Os vencedores do É Tudo Verdade, por Carlos Alberto Mattos

A força dos personagens

Meirelles, Cuíca, Sganzerla

Apesar do espaço cada vez maior que os festivais de cinema brasileiros vão abrindo para os documentários, o É Tudo Verdade continua a ser a menina dos olhos da turma do real. É ali onde se forma um certo senso de comunidade, e o foco se concentra nas questões dessa modalidade de cinema. O festival virou um motivo a mais para novos documentaristas se aventurarem a bordo de suas câmeras.

No último dia 31, foram conhecidos os premiados da 17ª edição, encerrada no Rio e em São Paulo, seguindo dia 10 para Brasília e em maio para Belo Horizonte. O vencedor da competição brasileira de longas-metragens leva um prêmio no valor de 110 mil reais – mais um motivo de interesse para quem lida com os orçamentos miúdos da chamada não-ficção.

O que salta aos olhos desse conjunto de sete trabalhos selecionados pelo festival é, mais que tudo, a força dos personagens centrais. À exceção de Tokiori – Dobras do Tempo, de Paulo Pastorelo, que trata de uma rede de imigrantes japoneses numa área rural de São Paulo, os demais são dominados por personalidades fortes. Quatro delas dão título aos respectivos filmes, mostrando como a personalização é dado recorrente na pauta dos documentaristas brasileiros. De todos, Mr. Sganzerla, de Joel Pizzini, e Os Irmãos Roberto, de Ivana Mendes e Tiago Arakilian, antípodas em matéria de estilo, são os que mais se colam à forma de expressão dos seus personagens.

Pizzini cria uma espiral barroca de referências para apresentar o cineasta Rogério Sganzerla através de quatro grandes admirações: Orson Welles, Oswald de Andrade, Noel Rosa e Jimmi Hendrix. Pelo uso abundante de falas de Sganzerla, numa edição veloz, o filme reproduz a sua verve de enfant terrible, as alusões obsessivas e o estilo indisciplinado que o fizeram, assim como Glauber Rocha, quase tão importante pelo que disse e escreveu como pelo que filmou. A impressão de excesso é parte da proposta um tanto avassaladora de ser fiel ao personagem.

No extremo oposto da escala de irreverência, Os Irmãos Roberto enfoca, com imagens e depoimentos bem organizados, o trabalho dos arquitetos modernistas Marcelo, Milton e Maurício Roberto, responsáveis pelo célebre escritório MMM Roberto. O filme os apresenta através de falas e imagens bem compostas, editadas de maneira a sugerir linhas de continuidade e harmonia de formas condizentes com a obra que enfoca. Embora nada se fale da vida pessoal dos Roberto, são eles, como personagens, que norteiam um debate mais amplo sobre os destinos arquitetônicos do Rio de Janeiro.

Uma figura como Dino Cazzola, o produtor cinematográfico italiano que registrou a criação e consolidação de Brasília durante três décadas, tem sua vida privada referida rapidamente em Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília. No filme, Andrea Prates e Cleisson Vidal trazem uma seleção de imagens daquele acervo praticamente desconhecido. A intenção é contar a história da capital por um viés crítico, ainda que se utilizando de filmagens quase sempre “chapa branca” em sua origem. Mas os poucos dados biográficos de Cazzola despertam a curiosidade do espectador. Com sua cidade destruída, ele teria ajudado os pracinhas brasileiros na Itália e vindo com eles para o Brasil ao fim da II Guerra.

Paralelo 10, de Sílvio Da-Rin, e Coração do Brasil, de Daniel Santiago, são filmes de expedição que se inscrevem numa das primeiras tradições do documentário brasileiro. Mesmo assim, são os personagens principais que controlam o timão dos docs. Paralelo 10 viaja com o sertanista José Carlos Meirelles por um rio do Acre, nas proximidades da área dos índios isolados. Meirelles é um dos fundadores da nova mentalidade indigenista que visa respeitar o direito do índio ao não contato. Já em Coração do Brasil, são três homens de idade avançada que se dispõem a refazer a viagem que empreenderam 30 anos antes ao centro geográfico do Brasil, em terras indígenas do Mato Grosso. Aqui também, é a personalidade dos viajantes que acaba se sobrepondo às peripécias do trajeto.

Nenhum, porém, é mais pitoresco do que o personagem-título de Cuíca de Santo Amaro. O poeta de cordel que fez a crônica social e política de Salvador nos anos 40 a 60 era um Malasartes nativo, um “canalha modesto” no dizer aproximado de Millôr Fernandes. Sua trajetória entre escândalos, propinas e a picardia dos versos é contada com gosto no filme de Joel de Almeida e Josias Pires. Há poucas imagens de Cuíca, mas seu perfil está na tela pelas vias de um bom relato.

Acesse: http://carmattos.wordpress.com/ https://twitter.com/carmattos.

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