O crítico André Barcinski afirma: “O cinema virou um grande saguão de aeroporto, igual em toda parte”

O jornalista André Barcinski assina um Blog na Folha de São Paulo. Escreve tão bem e com tanta propriedade, que a leitura de seus textos vale como uma aula.

Seu mais recente artigo, intitulado Quem explica a decadência do cinema ? é tão eloquente, profundo, inquietante e adequado aos tempos de hoje, que pedi sua permissão para dividi-lo com você, leitor amigo.

Há tempos, o que Barcinski conseguiu tão bem expressar em poucas e objetivas palavras me ‘beliscava’ a sensibilidae. Enfim, encontrei um texto sobre os caminhos do Cinema hoje que eu adoraria ter escrito.

Meu MUITO OBRIGADA a André Barcinski por este texto precioso e pela generosa permissão de publicá-lo. A ele, meu abraço caloroso e meu Aplauso sincero.

 

Que as artes estão em crise, ninguém discute.

Não conheço ninguém que diga que o cinema, a música e a literatura estão melhores hoje do que há 30, 40 ou 50 anos.

Vejo pelo que consumimos aqui em casa: tirando filmes, CDs e livros recentes, que preciso conhecer por obrigação profissional, quase tudo que vemos, ouvimos e lemos tem pelo menos 30 anos de idade.

No caso do cinema, arte mais cara do mundo e certamente a mais “escrava” da indústria e do mercado, o caso é ainda mais sério.

Essa semana , revi “The Last Wave”, um thriller dirigido em 1977 pelo australiano Peter Weir.

O filme é mais inventivo e experimental do que qualquer coisa nova que eu tenha visto recentemente.

Claro que a decadência das artes – e do cinema em especial – é um tema complexo e que vem sendo discutido há um tempão.

Gostaria de colaborar com a discussão citando uma teoria que, se não explica totalmente esta decadência, certamente contribui muito para ela.

A primeira vez que essa idéia me chamou a atenção foi há quase 20 anos, quando meu amigo Ivan Finotti e eu fazíamos entrevistas para a biografia de José Mojica Marins.

Um dos entrevistados era Virgilio Roveda, o “Gaúcho”, conhecido fotógrafo e assistente de câmera, que trabalhou por muitos anos na Boca do Lixo.

No meio do papo, alguém lembrou uma cena particularmente complexa que Gaúcho havia ajudado a rodar na Boca (não consigo lembrar de que filme era, só lembro que envolvia um plano-sequência longo e complicado). Perguntei a Gaúcho por que eles haviam filmado a cena daquela maneira e não de uma forma mais simples.

“Naquela época, a gente podia fazer o que quisesse”, respondeu Gaúcho. “Se o diretor entregasse o filme no prazo e dentro do orçamento, o produtor não queria nem saber como ele tinha feito. E tem mais: a gente nunca achava que alguém ia ver o filme depois do lançamento em cinema, não existia essa coisa de VHS.”

Faz todo sentido: filmes eram feitos para cinema. Ninguém achava que o filme seria visto e depois revisto em VHS, laserdisc, DVD, Blu-ray, TV a cabo, Netflix, Internet, etc.

Imagem de ‘O Sétimo Selo’, de Ingmar Bergman, clássico do cinema mundial

Filmes eram produzidos com um único objetivo: estrear numa sala e arrecadar na bilheteria. Uma vez que o espectador tivesse comprado o ingresso, a batalha estava ganha.

O depoimento de Gaúcho me fez pensar em como as mudanças no mercado têm colaborado para restringir a liberdade criativa do cinema.

Foi no meio dos anos 70 que Hollywood começou a usar, com mais freqüência, testes com público e pesquisas para decidir como fazer filmes (quem quiser se aprofundar no tema, sugiro ler “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood”, de Peter Biskind).

Depois, os estúdios perceberam o potencial do lançamento em VHS e da venda de filmes para TV. Filmes passaram a seguira uma certa “fórmula”, com roteiros claramente pensados para obedecer até aos intervalos para os comerciais de TV.

O mercado, que antes consumia cinema, passou a ditar a maneira como este deveria ser feito.

Hoje, o cinema é feito por encomenda. Estúdios investem em produtos de retorno garantido: adaptações de HQs e séries de TV, refilmagens, filmes que copiam outros filmes, com os mesmo atores, a mesma música, o mesmo estilo. No Brasil, a nova moda são comédias de estilo televisivo.

Até o chamado “cinema alternativo” sofre com isso. É só ver o fenômeno da globalização dos filmes de arte para comprovar.

Hoje, se você tirar o som de um filme argentino, por exemplo, é impossível diferenciá-lo de um filme francês ou de um sueco. Todos se parecem. A fotografia obedece à mesma estética publicitária “clean”.

As diferenças estéticas do cinema de cada país, antes tão evidentes, foram quase banidas, em prol de uma assepsia global. O cinema virou um grande saguão de aeroporto, igual em toda parte.

Até os anos 70, ir ao cinema era uma coisa especial. Você via um filme sem saber se teria chance de revê-lo. O cinema causava deslumbramento e um senso de descoberta, que foi se perdendo ao longo dos anos, com a padronização do cinema e a crescente banalização do acesso aos filmes.

Ninguém está dizendo que o acesso fácil e barato, como temos hoje, é uma coisa ruim. Claro que é fantástico dar dois cliques no mouse e baixar a obra completa de Bergman ou Kurosawa.

O ponto é outro: desde que filmes deixaram de ser feitos só para salas de cinema, algo mudou neles. E não foi para melhor.

* André Barcinski é crítico da Folha de S. Paulo. Trabalhou no jornal Notícias Populares, Jornal do Brasil e Jornal da Tarde. Foi correspondente em Nova York e Los Angeles. Autor de “Barulho”, vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem de 1992, e co-autor de “Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão”. Diretor de “Maldito” (2001), documentário vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Sundance.

Para ler outros textos de BARCINSKI, acesse: http://andrebarcinski.blogfolha.uol.com.br/

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