LG de Miranda Leão rememora RAY BRADBURY

Ray Bradbury, um mestre da imaginação

O renomado crítico de Cinema, LG de Miranda Leão, professor de Língua e Literatura Americana, destaca os feitos do escritor, nas Letras e no Cinema

Conforme noticiado pela mídia, faleceu nos EUA, aos 91 anos, neste 6 de junho, o renomado escritor americano Ray Douglas Bradbury, mais conhecido como Ray Bradbury. Não se veiculou a causa mortis, mas a julgar por sua longevidade e boas condições de saúde até pouco tempo, pode-se supor um colapso cardíaco. Na revista Carta Capital, de 13 deste mês, a jornalista Rosalie Pavam propicia informações valiosas sobre esse mestre da literatura, o qual se dizia um grande aventureiro e um “escritor de ideias”, não de ficção científica. Bradbury nasceu em 1920 e estreou nas letras com “Hollerbochen´s Dilemma” (1938), aos 18 anos. Não admira ter ficado internacionalmente conhecido com sucessos literários da categoria de “As Crônicas Marcianas” (1950), “O Homem Ilustrado” (1951) ou do romance “Fahrenheit 451” (1953), este levado ao cinema por François Truffaut em 1966, filme comentado mais adiante por este crítico.

O método de trabalho de Bradbury, segundo se divulgou, consistia em associar palavras a ponto de dar-lhes uma história inteira, como ele próprio explicou quando escreveu “O Homem Ilustrado”, citado acima. O que viesse como consequência, registra Rosane Pavam, era o inesperado, mas também tudo ou quase tudo quanto morava dentro dele… “Daí datilógrafo, por exemplo, uma palavra como ´berçário´ em minha máquina, não sei porquê, e imagino como seria esse berçário. Do passado, do presente? Em qual país? No Polo Norte, na África? E então começo a escrever e desenvolver minhas vivências e a construir um ambiente tridimensional. Ponho as crianças naquele lugar, depois seus pais e os relaciono com o mundo e seus problemas…”. Valioso pela sua sintaxe e poder de imaginação e competência nos diálogos, Bradbury conquistou grande importância no mundo da literatura. De repente, diz ele, “você voa apenas porque ousou colocar as palavras no papel… nem sabia que a história já estava com você, mas continua a escrever”…

Lembranças dos amigos

Bradbury nadava em bom humor. Dizia divertir-se com as ideias. Melhor dizendo, brincava com elas. “Não sou uma pessoa séria e não aprecio gente séria…” A disposição de Bradbury para falar em público (e como gostavam de ouvi-lo…) durou até o fim. Em 1955, casado, pai de quatro meninas, ele foi à TV para que Groucho Marx o desafiasse no “show” bem sucedido de “You Bet Your Life”. Groucho não conhecia bem Bradbury, mas ele, então com 35 anos, já escrevera seus 30 livros mais importantes e roteirizava a adaptação de “Moby Dick”, de John Huston, em 1956.

Duma feita Groucho Marx lhe perguntou: “O que você faz?”. “Sou um escritor”, simplesmente isso. Groucho, confundindo “writer” (escritor) com “rider” (piloto), perguntou “De motocicleta?”. Ray esclareceu a diferença de ofícios soletrando “writer”. E Groucho: “É muito reconfortante, estamos diante de um escritor que sabe soletrar…”. Um tanto receoso de que somente o público de ficção científica o distinguisse, Bradbury escreveu outras fantasias sem preocupações de verossimilhança.

Do livro para o Écran



“Farenheit 451” nasceu de um roteiro de Ray Bradbury baseado no livro de sua lavra (1953), filmado em cores por Nicholas Roeg com direção competente de François Truffaut. “Farenheit 451” não está entre as melhores realizações do mestre francês, segundo alguns críticos americanos exigentes. Em verdade, as circunstâncias físicas das filmagens e as discordâncias com a produção e problemas de roteiro e dublagem (pela primeira vez, num filme de Truffaut, só se fala em inglês) devem ter contribuído para a visão crítica de alguns poucos analistas. Ainda assim, Truffaut conseguiu tornar críveis os personagens, dar-lhes vida frente às câmaras e fazê-los atuar como deveriam e como queria o “metteur-en-scène”.

De resto, as imagens truffautianas não só atingem seus objetivos nos 112 minutos de projeção, como enriquecem o ritmo das ações, entendido o termo por Truffaut como “o desenvolvimento harmonioso, no tempo e no espaço, de elementos estéticos expressivos com alternância de valores imagéticos de variável intensidade”. A visão precisa do cineasta excede a tradicional definição de Jacques Aumont e Michel Marie, para quem o ritmo no cinema é apenas “o padrão de movimento produzido na relação entre as partes de uma realização fílmica”.

Luta contra o futuro

As cenas de abertura de “Farenheit 451” já têm o seu forte impacto motovisual: é quando se veem a caminho os homens fardados, de roupa negra, chegando de forma estridente nos seus carros vermelhos, e depois quando entram de supetão numa residência para acionar os lança-chamas com os quais destroem centenas de livros: para os invasores, apenas material subversivo deste mundo sombrio do futuro recriado pela arte do cinema. “Teremos um estado fascista no futuro?”, perguntou um cinéfilo descrente do amanhã e para quem vivemos no pior dos mundos. Impossível predizer qualquer coisa nesse sentido. Melhor é acompanhar os desdobramentos do filme e ver ou rever o “Farenheit 451” de Truffaut, recorrendo a alguém disposto a emprestar o DVD para exibi-lo em circuito fechado. Infelizmente não temos mais o Clube de Cinema Darcy Costa de outros tempos…

Antevisão do amanhã

A população do futuro, segundo especulações de analistas, sugere uma massa de zumbis conformistas, intelectualmente enfraquecida pelo consumismo que não exige muito esforço mental ou físico. Embora extremadas na sua apresentação, as questões futurísticas nunca foram mais relevantes do que hoje. Em 1966, a recusa de Linda (Julie Christie) de perder até mesmo um momento de sua interativa “soap opera” (expressão com a qual se criticavam os programas de vídeo na TV sobre vidas imaginárias de um grupo de pessoas) deve ter parecido artificial, agora não é sequer uma sátira. Essa sociedade do futuro, à qual se referem alguns críticos, está em perfeito contraste com o mundo secreto dos livre-pensadores. Com eles, o personagem vivido por Montag (Oskar Werner) e as máscaras fisionômicas do elenco de apoio enriquecem a atuação de atores com Cyril Cusack, Anton Diffring e Jeremy Spencer, para ficarmos só nestes nomes vindos à lembrança.

O roteiro inclui um expediente de ocasião na floresta, é o “lar” de centenas de “livros-pessoas” que optaram ficar fora da sociedade e se estabeleceram longe dela, cada uma tendo memorizado um livro que logo se torna sua identidade. Eles passaram seu tempo recitando uns para os outros, e aí a imaginação de Bradbury e roteiristas chega ao seu final. Ficamos por aqui.

L.G. DE MIRANDA LEÃO
* Crítico de cinema, residente no Ceará, autor dos livros “Analisando Cinema” e “Ensaios de Cinema”

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