Carpinejar e a tragédia do menino Bernardo…

Fabrício CARPINEJAR, o Magistral Poeta Gaúcho – com milhares de seguidores nas redes sociais e vencedor de muitos e justíssimos prêmios literários -, insere-se no cotidiano das relações humanas com extraordinária propriedade e torna-se, dia-a-dia, o Poeta dos Poetas, o Sábio das mais Belas Palavras, um Cronista Arrebatador e cada vez mais NECESSÁRIO.

 

O #BlogAuroradeCinema reproduz mais uma crônica antológica do POETA-CRONISTA FABRÍCIO Carpinejar, na certeza de estar espalhando o melhor da Literatura Brasileira contemporânea, convicto de que esta crônica precisa não só ser lida, como deve ser espalhada, republicada, MUL – TI – PLI – CA – DA !!!

Como tantas vezes dissemos aqui e nas redes sociais, um Nobel da Poesia para @FabrícioCarpinejar !

ESSE MENINO ERA SEU FILHO

Fabrício Carpinejar

Não posso nem chamá-lo de caro ou prezado, mas apenas usar seu nome: Leandro. Educação e respeito vão soar como cinismo. 

Tampouco posso chamá-lo pelo sobrenome para indicar formalidade. Perdeu o direito do sobrenome. Seu filho pequeno está enterrado em seu sobrenome para sempre. Ele carregava seu sobrenome, você não soube carregar coisa alguma dele.

Tenho enfrentado vários pesadelos desde que ouvi a notícia de que seu menino de 11 anos fora morto pela madrasta. 

Que seu menino foi posto numa cova às margens de um rio em Frederico Westphalen (RS) e poderia estar ainda vivo. Coberto pela terra quando deveria ser coberto pelo edredon para não passar frio de noite.

Seu filho foi enganado. Toda a vida enganado. Toda a vida humilhado. Na hora de seu fim, aceitou o passeio para longe de Três Passos porque jurava que receberia uma televisão.  

Quando seu menino acordar dentro da morte, ele vai chamá-lo. Assim como toda criança chama seu pai quando tem medo do escuro. Vai chamá-lo e onde estará?

Ele acreditava que você era o herói dele. Estava exagerando para pedir que o salvasse, não entendeu o apelo?

Você nem pai foi. Nem homem foi. Você foi o que restou.

Como médico, não acha Bernardo uma criança um pouco grande para fazer um aborto?

O que dirá para irmãzinha dele? Que Bernardo está no céu? Que é uma estrela?

Perdeu também o direito de mentir. É você e sua memória sozinhos no silêncio. Só resta a memória para quem matou a consciência.

Nunca encontrará perdão. Deixou Bernardo desamparado. Deixou Bernardo com as mesmas roupas curtas, o mesmo uniforme escolar surrado, desde que a mãe faleceu. Deixou seu filho mendigar atenção pela cidade. Pelo fórum. 

Não entendo o que leva um homem a anular sua família anterior por uma nova namorada. O sexo é mais importante do que a paternidade? A bajulação é mais importante do que a ternura? Queria estar disponível para festas? Cortar gastos?

Fingiu que Bernardo não existia para não atrapalhar a ambição da sua mulher? Fingiu que Bernardo não havia nascido para atender à exclusividade de sua mulher?

Filho não é escolha, é responsabilidade. Já casamento é escolha...

Se a mulher não gostava de seu filho, não deveria ter recusado o relacionamento?

Como seria simples. Bastava dizer "Ou meu filho ou nada!". É o que se fala no início do namoro.

Para você, nada.

Não é que você não tem mais nada, você não é mais nada. Abdicou de seu filho para ficar com alguém. Você não se contentou em abandonar sua família para criar uma segunda família, você aniquilou sua família para criar uma segunda família.

Obrigava Bernardo a esperar fora de casa até você chegar do trabalho, agora é você quem espera fora de casa. 

Obrigava Bernardo a lavar as mãos para brincar com a irmã. Pois tente lavar suas mãos agora para tocar no rosto dele. 

Tente todos os dias de sua paternidade. Sangue não sai com a culpa.

ESSE MENINO ERA SEU FILHO

Fabrício Carpinejar

Não posso nem chamá-lo de caro ou prezado, mas apenas usar seu nome: Leandro. Educação e respeito vão soar como cinismo.

Tampouco posso chamá-lo pelo sobrenome para indicar formalidade. Perdeu o direito do sobrenome. Seu filho pequeno está enterrado em seu sobrenome para sempre. Ele carregava seu sobrenome, você não soube carregar coisa alguma dele.

Tenho enfrentado vários pesadelos desde que ouvi a notícia de que seu menino de 11 anos fora morto pela madrasta.

Que seu menino foi posto numa cova às margens de um rio em Frederico Westphalen (RS) e poderia estar ainda vivo. Coberto pela terra quando deveria ser coberto pelo edredon para não passar frio de noite.

Seu filho foi enganado. Toda a vida enganado. Toda a vida humilhado. Na hora de seu fim, aceitou o passeio para longe de Três Passos porque jurava que receberia uma televisão.

Quando seu menino acordar dentro da morte, ele vai chamá-lo. Assim como toda criança chama seu pai quando tem medo do escuro. Vai chamá-lo e onde estará?

Ele acreditava que você era o herói dele. Estava exagerando para pedir que o salvasse, não entendeu o apelo?

Você nem pai foi. Nem homem foi. Você foi o que restou.

Como médico, não acha Bernardo uma criança um pouco grande para fazer um aborto?

O que dirá para irmãzinha dele? Que Bernardo está no céu? Que é uma estrela?

Perdeu também o direito de mentir. É você e sua memória sozinhos no silêncio. Só resta a memória para quem matou a consciência.

Nunca encontrará perdão. Deixou Bernardo desamparado. Deixou Bernardo com as mesmas roupas curtas, o mesmo uniforme escolar surrado, desde que a mãe faleceu. Deixou seu filho mendigar atenção pela cidade. Pelo fórum.

Não entendo o que leva um homem a anular sua família anterior por uma nova namorada. O sexo é mais importante do que a paternidade? A bajulação é mais importante do que a ternura? Queria estar disponível para festas? Cortar gastos?

Fingiu que Bernardo não existia para não atrapalhar a ambição da sua mulher? Fingiu que Bernardo não havia nascido para atender à exclusividade de sua mulher?

Filho não é escolha, é responsabilidade. Já casamento é escolha…

Se a mulher não gostava de seu filho, não deveria ter recusado o relacionamento?

Como seria simples. Bastava dizer “Ou meu filho ou nada!”. É o que se fala no início do namoro.

Para você, nada.

Não é que você não tem mais nada, você não é mais nada. Abdicou de seu filho para ficar com alguém. Você não se contentou em abandonar sua família para criar uma segunda família, você aniquilou sua família para criar uma segunda família.

Obrigava Bernardo a esperar fora de casa até você chegar do trabalho, agora é você quem espera fora de casa.

Obrigava Bernardo a lavar as mãos para brincar com a irmã. Pois tente lavar suas mãos agora para tocar no rosto dele.

Tente todos os dias de sua paternidade. Sangue não sai com a culpa.

4 Respostas para “Carpinejar e a tragédia do menino Bernardo…

  1. Emocionante texto!! Fiquei aqui imaginando, depois de ler o que li, em como o genitor de uma criança (sim, porque de “pai” um ser desses não merece ser chamado) que nasce apenas para sofrer como Bernardo, pode ser tão leviano, tão desumano, tão doente, tão egoísta, tão tudo de ruim, a ponto de não entender o quão vil foi o ato que acaba de acobertar. Como ele não consegue distinguir o que é paixão e o que é amor!! Amor esse que faltou para o próprio filho e paixão essa que o cegou e o fez fingir para ele mesmo que estava tudo bem, a nova esposa matar seu próprio filho é super normal hoje em dia, ninguém iria notar! Que mundo é esse? Que ser humano (??) é esse??? Cada dia mais não compreendo as pessoas e nem perco mais meu tempo para tal fim. Que Bernardo descanse em paz, ao lado de sua mãezinha…e que esse dois animais que fizeram isso com essa criança apodreçam na cadeia!

  2. Os pais que amam seus filhos estão de soladados com uma monstruosidade tam absurda . tudo que tentarmos nos expressa
    .Não vamos chega a nada. pois, o menino Bernardo não conseguimos salvar destes moustros.

  3. Jaime Busnello

    Eu queria poder ser o promotor, ou o acusador no juri deste crápula, para poder ler esta texto na frente dele o dos jurados. Parabéns.
    Jaime

  4. eunice palma araujo

    Chego a me assustar ao ler este belo texto por ser tão óbvio… e mais uma vez reconhecer o amor natural que nasce em mim pelo Bernardo e a pena necessária que sinto por Leandro. Bernado já deve estar nos braços do aconchego materno e no coração de todos que o amaram desde que foi apresentado abertamente aos nossos olhos de telespectadores da vida ostensiva. É como ouvir o seu silêncio dizer docemente: “olhem pra mim… orem por meu pai”. Este é o estranho amor que ele nos pede através do familiar amor que já temos por ele, Bernardo… Bernardo, que vontade de abraçá-lo e segurar suas mãos para caminhar contigo os caminhos da alegria de seguir em frente. Siga em paz, confiante nas transformações positivas que certamente virão.

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