Natal de Caboré e Abraço de Maré

Capital nordestina tem belo DOC para ganhar circuito audiovisual e prepara Festival para abrir 2014 com Alegrias de Cinema

Natal, cidade nordestina arretada de gostosa e bonita, é uma das muitas cidades brasileiras premiadas com cenários naturalmente cinematográficos.

Não é incomum estar por lá e não ter a mente, imediatamente, pontilhada de imagens estonteantes e vontade de pegar uma câmera e sair filmando suas belezas singulares.

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Márcia Lohss, Bruno Diniz e Aurora Miranda Leão

Pois é nessa direção que a atriz e produtora Márcia Lohss – que tive a alegria de conhecer em Campina Grande durante Seminário sobre Interpretação promovido pela UEPB e Secretaria de Cultural do Município -, seguiu quando resolveu criar um painel para evidenciar os potenciais artísticos do povo potiguar e dar-lhes a dimensão própria da telona de cinema.

As ideias foram brotando, ganhando formatos na imaginação e no papel, e brotou a ideia que deve concretizar-se em 2014: o Festival Caboré de Cinema, cujas inscrições deverão ser abertas ainda este ano.

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Márcia Lohss e Aurora de Cinema: nordestinas de Cinema !

Conhecendo Márcia Lohss logo se percebe que ela não é de poucas histórias nem de ficar parada preparando o próximo personagem: a inquieta cidadã norte rio-grandense não descansa no salto, concede aos belos cabelos ruivos um descontraído cavalgar no vento e segue anotando ideias, costurando parcerias e fazendo brotar sementes que vão dar bons frutos ao amplo painel a ser instaurado com o Festival Caboré. O foco central será a Sétima Arte mas Márcia Lohss quer agregar muitas outras fontes artísticas para dar sustança, alavancar e reverberar o Caboré país afora.

E não é difícil perceber que o movimento artístico e a produção audiovisual em Natal vem ganhando bons contornos e tem tudo para gerar ótimos frutos. Uma clara demonstração disso foi exibida em Campina Grande, na noite festiva de encerramento da oitava edição do Festival COMUNICURTAS, comandado pelo jovem e indormido cineasta/professor/roteirista/produtor André da Costa Pinto.

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Victor Ciriaco, Aurora Miranda Leão e Hélio Ronyvon no Comunicurtas

Na tela do Comunicurtas, que tinha como cenário o histórico Teatro Severino Cabral, o público campinense e de muitos convidados e realizadores de cinema de várias partes do país, foi exibido, em pré-lançamento, o curta Abraço de Maré, de Victor Ciriaco e Hélio Ronyvonn, todo rodado pela capital potiguar.

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Pipa, Márcia, André, Aurora, Ronyvon e Victor no Comunicurtas…

Trabalho de boa densidade dos estreantes no audiovisual, Victor Ciriaco e Hélio Ronyvon, Abraço de Maré um dos mais belos documentários produzidos atualmente por estas bandas do Nordeste, de anos de carência cultural, seca, aridez no cenário artístico nacional, quase nenhuma visibilidade ee remotas chances de produzir algo capaz de competir em pé de igualdade com os centros mais beneficiados na seara artística, sobretudo por questões políticas, financeiras e mesmo geográficas.

O curta Abraço de Maré é uma gratíssima surpresa vinda de Natal, assinado por dois jovens de inegável talento, chegando com delicadeza, garra, simplicidade e vontade de fazer mais. Ao lado deles,  também potiguar Pipa Dantas assina a caprichada montagem de Abraço de Maré, e o resultado é um filme leve, bem produzido, gostoso de ver e com um salutar ar naif, enriquecido pela sábia opção de seus criadores pelo P x B.

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Ao jogar luzes sobre um casal que vive num barraco à beira de um braço de maré tão pobre quanto lindo na capital do Rio Grande do Norte, Victor Ciriaco e Hélio Ronyvon nos conduzem pela vida singela e sem ambições do inusitado casal que vive cercado de dificuldades, emoldurados por carências e belezas naturais a escapar de seu cotidiano sem luxo e com muita dificuldade, conseguindo fazer daqueles dias sem horizontes e escassas chances de significativas melhoras, uma realidade quase à parte das múltiplas possibilidades e céleres mudanças contemporâneas. E nisso está o grande acerto de Abraço de Maré: conseguir criar uma ilha de sensibilidade, calma, placidez do olhar e sossego emocional ao ver espraiar-se na tela  aquele mundo tão à parte (?) e aparentemente sem sentido e sem porquê, protagonizado pelo ‘primitivo’ casal que da vida quer apenas amar, viver em paz, curtir um dia-a-dia sem sobressaltos, passar as horas ao lado dos que lhe são caros, usufruir do sabor de um peixe pescado ‘no quintal de casa’, dar bom dia ao sol à beira-maré e esperar a noite ao trinado de pássaros iluminado pela luz natural emanada das estrelas e das luzes que brotam em fartura como feixes emanados do Criador.

E afinal, não é apenas isso o que, no íntimo e no mais das vezes, queremos todos nós ? Um amor com gosto de quero mais, ornado pelo brilho natural do Cosmos, com trilha imaginada ao sabor dos sentimentos, cenários espontaneamente sensuais, e acordes clandestinamente calorosos ? Ou, como diria o compositor Cazuza, ‘Eu quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida, nós na batida, no embalo da rede, transformando a sede na saliva’…

Ou muito antes o imortal Poeta Vinícius: ‘”Uma casinha qualquer, no colo da serra/ Um palmo de terra pra se plantar/ No colo de uma mulher uma companheira, uma brasileira pra se amar…”

Portanto, Parabéns aos criadores do documentário ‘Abraço de Maré’. Ao lado do recém-lançado ‘Acalanto’ – curta de Arturo Sabóia, que vem do Maranhão, e acaba de ganhar 6 KIKITOS em Gramado -, Abraço de Maré é mais uma prova inegável da fortaleza audiovisual entranhada no ventre prolífico das paisagens naturais, lindas e cativantes do solo nordestino.  Um orgulho para tantos de nós que também nascemos nestas terras e sabemos de suas riquezas e potencialidades, as quais emergems muitas vezes após grandes escombros, mas que são espelho a refletir vigor, ousadia e tenacidade guerreira. Saravááááá !!!

Uma resposta para “Natal de Caboré e Abraço de Maré

  1. Obrigada Aurora pelas palavras carinhosas e ao mesmo tempo coerentes. O filme “Abraço de Maré” é realmente o reflexo de uma cena audiovisual potente que está brotando em solo potiguar, graças a parceria com o André da Costa Pinto que vem colaborando e muito esses novos realizadores. E que o Caboré Festival Audiovisual venha para abrir uma janela vigorosa de intercâmbio como outros estados e para fertilizar a produção local. Abraços e até o Caboré.

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