Velho Chico e o imperscrutável: novela vira elegia em honra de Domingos SANTO Montagner

santo

Por Aurora Miranda Leão*

“Pregue que a vida é emprestado estado/Mistérios mil que desenterra enterra”

Velho Chico é uma obra acentuadamente marcada pela eloquência de muitas injunções. Estreou para suprir a demanda de audiência do horário, por isso foi tocada em tempo recorde e exigiu trabalho dobrado de sua equipe de pré-produção. A missão era hercúlea: colocar no ar uma novela apta a recuperar o público do horário nobre, e a intenção dos ‘autores’ Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho (LFC) era contar uma história para tocar fundo o coração do telespectador, tocando em temas caros aos sentimentos mais nobres e remontando às origens da formação do Brasil. A opção foi ambientar a saga das famílias De Sá Ribeiro e Dos Anjos no mais árido sertão nordestino, tendo o rio São Francisco – afetivamente codinominado Velho Chico -, como testemunha silenciosa e matriz emotiva onde se desaguassem dores, chorassem tristezas, e também se renovassem sonhos de melhoria para um país no qual a ética se sobreponha à politicagem, onde a terra seja produtiva para seus ribeirinhos, e onde o bem o bom e o belo terminem vencedores. Valorizar a importância do grande rio nordestino e servir como libelo para sua preservação sempre foi um subtexto notório.

Velho Chico foi alvo de vários comentários nossos, seja aqui neste blog, seja em nossas postagens diárias via Instagram, Face, Twitter e Flickr. Desde o início, a obra nos pegou com sua extrema beleza, referências artísticas prodigiosas, um texto de extrema eloquência, belos diálogos, atuações primorosas, uma fotografia deslumbrante, a estética belíssima e inconfundível do artista plástico Raimundo Rodriguez, e a condução admirável de Luiz Fernando Carvalho, um mago da Teledramaturgia de Escol.

Agora mesmo, quando a novela aproxima-se de seu final, já aparecem as vinhetas publicitárias da próxima novela. Faz-nos lembrar as chamadas antecedentes de Velho Chico (VC) bem como as de Meu Pedacinho de Chão. Não é preciso muito esforço para perceber quando a telenovela que vai ao ar leva a assinatura de Luiz Fernando Carvalho: é como se todas as outras fossem novelas. As obras assinadas por LFC estão noutra categoria: são Obra de Arte, é um outro nível. Sem desmerecer nenhum dos demais. Afinal, falo porque sou uma noveleira contumaz, e não tenho pudor algum em dizer isso. Ao contrário: orgulha-me ser de um país que faz a melhor Teledramaturgia do mundo, e onde o público tem acesso gratuito ao trabalho de um time espetacular de notáveis artistas, que se superam a cada nova obra. Basta citar alguns exemplos para confirmar nossas palavras: Avenida Brasil, Amores Roubados, O Canto da Sereia, Verdades Secretas,  AmorteAmo, Felizes para Sempre ?, Ligações Perigosas, Justiça…

camila-e-d

Teresa e Santo: um Romeu & Julieta encravado no sertão nordestino…

Voltando a Velho Chico: agora que a novela está em seus capítulos finais, e que fomos tristemente surpreendidos semana passada com a trágica morte do querido ator Domingos Montagner, cabe-nos agregar mais um dado insólito que torna a novela de Benedito-Bruno Luperi-Luiz Fernando Carvalho–Raimundo Rodriguez um marco divisor da Teledramaturgia Brasileira: a par de toda a qualidade da obra portentosa que é VELHO CHICO – que mescla de Shakespeare ao Tropicalismo, de Visconti à Cultura Popular, de Gregório de Mattos a José Miguel Wisnik, e da religiosidade típica do povo nordestino à espiritualidade indígena e aos mistérios da natureza aos talentos de Tim Rescala, Tom Zé, Vital Farias, e muitos outros -, gerando ademais o riquíssimo Barrococó Neoclássico assinado conjuntamente por “Raimundo Carvalho e Luiz Fernando Rodriguez” -, um marco épico da produção teleaudiovisual brasileira, a novela ganhou matrizes de autenticidade, inimagináveis e indesejadas, claro, mas que a inserem como transgressora do modelo paradigmático até então consolidado.

É a primeira vez, em todos os anos de nossa Teledramaturgia, que existe em formato diário desde 1963, que o herói morre, não na ficção, mas na vida real. Enquanto em vários outras obras o herói entristece o telespectador ao morrer – mas este sabe que logo depois o verá nas ruas ou em outras tramas -, no caso especial de VELHO CHICO, o herói permanece vivo na ficção mas foi tragado pelas águas sinuosas do rio São Francisco. Isso é de uma dor abissal.

Essa transgressão no correr ‘normal’ da narrativa está eivada de simbolismo: a mudança paradigmática que acometeu a narrativa ficcional criou uma intersecção indesejada e jamais imaginada entre os mundos real-ficcional-lúdico, conforme tão bem explicita o professor e pesquisador francês François Jost.

Resultado de imagem para santo renasce em ritual indigena em velho chico

Quem assiste à novela, sabe: semanas antes do trágico fim de Domingos, seu personagem morria na ficção, mas consegue voltar à vida, tempos depois, trazido pela força do amor da amada Teresa e por sintonias com rituais indígenas milenares. O tempo em que Santo esteve morto foi um tempo de muita tristeza na trama e a vibração na cidade de Grotas – quer entre seus moradores, bem como no seio das famílias do coronel e de Santo -, mudou radicalmente. Ali era só tristeza, revolta, desassossego. Não é difícil engendrar uma analogia com a situação real, arrepiante, que hoje é vivida no Projac entre os pares de Domingos. A todo instante, deve perpassar na emoção de todos: antevisão, premonição, atavismo cósmico ? Porquê ? Como dizia meu sábio avô, o médico pediatra Dr. Miranda Leão, “Os desígnios de Deus são imperscrutáveis”.

E olhemos a força que ganha a letra da música, de Paulo Araújo e João Filho:

Há um rio afogando em mim
Secando, secando, secando
Tem rompante os mistérios que já vi
Esperando, esperando, esperando o fim

Foi na margem do meu peito
Que você pisou e se fez dona
Só pra magoar minha ciranda
Que desanda, que desanda, se diz andar”

Infelizmente, a dolorosa e inaceitável morte que agora choramos não é a de SANTO e sim a do ator Domingos Montagner, que com a força de seu talento e carisma emprestou veracidade à trama de VC e conquistou inúmeros fãs por sua esmerada atuação, oxalá sendo um dos maiores responsáveis pelo êxito da novela que o tempo escreverá em seu histórico livro de ouro como uma das mais belas e relevantes de toda a produção teledramatúrgica brasileira.

A tristeza que devastou e assola a numerosa equipe de Velho Chico, contaminando o país pela perda de um ator tão querido, ainda jovem e no auge da carreira, nos remete a força da argumentação de Umberto Eco quando afirma “o texto é construído por emissor e receptor”. No caso específico de Domingos SANTO Montagner dos Anjos a afirmação resplandece com uma evidência solar.

Embora embevecida ante à beleza e a capacidade de prosseguir que assoma em Velho Chico, escrevemos cravejada de imensa saudade, tristeza e solidariedade. E queremos deixar aqui um enorme e carinhoso abraço a toda esta brava equipe que assina conjuntamente obra de tal magnitude, e um estrondoso aplauso de gratidão por nos encantarem cotidianamente com tanta verdade, beleza, dedicação e generosidade.

*E agora, “tudo em volta é só tristeza…”

Resultado de imagem para domingos montagner em cenas de velho chico

Resultado de imagem para domingos montagner em cenas de velho chico

d-e-m

 

Resultado de imagem para domingos montagner em cenas de velho chico

Resultado de imagem para domingos montagner em cenas de velho chico

Camila Pitanga, Gabriel Leone e Domingos Montagner após a últimas gravações do ator em Piranhas, no sertão de Alagoas…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s