me que uma das situações mais engraçadas é a da doméstica que anda dando uma de patroa pra cima de uma suposta ‘dona do pedaço’…

Claudia Jimenez está ótima na pele de uma vidente…

Aí temos um DESTAQUE Especial: a atriz Lana Guelero, que faz a doméstica Raimundinha, um capítulo a mais na novela, atriz que deve deslanchar depois desta trama – que nem a Prazeres Barbosa, que Falabella viu atuando em Pernambuco, se encantou com ela, e levou-a para a Tv Globo. Assim, o Brasil hoje pode aplaudir Prazeres, como em breve será com Lana Guelero.

* Soube que LANA é atriz formada em Artes Cênicas pela Escola Macunaíma de Teatro de São Paulo. Atua desde 1980, em teatro, televisão e cinema. Participou das novelas “Duas Caras”, “A Favorita” e “Viver a vida” e do premiado filme de Eduardo Coutinho Jogo de Cena.

LANA GUELERO é um vulcão em cena e está arrebentando em Aquele Beijo…

Bia Nunes contracena com Lana Guelero: momentos insólitos de boa quebra de paradigmas…

E tem ainda Luís Salém num personagem hilário e sarcástico. Diz Miguel:

“A personagem de Luís Salém é uma travesti chamada Ana Girafa, participará de um concurso de melhor imitadora da cantora americana Lady Gaga. Para tanto, resolve usar seu vestido de carne. O problema é que a bicha é pobre e não tem dinheiro pra comprar carne, então ela pendura uns pés e uns pescoços de galinha, umas pelancas de carne de segunda e sai pela favela. Aí um cachorro começa a correr atrás dela e ela fala o seguinte: ‘Esse cachorro é homofóbico. Eu vi nos olhos dele!’”

A frase de Ana Girafa é, na verdade, uma crítica do autor ao radicalismo de certos grupos LGBT, que veem homofobia em tudo. “Acho esse negócio de beijo gay uma bobagem. Nas minhas novelas sempre tem travesti. Sempre tive liberdade de fazer várias coisas. Acho até que as pessoas esperam que tenha esse tipo de personagem nas minhas novelas. Então, beijo gay fica tão pequeno perto de uma traveca vestida de carne…”

A Van Première, uma genial sacada de Miguel Falabella… hilário !!!

Outro ponto positivo de AQUELE BEIJO: o romance de Amália e Joselito, uma mulher madura e um homem mais jovem. Esse tipo de relação vem-se incrustando cada vez mais nas tramas televisivas globais, e, a médio prazo, isso vai desembocar numa verdadeira (salutar e necessária) mudança de costumes sociais quanto às relações homem x mulher. Porque para os homens, quando exemplar mais velho da dupla, sempre foi permitido e consentido, desfilar por aí assumindo romances com mulheres bem mais jovens. Para as mulheres, isso sempre foi visto como um absoluto destempero, uma coisa ridícula, o homem mais jovem pro certo só teria interesse financeira na parceria… e as novelas vem, sutil mas constantemente, mostrando que esta situação precisa ter um comum de dois, ou seja, o que vale para o sexo masculino, também deve valer igualmente para as representantes do feminino. E isso está sendo incutido, sub-repticiamente, nas mentes masculinas e femininas. Brevemente, mulheres circularem e assumirem romances com homens mais jovens será tão aceito quanto o é para os marmanjos.

E mais uma vez é a televisão contribuindo para alterar comportamentos, ainda que seus artífices possam apenas estar espelhando o que já vem acontecendo, de modo cada vez mais forte, no dia-a-dia das grandes cidades. Benza Deus !

Que o Amor e a Paixão possam se expressar, publicamente, da forma que nascem – ao cruzar de sinergias e empatias inimagináveis – mas que possam prosperar e proliferar onde quer que haja duas pessoas com igual sentimento afetivo, sensual e sexual uma pela outra.

Nisso também, num arejar de conceitos sobre as relações amorosas, e num questionar de posturas que permanecem arraigadas em formatos de comportamento que já não mais fazem sentido na contemporaneidade, a novela de Miguel Falabella também desempenha importante papel.

Portanto, nosso PARABÉNS caloroso, solidário e entusiasta para Miguel Falabella, Cininha de Paula, a todo o elenco e equipe técnica que fazem de AQUELE BEIJO uma das melhores novelas dos anos mais recentes.

A brasilidade brejeira das canções na voz de Leda Dias

Por força do ofício, ando ganhando uma porção de presentes culturais super bacanas, de extremo bom gosto e com asas pra fazer um belo vôo cultural pelas riquezas artísticas do país.

Alguns desses ganhei no comecinho do ano, mas a agenda se avolumou de tal modo que acabei sem divulgá-los aqui. Agora vou começar a fazê-lo, aos poucos, pois os presenteadores merecem este retorno.

E vou começar de trás pra frente: há coisa de duas semanas, na rádio Universitária FM, ganhei  do paraibano de Recife, Paulo Vanderley Tomaz – funcionário de carreira do BB e homem profundamente ligado à Cultura Nordestina – uma penca de ótimos mimos: um DVD comemorando os 70 anos do sanfoneiro e compositor Dominguinhos, um bloco de notas (cuja capa estampa foto histórica do Rei do Baião, Luiz Gonzaga), e um belíssimo CD da cantora Leda Dias.

Paulo Vanderley é autor dos sites de Luiz Gonzaga e de Dominguinhos, além de ser emérito pesquisador da obra de Gonzagão, a quem conheceu pessoalmente por conta da amizade que o pai travava com o compositor Rei do Baião, quando – em meio a muitas mudanças de domicílio – acabaram por ir morar na cidade pernambucana que ganhou fama, sobretudo por ser a terra de Gonzaga: Exu, na fronteira Ceará-Pernambuco.

Bom papo, e grande entusiasta de suas raízes nordestinas, Paulo Vanderley é tão encantado com seus quereres, que acaba por nos contagiar. E aproveito o espaço para parabenizá-lo pelas expressivas iniciativas de criação dos sites (há em preparo também o site do Gonzaguinha) e, sobretudo, para agradecê-lo por me ofertar esta obra supimpa que é o CD de Leda Dias, cantora pernambucana de agradável voz, cujo disco Canções Brasileiras é uma pérola de altíssimo bom gosto.

O disco encanta pela embalagem preciosa. Ana Rios assina o belíssimo projeto gráfico e Anselmo Alves a produção executiva. A eles, Leda deve a beleza deste lançamento. E, é claro, aos músicos que a acompanham com maestria. A própria Leda, Kiko Chagas, Zé da Flauta e Anuacy Fontes respondem pelos arranjos, que tem pérolas como o clássico Serra da Boa Esperança (do inesquecível Lalá) com arranjo de Kiko Chagas, que responde também pelos violões e um matreiro cavaquinho (!); Noite cheia de estrelas, de Cândido das Neves; Oito Baixos, de Dominguinhos e Climério; Sertaneja, de René Bittencourt; e as belas Tecelã (Xico Bizerra e Maria Dapaz), e Triste Berrante, de Adauto Santos.

Palavras de Caetano Veloso abrem o encarte do CD: “Não sei onde aprendi a cantar/ Só sei que não consigo esquecer/ Cantiga vem do céu/ Vem do mato e vem do mar/ Faz o meu coraçãozinho doer”… o trabalho é dedicado à memória de Chiquinha do Acordeom, e é ilustrado com aquarelas, desenhos e pinturas da artista Guita  Charifker, que concede ao disco um dos mais belos e artísticos encartes dentre tantos lançados diariamente. Vale demais conhecer este trabalho de Leda Dias, não fora ademais a delicada voz da cantora, o repertório selecionado com esmero e os arranjos emoldurando com preciosismo as belas canções, só a beleza do material gráfico já valeria a aposta nestas Canções Brasileiras de Leda Dias.

Leda Dias em estúdio: mais uma cantante qualificada do Nordeste…

O CD foi gravado nos estúdios Studium Produções, de Natal;Ideiaria Estúdio e ZRG Studio de Recife, tendo sido mixado e masterizado entre novembro de 2009 e janeiro de 2010 neste último.

Triste Berrante, última música do disco, tem arranjo sublime, de Kiko Chagas, que também dedilha os violões de aço, com a colaboração de Carlos Zens nas flautas, uma sanfona tri legal de Zé Hilton, percussão de Wagner Tsé, baixo de Zé Fontes e teclados de Daniel Macedo. A faixa é dedicada “aos que levam na alma os sertões do Brasil”.

Pois que os sertões do Brasil se façam muitos, longos e perenes nestas Canções Brasileiras que Leda Dias nos oferece com maviosa voz, belos arranjos para um repertório bem selecionado, e uma deliberada vontade de encantar pela ternura e a força contagiante de quem aposta no afeto e na sensibilidade.

Obrigada, Paulo Vanderley, pela riqueza do presente ofertado.