VELHO CHICO crava assinatura contra machismo, opressão e preconceito racial

Em capítulo no qual Mariene de Castro brilha, Marcelo Serrado e Marcos Palmeira destacam-se com atuações primorosas…

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Mariene de Castro protagonizou cena forte em defesa das mulheres e contra o racismo

Velho Chico, apenas uma novela rural, centrada no sertão nordestino – como julgam apressadamente os que dizem que detestam novela (nunca entendi como de detesta uma coisa que não se conhece) – é, desde seu início, uma obra substancial, com uma estética claramente definida e nuances antropofágicas claras, importantes, bonitas e bem colocadas.

A novela já foi por nós abordada diversas vezes. Tem tantas qualidades que merecia um comentário diário. Mas o tempo nem sempre nos permite dedicar-nos exclusivamente ao que gostamos. A teleficção audiovisual me encanta desde garota, o que me fez seguir noveleira vida afora, e culminou com uma estreita e longa amizade nossa com o saudoso cronista Artur da Távola, o mais respeitado crítico de televisão, praticamente o pioneiro do ofício.

Dito isso, vamos ao capítulo de Velho Chico desse sábado, 24 de setembro: foi um capítulo crucial da grandiosa obra de Benedito Ruy Barbosa, Bruno Luperi e Luiz Fernando Carvalho. Nele foram exibidas as últimas cenas gravadas pelo ator Domingos Montagner, tragicamente vitimado logo após essas gravações em mergulho que terminou de forma infeliz no lendário rio São Francisco.

A exibição dessas cenas, por si só, já tornaram as principais sequências do capítulo arrepiantes. Ver um ator da dimensão cênica de um Montagner, cujas falas lhe saíam com tamanha espontaneidade, que pareciam sair-lhe do próprio coração, e não de roteiro que o ator decorava e aplicava seus conhecimentos técnicos para dar as falas à veracidade necessária a tornar o personagem crível. Por isso, quando um ator tem a magnitude de um Fagundes ou de um Montagner, o público mergulha de supetão na ficção e chega a “confundir” ator X personagem.

Teve destaque também a degradação existencial pela qual passa o coronel Saruê, que vive um dilema emocional com a perda da mãe, o abandono da filha e do neto, e a incerteza de seu único filho (com quem viveu às turras a vida inteira) ainda está vivo ou não. A situação do coronel, apesar de todas as ruindades que protagonizou, é digna de pena. E o diálogo do Coronel com seu capanga Cícero foi um primor ! Sobretudo pela meticulosa interpretação de Marcos Palmeira ! Que Ator Grandioso é este rapaz, filho do nosso conterrâneo, cineasta Zelito Vianna, e irmão da querida cineasta Betse de Castro.

palmeira

Marcos Palmeira é desses atores que trabalham “na dele”, sem nunca dar demonstrações de que pretender ser um Ator de grande Destaque… vai fazendo o trabalho dele, do jeitinho dele, meio que na “surdina”, mas como é grandioso em sua interpretação este garoto ! Com que riqueza de detalhes ele compôs este Cícero, sertanejo brabo, valentão, machista, iletrado, enciumado, defensor do patrão e bruto, que guardou por muitos anos uma paixão avassaladora pela filha do coronel, a bela Teresa.

Na conversa de hoje com o Coronel Saruê, Cicero foi de uma sinceridade desconcertante ao falar sobre a vida e tentar responder as questões existenciais que o coronel colocava. E com que riqueza de detalhes Palmeira fez a cena ! Que preciosismo de expressão, entre o ingênuo e o tosco, entre a pureza e a ignorância, entre o inculto e o selvagem… Que coisa linda ver um Ator trabalhar com tanto preciosismo, independente do tamanho do personagem que tenha nas mãos. Não custa lembrar que, recentemente, Marcos Palmeira fez o delegado da novela O Rebu e o prefeito corrupto de Babilônia, para citar apenas alguns, todos personagens completamente distintos, e aos quais o ator emprestou a mesma força de seu talento e a mesma pulsação de sua empatia. Um sonoro DEZ para Marcos Palmeira e seu ‘Cícero’ !

Mas, tirante o que citamos acima, o ponto alto do capítulo desse sábado de Velho Chico, foi o confronto de Dalva e do ex-deputado Carlos Eduardo, o “mofino” novo coronel Saruê, vivido com maestria pelo ator Marcelo Serrado. Dalva, papel que cabe à atriz e cantora Mariene de Castro (linda em toda a potência de sua vocação e grandiloquência de seu potencial artístico), resolvera deixar o trabalho na fazendo dos De Sá Ribeiro, cansada de ser tratada com grosserias e de ter de aguentar gritos e maus tratos do ‘novo coronel’, o terrível Carlos Eduardo. Ela então segue a vontade de libertar-se daquele julgo infame, lembra dos conselhos de Martim, e vai para o centro da cidade. Ali, entre um pensamento e outro, começa a cantar, e sua voz encanta Chico Criatura (Gésio Amadeo), e logo uma turma grande começou a chegar junto para ouvir Dalva cantar. E ela cantou e dançou bonito a noite toda, aplaudida e festejada por quem passava pelo bar de Chico Criatura.

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Marcelo Serrado: primor como o famigerado e corrupto deputado Carlos Eduardo…

Dia seguinte, ele vai à fazenda conversar com Doninha (Suely Bispo), a amiga de longa data com quem dividia o trabalho na fazenda. E no meio da conversa, contente a dar gosto, surge Carlos Eduardo e começa a desfazer de sua vibração (vale um registro para a sonora e sarcástica risada do nojento e famigerado ex-deputado, um primor na criação de Marcelo Serrado !).

E é nessa cena que a tensão se eleva e Dalva escancara um sonoro repúdio ao preconceito racial, ao machismo, à opressão e à vilania do tal Carlos Eduardo. A palra foi forte e construída com esmero por Bruno Luperi (o neto de Benedito Ruy Barbosa que escreve a novela com o autor). Vale um estrondoso aplauso ao juntarmos a eloquência do diálogo e a fortaleza da interpretação de Mariene de Castro !

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“A gente tem que olhar pra gente é com orgulho, orgulho de quem nós somos, orgulho de onde a gente veio, do fundo de nossa alma… orgulho de ser mulher, de ser negra, de ter sangue de reis e rainhas correndo em mim”

Ao que Carlos Eduardo responde chamando Dalva de “negra, imunda” e depois ainda ameaça matá-la,  caso ainda a encontre na fazenda.

Quem perdeu a cena, ou quer revê-la, aqui está o link: http://gshow.globo.com/novelas/velho-chico/videos/t/cenas/v/carlos-ameaca-dalva/5330507/

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O pernambucano Batoré, que faz o abominável Secretário de Segurança de Velho Chico…

  • No capítulo de ontem também, é mister ressaltar a ótima participação de Batoré (que faz o nefasto Secretário de Segurança Queiroz, pau-mandado de Carlos Eduardo): ator, nordestino, sempre visto apenas fazendo humor, Batoré vem mostrando como é bom no ofício, interpretando com extrema habilidade um personagem deplorável e que causa repulsa na audiência.
  • Destaque-se também a lindeza colossal do interior da fazenda dos Saruê, composição requintada e preciosa em riqueza de minúcias, fruto da sumidade inconteste do artista plástico Raimundo Rodriguez, notável em sua criação de ambiências cênicas multifárias e pertinentes em gênero, número e grau ao que propõe a diegese da obra.

Findamos deixando um enorme APLAUSO para todos os que fazem de VELHO CHICO esta obra-prima da Teledramaturgia Mundial, que nos enche a alma de emoção e já deixa a saudade a invadir nossas retinas.

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Os cenários de Raimundo Rodriguez com detalhes preciosos que colaboram de forma substancial para a estética referecial de Velho Chico

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Antônio Fagundes, Camila Pitanga e Gabriel Leone em cena na fazenda Saruê…

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