Arquivo do dia: 06/04/2012

A esperança e o sonho no circo de Selton Mello

Selton Mello faz comédia refinada, de imensa beleza e sensibilidade, para falar de afeto, respeito, sintonias…

Penso que quase tudo já se escreveu sobre O Palhaço, a segunda incursão do ator Selton Mello na direção de um longa-metragem. Mas creio que algumas coisas muito singelas e precípuas no filme, precisam ficar mais explícitas. Ou melhor: o filme de Selton me falou, de forma tão profunda e delicada, sobre alguns sentimentos, que gostaria de dividir minhas impressões com você, amigo leitor.

Confesso: como a maioria, já gostava do filme antes de vê-lo. Não só por admirar muito Selton Mello e reconhecer nele um Artista profundo, relevante e necessário, como por todas as críticas favoráveis que li sobre O Palhaço.

Não pretendo dirigir olhares, apontar caminhos ou determinar o lado pelo qual o filme deve conduzir sua emoção. Mas há aspectos essenciais pelos quais seus sentimentos devem ser tocados. E o principal: O Palhaço é um filme que transpõe o espectador a um universo onírico, um oásis para ressaltar e incentivar sentimentos nobres.

Escrevo porque penso que posso contribuir jogando uma pequena semente na busca de uma provável imersão afetiva e mergulho sensorial num dos filmes mais tocantes e profundos dessas últimas décadas. Há tempos não via um filme como O Palhaço: inteligente, sensível, engraçado sem apelação, terno sem pieguice, intenso sem machucar. Um filme brasileiro do terceiro milênio cujo foco não é a pobreza, misérias cotidianas, brigas, preconceitos, racismo, questões de gênero, drogas e afins.

Ou por outra, um filme que revela dimensões importantes e cogentes da psique humana, sobretudo daqueles que fazem arte e carregam, no mais fundo de seu íntimo, uma intrincada certeza dos caminhos incertos e dolorosos, frágeis e muitas vezes solitários, de uma profissão cercada de dúvidas e constantes incertezas, ademais aqui quando está em foco um artista tímido, temeroso e inseguro da sua própria grandeza. Ao mesmo tempo, um filme que aponta para um artista em constante questionamento, parecendo concentrar em si toda a dor da carência e da solitude, que por vezes irá afetar, em maior ou menor escala, cada um de nós, encantados com as tentações da paixão e espicaçados por qualquer suposta rejeição ou desafeto, qual garimpeiros nos escaninhos do afeto.

Selton Mello é uma espécie de mensageiro – sutil, instigante e profético – de idéias que nos perpassam o âmago, sorrateiramente, ainda que não as percebamos de imediato. Às vezes, é preciso que algum arcano, do quilate dele, se embrenhe nas quase sempre difíceis e sinuosas vias de acesso aos recônditos da emoção, para que possamos nos dar conta de certos sinais tão óbvios, tão incrustados, mas quase nunca de fácil aceitação ou tradução.

Com uma simplicidade comovente, e a ternura que desabrocha com assombrosa força de sua interpretação visceral, Selton Mello nos comunica aspectos fundamentais de seu itinerário artístico e suas implicações com o sensório que lhe arrebata a alma. Por tão intrínsecos de seu ser, esses aspectos nos empatizam de imediato e nos fazem enveredar pelas trilhas emocionais que ele tece com profundo cuidado e corajosa imersão para expressar – através da composição invejável de um personagem aparentemente corriqueiro e sem nenhum atrativo especial -, nichos profundos de sua visão de mundo, suas impressões a respeito das relações humanas, e os muitos matizes de que é composta a sua (nossa) tessitura humana: frágil e corajosa, serena e aguerrida, sensível e sensata. Assim, Selton revela-se mais maduro a cada obra, embora mas sofrido (caminho natural para onde nos conduz a maturidade), e cada vê mais verdadeiro, tocante, profundo, essencial e necessário.

Uma das cenas mais tocantes é o reencontro dos palhaços. A cena está encharcada da alma do próprio Selton e é, sobretudo, ele que vemos na troca de olhares e sintonias com o magnânimo Paulo José. Quando os palhaços – Pangaré e Puro Sangue, filho e pai – se reencontram e se entreolham entre felizes e reflexivos – ali está o encontro de dois grandes símbolos do Cinema Brasileiro: o Ator maduro que é também roteirista e diretor, o Ator que descortinou caminhos e é uma das grandes inspirações do outro. O encontro de Pangaré (Benjamim) e Puro Sangue é o encontro do inspirado artista Selton Mello com o magnânimo artista Paulo José, como se um estivesse a dizer ao outro ‘Eu sigo este caminho porque você veio antes e iluminou’; o outro interagindo ‘Prossiga nesta trilha porque você faz como eu faria’.

Ver Selton Mello atuando é um bálsamo para os olhos, os ouvidos, a alma. Mas vê-lo atuando neste O Palhaço (criação sua, com roteiro dividido com Marcelo Vindicatto) é deleitar-se numa criação soberba, irretocável, de um Artista que tem a ousada coragem de fazer um mergulho profundo em seus escaninhos emocionais e submergir deles cada vez mais forte, sereno, estraçalhado muitas vezes, mas possante e determinado por força desta coragem, suprema e catártica.

Ressalte-se: o filme é mais uma parceria Selton Mello-MondoCane e Vânia Catani-Bananeira Filmes. Um acerto auspicioso. E faz-se necessário ao menos um parágrafo para falar no elenco, este encontro feliz que Selton Mello gerou, proporcionando à platéia conhecer novos atores e rever alguns outros de quem tínhamos até saudade e não sabíamos.

Porque não bastaria apenas a proficiência do roteiro, a habilidade da direção, nem a qualidade técnica da atuação de Selton para ofertar ao filme o êxito de público e crítica que alcançou: a excelência de toda a equipe técnica de O Palhaço é fundamental para o sucesso da obra.  

Giselle Motta, a bela morena que faz a partner do palhaço Puro Sange, dançarina do Circo Esperança, é uma gratíssima revelação. Dona de visível sensualidade, Giselle é também bailarina e emprestou ao filme seus dotes de coreógrafa, tendo ela própria criado a bela coreografia com a qual entra em cena no filme. Sua personagem exige nuances expressivas, as quais Giselle alcança com competência e sensibilidade. Uma atriz de teatro que Selton revela para a telona, e que ainda há de merecer vários outros papéis no cinema. Um brinde à descoberta de Giselle Motta !

Teuda Bara, atriz de sólida presença no grupo de teatro mineiro Galpão, é um tipo perfeito para assumir as pegadas do roteiro. Delícia acompanhar sua atuação. Ótimas as participações de Moacyr Franco, Jorge Loredo, Ferrugem, Tonico Pereira, Jackson Antunes, Fabiana Carla, Erom Cordeiro, Emílio Orciollo Netto, Alex Sander, Phil Miller e Larissa Manoela. Toda essa trupe ajuda a compor um painel imagético-interpretativo primordial para o êxito do filme. Dentre esses, considero estupendo o ‘achado’ do ator Renato Macedo, que compõe com galhardia, espontaneidade e pungente alegria um dos tipos mais expressivos da obra.

Renato Macedo em expressiva participação em O Palhaço

Quem também aparece, qual mineiro anjinho barroco, para enfeitar a tela e resplandecer esperança é a bela Bruna Chiaradia, mais uma oportuna descoberta de Selton. Ela faz Justine, após ter feito testes, e revela fazer um personagem que ajudou a criar: “Selton é generoso e deixa espaço aberto para o ator. Ele gosta de chamar o roteiro pelo nome espanhol, guión, que não é um roteiro e, sim, um guia para o ator”. Assim, Bruna conta que, durante um ensaio, improvisou ao esquecer o texto e esse improviso acabou virando parte do filme: “Os atores dão opinião e isso é tão bonito, porque a gente constrói junto e se sente parte”, diz Bruna, emocionada.

Imagem Filmes/Divulgação
 Bruna Chiaradia tem atuação destacada em O Palhaço

Bruna fez o teste, passou e entrou para o elenco como Justine, personagem que ajudou a criar. “Selton é generoso e deixa espaço aberto para o ator. Ele gosta de chamar o roteiro pelo nome espanhol, guión, que não é um roteiro e, sim, um guia para o ator”, conta Bruna. Ela diz que, durante um ensaio, improvisou ao esquecer o texto. O improviso acabou virando parte do filme. “Os atores dão opinião e isso é tão bonito, porque a gente constrói junto e se sente parte”, conclui a atriz.

E um destaque todo especial para a ótima atuação de Danton Mello, que ‘duela’ com o irmão em pé de igualdade e compõe com ele uma das cenas mais engraçadas e interessantes do filme. Assim, com a magistral composição de tipos que conseguiu desenhar, Selton Mello imprimiu ao ecrã um painel artístico bastante impactante e digno, que autoriza com louvor sua óbvia e assinada inspiração felliniana.

Outrossim, o que ressalta mesmo no arcabouço poético deste segundo longa de Selton Mello (impregnado de sutis e belas referências à cidade onde nasceu, aos circos de sua infância, ao amor pelos pais, que aparecem em rápidos closes) são todas as filigranas de suas entranhas pessoais – influências, sensibilidades, inspirações, coerências, homenagens, gratidões, afetos, sintonias, e relações humanas – que adentram, pontuam e perpassam todo o filme com uma singeleza cativante, irrecusável. É de tamanho valor o que Selton Mello nos apresenta em O Palhaço com propriedade, sensatez e ternura que essas suas referências – profundas, viscerais, intrínsecas – acabam por nos contagiar e, quando o letreiro sobe, não há como conter a emoção, as lágrimas, o envolvimento e a completa adesão ao artista grandioso e profundamente imerso em suas verdades que é Selton Mello.  

Portanto, Selton Mello: por nos transmitir sentimentos tão meritórios – como a bondade, a pureza de intenções, a cortesia, a gratidão, a reverência aos que vieram antes, o cuidado com o próximo, a atenção aos de maior idade, o carinho com os menos privilegiados, o respeito pelas diferenças, a delicadeza com os que fogem aos padrões midiáticos, a imensa solidariedade aos desajeitados, rejeitados ou tronchos de desafeto -, e por nos conduzir a estas reflexões com o dom da inocência, da sensibilidade e da ternura, nós lhe parabenizamos e agradecemos.

E lhe desejamos vida longa, cada vez mais Cinema, força e ousadia, agradecendo pela beleza da Arte que você faz com tanta propriedade, vocação e sentido de quem comunica para entrar em contato com o próximo, e entrega a esse encontro o melhor e o mais profundo de seu ser.

Da platéia, é fácil deleitar-se com a interpretação carismática e irretocável de Selton e Paulo José. A graça do personagem de Selton – o palhaço Pangaré/Benjamim – nos contagia desde a primeira aparição. A trama vai nos comovendo mais a cada take, e de repente estamos completamente absortos naquela história aparentemente tão despretensiosa e comum.

Quando a tela escurece e a xilogravura assume a cor exibindo os créditos, ao final de 90 minutos, você percebe que nem viu o tempo passar mas está completamente impregnado pelos sentimentos, sensações e emoções com as quais Selton Mello imprime vigor, e rigor técnico indiscutível a mais um filme seu, suas marcas pessoais de Artista. Relevante e necessário a seu tempo, um tempo que precisa de muito mais Artistas com a estirpe de Selton Mello, e de muito, mais muito mais pessoas com a riqueza de alma e grandeza de valores que Selton Mello traz no coração e que transmite, até sem o saber.

Um abraço muito comovido a Selton Mello e um Parabéns muito caloroso a toda a equipe que tornou possível este Palhaço cheio de charme, carisma e verdades profundas que é o palhaço do Circo Esperança de Selton Mello.

Mês da Literatura no Centro Cultural Banco do Nordeste

Este mês é pródigo em datas comemorativas relacionadas ao livro: dia 2 foi o dia internacional do livro infanto-juvenil, dia 18 comemora-se o dia nacional do livro infantil, e dia 23 é o dia mundial do livro.

Por isso, neste mês, o Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza realiza o Abril para Literatura, evento multimídia e gratuito reunindo diversas atividades em torno da leitura e do livro: palestras em seminário avançado com os escritores José Castello, Ronaldo Correia de Brito e Marisa Lajolo; Dia Manuel Bandeira (dia 19); gincana literária sobre vida e obra de Monteiro Lobato; peça de teatro de Federico Garcia Lorca; curso sobre a poesia erótica de Carlos Drummond de Andrade; debates; reuniões do Clube do Leitor; oficinas de fanzines e de cordel; exposição de fanzines; Tenda Poética; encontros de apreciação e difusão literária; e lançamento de livro. As atividades têm início na próxima terça, 10, e prosseguem até 28 de Abril.

A programação começa com o curso de apreciação de arte intitulado Poesia sem vergonha, cujo objetivo é conhecer a poesia erótica de Carlos Drummond de Andrade, não revelada na mídia pedagógica, desconhecida do grande público admirador da produção artística do poeta. Os textos serão trabalhados de forma suave e plena, como os relacionamentos íntimos, sem  conotação pornográfica. O curso acontecerá de 10 a 13 de abril, das 14h às 17h, com o professor Francisco Feitosa Chaves, de Juazeiro do Norte (CE). São 100 as vagas disponíveis.

Também dia 10, às 18 horas, será discutido, no âmbito do programa Troca de Ideias, o tema Edição, arranjo, encontro: pensar o Livro no Século XXI, apresentado pelo escritor e editor Sérgio Cohn. Sérgio Cohn é editor da revista Azougue desde 1994, e em 2011 criou a Azougue Editorial. É autor de “Lábio dos afogados” (Nankin, 1999), “Horizonte de eventos” (Azougue, 2002) e “O sonhador insone” (Azougue, 2006). Mora atualmente no bairro do Horto, no Rio de Janeiro.

No decorrer de Abril, haverá quatro reuniões do Clube do Leitor – em duas terças, dias 10 e 24, de 12h às 13h; e em dois sábados, dias 14 e 28, de 16h às 17h. O Clube do Leitor é um programa onde as pessoas se encontram para participar de um grupo e compartilhar novas leituras e conhecimentos. As reuniões acontecem na biblioteca Inspiração Nordestina, do CCBNB-Fortaleza.

Outra edição do programa Troca de Ideias acontecerá dia 11, quarta, às 18h. O tema é o conteúdo do livro Ensaios de literatura e cinema e será apresentado pelo autor Régis Frota, com mediação de Odilon Camargo. O livro (e respectivo debate) abordarão obras canônicas que vão desde “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, a clássicos da literatura francesa, como “O amante”, de Marguerite Duras.

Imprimindo um olhar contemporâneo à releitura dessas obras – como aos filmes de Glauber Rocha e outros cineastas clássicos, e suas narrativas cinematográficas, o livro “Ensaios de literatura e cinema” aborda questões cruciais, como reflexividade, autoconsciência, poesia, vanguardismo etc., oferecendo um panorama histórico do cinema e da literatura, destinando-se àqueles que desejam conhecer as relações da literatura com o fenômeno cinematográfico.

Uma gincana literária, destinada ao público infantil, tematizando a obra de Monteiro Lobato, acontecerá dias 11 e 12 (quarta e quinta), das 13h30 às 16h30. Serão duas tardes com atividades literárias voltadas à temática do mês da Leitura: um Quiz sobre a obra e a vida de Monteiro Lobato, Tabuleiro Literário, Caixa Surpresa e muitos brindes para a criançada.

O teatro e a dança também se associam à programação do Abril para Leitura. É o espetáculo Diwan de Lorca, com texto do autor espanhol Federico Garcia Lorca e apresentação da Cia. Palmas Produções Artísticas. A atriz Francinice Campos assina a adaptação, direção, figurino, adereços, maquiagem, coreografia, cenário, concepção de luz e sonoplastia.

Amor, agonia e morte situam derradeiramente esta obra de Lorca, no ponto de confluência entre estas três linhas de força, assumindo uma forma cada vez mais contida e depurada, caracterizada por um acentuado sentido rítmico, com a claridade crepuscular no seu horizonte poético, a assunção pessoal, modificada e onírica. Classificação indicativa: 14 anos.

O Ciclo do livro: da criação à edição será o assunto conversado pelos escritores e editores Nilto Maciel, Jorge Pieiro e Kelsen Bravos, com mediação de Paula Izabela, no próximo dia 14 (sábado), às 17h. Cada passo, cada degrau, cada momento que configura o ciclo do livro, será amplamente debatido por esses três escritores que transitam com desenvoltura no mercado editorial. Após o debate, será lançado o livro O outro dono do fim do mundo, do escritor Jorge Pieiro.

A programação infantil de Abril também compreende duas atividades sobre a leitura: uma peça teatral e uma contação de histórias. A peça é Os brinquedos no Reino da Gramática, em cujo enredo o reino da gramática está de pernas para o ar: Um rei louco, um cowboy inteligente, um porco faminto por palavras, estão envolvidos nesta fantástica e atraente história vivida por brinquedos que lutam contra o analfabetismo. Conseguirá o povo libertar as palavras que estão em posse de um rei analfabeto ? A gramática será um país onde novamente o prazer da leitura se tornará um hábito saudável para todos ? Neste espetáculo, os brinquedos têm vida e o maior tesouro é o saber. Com texto de Fernando Lira, a peça será apresentada aos domingos, dias 15, 22 e 29, em duas sessões: 14h e 16h.

Por sua vez, a contação de histórias se intitula Zip Zap contos e canções, com José Jacinto de Matos Medeiros, também dias 15, 22 e 29, às 17 horas. Histórias contadas para fazer sonhar, encantar, voar nas asas da imaginação; de vez em quando ser uma borboleta ou uma gaivota, mas na volta pisar firme num solo qualquer.

A oficina Produção de cordel: origem, identidade e importância na cultura nordestina visa à despertar o interesse do público em desenvolver seu potencial para a arte de fazer cordel, preservando esse tipo de literatura. A literatura de cordel é um indispensável caminho de incentivo à leitura, por contar nossa história de forma geral, e descrever religiosidade, costumes e folclore. A oficina contará com carga horária de 16 horas-aula, e será realizada de 17 a 20 de abril (terça a sexta), de 14h às 18h. O instrutor da oficina será Raul Poeta, de Juazeiro do Norte (CE).

Uma exposição e uma oficina de fanzines também integram a programação do Abril para Leitura, dias 17 e 18. A exposição Zineteca contará com a presença da Zineteca Móvel. O objetivo é apresentar o fanzine (ou zine) como veículo de comunicação, seu contexto histórico e diferentes modos de criação. A exposição acontecerá de 10h às 17h, nos dois dias. Já a oficina de fanzine produzirá coletivamente um Fanzine sobre temas ligados ao cotidiano de leitura e escrita dos participantes (livros preferidos, relatos de cenas vividas em bibliotecas etc.). Acontecerá de 14h às 18h, nos dois dias. São 20 vagas.

Também dia 17, às 18h30, o programa Troca de Ideias aborda o tema A educação por vir: fabulações a partir do cinema, com o professor Júlio Groppa. Ele é livre-docente da faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, bem como pós-doutorado pela Universidade de Barcelona. Pesquisador do CNPq, Júlio Groppa vem desenvolvendo trabalhos de pesquisa voltados à apropriação do pensamento foucaultiano na pesquisa educacional brasileira, bem como à problematização dos processos de governamentalização educacional em curso na atualidade, especialmente aqueles em torno das práticas de escrita.

Manuel Bandeira: um Dia para se conhecer mais a sua obra…

Com produção da professora Fernanda Coutinho, o Dia Manuel Bandeira: um poeta da vida inteira, dia 19, de 10h às 19h, será a data na qual o CCBNB-Fortaleza homenageará um dos principais criadores do Modernismo brasileiro, o poeta Manuel Bandeira (Recife, 1886-1968), que participou da Semana de Arte Moderna de 1922, tendo seu poema “Os sapos”, lido no Teatro Municipal de São Paulo. Bandeira contribuiu também para a revista Klaxon, um das revistas baseadas em ideias revolucionárias perante a situação política que dominava o País naquela época, colaborando para vários jornais e traduzindo peças teatrais propagadoras dos ideais modernistas em voga. Esta primeira fase do Modernismo, que completa 90 anos, se caracteriza pela radicalidade das propostas de rompimento de todas as estruturas do passado.

O seminário avançado Abril Literário traz como palestrantes os escritores José Castello (RJ), Ronaldo Correia de Brito (CE/PE) e Marisa Lajolo (SP), com mediação das professoras Sarah Diva Ipiranga (UECE) e Andreia Turolo (UFC), e da jornalista Regina Ribeiro. O seminário acontecerá de 24 a 26 de Abril (terça a quinta), de 14h às 18h.

A Tenda Poética e o CCBNB-Fortaleza realizam juntos uma programação intitulada Poesia desse chão, repleta de poesia, rodas de leitura, oficinas de criação literária, performances, videopoemas, contação de histórias e a mostra de Poesia Falada. Para apresentar um poema na mostra, basta se inscrever no Centro Cultural Banco do Nordeste ou no site do grupo Templo da Poesia (www.templodapoesia.org). A Tenda Poética será armada dias 26 e 27 (quinta e sexta), de 14h às 18h.

Já no sábado, dia 28, às 18 horas, o grupo Templo da Poesia apresentará o tema Poesia para mudar o mundo, dentro do programa Literatura em Revista. Os artistas do Templo da Poesia – coletivo de poetas e literatos que organizam e movimentam um espaço cultural há quase três anos em Fortaleza – utilizam o gênero poético em performances para trabalhar a arte em torno de duas de suas principais funções: deleitar e instruir.

Portanto, baseados no tema de Ítalo Rovere (“o amor de todo mundo para mudar o mundo”), Talles Azygon, Reginaldo Figueiredo, Gervana Nobre, Carlos Arruda e Carlos Amaro utilizam a força e a expressividade da palavra  para tentar modificar o mundo. Assim, em toda essa perspectiva, eles misturam vários elementos como brinquedos, instrumentos musicais e utensílios em geral para encantar públicos de todas as idades, e também para falar de cidadania e direitos humanos.

Marina Wisnik consagra vocação e carisma do pai na música

 
Marina Wisnik traz força, beleza e ternura na voz…
 
Instigante revelação feminina da boa música brasileira, Marina Wisnik acaba de registrar seu début. O primeiro álbum chama Na Rua Agora, disponível primeiro digitalmente e pelo site Musicoteca, vem com 11 faixas e traz a estreia da também escritora, já com produção de um dos nomes mais falados de 2011, com o disco “Feito Pra Acabar”- Marcelo Jeneci – e Yuri Kalil (Cidadão Instigado). A qualidade do trabalho vem atrelada à voz doce de uma poetisa que, ademais, é ilsutre filha de um dos mais cults e relevantes poetas da canção brasileira, o pianista/escritor e professor de Literatura Brasileira na USP, José Miguel Wisnik.
 
Gravado no estúdio Mosh, em 2011, o álbum conta ainda com a participação dos músicos da banda Cidadão Instigado (Regis Damasceno – baixo e violões e Clayton Martin – bateria e percussão), além de Jonas Tatit (violões), Chico Salém (guitarra), Estevan Sinkovitz, Luque Barros, Ricardo Prado, Márcio Arantes e Eric Rahal (vocais) e o próprio Jeneci (multiintrumentista). 
 
 
MARINA WISNIK: cantora surge cercada por grandes músicos e com afinação invejável..
 
O trabalho tem ainda a parceria de Thiago Pethit, que concorreu ao VMB do ano passado com seu clipe ao lado de Alice Braga – “Nightwalker”. Com a própria Marina, Bruna Lessa e Eric Rahal, ele compôs a faixa Dezesseis
 
José Miguel Wisnik, uma das inteligências mais brilhantes do país, é grande músico e ver passar seu talento e vocação à filha Marina…
 
A cantora, que fez o lançamento do disco no Sesc Pompeia (SP), é filha do aplaudido Miguel Wisnik (conforme citado acima), que começou sua história no piano clássico e hoje faz shows regulares pelo Brasil e pelo mundo. Agora focada na música, Marina cursou Letras, fez teatro e escreve Palíndromos desde muito cedo. Desta vez, ela estreia com o trabalho que teve início num violão faltando uma corda – e faz sobrar emoção.
 
 

Os vencedores do É Tudo Verdade, por Carlos Alberto Mattos

A força dos personagens

Meirelles, Cuíca, Sganzerla

Apesar do espaço cada vez maior que os festivais de cinema brasileiros vão abrindo para os documentários, o É Tudo Verdade continua a ser a menina dos olhos da turma do real. É ali onde se forma um certo senso de comunidade, e o foco se concentra nas questões dessa modalidade de cinema. O festival virou um motivo a mais para novos documentaristas se aventurarem a bordo de suas câmeras.

No último dia 31, foram conhecidos os premiados da 17ª edição, encerrada no Rio e em São Paulo, seguindo dia 10 para Brasília e em maio para Belo Horizonte. O vencedor da competição brasileira de longas-metragens leva um prêmio no valor de 110 mil reais – mais um motivo de interesse para quem lida com os orçamentos miúdos da chamada não-ficção.

O que salta aos olhos desse conjunto de sete trabalhos selecionados pelo festival é, mais que tudo, a força dos personagens centrais. À exceção de Tokiori – Dobras do Tempo, de Paulo Pastorelo, que trata de uma rede de imigrantes japoneses numa área rural de São Paulo, os demais são dominados por personalidades fortes. Quatro delas dão título aos respectivos filmes, mostrando como a personalização é dado recorrente na pauta dos documentaristas brasileiros. De todos, Mr. Sganzerla, de Joel Pizzini, e Os Irmãos Roberto, de Ivana Mendes e Tiago Arakilian, antípodas em matéria de estilo, são os que mais se colam à forma de expressão dos seus personagens.

Pizzini cria uma espiral barroca de referências para apresentar o cineasta Rogério Sganzerla através de quatro grandes admirações: Orson Welles, Oswald de Andrade, Noel Rosa e Jimmi Hendrix. Pelo uso abundante de falas de Sganzerla, numa edição veloz, o filme reproduz a sua verve de enfant terrible, as alusões obsessivas e o estilo indisciplinado que o fizeram, assim como Glauber Rocha, quase tão importante pelo que disse e escreveu como pelo que filmou. A impressão de excesso é parte da proposta um tanto avassaladora de ser fiel ao personagem.

No extremo oposto da escala de irreverência, Os Irmãos Roberto enfoca, com imagens e depoimentos bem organizados, o trabalho dos arquitetos modernistas Marcelo, Milton e Maurício Roberto, responsáveis pelo célebre escritório MMM Roberto. O filme os apresenta através de falas e imagens bem compostas, editadas de maneira a sugerir linhas de continuidade e harmonia de formas condizentes com a obra que enfoca. Embora nada se fale da vida pessoal dos Roberto, são eles, como personagens, que norteiam um debate mais amplo sobre os destinos arquitetônicos do Rio de Janeiro.

Uma figura como Dino Cazzola, o produtor cinematográfico italiano que registrou a criação e consolidação de Brasília durante três décadas, tem sua vida privada referida rapidamente em Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília. No filme, Andrea Prates e Cleisson Vidal trazem uma seleção de imagens daquele acervo praticamente desconhecido. A intenção é contar a história da capital por um viés crítico, ainda que se utilizando de filmagens quase sempre “chapa branca” em sua origem. Mas os poucos dados biográficos de Cazzola despertam a curiosidade do espectador. Com sua cidade destruída, ele teria ajudado os pracinhas brasileiros na Itália e vindo com eles para o Brasil ao fim da II Guerra.

Paralelo 10, de Sílvio Da-Rin, e Coração do Brasil, de Daniel Santiago, são filmes de expedição que se inscrevem numa das primeiras tradições do documentário brasileiro. Mesmo assim, são os personagens principais que controlam o timão dos docs. Paralelo 10 viaja com o sertanista José Carlos Meirelles por um rio do Acre, nas proximidades da área dos índios isolados. Meirelles é um dos fundadores da nova mentalidade indigenista que visa respeitar o direito do índio ao não contato. Já em Coração do Brasil, são três homens de idade avançada que se dispõem a refazer a viagem que empreenderam 30 anos antes ao centro geográfico do Brasil, em terras indígenas do Mato Grosso. Aqui também, é a personalidade dos viajantes que acaba se sobrepondo às peripécias do trajeto.

Nenhum, porém, é mais pitoresco do que o personagem-título de Cuíca de Santo Amaro. O poeta de cordel que fez a crônica social e política de Salvador nos anos 40 a 60 era um Malasartes nativo, um “canalha modesto” no dizer aproximado de Millôr Fernandes. Sua trajetória entre escândalos, propinas e a picardia dos versos é contada com gosto no filme de Joel de Almeida e Josias Pires. Há poucas imagens de Cuíca, mas seu perfil está na tela pelas vias de um bom relato.

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