‘Em Família’: novela prega tolerância e esquece importância do luto

Novela de Manoel Carlos erra ao eliminar luto pela morte de Laerte porque isso quebra pacto emocional com o espectador…

Gabriel Braga Nunes compôs com a competência de sempre o controverso, problemático e romântico músico Laerte…

Não gostei do final de Em Família.
Penso como o saudoso cronista Artur da Távola, q tão bem defendia o final feliz:

“FINAL FELIZ pq estão todos cansados de um tipo de vida q esmaga. Cansados da luta, da briga, do desamor e de sistemas q separam homens com os tabiques à prova de afeto. FINAL FELIZ pq estamos cansados e precisamos de um pouco de ternura, na esperança de valorizar o existe de bom no ser humano. FINAL FELIZ pq, pelo menos na ficção, as pessoas encontrarão uma chance de dar a mão e suspirar seguras, de se espreguiçar ou dar uma gargalhada; de descobrir as suas melhores dimensões através da percepção do outro e da relação sadia com a comunidade e o corpo. FINAL FELIZ pq, sem redescobrir a dimensão poética da vida, esta se transformará numa grande instituição de repressão, produção e esmagamento. FINAL FELIZ só pra contrariar tudo o q nos cerca, espreita, oprime e esmaga. Por teimosia e sonho, contestação e esperança”. 

elass

Mesmo com alguns acertos, como a boa cena do filho conhecendo a mãe q nunca o assumiu (ótimos Bruno Gissoni e Ângela Vieira), e a delicadeza oportuna da cena do garoto Ivan (vivido pelo lindo Vítor Figueiredo), filho de Clara e Cadu, discursando em festa da escola para uma plateia lotada de pais, mães, familiares – a defesa eloquente da TOLERÂNCIA foi um acerto relevante, tanto quanto mostrar o casamento de Clara e Marina, e a aceitação tranquila do relacionamento entre duas mulheres por parte das famílias das duas. Acertos que merecem o #AplausoBlogAuroradeCinema. Mas penso q a morte de Laerte era desnecessária e, em sendo esta a opção, q fosse tema do penúltimo capítulo, e não do capítulo final. Muito melhor teria sido o casamento de Clara e Marina como cena de fechamento da novela, e tudo terminava numa grande festa de celebração do Amor e da Tolerância, em todos os níveis – e aqui entrariam a relação de Juliana e os dois pais de seus filhos, o amor na Terceira Idade (o pai de Shirley como bom exemplo), a aceitação total da mãe ‘postiça’ pelo filho adotado, orgulhoso da mulher q lhe criou; a redenção do médico, ex-alcóolatra, e mais e mais.

Vítor Figueiredo fez Ivan com muita naturalidade e marcou com delicadeza…

Sobretudo, o capítulo final pecou por não mostrar a dor de se perder um ente querido, por não conceder ao telespectador o direito de elaborar a dor do luto. Afinal, Laerte não era um vilão e sim um personagem com sério problema psicológico, com comportamentos muitas vezes reprováveis, mas era alguém q trazia consigo a música (isso é suficientemente forte para criar sintonia com o público), uma vontade de ser feliz e viver a paixão, e um latente ethos masculino que agradava muito, às mulheres da trama e às telespectadoras. Matar o personagem parece ter sido a solução (questionável) para sanar o problema que seria ter um quase assassino convivendo na mesma família da futura noiva. Isso tb. nos pareceu a saída mais fácil: mata-se o vilão (?) e elimina-se o drama de consciência de ter uma filha gostando do mesmo homem que tanto mal fez à mãe dela. Porém, se a solução acordada foi essa, que não se deixasse vazar o final antes da hora (foi muito ruim assistir ao capítulo já sabendo q a morte de Laerte viria), e que se elaborasse esse luto de forma condizente com o que o personagem conquistou de simpatia e/ou afeto ao longo da trama.

Soou falso e inverossímil o ‘depois do tiro’: Luíza acode o noivo em choro e perplexidade, e os pais dela, tão amorosos, sequer chegam perto da filha para confortá-la. O filho de Laerte assiste a tudo sem correr para abraçar o pai pela última vez, e nada mais se vê. Quando a cena termina, a edição leva para uma belíssima paisagem de pôr do sol no Rio com uma música claramente usada pra mudar o clima de tragédia, segue para uma aula de dança no Galpão comandado por Laerte e Verônica, e ninguém fala mais na ausência e no fim trágico de Laerte. Ninguém lamenta, ninguém chora, ninguém relembra. Onde estavam seus pares, seu filho, sua viúva ? Onde foi parar a dor de Luíza ? Por que não mostrar a bela noiva vestindo preto e chorando muito aquela dor infinda ? Afinal, Laerte foi um amor muito acalentado ! Assumir o romance com ele foi uma ruptura de padrões q lhe custou caro e muitas horas de insônia, discussões e problemas. Ficar com o homem que ninguém na família queria até chegar com ele ao altar (e isso ainda carrega uma simbologia muito forte na nossa cultura), foi um caminho árduo e cheio de percalços. Como não deixar o telespectador visualizar isso, e não deixá-lo vivenciar a dor dos que eram próximos a Laerte, nem elaborar – imagética e emocionalmente – o fim repentino e inesperado do personagem, que tinha tantos sonhos pra viver com a amada ? 

O telespectador cria vínculos com a história que acompanha, e esses não podem ser cortados abruptamente, sob pena de deixar capengar a dramaturgia, deixar frágil suas sintonias e enfraquecer sua carga empática. Afinal, talvez seja este o grande trunfo da Telenovela: cultivar o espectador através de capítulos diários que vão sendo feitos e alterados ao sabor das emoções despertadas na audiência, e aquela convivência diária, alimentada por tantos meses, promove uma sintonia com uma história onde há personagens com os quais se cria um vínculo (daí pq tantas vezes ficamos tristes quando elas acabam – vide ‘Avenida Brasil’, pra citar apenas a mais recente e q causou este sentimento intenso de perda e saudade). Logo, subtrair da cartela de matizes sensoriais do espectador emoções que estão latentes, soa como uma traição ao pacto firmado no início da obra e alimentado enquanto a ela esteve no ar. Qualquer personagem que entra numa trama e de repente some, ou some sem explicação, deixa mergulhar numa incômoda pergunta o que houve com o personagem, por que o (os) autor (autores) não definiu um caminho ‘praquele um’ (como diriam os personagens do ‘Meu Pedacinho de Chão’). E nem precisa ser um personagem principal: o público sempre quer saber o q houve com fulano ou beltrano q entrou, aconteceu, e, se sumiu, ninguém sabe ninguém viu. 

No caso de Em Família, o problema não foi não saber o fim do personagem: o grave foi não se ver a dor pela morte de Laerte nem dar ao espectador a oportunidade de elaborar essa vivência tão marcante através do sofrimento dos que partilhavam da convivência com Laerte, e, dessa forma, também elaborar, ele mesmo (o telespectador) essa sensação de finitude que extrapola a telinha e vem fazer companhia a quem acompanha uma telenovela e é cativado basicamente pela emoção. No caso da morte de Laerte (vivido com a beleza, competência e carisma bem conhecidos de Gabriel Braga Nunes), ficou a sensação de que aquele fim veio para estabelecer a paz numa família que vinha se esfacelando à medida em que ele fazia seu retorno a ela (uma vez q ele e a futura esposa eram primos), e q sua morte foi um alívio geral. E não é nada bom passar esse sentimento ao público quando o personagem q morre não é nenhum vilão nem alguém de atitude tão deplorável, a ponto de a morte ser um desejo comum a todos os envolvidos na trama. Não era esse o caso de Laerte.


Erraram feio, mas pecaram por pouco: numa obra com tantos acertos, poderiam ter ficado sem essa, ainda mais no capítulo final, que deve e merece ser FELIZ !

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