Cultura Popular do Maranhão perde Magno Aires

Euclides Magno

AS PERDAS QUE NOS AFETAM POR DENTRO E POR FORA SÃO COMO “COICES CAVALAR” QUE NOS MACHUCAM 

                                                                              * Euclides Moreira Neto

 

Neste 25 de fevereiro de 2016 acordamos com um sentimento de perda irreparável. Na noite anterior, faleceu subitamente um cidadão que considerávamos amigo, sem os laços próximos de uma amizade mais presente, mas um amigo que nos fazia feliz ao vê-lo, ao tratarmos com ele, à forma como nos tratávamos e como se relacionava com todos os que lhes cercavam: na noite anterior havia falecido, subitamente, Magno Aires, um cidadão maranhense, de origem humilde, apreciador das manifestações de cultura popular, integrante da Sociedade Recreativa Favela do Samba e do Boi da Floresta. Creio que Magno tinha menos de 50 anos.

Esse cidadão morrera por complicações cardíacas e ninguém esperava sua morte súbita. Na Favela do Samba, ele organizava a ala dos passistas, que deu nova qualidade àquela agremiação carnavalesca, pois ele tratava seus integrantes como aliados de primeira ordem e tinha um estreito círculo de relacionamento com todos, fossem homens ou mulheres, e todos o respeitavam com a legitimidade que ele adquiriu ao longo de sua vivência carnavalesca naquela agremiação, em especial durante os ensaios da Bateria Carcará, às terças e quintas-feiras, e nas demais atividades sociais daquela escola de samba.

Magno conseguiu estabelecer uma prática de permuta entre os partícipes dessa ala, uma vez que seus integrantes deixavam claro que era um prazer ir aos ensaios da Bateria da Carcará para se divertirem e para aprender as coreografias que eram recorrentemente criadas para as futuras apresentações que a mesma iria fazer. Além disso, Magno se preocupava com a produção artística de seu grupo, na intenção de que ela fosse uma espécie de cartão de Boas Vindas para os apreciadores do samba emanado pelos ritmistas favelenses.

Agindo assim, Magno Cruz conquistou a direção daquela escola de samba, dos ritmistas, do mestre de bateria, dos casais de mestres-salas e portas-bandeira, pois facilmente dividia o limitado espaço de ensaios com o seu grupo de passistas em uma convivência salutar e pacífica que só engrandecia a escola de samba do bairro do Sacavém. Quando ele não estava, as pessoas sentiam falta e essa falta era manifestada sem grandes preocupações, pois todos sabiam que ele voltaria, embora fizesse falta.

Sem dúvida ao longo do tempo, Magno foi adquirindo o status legitimado simbólico de integrante necessário e indispensável para a escola de samba favelense. Não nos furtamos em comparar sua presença com a de mestre Júlio para os ritmistas da Bateria Carcará, ou como a de Júlio Matos para a confecção dos carros alegóricos da Favela; ou como a de Pedro Padilha para a confecção das fantasias de composição de carros, casais de mestres-salas e portas-bandeira, rainhas de bateria e destaques.

Assim, a notícia de seu falecimento nos deixa órfãos de uma pessoa ímpar, alegre, única, que soltava um sorriso meigo quando tratávamos de assuntos diversos, uma pessoa leal e solidária na construção dos sonhos idealizados para os projetos carnavalescos de sua escola de samba do coração, fato que nos deixava a sensação de que ali estava um patrimônio privado da nação favelense, como são denominados os apreciadores daquela escola de samba.

A última vez que vimos Magno em público foi no último domingo, 22 de fevereiro, durante a feijoada comemorativa daquela agremiação carnavalesca pela conquista do título de campeã no concurso de escolas de samba de São Luís, na temporada de 2016. Ele estava como sempre nos apresentava – feliz, alegre e comunicativo, interagindo com todos que lhe procuravam. Aproveitamos a oportunidade e clicamos uma foto, que depois foi veiculada amplamente nas redes sociais e de quem lhe coube emitir o seguinte comentário: “Pegos de surpresa por Euclides Moreira Neto em uma conversa de carnaval kkk”.

Na foto clicada por nós, Magno estava a conversar com o amigo Jandilson Carvalho, que também ficou pasmo com a notícia de seu falecimento. Na conversa clicada de supresa ele estava a sorrir e trocar ideias, como sempre fazia, e com certeza nem passava pela sua cabeça esse desfecho tão repentino e inesperado. Após o seu falecimento, começam a aparecer as versões de que ele já havia comentado com amigos mais próximos que estava a sentir um desconforto na área do coração e a perna dormente. Ele até procurou auxílio médico, mas a resposta foi a de que eram gazes, pra ele não se preocupar.

O diagnóstico de que o desconforto de Magno eram gazes mostra como a saúde do brasileiro está sendo tratada pelos equipamentos públicos da área da saúde, em que não é feita a devida investigação nos problemas que chegam aos médicos, e uma simples palavra, como se fosse um diagnóstico científico, encerra o procedimento de uma consulta preventiva. A vida humana está banalizada e entregue à sorte de profissionais que nem sempre são éticos nos seus veredictos.

Dessa forma, perdemos um amigo, um companheiro, um ser humano incrivel e de bem com a vida. Perdemos o sorriso simples e humilde de um cidadão que só engrandecia suas relações e os vínculos com quem matinha amizade. Fica pois a sensação de que perdas como essa são “coices cavalar” que recebemos como um bólido, inesperadamente, e que subitamente parou. Ficamos intactos sem saber o que fazer, se não aceitar essa penalização, que não sabemos se é divina.

 A presença de pessoas como Magno Aires à frente de um grupo de pessoas, de uma organização cultural e de qualquer instrumento de relacionamento que seja, é ter a garantia de um capital humano e social raro, como enunciou Pierre Bourdieu (1996), na sua obra “As regras da arte”, quando tenta explicar essas relações sociais que estabelecem laços de vida e de consumo entre as sociedades de forma simbólica, externando uma multiplicidade diversificada de emoções.

No calor da emoção da perda de Magno Aires, recorremos ao investigador científico em história, Fábio Henrique Monteiro Silva (2015, p. 38), quando nos conforta ao afirmar que “A festa carnavalesca, ao adquirir subsídios de sociabilidade e de trocas culturais entre seus participantes, pode proporcionar um entendimento de rede de ligações e revelar os comportamentos da sociedade daquele momento”.

Diz ainda Silva (2015, p. 38) que “Na essência do festejo, o indivíduo torna-se folião e apresenta a possibilidade de entendimento dos seus sentimentos, frustações, negações e impedimentos que envolvem o mundo em que vive”. Esse mesmo autor ressalta como é estranha a influência do carnaval no espírito humano e pergunta: “O que faz com que homens e mulheres de pouca condição social e muitos problemas econômicos saiam às ruas para cantar e dançar?”, e nós complementamos esse raciocínio dizendo “como fazia Magno Aires nos grupos em que atuava”.

Coorroboramos com Silva quando ele afirma que “A soociologia, tampouco a história, consegue explicar tais mudanças de comportamento. Nem a psicologia explica por que no período momesco os atores se tornam pessoas brincalhonas, nem o racionalismo consegue explicar a essência de uma festa que encontrou na terra Brasil o grande palco para sua exposição” (Silva, 2015, p. 38).

Ao contrário da vida que agrega os atos festivos das manifestações culturais de maneira plena e pulsante, compartilhamos com o olhar de que a morte é de fato um forte elemento que desconstrói sonhos e esperanças da vida das pessoas, pois rompem-se elos que talvez não se encontrem outros substitutos. A vida ocupa um lugar privilegiado na produção cultural de qualquer sociedade, como elemento cristalizador, capaz de ritualizar, diluir e até mesmo sacralizar a experiência social dos grupos que a realizam.

Por isso, estamos aqui lamentando a perda deste cidadão único que nos tocou profundamente com sua convivência – Magno Aires –  como elemento construtivo de sonhos e esperanças. Não queremos que ele cai no bloco do esquecimento, portanto, vamos torcer para que, aqueles que tiveram oportunidade do compartilhamento de sua vida, se espelhem nela para dar continuidade ao amanhã.

  • Euclides Moreira Neto é Professor Mestre em Comunicação Social da UFMA e Doutorando em Estudos Culturais na Universidade de Aveiro – Portugal

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