Rubens Ewald Filho, patrimônio do Cinema, comenta sobre o Festival de Paulínia

O triste caso de Paulínia

Não foi propriamente uma surpresa. Em agosto do ano passado, depois de eu ter sido apresentador do III Festival de Paulínia (por sinal um sucesso, já considerado um dos melhores do Brasil), eu senti que a coisa não ia bem. Embora na noite de entrega dos prêmios eu mesmo tenha anunciado a realização de um novo evento em 2012 que seria em junho (e não julho – por causa deste ser ano de eleição e a lei cria muito empecilhos), logo depois recebi um recado dizendo que meu contrato como consultor do Pólo de cinema não seria renovado!

Por questões burocráticas diziam, e com o adendo de que estavam procurando um jeito de resolver e entrariam em contato comigo. Naturalmente isso não sucedeu e eu não tornei público meu afastamento. Até agora, quando os jornalistas me procuram para saber o que acho deles terem cancelado o festival deste ano, dando desculpas bobas e inverdades (o festival custava R$ 2 milhões e não 10, por exemplo).

Na verdade, eu, Tatiana Quintella e o prefeito Edson Moura, que fomos os criadores do Festival e do pólo, sentimos como se estivessem matando um filho nosso. Enfiaram uma faca no peito e ele está na UTI, lutando pela vida. Tudo o que levou anos para ser concebido, criado com todo carinho, está sendo desmantelado com despudor típico da política.

Não muito diferente do que fizeram com a Coleção Aplauso na Imprensa Oficial, nunca assumindo que acabou, dizendo meias verdades, procurando enrolar a imprensa (que não pode fazer nada sem ter depoimento de alguém, sua função é reportar, não opinar).

Paulínia é uma cidade próspera, ex-distrito de Campinas, onde Edson Moura foi prefeito e nos procurou para realizar seu sonho. Ele achava que uma cidade que vive da indústria do Petróleo vai sempre ter o problema de que ele, além de poluidor, tem a tendência de acabar, ou ao menos diminuir, substituído pelas energias verdes. Se o petróleo acabar, acaba também a cidade. Então teve a visão de transformar o lugar num pólo de turismo cultural, com ênfase no cinema.

poster do festival de paulinia de cinema 2011 1310067410203 300x420 O triste caso de Paulínia

Edison procurou Tatiana (que seria a secretária da Cultura – vinha do mercado de Home Video e se revelou uma fera de notável competência que hoje floresce na produtora Paranoid). Depois eu vim para o projeto. A princípio, a ideia era fazer um festival de cinema brasileiro. Mas achamos que podíamos ir mais longe, ter um diferencial, não apenas exibir filmes, mas também produzi-los. Foi assim que procuramos nos espelhar nos sistemas de investimento do Canadá, nos estúdios de cinema espanhóis e numa lição brasileira: como no resto do mundo, cinema pode ser lucrativo, desde que se estabeleça como indústria.

Quando alguém filma numa cidade, derrama dinheiro no lugar desde que tenha também incentivos. Então o dinheiro que sai, poderia e deveria retornar através de serviços prestados pelos habitantes da cidade.  E isso aconteceu já, teve filmes que receberam uma ajuda de X e, ao filmar nos estúdios de Paulínia e na região, acabaram deixando lá exatamente esse X. Isso sem levar em conta o prestígio que a cidade adquire, mesmo internacionalmente (Paulínia já foi motivo de muitas reportagens mundo afora).

Enfim, foi o que procuramos fazer, mas só tivemos tempo de realizar o primeiro festival porque houve eleição e mudança de governo. Como em todo lugar do mundo, os que tomam posse, a primeira coisa que fazem é tirar o poder da gente. Comigo foi assim, a cada edição mandava menos (ou nada), ficando reduzido a uma figura decorativa de apresentador (ao lado da querida Marina Person).

Agora, com desculpas esfarrapadas, ameaçam de morte tudo que construímos. Como estou afastado, não posso contar aqui os bastidores, nem os comos e ou porquês. Qualquer um sabe que quando um festival é interrompido é muito difícil se recobrar do baque, leva anos às vezes para isso. Se conseguir. Não foi falta de dinheiro com certeza.

Talvez alguma jogada política. Vá entender. O que eu sinto e lamento é que o sonho do pólo de Paulínia está ameaçado e corre perigo. Mais que um festival, estão matando uma ideia, um projeto que seria bom para a região e o País.

N.R.: Rubens Ewald Filho é o mais atuante e festejado crítico brasileiro de Cinema, considerado o maior do país, e descoberto quando ainda era um iniciante repórter em jornal santista, pelo pioneiro Adhemar Gonzaga, criador da histórica revista CineArte e da companhia cinematográfica CINÉDIA.

Ao lado de Marina Person, Rubens apresenta o Festival de Paulínia…

Com mais de quarenta anos de profissão, Rubens é pioneiro: foi o  primeiro a escrever sobre filmes na TV, sobre vídeo, depois sobre DVD. Foi o primeiro crítico a trabalhar numa televisão por assinatura (a Showtime da TVA, depois virou diretor de programação e produção da HBO Brasil, esteve uma temporada no Telecine e atualmente está no programa TNT Mais Filme, em sua terceira temporada e também na Band apresentando longas-metragens ).

Também fez cinema como ator e roteirista, escreveu telenovelas (a mais premiada foi Éramos Seis, em parceria com Sílvio de Abreu, em duas versões na Tupi e no SBT), dirigiu vários êxitos teatrais e é autor de diversos livros na área, assim como assina vários Dicionários de Cineastas, fundamentais para os estudiosos e amantes da Sétima Arte.

Como se tudo isso não bastasse, Rubens ainda é excelente gourmet e assina livro sobre culinária: em 2007, lançou o livro O Cinema vai à Mesa, em parceria com Nilu Lebert, pela Editora Melhoramentos (premiado na Inglaterra) e, em 2008, Bebendo Estrelas, sobre vinhos e coquetéis. Também foi o criador e coordenador da insigne Coleção Aplauso (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), através da qual lançou mais de 170 títulos de resgate e preservação da história artística e cultural do Brasil – um gesto só possível em alguém muito preocupado com a valorização da memória e com o reconhecimento ao mérito alheio.

Além de ter uma memória prodigiosa, Rubens Ewald Filho tem uma percepção sobre o fazer artístico impressionante e é capaz de falar horas, com a maior propriedade e carisma, sobre os meandros da arte de fazer cinema, teatro, televisão.

Germano Pereira, Alice Gonzaga, Rubens Ewald Filho e Aurora Miranda Leão em noite de cinema em Anápolis…

Tenho a honra e a alegria de partilhar da amizade do grande crítico e de já ter desfrutado de vários momentos inesquecíveis com ele. E posso afirmar, além de tudo quanto sabe, de tudo que Representa para a Cultura Brasileira, e de tudo quanto é capaz de tocar e tornar melhor, Rubens Ewald Filho é um gentleman, um vocacionado para a Comunicação e alguém com quem trocar ideias é prazeroso, frutífero, e pleno da seiva da renovação.

Rubens Ewald Filho também é conhecido como o Homem do Oscar, depois de comentar 24 vezes a festa dos Academy Awards para o Brasil (atualmente para a TNT, onde comenta também as festas do Globo de Ouro e SAG).

Agora, Rubens Ewald Filho assume a Curadoria do Festival de Cinema de Gramado, ao lado de José Wilker e do jornalista e professor Marcos Santuário. Uma notícia auspiciosa para cinéfilos, estudiosos e amantes do Cinema de modo geral.

Este AURORA DE CINEMA, por exemplo, aposta que esta edição, que será a 40a do mais conhecido festival de cinema do país, terá aumento considerável de público e um painel de exibição mais diversificado e de mais fácil diálogo com o público habitué dos festivais de cinema.

* Acompanhe o Blog de RUBENS EWALD FILHO, sempre recheado de informações preciosas e comentários abalisados sobre a Sétima Arte:

 http://noticias.r7.com/blogs/rubens-ewald-filho

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