Luiz Fernando Carvalho mergulha em Shakespeare e Machado e faz elegia de amor ao nordeste

Por AURORA MIRANDA LEÃO*

VC

Audiência responde e novela chega ao capítulo 100 com recorde de audiência

Assistir a Velho Chico tem sido um convite diário ao encantamento !

A primeira imagem que, habitualmente, ganha a tela depois de exibido o título da novela do horário nobre, é um plano geral sobre o rio São Francisco, e não há má vontade nenhuma que não se aperceba dessa maravilha de cenário.

É um episódio relicário que o artista num sonho genial A letra da canção de Martinho da Vila se achega como trilha precisa para a emoção que aflora ao nos reportarmos à novela, escrita por Benedito Ruy Barbosa e seu neto Bruno Luperi, e dirigida com maestria por Luiz Fernando Carvalho (LFC).

Luiz Fernando Carvalho costuma dizer que seu intuito é tornar o invisível visível. Diz que, em geral, parte de um som, de uma cor, de uma música: “Tenho um delírio de associações muito amplas, e boto todos os meus colaboradores nessa energia. É um processo alquímico.” E não é difícil perceber essa forma de mergulho artístico que Luiz Fernando faz: basta reparar em quaisquer das obras assinadas por ele – desde o filme Lavoura Arcaica, baseado na complexa obra do escritor Raduan Nassar, e um divisor de águas na carreira do ator Selton Mello – para entender direitinho que essa alquimia acontece mesmo, como a transformar tudo ao calor da entrega e ao sabor da paixão. Quem viu Hoje é dia de Maria, A Pedra do Reino, ou Meu Pedacinho de Chão há de concordar conosco. Afinal, é como se o olhar de quem assiste fosse convidado, diariamente, para contemplar o belo e, delicadamente, fosse convocado a pensar o cotidiano por outro viés, tomar novos caminhos, buscar atalhos, e daí então fique fácil perceber a multiplicidade de questões que tantas vezes nos são roubadas pela avalanche de informações do dia-a-dia e a pressa habitual do time is money.

FAZENDA

A fazenda do Coronel Afrânio na primeira fase da novela, quando o padre ainda era interpretado pelo saudoso ator Umberto Magnani…

Santoro

Rodrigo Santoro marcou com brilhantismo sua participação na primeira fase…

Em todas essas obras, nota-se claramente que a equipe realizadora – do elenco aos maquiladores – está mergulhada num mesmo caldeirão, envolvida até a alma para que a obra televisual em produção se defina com beleza, magnitude e força aos olhos do telespectador. E assim LFC criou um estilo de direção diante do qual o público se apercebe tocado por uma sensorialidade diferente, capaz de sentir-se convidado a embarcar num outro universo, bem distante de uma fruição rápida, respingada de ofertas consumistas e inserções que em nada acrescentam à teledramaturgia.

Fag menor

Antônio Fagundes é o perverso e todo-poderoso Coronel Afrânio…

Velho Chico estreou em março com a árdua tarefa de recuperar a audiência do horário das 21h. Mesmo diante de uma novela de João Emanuel Carneiro – notabilizado por sua incomparável Avenida Brasil -, o público foi escasseando ao longo de A Regra do Jogo. A par do enorme talento da maioria de seus atores, era duro ver, com frequência, um Cauã Reymond de arma em punho, ou um Tony Ramos desferindo maldades e matando quem em seu caminho ousasse se intrometer. Mesmo sendo ações exigidas aos personagens, eles não deixam de ser Cauã e Tony, fortemente assimilados e amados pelo público.

Aí chega Velho Chico e nos mostra – como no potente capítulo da sexta-feira, 8 de julho – um perverso Coronel Afrânio (Antônio Fagundes) jogar sua arma no chão e declinar da vontade de agredir ao receber das mãos da matriarca da família rival, Piedade (vivida com enorme competência pela atriz paraibana Zezita Mattos) um ramo de flores, explodindo num gesto comovente e altamente simbólico de fraternidade e onipresença do AMOR.

Fag e Mig

Fagundes e Gabriel Leone em momento tenso da trama de #VelhoChico

E ao final da cena, os três personagens masculinos, agora membros da mesma família (vividos por Domingos Montagner, Irandhir Santos e Gabriel Leone) riscarem no chão barrento um triângulo como vórtice da família Dos Anjos, e nele jogarem o ramo de flores, que o vento leva como a inscrever na aridez da terra que a PAZ deve prevalecer.

A potência que tem para o telespectador mais comum dos comuns, ou mesmo entre aqueles que nem assistem à novela mas passam por algum lugar na hora em que a cena é exibida, é incomensurável ! Tem um valor simbólico inestimável em defesa da PAZ, do respeito às diferenças, da necessária convivência dos contrários e do respeito ao próximo.

Se outros méritos não tivesse, só uma cena desse quilate já faz de VELHO CHICO um marco relevante, sério e NECESSÁRIO para a produção teleaudiovisual do país. Aplausos de pé !!!

Cel e vó

Então… chegou um momento em que a audiência de A Regra do Jogo ficou preocupante e a direção da TV Globo acelerou o fim da novela: convocou Benedito, Luiz Fernando e sua trupe para o centro da cena  fim de dar uma guinada nesse panorama. E o intuito foi alcançado. Velho Chico estreou com uma audiência das maiores do horário, trazendo de volta à produção audiovisual brasileira o ator Rodrigo Santoro, que hoje vive na ponte Rio-EUA, e é o ator brasileiro de maior reconhecimento no exterior. Rodrigo, Carol Castro, Rodrigo Lombardi, Chico Diaz e Fabíula Nascimento foram alguns dos atores que participaram da primeira fase da novela, e a segunda estreou cerca de 4 semanas depois (novela estreou em 14 março e segunda fase começou dia 11 de abril).

Nós dissemos que uma terceira fase da novela começou no dia em que os personagens de Teresa e Santo se reencontraram, trinta anos depois do tórrido romance que tiveram na adolescência. E nas cenas emocionantes que, desse reencontro, explode em sensação latente o clássico  Romeu e Julieta.

tereza e santo

Belíssimo figurino de Thanara Schönardie é um reforço ao belo que inunda #VelhoChico…

Como de resto é de amor e paixão que todos estamos a falar – mesmo os que disso parecem fugir -, o reencontro de Teresa e Santo foi qual uma assinatura da obra, como a dizer “Estamos a falar de muitas coisas, mas de todas elas a mais importante é o AMOR”.

A ideia motriz de Velho Chico, fácil perceber, é uma disposição antropofágica, inteligentemente ressignificada por LFC no sentido de estabelecer uma espécie de neo-barroco, lindamente anunciado desde a vinheta de abertura com a música-tema de Caetano (um dos ícones do tropicalismo) sendo ‘ilustrada’ por cores vivas e traços acentuadamente originários dessa matriz cultural.

A justaposição de imagens e conceitos é capaz de provocar  uma multiplicidade de interpretações, desaguando num farto território de amplos signos culturais, focando num manancial de referências profundas e formadoras do povo brasileiro. Assim, o Velho Chico – que estoura em beleza na fotografia da novela, assinada por  Alexandre Fructuoso -, figura como o símbolo decantado por nosso mais célebre escritor, conforme citou LFC em entrevista no dia do lançamento da novela – “Machado de Assis dizia que o São Francisco é o rio da integração nacional. Ele reúne as culturas fundadoras da identidade brasileira”. E é desse VELHO CHICO que tudo o mais deriva, nasce, renasce, volta e se recria. Na vida brasileira, como no rico contexto teledramatúrgico de que falamos.

DIRA

Lee Taylor, Dira Paes e Irandhir Santos: figuras de destaque no cotidiano de Grotas…

Essa inspiração em parâmetros ancestrais se faz notar também, de modo a evidenciar uma estética pensada com amplos mergulhos nas mais variadas fontes, quando se coloca o velho coronel Afrânio num misto de Rei Lear e Hamlet ao defrontar-se com o espelho e pronunciar um discurso existencial sobre como chegou até aquele ponto, que momentos o fizeram tornar-se o que é hoje, figura da qual não pode mais abrir mão mas que não era o que ele próprio idealizara quando jovem; assim como se nota em força e beleza a presença dos cânones shakespearianos quando os personagens de Tereza e Miguel se deparam com a ‘tragédia’ de ter vivido 30 anos debaixo da mentira de uma família que nunca existiu de verdade, ou por outra, nunca foi integralmente de sangue.

Camila Pitanga e Gabriel Leone, mãe e filho, em ótimas atuações…

A forma como LFC se ‘apropria’ de um ícone do valor de um dramaturgo como Shakespeare – cuja morte chegou este ano aos 400 – e o coloca numa obra popular como uma telenovela (que atinge a marca de mais de 50 milhões de telespectadores no país – marca que deixou os americanos que fizeram matéria sobre as olimpíadas no Brasil de queixo caído) é simplesmente revolucionária e genial !

Revolucionária porque coloca Shakespeare no cerne de uma questão que se passa no interiorzão do Brasil, há mais de 400 de sua morte; e genial porque reafirma o valor do bardo e ressignifca sua inconteste importância e atemporalidade. Outrossim, ao atualizar a obra de Shakespeare, evidenciando-a num veículo ainda tão desprezado pela elite intelectual do Brasil como a TV, Luiz Fernando confirma o que tanto diz: que só trabalha com absoluta condição de liberdade e que seu objetivo é sempre procurar o novo e traduzi-lo.

Quando LFC junta Shakespeare (que não tem nada de antigo e sim de PERMANENTE), a Antônio Fagundes (ator de notável envergadura e desde sempre um apaixonado por teatro), Caetano Veloso, Raimundo Rodriguez, Gabriel Leone, Irandhir Santos, Camila Pitanga, rio São Francisco, Machado de Assis, santos tradicionais, e ícones da cultura popular, entre tantos outros, ele está simplesmente elevando o nível da nossa Teledramaturgia, mostrando que é possível fazer (basta ter Talento, bagagem cultural, não ter viseira nas retinas e estar aberto à procura do novo), fazer com galhardia e ainda tornar essa alquimia assimilável pela audiência.

Egrei

Selma Egrei interpreta a ranzinza Dona Encarnação, matriarca do clã Sá Ribeiro…

Gésio Amadeo é Chico Criatura, o popular dono de boteco de Grotas…

Assim, a novela é um banho de beleza, cultura, dramaturgia, música, fotografia ! Enfim, VELHO CHICO é uma inovação que requer um olhar atento, arguto e não pré-concebido de quem pretende entender a complexidade que é fazer telenovela – produto caríssimo, de ampla repercussão social, e sérias implicações mercadológicas -, e fazer com um nível de excelência que o exterior inteiro aplaude, e do qual devemos nos orgulhar !

Quem está à frente e por trás das câmeras são todos profissionais brasileiros (à exceção de um ou outro, como é o caso da atriz francesa Yara Charry, que faz a Sophie), num trabalho hercúleo (os que fazem protagonistas, mal tem tempo de parar em casa), que em termos artísticos e técnicos corresponde mais ou menos a fazer um curta-metragem por dia. E nós, que também lidamos com o cinema, sabemos o quão difícil é realizar um Curta-Metragem, que dirá um por dia, durante 8 meses… benza Deus !

Rai VC

A riqueza dos santuários criados por Raimundo Rodriguez

Nós aplaudimos com louvor ! Sobretudo em se tratando de uma obra com as fartas qualidades que apontamos em Velho Chico. 

E é com inteligência, simplicidade, coerência e inegável paixão, que Luiz Fernando Carvalho resume o trabalho complexo, intenso, sensível e quase artesanal que vem fazendo, à frente de uma equipe super competente, na qual figuram nomes como os de Raimundo Rodriguez (que assina a obra como Artista Plástico, assim como foi em Meu Pedacinho de Chão e tantas outras em parceria com LFC) e o da figurinista Thanara Schönardie):

“Eu coloco todo mundo para trabalhar em torno disso, trazendo experiências, estudiosos, elementos, para fundamentar e contextualizar o que é isso que estou chamando de neobarroco, que neoantropofagia é essa, que engole a própria linguagem da televisão para gerar uma nova televisão, uma televisão em que acredito. Uno todo mundo para produzir esse novo olhar sobre o país”

 

 

 

 

 

 

 

 

Luiz Fernando Carvalho dirigindo Antônio Fagundes… 

Do lado de cá da poltrona, rendemos homenagens a estes profissionais e ousamos afirmar: é como se Velho Chico fosse do país, a partir do nordeste (e toda sua imensa soma de valores – música, atores, folguedos, festas populares), “A sua mais completa tradução… e os novos baianos (artistas nordestinos em papéis de destaque na novela) passeiam na tua garoa, e novos baianos te podem curtir numa boa”

*Aurora Miranda Leão é atriz, jornalista, e editora do #BlogAuroradeCinema

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