Carpinejar e o mais belo texto sobre o poeta Manoel de Barros

O magistral Poeta gaúcho encharca de profunda beleza nossa sensibilidade, reafirmando-se como o mais importante poeta da literatura contemporânea a prestar a mais arguta, sensível, profunda e admirável Homenagem ao Poeta Manoel de Barros, falecido hoje.

Diga-se de passagem que Barros não está aí para os ditames do mercado. Inverte a escala do válido e do inválido. O que a sociedade de consumo preza, ele despreza, e vice-versa. Não está interessado em repetir o cotidiano, mas em reciclá-lo. Um carro no ferro-velho, de acordo com sua teoria, tem mais valor que um novo na concessionária. O carro é mais importante ao adotar besouros, atuando para uma atividade lúdica. Alheio à vida útil do objeto, dedica-se à vida espiritual que se inicia no fim prático, quando o objeto é rejeitado. “Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus” (Livro sobre Nada).

Com você, leitor amigo do #BlogAuroradeCinema, o texto de Fabrício Carpinejar sobre o poeta MANOEL DE BARROS:

SINGELEZA DO ORVALHO

Fabrício Carpinejar

Manoel de Barros tem uma letra miúda, a caligrafia emendada e tímida. Em um mínimo cartão, aproveita os dois lados, curte toda borda. Não desperdiça uma vírgula da resma. Qualquer fresta é festa do grafite.

Com lupa, atinge-se o tamanho normal de leitura. A olho nu, é um canteiro de formigas no açúcar da folha. É necessário cheirar o papel para entender o que ele escreve.

Foi redigindo cartas que ele formou seu estilo e seu fôlego, que o transformou em um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Durante cinqüenta anos, desde o momento que saiu de casa para estudar em colégio interno, contando suas notícias para a mãe Alice, pelo menos uma vez por semana, descobriu que suas frases e as delas tinham o mesmo tamanho: até 25 letras. Um influenciou o outro. Da troca materna, resultou a altura ideal do seu poema. “Minha mãe tocava violino e passou música para a linguagem”, afirma Manoel de Barros.

Como ele mesmo confessa em um verso do livro “Poemas Rupestres” (Record, 2004): “Minha naturezinha particular: Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar.”

Não é como advogado, profissão que desistiu pela timidez e nervosismo (“Não conseguiria defender meus clientes, sequer me defendia”), muito menos como fazendeiro e criador de gado, herança do seu pai João, que se tornou conhecido. Mas apontando o lápis cuidadosamente e limpando os óculos, acordando cedo e escutando as histórias de gente simples. O simpático senhor de cabelos brancos e de riso franco, com oito netos e três bisnetos, é despojado como uma casa de praia, longe de ser influenciado pelo sucesso e assédio de fãs e leitores.

Natural de Cuiabá (MT), Manoel de Barros completou noventa e sete anos. “Fui longe”, diz por telefone. “Longe sempre me deixando por perto”.

Seu amor pela mulher Stella, 91, chega ser maior do que a própria vida. Estão casados há 65 anos. Ela é a primeira e única leitora de seus originais. “Ela lê antes de enviar para a editora. Não mostro para mais ninguém. É bem crítica. Se ela não gosta, diz: – Sobe e vai trabalhar mais. Fico lá em cima de castigo durante oito ou nove meses. Desço somente quando ela define que está bom. Conhece meu estilo”, confessa.

A cumplicidade e telepatia com a esposa são tão amadurecidas que Manoel de Barros não a identifica como “alguém fora dele”. “Ela é alguém dentro de mim”, avisa.

Manoel de Barros é um homem viajado, com cultura sólida e contemplação líquida, diferente dos rótulos que recebeu de ‘poeta do Pantanal’, ‘alternativo’ e ‘ecológico’.

É um poeta do Pantanal como seria de Copacabana. Viveu na Bolívia e no Peru, morou em Nova York por um ano, onde estudou cinema e pintura no Museu de Arte Moderna. “Virei fã da pura expressão de Charles Chaplin”, aponta. Residiu quarenta anos no Rio de Janeiro, tempo que se casou, formou-se em Direito e só voltou para o centro-oeste do país em 1961. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense.

Grande parte de sua trajetória literária aconteceu nas sombras e no anonimato. Não sofreu do mal da pressa e da moral. Editava suas obras em tiragens artesanais e de escassa circulação. Teve o reconhecimento tardio, na década de 80, por críticos e personalidades como Antonio Houaiss, Millôr Fernandes e Ênio Silveira.

Editado em grandes tiragens e premiado com Jabuti, Nestlé e Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Barros é um virtuoso dos erros. Desvirtuado a lagartos. Desvirtuado para pedras. Desvirtuado em árvores. Ele se distrai com facilidade, pois o ingresso para o espetáculo da mata custa caro. Poucos se dão conta de que custa o milagre de uma vida.

Poeta do simples e da delicadeza, adota a autenticidade dos defeitos, ao invés de aceitar o polimento do senso comum. Joga pedras na vidraça da razão e fica no mesmo lugar para ouvir o estrondo. Ensina o homem a escoltar o crepúsculo, a respeitar o apogeu do chão, a não troçar dos andarilhos, dos abandonados e dos mendigos.

Tem estima pelas coisas e homens jogados fora pela sociedade. Tudo o que não presta serve para sua lírica. “Poesia não é para compreender, mas para incorporar”, conceitua.

Salva palavras do desuso. Retira as palavras da solidão dos verbetes e do asilo dos dicionários para morrerem em casa com a família.

Não tenta entender o que os pássaros cantam. É bobagem. Para falar com os pássaros, ele canta. Compartilha as linhas de seus cadernos com anhuma, pacus, graxas e beija-flor de rodas vermelhas. A intimidade vem dos cuidados com o ínfimo. Sua simplicidade somente é cínica para defender a natureza, porém é encantada para falar da infância.

Se fosse ave (e quem diz que não é?), seria o sabiá. “É manso, não atrapalha e canta melhor livre”, comenta Barros.

Seu universo é do cisco, dos gravetos, dos inutensílios (expressão que criou para designar pertences abandonados) e dos “nadifúndios” (latifúndios do nada). “O cisco tem agora para mim uma importância de Catedral” (Retrato do Artista Quando Coisa).

Sente-se à vontade em um terreno baldio ou monturo. Interessa-se pelos hábitos das lagartixas, lesmas e animais rastejantes. Rastejar é o movimento predileto de sua poesia, assim como pastar, carregar, montar. A motricidade em Barros é a da inclinação do bicho, para não perder nenhuma novidade e nuance do solo.

O poeta formulou a Teologia do Traste, em que atua como catequizador e orientador do leitor. Passa uma lição de como participar do poema e do que precisa ser feito para ser poeta, a exemplo de “desaprender oito horas por dia ensina os princípios.”

Faz brinquedos verbais com osso de arara, canzil de carretas, potes furados, sabugos e penas. Brinca mais ao imaginar o brinquedo do que ao desfrutá-lo. “Poesia é voar fora da asa” (O Livro das Ignorãças).

Nada é impossível em sua visão de mundo. Manoel de Barros fotografa o vento. Ou o pega pelo rabo no topo das árvores. Sua lógica é o de um menino aprendendo a falar e repetindo as frases para convencer os pais. Interessa-se pelos desvios da língua, quando a criança tropeça no dizer convencional e potencializa seu estreito vocabulário com neologismos. “O que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.” (O Livro das Ignorãças).

Barros não presta atenção se alguém falar que escuta os passarinhos de manhã, porém será todo ouvidos se alguém comentar que escuta a cor dos passarinhos de manhã. A distorção é pensar diferente. Acredita que a linguagem não pode se restringir a uma finalidade comunicativa, e deve servir a outros propósitos como o de sempre indagar o que significa exatamente tal coisa e de estranhar o já conhecido para aprender de novo.

A operação proposta é a de readquirir o sabor de inaugurar o dia e a língua. Em seu vocabulário, adivinhar supera o ato de lembrar. Adivinhar é antecipar o divino em cada um. Deseja atingir o estado de improviso, de “criançamento”, em que os vocábulos urinam na perna.

O escritor exerce a liberdade de despertar possibilidades da experiência, sem sofrer a cobrança de explicá-la. Ele se resguarda no escudo da ingenuidade. Atua no espaço do “faz-de-conta”. O papel infantil revela a riqueza e as variações das imagens. Concede modalidades inéditas às coisas imprestáveis e forma lazeres com restos de brinquedos.

Suas poesia é magra, substantiva, come o essencial para se manter de pé. Com um andamento trôpego e dispersivo, elabora uma espécie de minicontos, pequenas histórias narrativas, em que mistura deliciosamente impressões, memórias e casos de diferentes fases da vida. Relaciona situações díspares com a gratuidade do sonho. Nem ele mais deve saber o que é real e o que é imaginado. Algo como colagens de revistas e jornais sobre o álbuns de fotografias da família.

No poema “Emas”, fala do medo que sua mãe tinha do bicho de comer os cobertores de dormir e os vidros de arnica da vó. Suas memórias de repente acontecem somente na imaginação, o que não deixa de ser um acontecimento. São memórias inventadas. Emprega o tom biográfico, da experiência, para acentuar a força dos relatos. Ele é o principal protagonista dos seus poemas, o que favorece a confusão entre o autor e a obra. O que ele escreve não é o que ele foi, é o que gostaria de ser. “Nossa tarefa principal era a de aumentar o que não acontecia”, assinala um de seus versos.

A singularidade de sua poética reside em combinar a aguda percepção urbana com um repertório primitivo e rural. Tanto que fundou, de modo jocoso, o Idioleto Manoelês Archaico, dialeto usado por idiotas para falar com as paredes e com as moscas. Alma gêmea do gaúcho Mario Quintana (que completa o centenário de nascimento neste ano), com o qual partilha a adesão pelo diminutivo, é tributário ainda do enovelamento lingüistico e da oralidade expressiva de João Guimarães Rosa, da “universidade do folclore” de Câmara Cascudo e da travessia lendária de Raul Bopp.

Barros reconhece as palavras como um relicário, destinado à adoração. Aceita a ordem natural da vida. O estágio de sua lírica é o da fermentação, das intumescências, da ferrugem e do adubo. Exerce a reverência ao natural. Em nenhuma forma interfere e modifica a beleza original da flora e da fauna. Almeja libertar-se dos condicionamentos sociais que bloqueariam a espontaneidade das vivências. Seus principais personagens, inspirados em personalidades reais de Campo Grande, como Bernardo da Mata, são autodidatas, afirmando de que o verdadeiro conhecimento está na leitura do mundo. O que é descartado é jogado dentro do poema. Manoel de Barros vai colecionando desperdícios. O texto é feito sem vírgulas, num somatório implacável, sem diferenciação nítida dos itens arrolados. O que prepara a metamorfose ou a indefinição das formas. O moço pode ser a rã; o mar, um tordo; o inseto, árvore brotada. Humaniza a natureza e mineraliza o homem.

Diga-se de passagem que Barros não está aí para os ditames do mercado. Inverte a escala do válido e do inválido. O que a sociedade de consumo preza, ele despreza, e vice-versa. Não está interessado em repetir o cotidiano, mas em reciclá-lo. Um carro no ferro-velho, de acordo com sua teoria, tem mais valor que um novo na concessionária. O carro é mais importante ao adotar besouros, atuando para uma atividade lúdica. Alheio à vida útil do objeto, dedica-se à vida espiritual que se inicia no fim prático, quando o objeto é rejeitado. “Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus” (Livro sobre Nada).

Manoel de Barros desobedece as linhas. Sua letra miúda é letra de Bíblia. Letra de quem senta no canto do banco de praça e pede companhia para a vida que passa.

Manoel de Barros, “Poeta do simples e da delicadeza”,  como tão bem descreve o poeta Carpinejar…

2 Respostas para “Carpinejar e o mais belo texto sobre o poeta Manoel de Barros

  1. Belo post e belo texto do Carpinejar ! Grande abs Aurora

  2. De longe ou de perto, que perda

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