LG sobre ORSON WELLES : O crepúsculo de um gênio

O crítico L.G. de Miranda Leão escreve sobre os derradeiros dias da vida produtiva do cineasta ORSON WELLES…

Os anos 70 e 80 marcam a derradeira atuação de Orson Welles como roteirista, diretor e, às vezes, ator. Começam com “The Deep” ou “Dead Reckoning”, de 1970, baseada na novela “Dead Calm”, de Charles Williams, com Jeanne Moreau e Laurence Harvey. As filmagens aconteceram fora dos estúdios, na Dalmácia e Iugoslávia. Restrita aos cineclubes, a película não foi exibida comercialmente.

Em 1972, Orson Welles fez o roteiro de “O Outro Lado do Vento” (The Other Side Of the Wind) e dirigiu o filme, com o veterano John Huston no papel principal. As filmagens foram iniciadas em Los Angeles, mas não chegaram a ser concluídas. O drama gira em torno de dois veteranos de guerra. Eles estão a caminho de serem condecorados em Washington, quando um deles desaparece… Um “thriller” sombrio, tipo filme “noir” dos anos do pós-guerra. Uma pena não ter sido exibido comercialmente.

Em 1973, Welles escreveu também o roteiro e dirigiu “Verdades e Mentiras” (F for Fake) (“Verités et Mensonges”, título francês), uma produção França-Irã e Alemanha Ocidental, com Oja Kodar, Elmyr de Hory e Laurence Harvey. Um ensaio magnífico sobre as fraudes, truques e mentiras no mundo da arte. Numa estação de trem, Welles chega a pronunciar palestra sobre o tema, ilustrando-a com imagens pertinentes. Apesar do entusiasmo de alguns críticos presentes, “Welles parece agora mais um charlatão e menos um cineasta magistral”, opinião registrada no “Halliwell´s Film Guide”. “Ubi Veritas?”

Homenagens

Em 1976, com a presença de Ingrid Bergman, Frank Sinatra, Joseph Cotten, Janet Leigh, Laurence Harvey e mais 1,2 mil convidados, Welles recebeu o grande prêmio do “American Film Institute” por sua valiosa contribuição ao cinema. Anteriormente, essa distinção fora outorgada ao diretor John Ford e ao ator James Cagney. Em 1982, em reunião solene, Orson Welles foi condecorado com o grau de comendador da Legião de Honra, a mais alta distinção do governo francês. Como declarou o presidente François Mitterand, Welles era “um dos que conseguiram expressar, por meio da arte, o que existe de mais profundo na alma humana”, aqui entendido o termo como a parte incorpórea, inteligente ou sensível do ser humano; o pensamento, a mente, como se referia o saudoso cineasta Maurício Gomes Leite, sempre quando a palavra “alma” aparecia num texto ou num discurso … Os agradecimentos feitos por Welles foram bastante aplaudidos.

Em 1983, Welles recebeu o prêmio “George Méliès” por sua valiosa contribuição à evolução da linguagem cinematográfica, ao mesmo tempo um homenagem póstuma ao pioneiro incontestável da 7ª Arte, com seu poético e inventivo “Le Voyage dans la Lune”.

No mesmo ano, Welles também fez jus ao Prêmio “Luchino Visconti” por sua contribuição inestimável “à evolução da linguagem cinematográfica” e pelo seu legado de realizações imorredouras, como bem afirmou em entrevista o grande Stanley Kubrick, admirador de Welles desde “Cidadão Kane”. Em 10 de outubro de 1985, aos 70 anos, Welles saiu de cena solitariamente com a fama de “gênio maldito do cinema”… O editor Martin Claret foi incisivo: “O mundo amanheceu mais pobre. Orson Welles havia morrido”.

Welles e Bazin

Uma das coisas mais louváveis de Welles foi seu reconhecimento pessoal das teorias de André Bazin, nas quais o grande teórico francês privilegiava não só a “mise-en-scène” (a encenação), mas também a verdadeira continuidade em detrimento da montagem, bem assim a profundidade de foco e o “plan-séquence” (ou sequence shot) evitando centenas de cortes, às vezes até mais de mil durante um projeção. Soube-se disso não porque tivéssemos estado em Paris em busca de filigranas, mas porque, quando lá esteve, nosso saudoso Walter Hugo Khoury conversou sobre o assunto com alguns redatores dos “Cahiers” e deles ouviu que Welles já havia concordado com a visão percuciente de Bazin, segundo a qual é preciso privilegiar no cinema de hoje a encenação e a continuidade e deixar o excesso de cortes da montagem para quem quiser continuar com ela.

O crítico André Bazin em conversa com o cineasta François Truffaut…

François Truffaut também opinou sobre a questão. “A montagem pode destruir a realidade apreendida pela câmara, impondo-lhe ritmos que são os seus. Deve-se ter em conta, antes, a natureza das coisas, o sentido existente nas coisas e que o registro fixo aprisiona” afirmou, em entrevista à imprensa francesa, em setembro de 1960.

Em poucas linhas, o grande mestre do cinema sintetizou o sentido mais profundo da arte do cinema. Ei-lo: “Um filme não é realmente bom senão quando a câmara é um olho na cabeça do poeta. Tudo quanto é vivo num filme deriva da capacidade que a câmara tem de ver. Ela não vê naturalmente em lugar do artista, vê com ele. A câmara é, nesses momentos, muito mais que um aparelho registrador: é uma via por onde chegam as mensagens de um outro mundo, o mundo dos sonhos, o mundo do inconsciente, um mundo que não é nosso e que nos introduz no seio do grande segredo”.

 LG. de Miranda Leão é jornalista com mais de 50 anos de atividade ininterrupta como Crítico de Cinema, autor dos livros “Analisando Cinema” (Coleção APLAUSO – Imprensa Oficial de São Paulo) e “Ensaios de Cinema” (Edições BNB – Cultura da Gente).

Dono de extensa filmografia, Welles também foi ator e deixou obra sempre revisitada…

SAIBA MAIS

Filmografia:

1934 – Hearts of age (curta)
1938 – Too much Johnson (curta)
1941 – Cidadão Kane
1942 – Soberba
1942 – Jornada do pavor
1946 – O estranho
1948 – A Dama de Shanghai
1948 – Reinado de sangue
1949 – Memórias de um mágico
1952 – Othello
1955 – Grilhões do passado
1955 – Moby Dick rehearsed (TV)
1956 – Orson Welles and people (TV)
1958 – A Marca da Maldade
1958 – The Fountain of youth (TV)
1958 – Portrait of Gina (TV)
1960 – David e Golia
1962 – No exit
1962 – O Processo
1965 – Campanadas a medianoche
1968 – História imortal
1968 – Vienna
1969 – The Merchant of Venice (TV)
1970 – The Deep
1971 – London
1972 – The Other side of the wind
1975 – Vérités et mensonges
1984 – The Spirit of C. Lindbergh
1992 – Don Quixote
1993 – It´s All True

ORSON WELLES: divisor de águas na história da Sétima Arte…

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