LG volta a Woody Allen e seu Cinema

Encontros e desencontros à meia-noite na cidade luz, ontem e hoje, antes que o tempo passe

 

Cinema é rever, pois é preciso retornar das últimas cenas para refazer toda a trajetória do filme

Nosso texto sobre Meia-Noite em Paris, realização ímpar na filmografia de Woody Allen, foi publicado em 23 de junho de 2011 no Caderno 3 do Diário do Nordeste, quando já naquela data antevíamos vê-lo ganhar o cobiçado prêmio de Melhor Filme do ano. Infelizmente, para seus admiradores, Allen foi alijado por criticas daqui e dali até mesmo da relação dos melhores, uma “Clamorosa Injustiça”, como bem a descreveu, domingo último (08 jan 2011), o jornalista e crítico José Augusto Lopes.


Para quem não leu os dois textos citados, sugerimos-lhe a leitura atenta e também a do nosso adendo sobre como as gerações de críticos e cineastas do nosso tempo vêem Woody Allen; e como esse intrigante criador jamais passa incólume diante de quem se interessa pelas expressões da arte, quer como simples receptores, quer como a leitura do olhar.

Humor e ironia

De fato, poucos artistas do cinema souberam refletir como Woody Allen sobre o vazio existencial e chegar ao topo da amarga ironia embutida nas imagens das suas comédias dramáticas ou nos diálogos das situações vividas por seus personagens angustiados, sexualmente desajustados, problemáticos, neuróticos e frustrados, todos como quase em busca de uma utopia da felicidade num mundo injusto como o nosso e, inexoravelmente, sem sentido algum.

Dale Bailey em entrevista a uma TV dos EUA, em 1983, afirmou: “Não choramos em seus filmes, estranhamente rimos neles de nós mesmos e do teatro da vida”, bem enfático. O mestre François Truffaut, em entrevista para o Paris Match, nesse mesmo ano, considerou Woody Allen um cineasta de quem as gerações do seu tempo não poderão esquecer. Destacou, incisivo, que no espaço de quatro anos seguidos, de 1977 a 1980, criou ele quatro jóias: Annie Hall; Interiors; Manhattan; e Stardust. Ressaltou, também, o fato de apreciar o filme ´Zelig´, de 1983, como um prodígio de inventividade visual.

Outro olhar

O crítico Enéas de Souza, autor de Trajetórias do Cinema Moderno; e de O Divã e a Tela, assinala, com propriedade, que, em Meia-Noite em Paris, Woody Allen mostra a astúcia e o feitiço do seu cinema, como de fato, já desde a antológica abertura do seu filme, Allen exibe tanto sua maestria no clarinete como nos arranjos musicais de Sidney Bechet (Si tu vois ma mère), Cole Porter (You do something to me), Juliette Greco (Parlez moi d´amour) e Josephine Baker (La Conga Blicoti), para citar, dentre tantos, apenas estes.

Músicas e imagens

São apenas seis minutos melódicos da melhor qualidade numa homenagem a tudo quanto existe de mais belo ou típico em Paris, seja nas manhãs de sol ou na chuva fina das tardes outonais e na visão das clássicas construções arquitetônicas vistas nas noites parisienses, seja ainda nos flashes do trânsito das pessoas por lugares típicos da urbe ou nas margens do Sena e do Palácio de Versalhes, onde, perdido lá perto, o roteirista Gil Pender (Owen Wilson) abraça afetuosamente sua noiva Inez (Rachel Mc Adams), mas ela não deseja morar nos EUA… Quando as imagens vistas pelo olho de Allen chegam ao seu ápice, confrontam a alvorada e a luminosidade incipiente, é como se sugerissem o retorno dos derradeiros planos para o espectador refazer toda a trajetória do filme e melhor compreendê-lo em sua abrangência e plenitude.

Elenco e Personagens

Quanto à condução dos atores e de personagens críveis, poucas vezes Allen foi melhor na tarefa de dar-lhes plena credibilidade aos seus papéis, máxime nas imagens-rosto (image-visage) das quais falava Truffaut. No tocante ao filme propriamente dito, lembramo-nos das palavras dos mestres para quem o sentido do cinema sempre se faz pela seleção das imagens e tempo de duração das tomadas, pela interação dos ritmos interno e externo, pelos efeitos sonoros, edição, continuidade e principalmente pela mise-en-scène, tão bem defendida pelo saudoso Andre Bazin, o pai da Nouvelle Vague. Daí o motivo pelo qual os críticos dessa arte tanto insistem na leitura das análises de Bazin e também . na de “O Cinema e a Encenação”, de Jacques Aumont.

Ficamos por aqui certos de termos demonstrado aos cinéfilos os motivos da escolha de Midnight Express de Woody Allen como sendo o Melhor de 2011.

O escritor Paulo Coelho (de letrista das melodias de Raul Seixas passou a ser o escritor brasileiro mais lido no exterior) redigiu oportuno depoimento sobre Meia-Noite em Paris, do qual transcrevemos o parágrafo de interesse para fãs e cinéfilos da realização de Woody Allen. Ei-lo: (Texto I)

Trecho – Texto I

Adorei o filme de Woody Allen e a forma criativa como nos mostra uma Paris de sonho, mais surreal em relação àquela na qual viviam os surrealistas. Trata-se, na verdade, de um conto de fadas: à meia-noite, após as doze badaladas, surge uma carruagem… Não, neste caso é um automóvel dos anos 20 que vem ao encontro de Gil numa viela deserta. Nele estão Zelda e Scott Fitzgerald, sua mulher, para surpresa e encantamento de quem apenas sonhava tornar-se romancista, embora fosse um roteirista de certo sucesso em Hollywood. Zelda e Scott o levam ao encontro de Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali… como certamente um dia o desejou o próprio Woody Allen em sua primeira e inesquecível visita a Paris, a Cidade-Luz. Quem lá esteve, jamais a esquece e faz tudo para visitá-la novamente, tantos os encantos.

Recursos expressivos na criação da atmosfera

Para o critico e escritor Enéas de Souza, de quem nos valemos para este arremate, o cinema de Woody Allen é a história trabalhada em cima da imagem encarnada em luz e sombra, no caso luz/cor. Veja-se a luz/cor branca dos ambientes da família de Inez, salvo o quarto dos noivos, onde existe um tom de suave atmosfera sensual.

Paris, sempre Paris

Vejam-se, no entanto, os ambientes de Paris dos anos 20, onde o jogo de luz e cores funciona tanto para as cores escuras, quentes, como para a luz propiciadora de um brilho de inteligência. Uma cena extraordinária nesse nível é a da dança de Josephine Baker. Ótima a escolha dos atores, como era com Minnelli. Gil é um jovem de modos ingênuos, cabelos românticos, olhos sempre espantados, boca e fala tímidas, porém com interesse intelectual para o literário.

La belle Inez

Já Inez é composta propositadamente com uma beleza carnal discreta, mas sempre presente, através dos decotes, dos ombros nus, ou de vestidos levemente eróticos. Os pais – credo! – representam a própria formalidade americana, abusiva, arrogante, sobretudo a mãe. E Paul Bates tem a tipologia do “scholar” pedante: corpo impositivo, barba composta com um misto de refinamento, de petulância, de exibicionismo e, evidentemente, de segurança burocrática.

As fronteiras

Enfim, o filme de Allen compõe uma permanente construção de atmosfera, seja gelada e vulgar da família e dos amigos de Inez, seja de aquecimento, de dinamismo, de febrilidade da fantasmagórica Paris da cultura. Com isso, a natureza da imagem de Woody Allen oscila entre o realismo da crítica e a poesia do imaginário. Não se esqueça da qualidade das imagens de Paris, todas colhidas pelo fotógrafo iraniano Darius Khordji. Indefectivelmente, um nome para guardar.

L.G. DE MIRANDA LEÃO
Critico de cinema

 

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