Sangue Bom foca em temas pulsantes e faz humor refinado

Novela de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari capricha nas ironias e nos deboches com um elenco afinado e super competente

Sang este

A novela Sangue Bom tem a mídia como um de seus temas principais. Mas na telinha também desfilam os tão atuais modismos sem conteúdo, paternidades duvidosas, duplas identidades, malabarismos vingativos e redes de intrigas para causar problemas em vários romances. 

Maria Adelaide Amaral vem se superando a cada capítulo. Claro, a escritora não escreve só: divide a autoria do texto e dos incríveis diálogos com Vincent Villari, estreante em teledramaturgia. E os dois apostam num viés que Maria Adelaide já havia usado muito bem em TI TI TI: o recurso às citações, remetendo a outros personagens e outras telenovelas . 

METALINGUAGEM: Tina sonha com a patroa trabalhando pra ela. Na trama aludida, Carminha serve à empregada Nina em Avenida Brasil

Remake da trama original de Cassiano Gabus Mendes, veiculado em 2010, o “Ti-Ti-Ti” assinado por Maria Adelaide Amaral já usara do benfazejo recurso da metalinguagem.  Nesta Sangue Bom, as citações ao mega sucesso de novela que foi Avenida Brasil foram óbvias, bem realizadas e hilárias tendo inclusive uma personagem (vivida por Ingrid Guimarães) chamada Tina, em assumida referência à personagem NINA vivida por Débora Falabella na trama de João Emanuel Carneiro.

E aqui nos cabe citar o crítico Maurício Stycer, “Mais do que generosidade, saber dialogar com trabalhos semelhantes de colegas denota consciência de que a teledramaturgia tem uma história e que é possível refletir sobre o próprio ofício de maneira inteligente e bem-humorada”.

Marco Pigossi e Sophie Charlotte: belos e talentosos

Junte-se a isso a esmerada direção de Dennis Carvalho, a ótima trilha sonora, e um elenco recheado de grandes intérpretes, e está dada a fórmula da trama das 19h. Nela, destacam-se Giulia Gamm (em seu melhor papel em novela até então), Marisa Orth (responsável por alguns dos momentos mais hilários vivendo uma personagem que ‘inventa’ uma gêmea), Fafy Siqueira como a fogosa vovó Madá (a atriz ilumina a cena sempre que aparece), Letícia Sabatella, Tuna Dwek, Malu Mader, Isabella Bicalho, e Ingrid Guimarães, sem falar nas menos tarimbadas mas igualmente ótimas como Sophie Charlotte, Fernanda Vasconcelos, e Isabelle Drummond.

GIULIA GAM é Bárbara Ellen, ex-atriz capaz de tudo para estar em evidência

Arrogante e megalômana, a personagem Bárbara Éllen, vivida magistralmente por Giulia Gamm, é o protótipo da atriz canastrona e não mais em evidência, vivendo de supostas glórias do passado, capaz de qualquer coisa para voltar a ser foco da mídia, ainda que para isso tenha que usar os filhos adotivos, trapaças, artimanhas, falcatruas, e outros tantos recursos espúrios. De personagem secundária (a sofrida Bruna) em TI TI TI, Giulia ganhou o papel de protagonista em Sangue Bom, confirmando a grande atriz que é, egressa do melhor do teatro brasileiro, o mestre Antunes Filho.

Embora com todas as qualidades inerentes ao bom folhetim – com generosas doses de humor, fina ironia, personagens bem construídos e um texto afiadíssimo, a novela Sangue Bom não é um grande sucesso junto ao público. Vale lembrar que sua ‘heroína’ – a personagem Amora, vivida com muita destreza e competência pela jovem e linda Sophie Charlotte – não é bem o que se espera de uma ‘namoradinha’, como até pouco tempo era corrente entre as protagonistas românticas do horário.

Sophie Charlotte: ótima numa personagem difícil com nuances de expressão que a atriz assume com maestria…

Ao contrário, Amora é quase uma vilã: trapaceia, mente, humilha, destrata até a vó e os irmãos, tem horror a gente pobre, sonha loucamente em ser milionária, e não hesita em usar de quaisquer atitudes pra conseguir o que quer.  Talvez pelo perfil de sua principal ‘heroína’ e mesmo por seus saudáveis acertos – capazes de enfatizar críticas a certas posturas preconceituosas e com bons questionamentos para muitos padrões vigentes de comportamento – é que a audiência não seja lá um grande pique no ibope. Mas isso não invalida um centímetro do recheado cardápio de boas cenas, situações hilárias, e bons diálogos que fazem de SANGUE BOM diversão de ótima qualidade.

Marco Pigossi e Isabelle Drummond mandando muito bem em Sangue Bom

Como explicitou a própria Globo nas chamadas que antecederam a estreia, o poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, parece orientar o argumento da novela (“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”).

Humberto Carrão vive o complicado Fabinho, quase vilão…

Além do amor não correspondido, os perfis dos seis jovens convidam a pensar sobre vida de aparências (Amora) e ambição desmedida (Fabinho), dois temas sempre caros ao bom melodrama. E pra que tudo isso funcione bem, há uma conjunção de fatores, onde se sobressaem, primeiramente, o talento e versatilidade dos atores.

Letícia Sabatella faz personagem com dupla identidade e arrasa mais uma vez mesclando a beleza irretocável com extrema delicadeza, talento e versatilidade

Sem Intérpretes de Qualidade não há direção, fotografia nem texto que resistam. Um ator que não se faça acreditar, dando CREDIBILIDADE AO SEU PERSONAGEM, mergulhando de cabeça no universo criado pelo autor, ou na diegese proposta, jamais conseguirá levar adiante a Dramaturgia – por melhor que esta seja -, muito menos conseguirá  cumplicidade e adesão do espectador.

FAFY Siqueira arrasa com sua ótima criação para a descolada vovó Madá…

Dito isso, passemos a nomear os atores que mais se destacam em SANGUE BOM: ressalte-se que  a novela tem personagens demais e há bons atores em papéis pequenos, o que de modo algum desmerece suas capacidades. Nesse viés, estão Daniel Dantas, Louise Cardoso, Herson Capri, Mila Moreira, Wandi Doratiotto, Mônica Torres, Mariah da Penha. Ao mesmo tempo, aplausos à produção de elenco por trazer de volta atores que faziam falta à telinha: Carmem Verônica, Eliana Pittman, Norival Rizzo, Cris Nicolotti, Noemi Marinho, Dorival Carper, Yoná Magalhães,  Edwin Luisi – vivendo o simpático ‘Tio Lili’, personagem que conseguiu compor com a marca da ternura, espontaneidade, simpatia e muito carisma.

Edwin Luisi: benfazeja volta à telinha ‘todo trabalhado no talento’, como diria seu carismático Tio Lili …

Rodrigo Lopez é Vitinho, diretor de novela carente e atrapalhado, que dá uma leveza especial à trama…

Thais esta

 

Com talento e carisma, a mineira Thaís Garayp reforça o time de Sangue Bom…

Colosso: Marisa Orth vive Damáris e Gládis, ‘irmãs gêmeas’ de estilos bem diferentes…

Vale salientar ainda a sempre precisa atuação de Bruno Garcia, Jayme Matarazzo, Rodrigo Lopez (como é gostoso acompanhar a graça com que Rodrigo cria seus personagens !), Thaís Garayp, Maria Helena Chira, Sérgio Malheiros, Deborah Evelyn, Letícia Isnard, Regiane Alves, Felipe Camargo, Carolinie Figueiredo, e Tuna Dwek – um capítulo à parte com sua magnânima criação para a inescrupulosa repórter Sueli Pedrosa, tipo facilmente identificável no universo midiático tão bem radiografado em Sangue Bom. Além desses, há outros cujos nomes me escapam agora da memória. Mas não há ninguém destoante no elenco.

Malu Mader e Felipe Camargo voltam a fazer par romântico em ‘Sangue Bom’…

O time masculino é pródigo em belos homens, que conseguem fazer com que seus talentos possam ser equiparados às suas belezas: Marco Pigossi, Humberto Carrão e Armando Babaioff !  E tem ainda uns que conhecemos há pouco mas reforçam belamente a trama com o vigor de suas atuações:  Joaquim Lopes e André Guerreiro Lopes ganharam personagens interessantes e a eles dedicaram talento e graça, tornando-os presenças sempre bem vindas à cena.

Armando Babaioff aproveitou ‘Érico’ para evidenciar sua vocação e versatilidade…

André Guerreiro Lopes, talento do teatro paulista, arrasando como ‘Barrabás’

rod e tuna

Rodrigo Lopez e Tuna Dwek: tipos marcantes que dá gosto apreciar…

Tatiana Alvim, Bia Arantes, Carla Salle, Andrea Horta, Aline Dias e Samya Pascotto, Josafá Filho, e Luiz André Alvim figuram entre as gratas revelações de Sangue Bom.

Isabella

Isabella Bicalho faz com suprema destreza a empregada Nice, referência à histórica personagem da novela ‘Anjo Mau’…

Herson Capri contracena com Fernanda Vasconcellos, que faz com leveza e muita propriedade sua cativante ‘Malu’…

Assim, Sangue Bom vem se definindo como uma das mais bem armadas tramas do horário das 19h, promovendo ironias finas, reflexões sutis, críticas e deboches bem humorados – vide as chacotas com as ‘mulheres-frutas’ e os repórteres q vivem atrás de ‘furos’ -, com figurinhas q querem virar ‘Celebridade’ a qualquer custo, com um elenco supimpa deitando e rolando na execução de cenas pra lá de bem boladas !

A bela Aline Dias é uma das filhas adotivas de Bárbara Ellen…

Portanto, os calorosos aplausos do Blog Aurora de Cinema para SANGUE BOM !!!

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