Ainda a respeito da Páscoa…

Páscoa é travessia de esperança

Pedro Rubens, Reitor da Universidade Católica de Pernambuco
 
 
 
A vida tem seus ritos e as experiências vitais supõem ritos de passagem: seja a iniciação a uma nova etapa da vida, seja a experiência de alguém que perdeu um ente querido ou que precisa redesenhar o seu cotidiano depois de um infarto, da notícia de um câncer ou de portador de HIV, realidades com as quais terá que conviver. Testemunhar a vida depois de uma experiência de morte, eis uma maneira de fazer uma “virada pascal”, para usar o título sugestivo da celebração que fizemos na Unicap, dia 11 deste mês. Páscoa é, primordialmente, passagem, assim como a vida é, fundamentalmente, travessia: na Páscoa, a tradição bíblica recorda a travessia do povo pelo deserto, rumo à terra prometida, cuja memória é celebrada anualmente de geração em geração; na simbologia cristã, Jesus personificou as experiências de seu povo em sua vida, paixão, morte e ressurreição; por isso dizemos que Ele é nossa Páscoa. Celebrar cada ano a Páscoa de Jesus Cristo, é fazer a memória do Crucificado de Nazaré, profeta de um povo sofredor e esperançoso; um povo messiânico que guardou a memória de uma Aliança com Deus, mas também fez o exame de suas próprias infidelidades; e, até hoje, as comunidades cantam fervorosamente: “também sou teu povo, Senhor, e estou nessa estrada, cada dia mais perto, da terra esperada”. É essa esperança teimosa da ressurreição – da vida que vence a morte – que celebramos na Semana Santa e, de certa forma, é o que desejamos aos nossos parentes e amigos quando dizemos “Feliz Páscoa”. Mas como interpretar o sentido da Páscoa aqui e agora? Entre tantas possibilidades, uma pista de atualização.

Recentemente, de 26 a 28 de março, realizamos na Unicap, em parceria com a Fundação Imitatio, o Simpósio Internacional René Girard. Além de dialogarmos com pensadores importantes, lançamos uma série de livros, em português, com o nome de “Biblioteca René Girard”, na presença de alguns de seus autores. Dia 29, juntamente com alguns participantes, fomos à avant-première da Paixão de Cristo, na Nova Jerusalém. Entre uma cena e outra, refletia sobre a atualidade das reflexões antropológicas de Girard a respeito da lógica sacrificial, patente tanto no tempo de Jesus quanto nas nossas sociedades atuais. O drama da Paixão de Cristo desmascara o desejo humano compulsivo de sacrificar vítimas para legitimar o poder, o status e as ideias vigentes: de alguma forma, as sociedades parecem necessitar de “bode expiatório” para expurgar sua culpa e externar sua violência primordial, segundo o desejo mimético (Girard); mas, Jesus Cristo teria rompido com o esquema sacrificial, não reagindo com violência à condenação que o levou à morte, quebrando a corrente da violência e da vingança.

 
 
Inspirados nos relatos bíblicos, o texto da Nova Jerusalém acentua ainda mais o complô do poder instituído, tanto político quanto religioso, na condenação de Jesus. O silêncio surpreendente do Mestre de Nazaré contrasta com a quantidade de argumentos dos chefes, alimentados pela inveja, sedentos de vingança e justificados pela lógica sacrificial. Assistimos, portanto, na Paixão de Cristo, a memória de um processo injusto e o drama de um inocente condenado sem processo legal, resultando na condenação à morte. Há dois milênios essa memória do crucificado é narrada em comunidades, não para “punir” os algozes ou fomentar vingança, mas para resgatar o direito à verdade da vítima que não se defendeu; isso é importante, inclusive para que não fiquemos cegos ou surdos a outros processos igualmente injustos em nosso tempo presente; a memória é fundamental não apenas para reconciliar o passado, mas para alimentar a esperança. A paixão de Jesus, nesse sentido, é paradigma de tantas “paixões” da humanidade, assim como a sua condenação e a sua morte fazem pensar em uma sociedade humana que não merecerá esse adjetivo enquanto promover o sacrifício de inocentes. Ecoa em mim um trecho da Paixão segundo a Nova Jerusalém: por um lado, uma voz sentencia que “Jesus foi condenado pelo poder de Pilatos; quem quiser salvar um inocente, apresse-se!”; por outro, algumas vozes repetem: “Não há mais tempo…”

A Páscoa, paradoxalmente, retoma esse imperativo do tempo passado como ousadia de uma esperança presente e futura: ainda é tempo de fazer a memória dos que morreram impunemente, sejam vítimas da ditadura militar quanto aquelas da escravidão e das secas do Nordeste; ainda é tempo de empenhar nossos esforços para evitar mais sacrifícios e propor um futuro novo àqueles contemporâneos que tiveram sua infância negada, seus direitos cassados, sua vida comprometida pelo descaso e pela injustiça. Relativizemos alguns de nossos pontos divergentes, façamos um pacto pela vida, pois ainda há tempo para a esperança. Na visão cristã, “os sofrimentos são como dores de parto” na gestação de um novo mundo possível e esperança de uma humanidade nova. E “a esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações” pelo Espírito do Ressuscitado. Feliz Páscoa!

 
* Os grifos em AZUL são iniciativa desta Redatora. 

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