Arquivo do mês: setembro 2016

Porque a saudade é o revés de um parto…

Velho Chico vive semana final marejando a tela de encanto, tristeza e saudade…

* Aurora Miranda Leão

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Camila Pitanga, Gabriel Leone e Domingos Montagner: últimos momentos de uma sintonia que a ficção abraçou com beleza e emoção…

Fatalidade que nos tirou SANTO DOMINGOS Montagner dos ANJOS imortaliza VELHO CHICO como obra trágica em que ficção e realidade duelaram…

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VELHO CHICO, a prodigiosa novela de Benedito Ruy Barbosa, Bruno Luperi e Luiz Fernando Carvalho, entra em sua derradeira semana. E o capítulo da segunda que iniciou esta reta final foi de A R R E P I A R !!!

Inédita em telenovelas, a solução encontrada pelos autores foi um emocionante acerto.

Assim como aconteceu conosco, li várias pessoas comentando nas redes sociais que terminaram o capítulo em lágrimas. É preciso ser muito insensível para não se ter sentido com os olhos naufragados…

Resultado de imagem para velho chico TEREZA salva Santo da morte

A aura de SANTO Domingos pairou em todas as cenas do personagem com sua família: além do delicado e poético efeito da luz incidindo sobre as lentes de Alexandre Fructuoso, os corações do elenco (visivelmente entrelaçados) emprestaram ternura e cravaram saudade às cenas em que Santo está presente mas sem Domingos… a poesia latente entre colegas que a ficção tornou’família’, escancarou uma ausência que machuca profundamente, e contaminou o público.

E como é lindo constatar quando um artista acerta a mão em seu trabalho e consegue o máximo da sofisticação que é a beleza do simples – como tão bem imortalizou Leonardo da Vinci. Assim foi nesse já histórico capítulo da última segunda-feira de Velho Chico, 26 de setembro de 2016.

irandhir

Que riqueza de simbologia num único capítulo ! Quantos acertos  flagrados em filigranas da mais sublime homenagem que autores e direção resolveram prestar ao querido Domingos Montagner ! A título de ilustração, os antológicos destaques para o brinde à nova vida que será trazida por Miguel e Oliva com todos os atores olhando para a câmera (simbolizando Santo) com o corte para uma belíssima imagem do Rio em absoluto clarão). O hino que embala a oração de são Francisco antecedendo encontro da índia Ceci com a terra seca herdada por Miguel – e a primeira imagem que surge é um céu  explodindo na beleza de seu azul escaldante -, Bento chamando o “mano véio” para se arrumar para a festa de casamento da filha, a troca de olhares ente Olívia e o pai (feixes de luz formando anéis brancos a simbolizar  a alma de SANTO abençoando a filha), as lindas palavras do padre Benício na hora da celebração,  Miguel recebendo do pai um violão, e tocando para a amada a simetria do Dia Branco de Geraldo Azevedo.

Detalhes significativos demais, só capazes de imperar em almas prenhes de luz e inspiração !

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Com o auxílio luxuoso de uma equipe que também marcou com a encantadora telenovela Meu Pedacinho de Chão – nela também constam os nomes de Raimundo Rodriguez, Tim Rescala, Thanara Schönardie, Rubens Libório, Myriam Mendes, Luisa Gomes Cardoso, Déborah Badauê, para citar apenas alguns -, Luiz Fernando Carvalho possibilitou  a construção de uma obra de arte do mais alto quilate, dando ao inteligente texto de Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Luperi, a dimensão de Obra-Prima da Teledramaturgia Mundial. Anotem aí, e ano que vem vamos conferir: VELHO CHICO ganhará incontáveis prêmios por sua excelência: seja pela belíssima estética de sua narrativa ou pela beleza de seu figurino delicado e atemporal; seja pela riqueza de uma trilha sonora que emprestou à narrativa um caráter de adágio, ou por sua fotografia primorosa; quer pela direção de arte ou pelas interpretações de um elenco notável. Por qualquer ângulo através do qual se queira analisar VELHO CHICO, a telenovela é um festival de acertos !

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Os irmãos Bento e Santo em trabalho soberbo de Irandhir Santos e Domingos Montagner

Orgulho de me inscrever entre a imensa legião de pessoas que acompanha a novela. Orgulho de profissionais que conseguem fazer de um extenuante trabalho cotidiano um painel riquíssimo, no qual se inscreve a Cultura Brasileira em sua multifária diversidade, e com o qual somos brindados diariamente, de graça, no conforto de nossas cadeiras ou no sofá preferido para nos desligarmos do mundo e embarcamos num mergulho antropofágico do quilate que é, sempre, uma obra que leva a assinatura de Luiz Fernando Carvalho.

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Doninha (Suely Bispo) e Cícero (Marcos Palmeira): fiéis servidores do Coronel Saruê…

VELHO CHICO entra para a história da Teledramaturgia como uma obra de notável narrativa e riquissíma produção de sentidos, símbolo de uma enorme rede de influências artísticas – que vão de Shakespeare a  J. B. Priestley e seu O Tempo e os Conways, passando por Ibsen e Albinoni, com mergulhos mesclando o Concerto de Aranjuez ao ritmo tradicional do forró pé-de-serra e às carrancas típicas do nordeste brasileiro, com ênfase para a riqueza da vertente africana de nossa ancestralidade, ou na direção poética que pulsa em manifestações como a Missa do Vaqueiro – que valeu à trama um capítulo antológico !

Outrossim, a novela de Benedito-Luperi-Luiz Fernando-Raimundo-Tim-Fagundes-Egrei-Irandhir-Pitanga entra para os anais da Teledramaturgia como uma narrativa na qual o clássico se misturou com o popular formando um crivo* precioso onde o único senão foi a intromissão – indevida, desnecessária, indesejável e corrosiva – da realidade na ficção.

*CRIVO é um bordado feito com o auxílio de bastidores, em que o pano é preparado com a retirada de alguns fios intercalados, formando furos que são contornados de pontos de linha, criando uma espécie de peneira.

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Miguel e Olívia: Gabriel Leone e Giullia Buscacio simbolizando um amor cheio de ternura…

Assim, ao falarmos de VELHO CHICO, sabemos estar diante de uma Obra-Prima porém perpassados por um profundo e lancinante silêncio, advindo de uma dor que insiste em latejar e nos açoita, dilacerante, a gritar nossa pequenez diante do Infinito.

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Descanse em PAZ, DOMINGOS Santo MONTAGNER dos Anjos !

Que Deus seja conforto e LUZ para todos os que com você partilharam a grandeza que foi sua vida e sua benfazeja presença em VELHO CHICO !

O caloroso #aplausoblogauroradecinema para todos os que integram a equipe da saga VELHO CHICO !

coronel

Como diria o saudoso cronista Artur da Távola,

Velho Chico seria uma obra popular de elite ou uma obra erudita de massas ?

VELHO CHICO crava assinatura contra machismo, opressão e preconceito racial

Em capítulo no qual Mariene de Castro brilha, Marcelo Serrado e Marcos Palmeira destacam-se com atuações primorosas…

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Mariene de Castro protagonizou cena forte em defesa das mulheres e contra o racismo

Velho Chico, apenas uma novela rural, centrada no sertão nordestino – como julgam apressadamente os que dizem que detestam novela (nunca entendi como de detesta uma coisa que não se conhece) – é, desde seu início, uma obra substancial, com uma estética claramente definida e nuances antropofágicas claras, importantes, bonitas e bem colocadas.

A novela já foi por nós abordada diversas vezes. Tem tantas qualidades que merecia um comentário diário. Mas o tempo nem sempre nos permite dedicar-nos exclusivamente ao que gostamos. A teleficção audiovisual me encanta desde garota, o que me fez seguir noveleira vida afora, e culminou com uma estreita e longa amizade nossa com o saudoso cronista Artur da Távola, o mais respeitado crítico de televisão, praticamente o pioneiro do ofício.

Dito isso, vamos ao capítulo de Velho Chico desse sábado, 24 de setembro: foi um capítulo crucial da grandiosa obra de Benedito Ruy Barbosa, Bruno Luperi e Luiz Fernando Carvalho. Nele foram exibidas as últimas cenas gravadas pelo ator Domingos Montagner, tragicamente vitimado logo após essas gravações em mergulho que terminou de forma infeliz no lendário rio São Francisco.

A exibição dessas cenas, por si só, já tornaram as principais sequências do capítulo arrepiantes. Ver um ator da dimensão cênica de um Montagner, cujas falas lhe saíam com tamanha espontaneidade, que pareciam sair-lhe do próprio coração, e não de roteiro que o ator decorava e aplicava seus conhecimentos técnicos para dar as falas à veracidade necessária a tornar o personagem crível. Por isso, quando um ator tem a magnitude de um Fagundes ou de um Montagner, o público mergulha de supetão na ficção e chega a “confundir” ator X personagem.

Teve destaque também a degradação existencial pela qual passa o coronel Saruê, que vive um dilema emocional com a perda da mãe, o abandono da filha e do neto, e a incerteza de seu único filho (com quem viveu às turras a vida inteira) ainda está vivo ou não. A situação do coronel, apesar de todas as ruindades que protagonizou, é digna de pena. E o diálogo do Coronel com seu capanga Cícero foi um primor ! Sobretudo pela meticulosa interpretação de Marcos Palmeira ! Que Ator Grandioso é este rapaz, filho do nosso conterrâneo, cineasta Zelito Vianna, e irmão da querida cineasta Betse de Castro.

palmeira

Marcos Palmeira é desses atores que trabalham “na dele”, sem nunca dar demonstrações de que pretender ser um Ator de grande Destaque… vai fazendo o trabalho dele, do jeitinho dele, meio que na “surdina”, mas como é grandioso em sua interpretação este garoto ! Com que riqueza de detalhes ele compôs este Cícero, sertanejo brabo, valentão, machista, iletrado, enciumado, defensor do patrão e bruto, que guardou por muitos anos uma paixão avassaladora pela filha do coronel, a bela Teresa.

Na conversa de hoje com o Coronel Saruê, Cicero foi de uma sinceridade desconcertante ao falar sobre a vida e tentar responder as questões existenciais que o coronel colocava. E com que riqueza de detalhes Palmeira fez a cena ! Que preciosismo de expressão, entre o ingênuo e o tosco, entre a pureza e a ignorância, entre o inculto e o selvagem… Que coisa linda ver um Ator trabalhar com tanto preciosismo, independente do tamanho do personagem que tenha nas mãos. Não custa lembrar que, recentemente, Marcos Palmeira fez o delegado da novela O Rebu e o prefeito corrupto de Babilônia, para citar apenas alguns, todos personagens completamente distintos, e aos quais o ator emprestou a mesma força de seu talento e a mesma pulsação de sua empatia. Um sonoro DEZ para Marcos Palmeira e seu ‘Cícero’ !

Mas, tirante o que citamos acima, o ponto alto do capítulo desse sábado de Velho Chico, foi o confronto de Dalva e do ex-deputado Carlos Eduardo, o “mofino” novo coronel Saruê, vivido com maestria pelo ator Marcelo Serrado. Dalva, papel que cabe à atriz e cantora Mariene de Castro (linda em toda a potência de sua vocação e grandiloquência de seu potencial artístico), resolvera deixar o trabalho na fazendo dos De Sá Ribeiro, cansada de ser tratada com grosserias e de ter de aguentar gritos e maus tratos do ‘novo coronel’, o terrível Carlos Eduardo. Ela então segue a vontade de libertar-se daquele julgo infame, lembra dos conselhos de Martim, e vai para o centro da cidade. Ali, entre um pensamento e outro, começa a cantar, e sua voz encanta Chico Criatura (Gésio Amadeo), e logo uma turma grande começou a chegar junto para ouvir Dalva cantar. E ela cantou e dançou bonito a noite toda, aplaudida e festejada por quem passava pelo bar de Chico Criatura.

serrado

Marcelo Serrado: primor como o famigerado e corrupto deputado Carlos Eduardo…

Dia seguinte, ele vai à fazenda conversar com Doninha (Suely Bispo), a amiga de longa data com quem dividia o trabalho na fazenda. E no meio da conversa, contente a dar gosto, surge Carlos Eduardo e começa a desfazer de sua vibração (vale um registro para a sonora e sarcástica risada do nojento e famigerado ex-deputado, um primor na criação de Marcelo Serrado !).

E é nessa cena que a tensão se eleva e Dalva escancara um sonoro repúdio ao preconceito racial, ao machismo, à opressão e à vilania do tal Carlos Eduardo. A palra foi forte e construída com esmero por Bruno Luperi (o neto de Benedito Ruy Barbosa que escreve a novela com o autor). Vale um estrondoso aplauso ao juntarmos a eloquência do diálogo e a fortaleza da interpretação de Mariene de Castro !

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“A gente tem que olhar pra gente é com orgulho, orgulho de quem nós somos, orgulho de onde a gente veio, do fundo de nossa alma… orgulho de ser mulher, de ser negra, de ter sangue de reis e rainhas correndo em mim”

Ao que Carlos Eduardo responde chamando Dalva de “negra, imunda” e depois ainda ameaça matá-la,  caso ainda a encontre na fazenda.

Quem perdeu a cena, ou quer revê-la, aqui está o link: http://gshow.globo.com/novelas/velho-chico/videos/t/cenas/v/carlos-ameaca-dalva/5330507/

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O pernambucano Batoré, que faz o abominável Secretário de Segurança de Velho Chico…

  • No capítulo de ontem também, é mister ressaltar a ótima participação de Batoré (que faz o nefasto Secretário de Segurança Queiroz, pau-mandado de Carlos Eduardo): ator, nordestino, sempre visto apenas fazendo humor, Batoré vem mostrando como é bom no ofício, interpretando com extrema habilidade um personagem deplorável e que causa repulsa na audiência.
  • Destaque-se também a lindeza colossal do interior da fazenda dos Saruê, composição requintada e preciosa em riqueza de minúcias, fruto da sumidade inconteste do artista plástico Raimundo Rodriguez, notável em sua criação de ambiências cênicas multifárias e pertinentes em gênero, número e grau ao que propõe a diegese da obra.

Findamos deixando um enorme APLAUSO para todos os que fazem de VELHO CHICO esta obra-prima da Teledramaturgia Mundial, que nos enche a alma de emoção e já deixa a saudade a invadir nossas retinas.

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Os cenários de Raimundo Rodriguez com detalhes preciosos que colaboram de forma substancial para a estética referecial de Velho Chico

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Antônio Fagundes, Camila Pitanga e Gabriel Leone em cena na fazenda Saruê…

Velho Chico e o imperscrutável: novela vira elegia em honra de Domingos SANTO Montagner

santo

Por Aurora Miranda Leão*

“Pregue que a vida é emprestado estado/Mistérios mil que desenterra enterra”

Velho Chico é uma obra acentuadamente marcada pela eloquência de muitas injunções. Estreou para suprir a demanda de audiência do horário, por isso foi tocada em tempo recorde e exigiu trabalho dobrado de sua equipe de pré-produção. A missão era hercúlea: colocar no ar uma novela apta a recuperar o público do horário nobre, e a intenção dos ‘autores’ Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho (LFC) era contar uma história para tocar fundo o coração do telespectador, tocando em temas caros aos sentimentos mais nobres e remontando às origens da formação do Brasil. A opção foi ambientar a saga das famílias De Sá Ribeiro e Dos Anjos no mais árido sertão nordestino, tendo o rio São Francisco – afetivamente codinominado Velho Chico -, como testemunha silenciosa e matriz emotiva onde se desaguassem dores, chorassem tristezas, e também se renovassem sonhos de melhoria para um país no qual a ética se sobreponha à politicagem, onde a terra seja produtiva para seus ribeirinhos, e onde o bem o bom e o belo terminem vencedores. Valorizar a importância do grande rio nordestino e servir como libelo para sua preservação sempre foi um subtexto notório.

Velho Chico foi alvo de vários comentários nossos, seja aqui neste blog, seja em nossas postagens diárias via Instagram, Face, Twitter e Flickr. Desde o início, a obra nos pegou com sua extrema beleza, referências artísticas prodigiosas, um texto de extrema eloquência, belos diálogos, atuações primorosas, uma fotografia deslumbrante, a estética belíssima e inconfundível do artista plástico Raimundo Rodriguez, e a condução admirável de Luiz Fernando Carvalho, um mago da Teledramaturgia de Escol.

Agora mesmo, quando a novela aproxima-se de seu final, já aparecem as vinhetas publicitárias da próxima novela. Faz-nos lembrar as chamadas antecedentes de Velho Chico (VC) bem como as de Meu Pedacinho de Chão. Não é preciso muito esforço para perceber quando a telenovela que vai ao ar leva a assinatura de Luiz Fernando Carvalho: é como se todas as outras fossem novelas. As obras assinadas por LFC estão noutra categoria: são Obra de Arte, é um outro nível. Sem desmerecer nenhum dos demais. Afinal, falo porque sou uma noveleira contumaz, e não tenho pudor algum em dizer isso. Ao contrário: orgulha-me ser de um país que faz a melhor Teledramaturgia do mundo, e onde o público tem acesso gratuito ao trabalho de um time espetacular de notáveis artistas, que se superam a cada nova obra. Basta citar alguns exemplos para confirmar nossas palavras: Avenida Brasil, Amores Roubados, O Canto da Sereia, Verdades Secretas,  AmorteAmo, Felizes para Sempre ?, Ligações Perigosas, Justiça…

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Teresa e Santo: um Romeu & Julieta encravado no sertão nordestino…

Voltando a Velho Chico: agora que a novela está em seus capítulos finais, e que fomos tristemente surpreendidos semana passada com a trágica morte do querido ator Domingos Montagner, cabe-nos agregar mais um dado insólito que torna a novela de Benedito-Bruno Luperi-Luiz Fernando Carvalho–Raimundo Rodriguez um marco divisor da Teledramaturgia Brasileira: a par de toda a qualidade da obra portentosa que é VELHO CHICO – que mescla de Shakespeare ao Tropicalismo, de Visconti à Cultura Popular, de Gregório de Mattos a José Miguel Wisnik, e da religiosidade típica do povo nordestino à espiritualidade indígena e aos mistérios da natureza aos talentos de Tim Rescala, Tom Zé, Vital Farias, e muitos outros -, gerando ademais o riquíssimo Barrococó Neoclássico assinado conjuntamente por “Raimundo Carvalho e Luiz Fernando Rodriguez” -, um marco épico da produção teleaudiovisual brasileira, a novela ganhou matrizes de autenticidade, inimagináveis e indesejadas, claro, mas que a inserem como transgressora do modelo paradigmático até então consolidado.

É a primeira vez, em todos os anos de nossa Teledramaturgia, que existe em formato diário desde 1963, que o herói morre, não na ficção, mas na vida real. Enquanto em vários outras obras o herói entristece o telespectador ao morrer – mas este sabe que logo depois o verá nas ruas ou em outras tramas -, no caso especial de VELHO CHICO, o herói permanece vivo na ficção mas foi tragado pelas águas sinuosas do rio São Francisco. Isso é de uma dor abissal.

Essa transgressão no correr ‘normal’ da narrativa está eivada de simbolismo: a mudança paradigmática que acometeu a narrativa ficcional criou uma intersecção indesejada e jamais imaginada entre os mundos real-ficcional-lúdico, conforme tão bem explicita o professor e pesquisador francês François Jost.

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Quem assiste à novela, sabe: semanas antes do trágico fim de Domingos, seu personagem morria na ficção, mas consegue voltar à vida, tempos depois, trazido pela força do amor da amada Teresa e por sintonias com rituais indígenas milenares. O tempo em que Santo esteve morto foi um tempo de muita tristeza na trama e a vibração na cidade de Grotas – quer entre seus moradores, bem como no seio das famílias do coronel e de Santo -, mudou radicalmente. Ali era só tristeza, revolta, desassossego. Não é difícil engendrar uma analogia com a situação real, arrepiante, que hoje é vivida no Projac entre os pares de Domingos. A todo instante, deve perpassar na emoção de todos: antevisão, premonição, atavismo cósmico ? Porquê ? Como dizia meu sábio avô, o médico pediatra Dr. Miranda Leão, “Os desígnios de Deus são imperscrutáveis”.

E olhemos a força que ganha a letra da música, de Paulo Araújo e João Filho:

Há um rio afogando em mim
Secando, secando, secando
Tem rompante os mistérios que já vi
Esperando, esperando, esperando o fim

Foi na margem do meu peito
Que você pisou e se fez dona
Só pra magoar minha ciranda
Que desanda, que desanda, se diz andar”

Infelizmente, a dolorosa e inaceitável morte que agora choramos não é a de SANTO e sim a do ator Domingos Montagner, que com a força de seu talento e carisma emprestou veracidade à trama de VC e conquistou inúmeros fãs por sua esmerada atuação, oxalá sendo um dos maiores responsáveis pelo êxito da novela que o tempo escreverá em seu histórico livro de ouro como uma das mais belas e relevantes de toda a produção teledramatúrgica brasileira.

A tristeza que devastou e assola a numerosa equipe de Velho Chico, contaminando o país pela perda de um ator tão querido, ainda jovem e no auge da carreira, nos remete a força da argumentação de Umberto Eco quando afirma “o texto é construído por emissor e receptor”. No caso específico de Domingos SANTO Montagner dos Anjos a afirmação resplandece com uma evidência solar.

Embora embevecida ante à beleza e a capacidade de prosseguir que assoma em Velho Chico, escrevemos cravejada de imensa saudade, tristeza e solidariedade. E queremos deixar aqui um enorme e carinhoso abraço a toda esta brava equipe que assina conjuntamente obra de tal magnitude, e um estrondoso aplauso de gratidão por nos encantarem cotidianamente com tanta verdade, beleza, dedicação e generosidade.

*E agora, “tudo em volta é só tristeza…”

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Camila Pitanga, Gabriel Leone e Domingos Montagner após a últimas gravações do ator em Piranhas, no sertão de Alagoas…

Domingos Montagner: vida real invade a ficção e eterniza VELHO CHICO

        * Por Aurora Miranda Leão

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É ainda sob forte impacto e completamente mergulhada em tristeza e dor que escrevemos este post. Escrevemos sobretudo por causa de você, leitor amigo, e para que nossa solidariedade possa chegar ao coração de form mais contundente a toda a prodigiosa equipe que realiza, sob a batuta do maestro Luiz Fernando Carvalho, esta obra prima colossal que é VELHO CHICO.

Você que nos acompanha bem sabe de nossa imensa admiração pela telenovela, de nosso apreço pelas obras do autor Benedito Ruy Barbosa, e de nosso imenso carinho pelos trabalhadores, famosos e anônimos, que tornam possível a realização de uma obra de proporções tão gigantes como uma telenovela, sobretudo as do horário nobre – as mais difíceis, as mais vistas e também as mais atacadas pela crítica – ainda tão preconceituosa e assaz conservadora, mesmo em pleno terceiro milênio.

A notícia do trágico fim do ator Domingos Montagner, protagonista de Velho Chico,  deu-nos uma quinta-feira de perplexidade absoluta. Diante do imponderável,  o real invadiu nosso cotidiano de forma brutal e fomos jogados na vala fria e dolorosa de um desaparecimento  fatal, nefasto, inconcebível, inaceitável.

Enredados numa abjeta narrativa, infelizmente encharcada de realidade, dramaticamente infeliz, e dessa vez não engendrada por nenhum Coronel Saruê, a notícia do afogamento começou a chegar à redes sociais pouco depois das 14h. Passava um pouco das 16h quando li no site da Globo as primeiras informações. Mesmo sabendo dos riscos que é mergulhar e não voltar à superfície, acreditava em “Santo” em alguma paragem do São Francisco, salvo por algum ribeirinho. Confesso não ter pensado nunca no pior final.

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Mas ele veio, infelizmente. Foi a pior de todas as notícias do dia, aquela que você nunca quer ler, a consciência reluta em aceitar, o coração não quer acreditar, e que um jornalista jamais quer divulgar. Infelizmente, o pior do pior aconteceu, e foi na sempre eficiente Globo News que o desaparecimento funesto de Domingos Montagner foi confirmado, pouco depois das 18h.

Quem acompanha este #auroradecinema também no Instagram, Flickr, Twitter ou Facebook, sabe que, nessas redes, acompanhamos o desenrolar dessa tragédia inconcebível. E o que a torna ainda mais grave: a fatalidade era EVITÁVEL !

Segundo matéria do Jornal Nacional na noite desse sábado, 17 de setembro, a chamada “Prainha” onde Domingos mergulhou e foi colhido pela brava correnteza, era um lugar muito perigoso, proibitivo, e até pouco tempo, havia ali bóias sinalizadoras de que o local era proibido ao banho. Sabe-se lá porquê as bóias foram retiradas do lugar, e como aparenta ser muito tranquilo, por isso convidativo ao mergulho, o ator foi ali celebrar suas gravações finais do personagem “Santo dos Anjos” às margens do São Francisco.

Tivera a prefeitura e os órgãos competentes tido o necessário cuidado em manter os avisos de que aquela área era perigosa e não oferecia segurança ao banho, e nosso Domingos Montagner não teria sido vitimado. Quantos como ele não devem ter perdido a vida ali também, naufragados no descaso com a vida humana, na negligência com o respeito aos princípios básicos da civilidade ? Será preciso que um ator famoso perca a vida de forma tão brutal para que, finalmente, possamos pensar em cobrar das autoridades competentes (?) o devido cuidado com o que devia ser sua tarefa cotidiana  ?

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É URGENTE que o Ministério Público seja convocado a interpelar esse descaso, negligência, desleixo e execrável desrespeito à vida humana para que os responsáveis sejam devidamente punidos e acidentes iguais não venham mais a ocorrer !

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Que Domingos Montagner, nosso eterno Santo dos Anjos, possa agora correr livre nos vastos campos do céu, abençoado por Deus e guiado pelos mais belos anjos do Senhor !

Velho Chico está em suas semanas finais. A novela, obra-prima de Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho (os dois aqui representando a enorme equipe que torna possível a realização primorosa de VELHO CHICO) teve um desfalque no elenco em seus capítulos iniciais, quando o ator Umberto Magnani, que fazia o Padre Romão, sofreu um AVC e não mais se recuperou. Agora, em seus capítulos finais, Velho Chico perde – de forma dolorosa ao extremo -, o talento, o carisma, a força e a grandeza do talento de DOMINGOS MONTAGNER.

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Se nada disso tivesse acontecido, Velho Chico continuaria sendo a obra-prima magistral que É ! Luiz Fernando Carvalho (LFC) reuniu a NATA DA NATA e esmerou-se na ousadia: partiu da Antropofagia Tropicalista e mergulhou em diversas inspirações artísticas definindo uma estética multifária, cheia de dissonâncias e belas sincronicidades. Mesclou a inteligência de suas muitas inspirações poéticas e casou suas percepções imagéticas e sensórias com a inventividade criativa do artista plástico Raimundo Rodriguez. Assim nasceu o Barrococó Neoclássico que encheu nossa telinha de vigor artístico e infinita beleza. A condução fotográfica de Alexandre Fructuoso (que assumiu seu lado fotógrafo graças ao impulso recebido de LFC) nos proporcionou, todas as noites, um mergulho num universo que estourava em beleza e convidava a uma sucessão de referências cognitivas e ressignificações para um cotidiano tão banal (?) como o da vida numa pequena cidade do interior nordestino.

Não tenho dúvida alguma de que o final de VELHO CHICO vai ser apoteótico, não no sentido de espetacularização, mas seguindo pelo viés que sempre conduziu a novela, entre o drama e a tragédia, com cores tantas vezes sombrias a esconder mistérios da família Saruê, e as influências de várias culturas que ali foram mostradas com igual respeito e a devida deferência.

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O final de VELHO CHICO vai coroar uma obra que foi majestosa do principio ao fim e que é um marco relevante e sui generis da Teledramaturgia Brasileira. 

Orgulho-me de ter visto e acompanhado a obra com a maior das atenções.

E acredito: quando um personagem com o nome de SANTO – com toda a fortaleza que o personagem de Domingos simbolizava para a trama – morre na vida real, e não na ficção, isso vai agregar um valor ainda maior à obra, da qual ela não carecia em sentido algum, mas que surge e se impõe com a força avassaladora de uma tragédia shakespereana, autor que Luiz Fernando tão grandiosamente homenageou com sua singular direção.

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Nos  400 anos da morte do dramaturgo considerado o Pai da Dramaturgia Mundial, Shakespeare, que foi colocado no centro da trama de VELHO CHICO através do personagem do coronel Saruê ( vivido com brilhantismo pelo magnânimo Antônio Fagundes, misto de Hamlet e Rei Lear), e o amor cheio de obstáculos de Teresa e Santo (Romeu & Julieta), o desaparecimento mórbido de Domingos Montagner (que partiu no auge da carreira e em plena felicidade com o papel de Santo) transforma-se numa narrativa de arrepiante interferência do real nas trilhas da ficção. Obviamente, sem propósito nem intenção, Shakespeare é agora o autor que assoma numa tragédia nordestinamente brasileira, ancorada às margens do São Francisco, rio fundador de nossa brasilidade (como afirmava o escritor Machado de Assis). Pois é completamente inimaginável deparar-nos com a morte de um personagem principal em pleno período de gravações. Nem a ficção ousou imaginar semelhante despautério.

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Desde a infância, o aprendizado nos confidenciou um mistério que nos aliviava diante da ficção, fosse qual fosse: aprendemos (e como era reconfortante saber disso) que “personagem principal não morre”. E agora choramos a partida daquele que chamaremos eternamente de SANTO. Partida, morte ? Mas Santo é personagem principal, e principal não morre. SANTO é Anjo, no céu ou na terra. Como pode ? Sumiu no mundo sem nos avisar…

O SANTO de Domingos era a Fortaleza da família dos Anjos, o Pai amoroso e dedicado, o filho honrado, o homem do povo – honesto, justo, trabalhador – amado e admirado por seus pares. O SANTO que Benedito e Bruno Luperi entregaram a Domingos Montagner era pra ser um herói quase mitológico, com a força imbatível dos justos, a grandeza dos puros de alma, o fascínio indormido dos grandes heróis, a bravura indomável do rio São Francisco.

Sem o saber nem jamais imaginarem, Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Luperi legaram a Domingos Montagner um epíteto sacrossanto que só pode ter sido bendita e espiritualizada inspiração shakesperiana – e que emocionante que assim tenha sido.

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Domingos SANTO Montagner dos ANJOS é uma espécie de herói mítico que une frações de personagens de Shakespeare, de Brecht, de Ibsen e de tantos clássicos da Dramaturgia Universal. Na versão tropicalista de Velho Chico, podemos dizer que SANTO seria (livremente inspirado em Péricles, o Príncipe de Tiro) nosso Príncipe Popular de Grotas.

Afinal, “Há mais coisas entre no céu e a terra do que possa sonhar nossa vã filosofia”.