Crítico LG ressalta relevância de filme de Truffaut

Primeira produção de Truffaut em língua inglesa, Fahrenheit 451 é uma fábula onde a própria raça humana se transforma no terror mais assustador…

Surpreendeu-nos bastante o artigo do crítico Luís Carlos Merten, publicado dia 18 de junho pelo jornal Diário do Nordeste, no qual afirma que o filme dirigido por François Truffaut beira o desastre. Incrível. Surpreendeu-nos, sim, pois somos ledores dos artigos de Merten e o colocamos entre nossos bons analistas. Só não conseguimos concordar com ele quando indaga o motivo pelo qual os críticos até hoje se perguntam como um tema “truffautiano” foi tão mal servido por Truffaut… Recordamo-nos de outro artigo de Merten, publicado em 23 de maio de 2003, no jornal Estado de São Paulo, quando elogia Truffaut e põe nele o título por demais expressivo: “Truffaut desvenda o artifício que faz a magia do cinema”…

Cartaz do filme de Truffaut: o horror de um mundo sem livros

Entendemos que Jean Tulard exagera ao citar, em Dicionário de Cinema, que Truffaut com seus gostos de crítico não sinalizava (?) para o diretor acadêmico no qual se transformou… Existem, sim, belas cenas em Fahrenheit 451 e, mais uma vez, vamos discordar da afirmação de Merten, para quem qualquer diretor de filmes B de Hollywood teria feito melhor que o mestre francês. Para ele, a inadequação é flagrante e a ficção científica de Truffaut beira seu fim, embora outros cineastas, como o saudoso Maurício Gomes Leite (criador de Vida Provisória, 1993), não cheguem a tanto.

Avaliações

Em verdade, os críticos ingleses Gerry Carpenter (www.scifilme.com) e James O´Ehley (The Sci-Fi Movie Page) louvam o filme criticado por Merten ao afirmarem que, a obra literária de Ray Bradbury sobre um futuro sem livros, ganha assustadora dimensão realística neste clássico filme dirigido com mãos de mestre por François Truffaut, um dos grandes inovadores do cinema de todos os tempos.

Montag (Oskar Werner) é um bombeiro designado para queimar livros proibidos até conhecer uma revolucionária professora que se atreve a lê-los. De repente, escrevem os citados críticos, Montag se vê como um fugitivo caçado, forçado a escolher não apenas entre duas mulheres, mas entre sua segurança pessoal e a liberdade intelectual.

Primeira produção de Truffaut em língua inglesa, “Fahrenheit 451 é uma fábula extraordinária na qual a própria raça humana se transforma no terror mais assustador e tem um dos roteiros mais inteligentes e a melhor direção de uma adaptação literária para o cinema que já vi”. Palavras do já citado Gerry Carpenter com as quais o crítico James O´Ehley concorda e lamenta já não estar entre nós a figura inesquecível de François Truffaut.

PALAVRAS DO DIRETOR

François Truffaut: um dos grandes ícones da cinematografia francesa…

Indagado sobre o motivo pelo qual foi levado a ler o romance de Ray Bradbury para adaptá-lo ao cinema, respondeu o cineasta: “Foram três frases simplesmente mágicas. Um país onde é proibido ler, onde os livros são queimados, e onde quem lê se vê condenado ao opróbrio, à prisão, se necessário até à morte. Um personagem que faz parte das brigadas de destruição dos livros pelo fogo descobre a leitura e acaba por juntar-se aos que resistem por osmose a essa decisão arbitrária: eles se tornam homens-livros para que estes e seu conteúdo não morram: eles aprendem de cor um livro e o transmitem a uma criança, um amigo, no dia de sua morte”.

“A partir desse momento”, prossegue Truffaut, “decidi fazer Fahrenheit 451. Encontrei o autor, em 1962, em Nova York, comprei os direitos de seu livro, e comecei a trabalhar com Jean-Louis Richard, meu roteirista. Tivemos então a decepção de ver que seria muito difícil viabilizar esse projeto na França, mesmo colocando Jean-Paul Belmondo para interpretar o papel de Montague, a quem ele apreciava muito. Tive de esperar quatro anos até ter condições financeiras para realizar o filme na Inglaterra. Aliás, o lugar não fazia a menor diferença: tanto podíamos ter rodado Fahrenheit 451 em Londres quanto em Estocolmo ou Toronto”.

Estes dois parágrafos foram extraídos dos textos reunidos por Anne Gillian e publicados pela Editora Nova Fronteira sob o título O Cinema segundo François Truffaut (Le Cinéma selon François Truffaut), livro no qual o cineasta francês demonstra sua vastíssima cultura cinematográfica, falando de tudo quanto se refere ao mundo mágico do cinema, ao mesmo tempo apaixonado e atento ao alcance de cada uma de suas palavras. Sua excepcional capacidade de narrador propicia um caráter de magia à sucessão de fotogramas de seus filmes e também está presente na sucessão de palavras deste livro magnífico perpetuador de Truffaut como autoridade incontestável em matéria de cinema.

Não esqueçamos: Truffaut tinha a rara capacidade de exprimir em imagens o inefável, ou seja, “tudo quanto não pode ser expresso em palavras”. Aproveitamos para destacar uma sugestiva disposição de palavras na capa do DVD conducentes ao filme de Truffaut: “O que seria da nossa vida se não tivéssemos o direito de ler?”.

Para concluir, destacamos duas reflexões de Truffaut: a primeira sobre ritmo cinematográfico e a segunda sobre tempo psicológico. Ei-las: “O ritmo cinematográfico é a disposição ou o desenvolvimento harmonioso no espaço e/ou no tempo de elementos expressivos e estéticos, com alternância de valores imagéticos de diferente intensidade“; “À medida do crescimento das ações na tela e do fluir das imagens rumo ao clímax, o tempo psicológico aumenta a sensação de apreensão e de incerteza por parte do espectador. É quando a câmara cinematográfica parece ver tudo quanto interessa ao drama e ter todas as objetivas em plena atividade e em função de um efeito artístico”.

Fahrenheit 451: clássico de Truffaut é alvo de discordância entre críticos…

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