Domingos Montagner: vida real invade a ficção e eterniza VELHO CHICO

        * Por Aurora Miranda Leão

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É ainda sob forte impacto e completamente mergulhada em tristeza e dor que escrevemos este post. Escrevemos sobretudo por causa de você, leitor amigo, e para que nossa solidariedade possa chegar ao coração de form mais contundente a toda a prodigiosa equipe que realiza, sob a batuta do maestro Luiz Fernando Carvalho, esta obra prima colossal que é VELHO CHICO.

Você que nos acompanha bem sabe de nossa imensa admiração pela telenovela, de nosso apreço pelas obras do autor Benedito Ruy Barbosa, e de nosso imenso carinho pelos trabalhadores, famosos e anônimos, que tornam possível a realização de uma obra de proporções tão gigantes como uma telenovela, sobretudo as do horário nobre – as mais difíceis, as mais vistas e também as mais atacadas pela crítica – ainda tão preconceituosa e assaz conservadora, mesmo em pleno terceiro milênio.

A notícia do trágico fim do ator Domingos Montagner, protagonista de Velho Chico,  deu-nos uma quinta-feira de perplexidade absoluta. Diante do imponderável,  o real invadiu nosso cotidiano de forma brutal e fomos jogados na vala fria e dolorosa de um desaparecimento  fatal, nefasto, inconcebível, inaceitável.

Enredados numa abjeta narrativa, infelizmente encharcada de realidade, dramaticamente infeliz, e dessa vez não engendrada por nenhum Coronel Saruê, a notícia do afogamento começou a chegar à redes sociais pouco depois das 14h. Passava um pouco das 16h quando li no site da Globo as primeiras informações. Mesmo sabendo dos riscos que é mergulhar e não voltar à superfície, acreditava em “Santo” em alguma paragem do São Francisco, salvo por algum ribeirinho. Confesso não ter pensado nunca no pior final.

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Mas ele veio, infelizmente. Foi a pior de todas as notícias do dia, aquela que você nunca quer ler, a consciência reluta em aceitar, o coração não quer acreditar, e que um jornalista jamais quer divulgar. Infelizmente, o pior do pior aconteceu, e foi na sempre eficiente Globo News que o desaparecimento funesto de Domingos Montagner foi confirmado, pouco depois das 18h.

Quem acompanha este #auroradecinema também no Instagram, Flickr, Twitter ou Facebook, sabe que, nessas redes, acompanhamos o desenrolar dessa tragédia inconcebível. E o que a torna ainda mais grave: a fatalidade era EVITÁVEL !

Segundo matéria do Jornal Nacional na noite desse sábado, 17 de setembro, a chamada “Prainha” onde Domingos mergulhou e foi colhido pela brava correnteza, era um lugar muito perigoso, proibitivo, e até pouco tempo, havia ali bóias sinalizadoras de que o local era proibido ao banho. Sabe-se lá porquê as bóias foram retiradas do lugar, e como aparenta ser muito tranquilo, por isso convidativo ao mergulho, o ator foi ali celebrar suas gravações finais do personagem “Santo dos Anjos” às margens do São Francisco.

Tivera a prefeitura e os órgãos competentes tido o necessário cuidado em manter os avisos de que aquela área era perigosa e não oferecia segurança ao banho, e nosso Domingos Montagner não teria sido vitimado. Quantos como ele não devem ter perdido a vida ali também, naufragados no descaso com a vida humana, na negligência com o respeito aos princípios básicos da civilidade ? Será preciso que um ator famoso perca a vida de forma tão brutal para que, finalmente, possamos pensar em cobrar das autoridades competentes (?) o devido cuidado com o que devia ser sua tarefa cotidiana  ?

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É URGENTE que o Ministério Público seja convocado a interpelar esse descaso, negligência, desleixo e execrável desrespeito à vida humana para que os responsáveis sejam devidamente punidos e acidentes iguais não venham mais a ocorrer !

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Que Domingos Montagner, nosso eterno Santo dos Anjos, possa agora correr livre nos vastos campos do céu, abençoado por Deus e guiado pelos mais belos anjos do Senhor !

Velho Chico está em suas semanas finais. A novela, obra-prima de Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho (os dois aqui representando a enorme equipe que torna possível a realização primorosa de VELHO CHICO) teve um desfalque no elenco em seus capítulos iniciais, quando o ator Umberto Magnani, que fazia o Padre Romão, sofreu um AVC e não mais se recuperou. Agora, em seus capítulos finais, Velho Chico perde – de forma dolorosa ao extremo -, o talento, o carisma, a força e a grandeza do talento de DOMINGOS MONTAGNER.

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Se nada disso tivesse acontecido, Velho Chico continuaria sendo a obra-prima magistral que É ! Luiz Fernando Carvalho (LFC) reuniu a NATA DA NATA e esmerou-se na ousadia: partiu da Antropofagia Tropicalista e mergulhou em diversas inspirações artísticas definindo uma estética multifária, cheia de dissonâncias e belas sincronicidades. Mesclou a inteligência de suas muitas inspirações poéticas e casou suas percepções imagéticas e sensórias com a inventividade criativa do artista plástico Raimundo Rodriguez. Assim nasceu o Barrococó Neoclássico que encheu nossa telinha de vigor artístico e infinita beleza. A condução fotográfica de Alexandre Fructuoso (que assumiu seu lado fotógrafo graças ao impulso recebido de LFC) nos proporcionou, todas as noites, um mergulho num universo que estourava em beleza e convidava a uma sucessão de referências cognitivas e ressignificações para um cotidiano tão banal (?) como o da vida numa pequena cidade do interior nordestino.

Não tenho dúvida alguma de que o final de VELHO CHICO vai ser apoteótico, não no sentido de espetacularização, mas seguindo pelo viés que sempre conduziu a novela, entre o drama e a tragédia, com cores tantas vezes sombrias a esconder mistérios da família Saruê, e as influências de várias culturas que ali foram mostradas com igual respeito e a devida deferência.

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O final de VELHO CHICO vai coroar uma obra que foi majestosa do principio ao fim e que é um marco relevante e sui generis da Teledramaturgia Brasileira. 

Orgulho-me de ter visto e acompanhado a obra com a maior das atenções.

E acredito: quando um personagem com o nome de SANTO – com toda a fortaleza que o personagem de Domingos simbolizava para a trama – morre na vida real, e não na ficção, isso vai agregar um valor ainda maior à obra, da qual ela não carecia em sentido algum, mas que surge e se impõe com a força avassaladora de uma tragédia shakespereana, autor que Luiz Fernando tão grandiosamente homenageou com sua singular direção.

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Nos  400 anos da morte do dramaturgo considerado o Pai da Dramaturgia Mundial, Shakespeare, que foi colocado no centro da trama de VELHO CHICO através do personagem do coronel Saruê ( vivido com brilhantismo pelo magnânimo Antônio Fagundes, misto de Hamlet e Rei Lear), e o amor cheio de obstáculos de Teresa e Santo (Romeu & Julieta), o desaparecimento mórbido de Domingos Montagner (que partiu no auge da carreira e em plena felicidade com o papel de Santo) transforma-se numa narrativa de arrepiante interferência do real nas trilhas da ficção. Obviamente, sem propósito nem intenção, Shakespeare é agora o autor que assoma numa tragédia nordestinamente brasileira, ancorada às margens do São Francisco, rio fundador de nossa brasilidade (como afirmava o escritor Machado de Assis). Pois é completamente inimaginável deparar-nos com a morte de um personagem principal em pleno período de gravações. Nem a ficção ousou imaginar semelhante despautério.

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Desde a infância, o aprendizado nos confidenciou um mistério que nos aliviava diante da ficção, fosse qual fosse: aprendemos (e como era reconfortante saber disso) que “personagem principal não morre”. E agora choramos a partida daquele que chamaremos eternamente de SANTO. Partida, morte ? Mas Santo é personagem principal, e principal não morre. SANTO é Anjo, no céu ou na terra. Como pode ? Sumiu no mundo sem nos avisar…

O SANTO de Domingos era a Fortaleza da família dos Anjos, o Pai amoroso e dedicado, o filho honrado, o homem do povo – honesto, justo, trabalhador – amado e admirado por seus pares. O SANTO que Benedito e Bruno Luperi entregaram a Domingos Montagner era pra ser um herói quase mitológico, com a força imbatível dos justos, a grandeza dos puros de alma, o fascínio indormido dos grandes heróis, a bravura indomável do rio São Francisco.

Sem o saber nem jamais imaginarem, Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Luperi legaram a Domingos Montagner um epíteto sacrossanto que só pode ter sido bendita e espiritualizada inspiração shakesperiana – e que emocionante que assim tenha sido.

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Domingos SANTO Montagner dos ANJOS é uma espécie de herói mítico que une frações de personagens de Shakespeare, de Brecht, de Ibsen e de tantos clássicos da Dramaturgia Universal. Na versão tropicalista de Velho Chico, podemos dizer que SANTO seria (livremente inspirado em Péricles, o Príncipe de Tiro) nosso Príncipe Popular de Grotas.

Afinal, “Há mais coisas entre no céu e a terra do que possa sonhar nossa vã filosofia”.

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