Gilberto Braga, aniversariante que inaugura novembro, afirma: “Nunca fui extremamente popular, sempre fui refinado, mas quero agradar a todos”

Autor de novelas polêmicas e de grande audiência, Gilberto Braga estreia idade nova neste primeiro de novembro…

Meu caro Gilberto Braga: sei do momento delicado que atravessa com a audiência forçando uma mudança de rumo na história de Babilônia. Mas não consigo ver isso como um problema: por ser uma obra aberta, mudar tramas, personagens e focos de uma telenovela é pedra esperada no caminho de qualquer novelista. Ainda mais em se tratando de autor de tanta tarimba, talento e vocação como você.

Na entrevista concedida ao jornal O Globo (edição de domingo, 31/05/15), você mais uma vez valeu-se de sua extrema coragem, lucidez e inteligência, sem importar-se de ser absolutamente sincero com o público. Aliás, não podemos esquecer que há uma grande parcela dele que lhe é telespectador fiel, de longa estrada.

Você diz que “a novela chocou por causa do beijo gay e porque tinha pouco amor e muito sexo.” Mas você toca com perspicácia na questão central quando diz que “O Brasil encaretou”. Sim, o país tem dado passos alarmantes no sentido do retrocesso. Sobretudo comportamental. Como admitir que em pleno Terceiro Milênio gestos de amor, solidariedade, afeto e empatia sejam rejeitados ou menosprezados enquanto cenas de afronta inegável à ética e aos mais primários valores civilizatórios passam incólumes por essa mesma audiência que se julga defensora da moral e dos bons costumes, elegendo uma única forma de relacionamento amoroso como a certa e fazendo vista grossa para desmandos políticos, atos de corrupção, machismo e afronta aos mais elementares direitos da pessoa humana ? Afinal, não é isso que vem sendo mostrado com eloquência invejável nos capítulos diários de Babilônia ? Quer dizer que duas mulheres vivenciarem sua relação afetiva, delicada e cheia de carinho e entrosamento, causa espanto e repulsa numa sociedade que continua atrasada e retrógrada quando se trata da questão sexual, porém essa mesma sociedade aceita impassível ver um prefeito chantagear sua funcionária, pagar para que ela faça um aborto, simular sinistros em seu município para superfaturar obras públicas e lucrar com a corrupção, e isso não causa sequer uma avalanche de comentários nas redes sociais ? Diante disso, não me canso de indagar: será que o Brasil está mesmo no século XXI ?

Você afirma também que a novela está dando muito trabalho mas que, felizmente, gosta de tudo que está no ar. Eu também ! E vou mais além: trabalho por trabalho, escrever telenovelas – você bem sabe – sempre foi um trabalho hercúleo, ao qual este escriba jamais teria pique para enfrentar. Mas você foi ‘aluno’ da saudosa Janete, a notável fazedora de tramas de audiência sempre superlativa, em todas as camadas sociais. Portanto, esse trabalho você vai tirar de letra !

Quanto a gostar muito, eu gosto de tudo em Babilônia e posso lhe assegurar que o elenco que você, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga tem em mãos, é qualquer coisa de muito especial. Que televisão do mundo pode orgulhar-se de reunir, num mesmo produto artístico, em horário nobre, um naipe como o que vocês tem em Babilônia ? Fernanda Montenegro e Natália Thimberg não são dois grandes cartões de visita mas a espinha dorsal inteira da novela. Junto delas, contar com Arlette Salles, Glória Pires, Adriana Esteves, Cássio Gabus Mendes, Gabriel Braga Nunes e Camila Pitanga numa mesma história não é pouca coisa. Sem contar com todos os demais, mais jovens no terreno da teledramaturgia mas igualmente talentosos, e um diretor de extrema capacidade como Dennis Carvalho e a laboriosa equipe que ele conseguiu formar ao longo de décadas por trás das câmeras, sempre fazendo uma parceria qualificada com você.

Também diz você que nunca enveredou pelas vielas da chanchada mas que agora vai investir no triângulo Norberto-Valeska-Clóvis ! E acho que esse viés tem tudo para triunfar ! Os atores Marcos Veras, Juliana Alves e Igor Angelkorte estão numa sintonia de espontaneidade, expressão e tom que deixa o trio tremendamente afinado e o texto lhes salta dos lábios como se brotassem de suas próprias cabeças. Muito bom acompanhar suas cenas !

Apesar do longo tempo em que lhe conheço e acompanho suas tramas, a dimensão da sua coragem e a fortaleza da sua sinceridade continuam me surpreendendo e comovendo. Que autor, do alto de sua importância e visibilidade midiática, teria a mesma eloquência para revelar fraquezas, temores, dúvidas e desejos como você ? É preciso ser muito forte para assumir-se sem máscaras e/ou eufemismos: “Não sou prepotente de achar que tenho que escrever do meu jeito. Gosto de fazer sucesso e vou fazer as concessões que forem necessárias para o público gostar. Seria arrogante achar que sou o maioral.”

Não, Gilberto, pelo que lhe conheço em tantos anos de ofício, você não seria jamais arrogante nem prepotente. As pessoas podem estranhar sim sua corajosa forma de ser e estar no mundo com suas dores, problemas, dilemas, contradições e temores. Estranhar porque a maioria aprendeu que é mais fácil viver na superfície e adotar posturas da boca pra fora, apostando em causar boa impressão ao interlocutor, sem se importar a quantas léguas de distância anda a verdade. Sua afirmação “Nunca fui extremamente popular, sempre fui refinado, mas quero agradar a todos” é uma bela demonstração de consciência do que você pretende e de humildade perante o público, a quem deve primordialmente se dirigir um escritor. Todos sabem disso, mas quantos tem coragem de assumi-lo ? Ademais sendo você quem é, um autor de notável envergadura, respeitado e admirado por seus pares, sua afirmação ganha outro patamar.

Gilberto Braga também recebe o caloroso #AplausoBlogAuroradeCinema

Você, como poucos, poderia adotar postura bem diversa, posar de bacana e valer-se de palavras bonitas e situações fictícias só pra angariar adeptos e consolidar seu posto de Grande Autor do Horário Nobre. Mas esses expedientes de escamotear ou valer-se de eufemismos e metáforas nunca fez parte da sua personalidade, e é justamente essa invejável aposta na sua integridade de propósitos, princípios e objetivos que faz de você esse ser humano admirável, no qual lucidez, inteligência, sensibilidade, bom humor e perspicácia se combinam numa inconteste forma de afirmação do conteúdo sobrepondo-se à forma.

Quem conhece sua história, bem sabe o quanto suas novelas sempre estiveram adiante de seu tempo. Você começou a se familiarizar com a dramaturgia desde muito cedo: fazia ótimas críticas de teatro e seu olhar atento e arguto foram sempre guias luminares a forjar sua iniciação e permanência na seara dramatúrgica. Ao afirmar “Eu não raciocino muito não. Vou na intuição e, quando erro, sou humilde. Quando faço uma coisa que não agrada, tento consertar. Não estou na casa das pessoas às 21h para chocar. Não quero ser um autor maldito, quero ser um autor de sucesso. Eu sempre persegui o sucesso” você, mais uma vez, engrandece-se ao se colocar junto do público como um ser naturalmente forjado na simplicidade. Seguir a voz da intuição e, ainda assim, querer alcançar o sucesso é o desejo de qualquer mortal. Raros são os que tem coragem de dizer isso, assim, com a autenticidade esparramada em todas as letras. Ainda mais porque sendo o escritor de fenômenos de audiência como você é – basta citar as novelas Dancing Days, Vale Tudo e a minissérie Anos Rebeldes -, você não precisaria fazê-lo.

Sim, foi preciso mudar muita coisa da sinopse da novela. E você diz: “Felizmente, gosto de tudo o que está no ar. Por que a audiência não sobe? Eu não sei.” Diz que isso lhe causou uma decepção muito grande, que te deixa deprimido, mas ao mesmo tempo diz ser um otimista. E lembra de outras obras suas que também tiveram momentos difíceis: “‘Brilhante’ foi uma catástrofe, uma novela toda errada. Ingenuidade fazer a história de um gay filho de uma mãe possessiva numa época em que era proibido tocar nesses assuntos na televisão. ‘O dono do mundo’ teve rejeição total. Escrevi a novela toda deprimido.” Mas adiante você diz tomar remédio o tempo todo. Mas meu caro Gilberto, gostando de você como eu gosto, preciso lembrá-lo que se Babilônia precisou ter a trama mexida e usurpou seu conhecido adiantamento de capítulos, não deixe mais isso lhe roubar o sono ou lhe fazer tomar mais remédios.

A cumplicidade de muitas décadas com o arquiteto Edgar Moura Brasil resultou na oficialização de uma união quis também inspirou #Babilônia…

Você sabe tanto quanto eu de diversos casos de expoentes das Artes e da Cultura que jamais tiveram seus méritos reconhecidos em vida e hoje são considerados Patrimônios, como é o caso do notável pintor pós-impressionista neerlandês Van Gogh, frequentemente considerado um dos maiores de todos os tempos mas cuja vida foi marcada por fracassos, tendo vendido apenas uma obra em vida. O lendário produtor cinematográfico Walt Disney foi demitido da Kansas City Star Newspaper porque, segundo seu editor, ‘não tinha imaginação nem boas ideias’. Albert Einstein chegou a ser expulso da escola e foi descrito por um professor como mentalmente lento e não sociável, assim como nosso poeta gaúcho Carpinejar foi considerado deficiente mental aos 8 anos e hoje é um dos escritores mais queridos e lidos do país.

Gilberto Braga celebrando a sólida amizade com a Diva Fernanda Montenegro

Portanto, meu caro Gilberto Braga, quero apenas dizer que minha enorme e longínqua admiração por você foi reforçada com a leitura desta entrevista primorosa. E sugiro que jogue fora sua tristeza e decepção e deixe contaminar-se por seu otimismo ! Ele sim vai-lhe fazer bem e exercer a função de algum remédio que você possa vir a tomar – oxalá não. Defendo que continue apostando na sua intuição e franca disposição de agradar o público e conquistar audiência. Foi preciso transformar a garota de programa em heroína ? Sabe que nessa até acho que não houve prejuízo algum: a atriz Sophie Charlotte é uma intérprete de lugar assegurado no Primeiro Time: além de bela e carismática, tem muito talento e uma competência que a faz passar da raiva à docilidade com igual propriedade. Pense nisso e em quanto essa experiência serve para lhe desafiar e, desafiando, lhe ofertar mais uma oportunidade de renovar-se e renascer mais forte do aparente tormento. Afinal, você já passou momentos muito mais complicados e de crítica acerba, e hoje sabe perfeitamente que suas obras criaram empatia com o público e, sempre que reprisadas, desfrutam de audiência invejável. Foi assim com Vale Tudo, foi assim com Dancing Days, Anos Dourados e Anos Rebeldes. Quem não lembra de citar Odette Roitman quando se depara com alguma maldade semelhante à da vilã criada por você e vivida brilhantemente pela atriz Beatriz Segall ? Ou quem em algum momento de sua vida não se deparou com um bandido tão desprezível como o Olavo Novaes de Wagner Moura ou a Maria de Fátima de Glória Pires ? Ou ainda quem pode esquecer da divertida aspirante à celebridade Darlene, vivida com maestria por Deborah Secco ?

Com este singelo bilhete em forma de crônica, meu caro amigo Gilberto Braga, receba minha solidariedade absoluta e meu aplauso afetuoso. 

                                       Aurora Miranda Leão 

*Esta crônica me foi inteiramente psicografada pelo Mestre Artur da Távola, de quem tive a honra e imensa alegria de ser amiga, e ao lado de quem tive a felicidade de conhecer o autor Gilberto Braga.

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