Arquivo do mês: abril 2017

Eu sou apenas uma moça latino-americana…

 Música perde Belchior: Brasil fica mais pobre                          

                                                                        *Aurora Miranda Leão

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A hora avisava o tempo. Despertar, estudar. Bom Dia ! Foi o que disse no Instagram…

“Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria/ Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais…”

E uma foto do pequeno cidadão comum, apenas um rapaz latino-americano, conterrâneo gigante do Pessoal do Ceará, convidava à legenda:

“Ouvi dizer num papo
Da rapaziada
Que aquele amigo
Que embarcou comigo
Cheio de esperança e fé
Já se mandou...”

BELCHIOR estava indo e uma tristeza imensa foi tomando conta de mim…
Mas música é desmesura incendida e me sussurou, belchianamente:

“E vou viver as coisas novas
Que também são boas
O amor, humor das praças
Cheias de pessoas
Agora eu quero tudo
Tudo outra vez…”

Eis que o coração guardou uma frase pra mim dentro da canção:

“Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos, lhe direi:
Amigo, eu me desesperava
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português…”

Outrossim, deixando a profundidade de lado, relembro como um analista amigo meu:

“Cada um guarda mais o seu segredo,
A sua mão fechada, a sua boca aberta
O seu peito deserta, sua mão parada,
Lacrada e selada,
E molhada de medo.”

BELCHIOR veio chegando de mansinho: educação e gentileza sempre a postos, um sorriso ingênuo e franco do rapaz que permaneceu novo encantado.  Tarde ensolarada, era dia de entrevista nos estúdios da Universitária FM, doce vivência de nossa estrada profissional. Acabamos por bater um longo papo, nutrido pela inteligência afiada, a sensibilidade inconteste e o bom humor dele, todo especial.

Com o camarada Fagner (outro cearense do coração), Belchior ensinou que saudade não é pra dar medo. Afinal,

“Moro num lugar comum, perto daqui, chamado Brasil.
Feito de três raças tristes, folhas verdes de tabaco e o guaraná guarani”.

Brazil, raças, guaraná, guarani... Belchior e suas letras cheias de bela e sábia poesia. As sintonias aportam conexões num salto de mágica. Assim como um antigo compositor baiano nos dizia… Gilberto Freyre, Darcy Rineiro, Sérgio Buarque, Raymondo Faoro, estudos para entender esta Nação, precisamos retomar a leitura. Que também me traz à lembrança o cronista Artur da Távola… qual as dele, também temos nossas Dissonâncias Cognitivas a avisar das mensagens na caixa precisando respostas, dos amigos que é preciso abraçar, das risadas tantas que não podem faltar… e sobrevêm o mestre Raimundo Rodriguez e sua criatividade tão linda, ‘louca’ e tão oxigênio para a força popular e o Brasil que precisamos destacar ! E junto dele o guerreiro Jorge, notória inspiração, aviva nossos Latifúndios com seu mosaico elegantemente colorido, que sintetizou nosso Pedacinho de Chão e encharcou nosso sonhário, poeticamente frutificado na sincronia inspiradora do mago Luiz Fernando Carvalho, esse gigante da nossa dramaturgia audiovisual. Sim, tudo porque ele era um cara tão sentimental:

“Era um homem de bons modos: ‘Com licença; – Foi engano’
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que caminha para a morte pensando em vencer na vida
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que tem no fim da tarde a sensação
Da missão cumprida”

Também sentimos assim… e o remédio é cantar – como indicou outro grande menestrel, o seu Humberto Teixeira do Iguatu… e cantamos:

“Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol
Porque bate lá o meu coração”.

E pedimos licença, mas neste domingo dispensamos carona da metodologia porque hoje quem dá o tom é a voz do poeta e a canção nos embala:

“Eu estou muito cansado/ De não poder falar palavra/ Sobre essas coisas sem jeito
Que eu trago em meu peito…” 

Sim, “Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja”.

Mas o relógio indômito avisa: é hora do almoço e

“Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo”

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E na parede da memória, saudades escondidas:

“Eu era alegre como um rio,
um bicho, um bando de pardais;
Como um galo, quando havia…
quando havia galos, noites e quintais.”

Embora haja tantas outras, embaladas agora em material de fina estampa… É, os dias eram assim… E a emoção canta agora o perdão assinado pela dupla titânica, Ivan Lins e Vítor Martins:

“Perdoem a cara amarrada/ Perdoem a falta de abraço/ Perdoem a falta de espaço/ Perdoem a falta de folhas/ Perdoem a falta de ar/ Os dias eram assim…”

Emblema imortalizado na voz de ELIS, que descobriu Ivan e anunciou ao mundo a grandeza de Belchior, este pequeno cidadão comum que o poeta Drummond inspirou… ele também, o cearense que pedia “guarde uma frase pra mim dentro da sua canção”, está há muito a merecer obra grandiosa de nossa teleficção audiovisual para embalar sua canção: a teledramaturgia só tem a ganhar !

Como nossos pais é música que já nasceu filme, moldura bela e profunda, e o Brasil, encantado, fará eco:

“Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa…”

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Será que eles venceram ? Não, estaremos sempre na luta !

“Também estou vivo, eu sei,
mas porque posso sangrar
e mesmo vendo que é escuro,
dizer que o sol vai brilhar…”

Sim, precisamos todos rejuvenescer !

STOP: “Eu não estou interessado/ Em nenhuma teoria/ Em nenhuma fantasia/ Nem no algo mais…”

Nossa dor é perceber que ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais: nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não…

Resta, a FELICIDADE, essa arma quente, e constato que sou apenas uma moça latino-americana, sem parentes importantes e sem dinheiro no banco…

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Vai com Deus, BELCHIOR !

Obrigada por tudo… Emoção, lágrimas e meu aplauso caloroso pra você e sua obra divinal…

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Enquanto as letras calam, a vitrola sintoniza a voz rascante do rapaz de Primeira Grandeza, que insiste em dizer “eu quero é que este canto torto corte a carne de vocês”:

E eu fui embora sorrindo, sem ligar pra nada; como vou ligar
Para essas coisas quando eu tenho a alma apaixonada ?

Do outro lado, ele e o parceiro Ednardo, deixaram AURORA sobre a mesa:

Sonhos de aurora eu sonhava
No colo de minha irmã
Clareia manhã, clareia
Abre as janelas, manhã
Clareia manhã, clareia
Abre as janelas manhã
E deixa essa casa cheia
Do teu cheiro de romã

E o coração dialoga:

_ Sou o que escondo sendo uma mulher
Igual a tua namorada
Mas o que vês,
Quando mostro estrela de grandeza inesperada…

_ A força masculina atrai não é só ilusão/ A mais que a história fez e faz o homem se destina/ A ser maior que Deus por ser filho de adão/Anjo, herói, prometeu, poeta e dançarino/A glória feminina existe e não se fez em vão…

Sigamos BELCHIOR como ele nos ensinou:

É louco que pensou na vida sem PAIXÃO !

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BELCHIOR: saudade e muita emoção na partida do mestre…

Antônio Calloni e Sophie Charlotte destacam-se em lados opostos

Os Dias eram Assim     

  *Aurora Miranda Leão

Os Dias eram assim teve ontem (sexta 28 abril) um capítulo antológico.

No post anterior, quando nosso enfoque foi inspirado pela ‘queixa’ de alguns que afirmam ser a supersérie uma simples história de amor, prometemos voltar para falar do elenco. Sim, o elenco traz nomes relevantes da nossa Dramaturgia e merece ser destacado.

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Vamos aos nomes: Sophie Charlotte, Daniel de Oliveira, Renato Goes, Antônio Calloni, Natália do Valle, Marco Ricca, Gabriel Leone, Cássia Kiss, Letícia Braga, Susana Vieira, Mariana Lima, Bukassa Kabengele, Bárbara Reis, Letícia Spiller, Marcos Palmeira, Carla Salle, Maurício Destri, e teve ainda uma especialíssima participação de Caio Blat no capitulo de estreia.

Queremos ressaltar também os nomes dos profissionais que assinam a direção de OS DIAS ERAM ASSIM – ontem indicamos somente os nomes de Walter Carvalho e Carlos Araújo porque não conseguimos descobrir os demais via web. Foi preciso aguardar a exibição do capítulo dessa sexta para anotar todos eles. Vamos lá: Carlos Araújo é o diretor artístico, enquanto Walter Carvalho, Isabella Teixeira e Cadu França assinam a direção de cenas ou capítulos. O destaque é para ressaltar que há outros profissionais igualmente empenhados no desenho visual da teleficção, que é, sem favor algum, um marco referencial do horário. Uma obra super bem realizada com um elenco coeso e grandes atuações, uma trilha sonora condizente, e um pungente convite a uma reflexão, que perpassa temas como o machismo, a violência simbólica, o massacre das liberdades individuais, o menosprezo pela mulher, a arrogância da elite dominante, o conflito de gerações, a censura e o cerceamento da liberdade, a repressão, a opressão, enfim, temas muito caros e bem entranhados no cerne da sociedade brasileira.

Para essas primeiras considerações de elenco, destacamos as atuações mais marcantes: Sophie Charlotte, Natália do Valle, Daniel de Oliveira e Antônio Calloni, disparado o grande destaque do elenco !

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Sophie Charlotte e a liberação feminina que se começava a desenhar…

SOPHIE CHARLOTTE – a alemãzinha que aportou no Brasil e foi adotada por uma imensa legião de fãs que aprecia sua beleza, simpatia e talento. Tudo isso soma para que Sophie protagoniza a supersérie com enorme domínio de sua condição de mulher bela, cheia de talento e cantora com belo futuro a seguir (Sophie é voz que se destaca desde O Rebu, e depois ganhou o apreço de Roberto Carlos, com quem dividiu o palco num Especial de Natal do Rei).

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Sophie encarna a autêntica e destemida Alice, e o faz com espontaneidade, leveza, carisma e indiscutível competência. Sua escalação foi muito feliz e este é mais um personagem que vai marcar a carreira da atriz. Vendo Sophie em cena, não há como não lembrar de Cláudia Abreu e sua Heloísa, a impávida lourinha dos  Anos Rebeldes, a inesquecível minissérie do querido Gilberto Braga.  A Alice de Sophia Charlotte entra para a galeria de heroínas da teleficção brasileira com méritos semelhantes aos que em 1989 alçaram Cláudia Abreu a essa qualificada galeria. PARABÉNS  a quem escalou a moça e aplausos para Sophie Charlotte, que encara com garra e coragem um papel difícil e de muitas nuances.

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NATÁLIA DO VALLE é Kiki, a mulher oprimida e ultrajada pelo marido, o empresário fascista Arnaldo Sampaio. Kiki é mãe de Alice e da pequena Nanda (Letícia Braga), mas tem o jeito e a expressão sempre sofrida de quem vive uma vida marcada pela grosseria, o menosprezo, o descaso, a não realização pessoal nem profissional. Kiki é uma típica mulher dos anos 60: “bem casada”, dona de casa e salvaguarda do lar, em quem a vontade própria inexiste: vive para as filhas, a casa e o marido, que lhe agride constantemente e avilta sua condição de esposa. É um ótimo viés para se observar questões de gênero pertinentes à situação da mulher no contexto do país.

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O empresário tirano e a mulher reprimida: Calloni e Natália do Valle em bela contracena

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DANIEL DE OLIVEIRA é Vítor Dumonte, o mocinho mimado e repressor. Ex-namorado de Alice, ele quer se casar com a moça para herdar a fortuna do milionário Arnaldo, e é capaz de qualquer coisa para atingir seu objetivo. É um sujeito abjeto, típico dos anos em que a masculinidade foi posta em cheque a partir da conquista da liberdade sexual feminina, possível graças à invenção da pílula, que chegou trazendo avanços e provocando a fúria dos conservadores, doutrinários e repressores. 

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ANTÔNIO CALLONI é o nefasto milionário Arnaldo Sampaio. Dono de uma das mais importantes construtoras do país, ele tem escusos negócios com o poder constituído, e é daqueles tipos bem conhecidos de prepotentes do “Sabe com quem você está falando ?”. Defensor contumaz da repressão e declaradamente a favor da ditadura, é um exemplo clássico e abominável do déspota que se acha o dono da bola.

O personagem é figura central no enredo de OS DIAS ERAM ASSIM e o ator engrandece o personagem com uma construção ricamente detalhada, fruto de sua meritória competência para simbolizar, através de Arnaldo, todo o mal que a tirania representa. Arnaldo não é só o empresário vil, corrupto e corruptor, mas aquele clássico sátrapa que quer ganhar todas as batalhas no grito ou angariando apoios pela força do dinheiro, tiranizando os mais fracos. Sendo Antônio Calloni um Ator dos mais conhecidos por sua educação, inteligência, doçura e refinamento intelectual (Calloni é Poeta e dos bons !), é ainda mais emblemática sua escalação para o papel do monstruoso empresário.

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Arnaldo e seu pretenso futuro genro: Calloni e Daniel de Oliveira vivem com brilho personagens abomináveis…

Antônio Calloni, que parece ficar na supersérie apenas em seus 20 primeiros capítulos, atua com incontestável brilho, alcançando um nível de excelência interpretativa que ganha ainda mais destaque por estarmos falando de uma obra feita no ritmo intenso de produção que exige a teledramaturgia. Nesta não há o tempo de elaboração que existe no teatro e no cinema: televisão é pulsação intensa, com muitas cenas para decorar, interpretar e gravar em poucas horas, sendo um trabalho hercúleo construir um personagem nesse andamento galopante. Pela qualidade de sua interpretação, Antônio Calloni insere o personagem Arnaldo Sampaio à galeria dos Grandes Personagens da Teledramarturgia Brasileira. O ator fará falta à trama mas marca sua presença com impressionante força interpretativa. É um luxo ver um Ator do quilate de Calloni atuando na nossa telinha, todas as noites, e de graça.

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Elenco da supersérie Os Dias eram Assim

Quem não está assistindo à Supersérie, que passa por volta das 23h, pode acompanhar esta obra-prima pelo Globo Play, de graça e na hora de sua preferência. Vale muito a pena !

*No próximo post sobre OS DIAS ERAM ASSIM, um passeio pela trilha musical.

Os Dias Eram Assim… Perdoem a sinceridade mas o AMOR é que imortalizou Fernando Pessoa

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*Aurora Miranda Leão 

A seleção brasileira fazia o jogo final da Copa de 1970. Nas ruas, um clima de euforia. Na história que pulsava por baixo dessa euforia de quem está prestes a sagrar-se campeão mundial, corria outra sensação, a de aviltamento da dignidade humana, alicerce do período sombrio da ditadura brasileira.

Há uma dor funda e recente que cerca esse momento da vida brasileira. Aquele tempo ainda não foi bem assimilado na memória nacional. É difícil falar sobre aqueles dolorosos anos e, talvez por isso, ainda há quem duvide que eles existiram de fato.

O período sombrio que extirpou a liberdade do cotidiano nacional cheira a repressão, ditadura, violência, aviltamento dos direitos fundamentais, cerceamento da liberdade, e é sobre isso que fala a supersérie Os dias eram assim.

Estreada no último dia 17 de abril, a obra tem co-autoria de Ângela Chaves e Alessandra Poggi, e direção capitaneada pelo mestre Walter Carvalho (o festejado paraibano diretor de fotografia de tantos trabalhos memoráveis), com direção geral de Carlos Araújo.

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Marco Ricca é um delegado e Cássia Kiss a mãe cujos filhos são perseguidos…

É nesse contexto da ditadura, tematizado em Os dias eram assim, que Alice (Sophie Charlotte) e Renato (Renato Góes) se conhecem e iniciam uma história de amor que vai atravessar quase duas décadas, cruzando com eventos históricos importantes. Da repressão às Diretas Já, o amor vai passar por vários percalços, e talvez sobreviva: medo, intrigas, separação, dor, tristeza, esperança.

Renato é médico e primogênito de uma família de classe média, moradora de Copacabana. Tem dois irmãos, os estudantes Gustavo (Gabriel Leone) e Maria (Carla Salle).  O pai era professor universitário e a mãe é dona de uma livraria, Vera (Cássia Kis). Cada um a seu modo, estão todos engajados na luta pela liberdade: enquanto Gustavo sai às ruas, Maria usa a arte como forma de expressão.

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Sophie Charlotte esbanja meiguice, talento e sensualidade em Os dias eram assim…

No universo da jovem Alice (Sophie Charlotte), a batalha é contra o pensamento conservador da família. Questionadora, a estudante sempre bateu de frente com os pais. Dono de uma construtora, Arnaldo (Antônio Calloni) é um empresário rico e de padrões fascistas: não se conforma com o fato de a mulher, Kiki (Natália do Valle), nunca ter conseguido reprimir a inquietude da filha. Para ele, a mulher é a culpada por tudo de ruim que acontece no lar e na família. O empresário é um típico vilão, homem deplorável que causa nojo e revolta, feito com invejável maestria por um Ator do quilate de Antônio Calloni.

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Antônio Calloni em interpretação memorável, e Natália do Valle em sua melhor atuação

Alice apaixona-se por Renato e, a partir daí, começa a ter rasgos de insuspeitada coragem: o primeiro passo é ir contra o desejo dos país e contrariar o principal projeto deles para a vida dela: a jovem rompe o namoro de anos com o machista Vitor (Daniel de Oliveira), que não se conforma com o rompimento. Tudo o que Vitor deseja é tornar-se dono da fortuna do pai de Alice. O casamento seria a concretização de seu ideal.

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Daniel de Oliveira, Antônio Calloni e Marco Ricca em grandes atuações…

O abjeto Vitor é braço-direito de Arnaldo na construtora, e filho  arrogante e oportunista Cora (Susana Vieira). Os mundos de Renato e Alice se cruzam por amor e serão separados pela divisão ideológica entre as duas famílias, potencializada pelo ambiente político reinante no país. Ambientada entre as décadas de 70 e 80, período que vai da repressão às Diretas Já, a supersérie Os Dias Eram Assim é exibida por volta das onze da noite e vem tendo boa audiência.

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Gabriel Leonne empresta força e competência ao personagem Gustavo…

Aqui, como em todo o formato da teleficção audiovisual, o drama amoroso é o grande motim: “A História é o pano de fundo dessa trama de amor. Tratamos de encontros e desencontros desse casal que é separado de forma abrupta e, depois, vai se reencontrar quando os dois já não são mais os mesmos”, diz Ângela. Já Alessandra afirma: “Alice e Renato vivem uma história de amor muito forte no primeiro momento, mas, quando são separados, cada um resolve seguir sua vida. A maior parte da história ocorre após o reencontro, no período de pré-abertura política, em 1984”.

Para nós, soa engraçado, para não dizer apressado e preconceituoso, os comentários acerca da supersérie que pretendem analisar uma obra que não é a que está na TV. A supersérie fala sobre uma história de amor interrompido, como assim acontece em qualquer obra teledramatúrgica. Basta ler um pouquinho sobre o tema para saber que a telenovela tornou-se nosso maior produto cultural de exportação e ocupa um lugar de destaque na programação televisiva diária, sendo que existe desde  1951 e, a partir de 1963 tornou-se atração diária. De lá pra cá, o gênero se consolidou e tem clara filiação melodramática. Portanto, querer ver uma telenovela e acreditar que seu principal enfoque não será uma história de amor é desconhecimento, ingenuidade ou má vontade.

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Mariana Lima, Bárbara Reis e Bukassa Kabengele: família que também será vitimada…

A nós, o que nos parece mais instigante é justamente o fato de repetir-se uma fórmula, absolutamente popular e consagrada, e, mesmo assim, continuar agradando e atraindo imensa audiência. Fazendo uma analogia com o cardápio gastronômico, a telenovela é assim uma espécie de bolo do cardápio: há uma enorme variedade, com predileções variadas, mas a base da receita é sempre a mesma, atrai inúmeros seguidores, pode ser feita com diferentes ingredientes, mas o que sobressai é um paladar de alta fidelidade: não há quem não goste de bolo, embora as preferências de gosto variem constantemente.

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Renato Goes e Sophie Charlotte: o casal protagonista…

Pois é, e ainda argumenta-se que a história de Os dias eram assim tem clichês típicos de novela. Ora, pois, se uma minissérie é assim um ‘primo rico’ da telenovela, como não ter clichês típicos de seu gênero ? Como fugir ao padrão que tornou o gênero o carro-chefe da programação televisiva brasileira ? E por que haveria de se mexer num ‘time que está ganhando’? Não estamos assistindo a um filme ou acompanhando uma encenação teatral: Os dias eram assim é uma supersérie, ou seja: tem o mesmo esquema básico clássico de uma telenovela, apenas o formato é menor que o desta, embora maior que o de uma minissérie. Seguindo com nossa analogia, o bolo pode ter outro formato e recheio, mas será sempre um bolo, e não um risoto, um suflê ou uma empanada.

A fórmula de telenovelas, minisséries, microsséries, casos especiais, superséries – teleficção audiovisual – é a mesma há dezenas de anos, e o que encanta é ela permanecer sempre igual em sua diferença de cada novo título. Sempre com a mesma força e capacidade de atrair. E talvez aqui resida um dos trunfos de seu aprimoramento e apuro técnico: como há um sequenciamento ad infinitum do mesmo formato, as equipes realizadoras das telenovelas se esmeram, cada vez mais, ao longo de toda a história da Teledramaturgia Brasileira, em fazer com mais rigor  e preciosismo, primando pela capacitação de seus profissionais e a excelência do produto final. Isso é o que podemos constatar diariamente, em qualquer dos horários em que são exibidas as telenovelas (acompanhamos quase todas porque somos admiradoras do gênero desde crianças). No momento atual, estão no ar duas obras-primas: Novo Mundo, recém-estreada, e Rock Story, que se aproxima do desfecho. Além disso, o que afirmamos pode ser referendado observando-se a enorme penetração da produção brasileira no exterior (mais de 130 países compram nossas telenovelas). E quanto mais esse mercado foi crescendo ao longo dos anos, mais o gênero se consolidou e as equipes técnicas, imensas e valorosas, foram sendo lapidadas – direção, fotografia, luz, cenário, maquiagem, direção de arte, trilha sonora e musical, caracterização –, chegando ao patamar que hoje vemos diariamente na telinha e que nos impactam, cada dia mais, pela excelência técnica e artística que exibem.

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Afinal, se a história de amor incomoda por ser o fundamento dos enredos, vale lembrar uma condição básica: o tempo consagra como clichê o que é  considerado bom para a grande maioria. Como bem disse o cineasta Woody Allen: “Algumas vezes, um clichê é a melhor forma de se explicar um ponto de vista”. E o clichê foi popularizado por ser reconhecidamente atraente e imbuído de qualidades intrínsecas: quem descobriu, aderiu, quis imitar, propagou, virou moda e contagiou. E o poeta Fernando Pessoa sabia tanto e tão bem disso que imortalizou o melhor e mais sábio de todos os clichês: o AMOR.

E, parafraseando o notável poeta português, dizemos:

“Todas as histórias de amor são

Ridículas.

Não seriam histórias de amor se não fossem

Ridículas.

As histórias de amor, se há amor,

Tem de ser ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Histórias de AMOR

É que são Rídiculas.” 

*Em post posterior, falaremos sobre o elenco e a narrativa.

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Alice e Renato: amor à primeira vista enfrenta barreiras difíceis…

Marina Ruy Barbosa e Daniel Rocha vão estrear no cinema

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Sequestro Relâmpago é o nome do novo longa-metragem da premiada cineasta Tata Amaral. Inspirado em fatos reais, o filme conta a história de uma jovem sequestrada na noite de São Paulo. Seus sequestradores, também jovens, poderiam ser seus colegas de escola. Mas vivem em lugares distintos, separados pelo rio Pinheiros e pelas diferenças sociais, econômicas e culturais. O filme marca a estreia de Marina Ruy Barbosa e Daniel Rocha no cinema.

Na trama, Isabel (Marina Ruy Barbosa), ao sair de um bar num boêmio bairro paulista, é surpreendida por dois jovens, Matheus (Sidney Santiago) e Japonês (Daniel Rocha), que a forçam a entrar em seu carro. Matheus e Japonês não são amigos, estão juntos apenas para fazer uma série de sequestros naquela noite e Isabel é a primeira vítima. Só que o plano dá errado porque os dois não conseguem acessar o caixa eletrônico e decidem manter Isabel como refém até a manhã seguinte. Os três passam a noite dirigindo de um lado para o outro, a maior parte do tempo em avenidas e bairros às margens da cidade. Matheus e Japonês não sabem o que fazer com Isabel. Refém em seu próprio carro, a jovem precisa negociar sua vida. Ainda completam o elenco, Projota, MC Linn da Quebrada, Danilo de Moura, João Signorelli, Malu Bierrenbach, Tess Amorim, Jô Freitas, Marina Matheus, Paula Pretta, André Whoong, Che Moais, entre outros.

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Em Sequestro Relâmpago, Sidney Santiago, Daniel Rocha e Marina Ruy Barbosa, que retomam parceria da novela Império…

Com roteiro de Marton Olympio, Henrique Figueiredo e Tata Amaral, direção de arte de Vera Hamburger, direção de fotografia de Carlos Zalasik, produção executiva de Rafaella Costa e música de André Woong e convidados, “Sequestro Relâmpago”, é uma oportunidade de rodar por São Paulo.

O filme é uma produção da Tangerina Entretenimento e Manjericão Filmes em co-produção com a Globo Filmes.

Sobre Marina Ruy Barbosa

Conhecida atualmente pelo público de telenovelas, Marina começou a carreira ainda criança, quando realizou alguns trabalhos de comerciais e propaganda. Aos nove anos, foi chamada para fazer sua primeira novela e desde então, a atriz vem se destacando como um dos grandes talentos de sua geração. Participou de diversas telenovelas como Começar de Novo (2004), Belíssima (2005), Sete Pecados (2007), Escrito nas Estrelas (2010), Morde & Assopra (2011), Amor Eterno Amor (2012),Amor à Vida (2013), Império (2014) e Totalmente Demais. Fez ainda as minisséries Justiça e Amorteamo, ambas da Rede Globo. No teatro, Marina estreou em 2005 na peça infantil Chapeuzinho Vermelho(musical) e em 2008, estreou no teatro adulto com a peça 7 – O Musical, de Charles Möeller e Cláudio Botelho, ao lado da atriz Ida Gomes. Em 2009, a atriz estreou como apresentadora do programa TV Globinho.Premiada atriz, Marina tornou-se uma referência em moda para as mulheres. Com seguidores pelo mundo inteiro nas redes sociais.

Sobre Daniel Rocha

Iniciou sua carreira artística no teatro aos 16 anos como aluno do CPT (Centro de Pesquisa Teatral) do consagrado diretor paulista Antunes Filho. Conhecido pelo público de Telenovelas, estreou na TV, em 2010, num episódio do seriado A Vida Alheia. Mais tarde foi chamado para integrar o elenco da novela Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro e direção de Amora Mautner, ganhando destaque com o personagem Roni. Em 2013, Daniel atuou na peça Amigos, Amigos, Amores à Parte e foi chamado para interpretar o médico Rogério na novela de Walcyr Carrasco Amor à Vida, ao lado de Marina Ruy Barbosa. Logo em seguida entrou na peça A História dos Amantes. Em 2013/14 interpretou o rebelde João Lucas, em Império, novela de Aguinaldo Silva e direção de Rogério Gomes, atuando ao lado de Alexandre Nero, Lília Cabral. Em 2014 fez a novela Totalmente Demais, direção de Luiz Henrique Rios, como o fotógrafo Rafael ao lado de Viviane Pasmanter. Em 2016/17 entrou para A Lei do Amor, de Maria Adelaide Amaral, como Gustavo ao lado de Cláudia Raia. “Sequestro Relâmpago” marcará sua estreia nos cinemas.

Sobre Tata Amaral

A paulistana Tata Amaral, 56 anos, é uma das mais talentosas e premiadas realizadoras da cinematografia recente. Com seus longas metragens, conquistou quase 70 prêmios em festivais nacionais e internacionais. A cineasta também se destaca pela experimentação e pela originalidade de seus trabalhos. Seu longa de estreia, “Um Céu de Estrelas” (1997), foi considerado pela crítica como um marco do cinema brasileiro, sendo eleito um dos três filmes nacionais mais importantes da década de 90, além de ter recebido dezenas de prêmios em importantes festivais internacionais nos Estados Unidos, Itália, Cuba e França (inclusive de melhor filme nos festivais de Boston e Trieste). “Antônia”, seu terceiro filme, inspirou a série de televisão homônima exibida na Rede Globo em 2006 com recorde de audiência para o horário e que foi indicada ao EMMY/2007, o Oscar da televisão. 

Em 2013 lançou o longa “Hoje”, que recebeu os Prêmios de Melhor Filme pelo júri e pela crítica no 44o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, além de prêmio de melhor roteiro, atriz, fotografia e direção de arte. O filme também foi premiado, em 2013, por Melhor Roteiro e Melhor Direção de Fotografia no Festival de Cine Unasur, em Ciudad de San Juan, Argentina, Melhor Atriz pelo Júri Oficial e Popular pelo Festival SESC de Melhores Filmes e Prêmio APCA de Melhor Atriz. Na sua filmografia ainda estão “Trago Comigo” (2016), “Através da Janela (2000)”, entre outros.

Raimundo Rodriguez: um guerreiro no cavalo de São Jorge !

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Raimundo Rodriguez finalizando o Cavalo de São Jorge, que estará em mostra especial na Gamboa, centro da capital carioca…

Raimundo Rodriguez, o notável artista plástico que transforma descartável e lixo em obra de arte – e que tem inteligência e sensibilidade para emprestar seu talento criador para dar conteúdo e beleza ao gênero telenovela – é incansável e ‘imparável’ ! Somos fã dele de carteirinha !

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E olha onde é que Raimundo vai estar amanhã: o dia é de Jorge Guerreiro, e é claro que o fecundo artista só podia estar homenageando seu santo protetor, como cabe a quem de fato se inscreve como devoto.

Neste domingo, 23 de abril,  Raimundo Rodriguez será o anfitrião de Salve São Jorge 23, uma mega exposição inaugural para saudar o Porto das Artes, novo polo de Cultura na Gamboa, zona portuária do Rio – prédio da fábrica de espetáculos do Theatro Municipal, na avenida Rodrigues Alves, 303.

Raimundo Rodriguez, conhecido também como o artista das intervenções urbanas, encabeça o convite para o vernissage da mega expô, na qual ele estará à frente de um coletivo de 200 artistas, inaugurando o espaço cultural PORTO DAS ARTES/ Fábrica de Espetáculos, na capital carioca, pertinho do Museu do Amanhã.

O convite para a abertura da mostra é atraente por si só: ninguém melhor que Raimundo Rodriguez para comandar a overture artística no novo cenário carioca.  Esta será a nona vez consecutiva que Raimundo presta homenagem oficial a São Jorge.

Para a expô deste domingo, Raimundo recriou uma de suas obras mais conhecidas: o Cavalo de São Jorge. Totalmente articulado e com mais de 30 movimentos, o cavalo participará de ‘cena’ com o ator Augusto Vargas, que encarnará o santo guerreiro numa performance que promete causar buchicho !

A exposição comandada por Raimundo Rodriguez vai reunir mais de 150 obras entre pinturas, esculturas, instalações, performances, gravuras, grafites e videoinstalações. São artistas dos mais diversos estilos criando arte com uma temática comum.

A ideia foi germinada a partir de um desejo pessoal e antigo do mestre Raimundo: o artista, criador de dezenas de cavalos articulados para a minissérie de Luiz Fernando Carvalho e Ariano Suassuna, A Pedra do Reino, construiu um para seu acervo particular. Nada mais justo. Como ele mesmo revela: “Adoro cavalos e nunca fiquei com um para mim”.  

Salve São Jorge 23 será aberta amanhã e vai ficar aberta à visitação até dia 6 de maio, com entrada gratuita. Vamos à Gamboa ! E Viva São Raimundo Jorge Guerreiro Rodriguez !

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Saiba mais sobre RAIMUNDO RODRIGUEZ

O artista plástico Raimundo Rodriguez tem fixação por arte, em especial, por obras que dão uma nova dimensão a materiais reciclados, como sobras de madeira, ferro e plástico. Cada um deles, diz, tem energia própria, carrega uma história, por ter passado pelas mãos de outras pessoas. Assim como o painel multicolorido, feito por ele com latas de tinta, que ganhou posição de destaque acima da porta de sua casa. Ou como os tijolos de demolição, centenários, usados para erguer toda a construção.

Raimundo Rodriguez (RR) é um cara inquieto: “Tanto na vida como na arte, gosto de muito”. Tem fascínio por transmutar coisas aparentemente imprestáveis, e um dom especial por criar obras de arte a partir de materiais reciclados ou de peças que a quase totalidade das pessoas vê como coisas velhas, feias, descartáveis.

RR mora numa bela casa, na qual o aproveitamento de peças e a reciclagem de material também impressiona: lá, ele coleciona muitas obras de artistas brasileiros, como Timbuca, Clarissa Campello, Deneír e Felipe Barbosa.

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Raimundo Rodriguez ladeado por Janete Scarani e Aurora Miranda Leão

Raimundo também possui raridades, como um painel original do lendário profeta carioca Gentileza que tinha ido parar no lixo. Em sua galeria particular, Rodriguez não gosta de desperdiçar nada: “A arte contemporânea é marcada pelo excesso. Eu detesto perdas. O que me interessa é transformar”, sentencia.

Filho de carpinteiro, Raimundo Rodriguez é autodidata e, além de artista plástico, é também animador cultural e um dos fundadores do coletivo de arte Imaginário Periférico: “Me orgulho de nunca ter tido carteira assinada. Não ter segurança no emprego sempre me fez viver em movimento”, decreta o devoto de São Jorge, que tem espalhados pela casa diversas imagens e amuletos do santo.

Em 2013, RR foi convidado a construir um Cavalo de São Jorge para a comissão de frente da escola de samba carioca Beija Flor.  E a nota não podia ser outra: 10 por unanimidade ! 

Cearense, Rodriguez mudou-se com seus pais para a Baixada Fluminense ainda criança e nunca mais saiu. Ali ele construiu uma adorável casa, bonita e silenciosa, onde mora com a companheira da vida toda, a produtora Janete Scarani. E diz, muito tranquilo – como aliás Raimundo sempre é – que não troca o lugar por nenhum outro do Rio: “Nova  Iguaçu é uma espécie de ‘Nordeste fluminense’. Sempre digo aos amigos: se nunca foi a Caruaru, venha a Nova Iguaçu”, brinca o artista plástico.

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Um dos altares de Velho Chico, criação de Raimundo Rodriguez…

Como exímio diretor de arte que é,  Raimundo Rodriguez tem seu belíssimo trabalho com cenografia/figurino/direção de arte entranhado em obras como as minisséries A pedra do reino, Hoje é dia de Maria, Capitu, Alexandre e outros heróis, e nas novelas Meu Pedacinho de Chão e Velho Chico (para a qual criou vários altares, mais de mil santos e cerca de 500 estandartes).

É ou não é para aplaudir de pé a criatividade invulgar de Raimundo Rodriguez ?

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Um dos belos ambientes cenográficos de Meu Pedacinho de Chão, obra de Raimundo Rodriguez…

Final de A LEI redime erros e deslizes da novela

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       *Aurora Miranda Leão

Quem gosta de acompanhar telenovelas, sente quando uma trama descamba para o inverossímil ou quando seus autores perdem o controle da ação e bailam na curva.

Os previsíveis desvios de rota, ou colisões mais ou menos sérias, tem chances de recuperação, sempre, e a melhor delas é introduzir indícios de real no material dramatúrgico. Assim, o telespectador de pronto faz suas próprias conexões e é levado, sutilmente, a se sentir partícipe da obra.

Foi assim com A LEI DO AMOR, encerrada ontem. A novela criou vários pontos de paridade com o real, mas uma cena especial do capítulo final, elevou essa equivalência a um nível emblemático. No momento em que escrevemos estas linhas, uma conversa no espaço vizinho, revela o quanto o final de A Lei mexeu com o imaginário popular…

A trama de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari chegou ao fim com muito boa audiência, como é corrente nas ficções teleaudiovisuais das 21h, que mobilizam sempre a audiência, quer pelo lado da crítica ou pelo viés da adesão.

Ter uma história central forte com um conflito relevante, que faça esse ‘esqueleto’ perdurar com vigor por cerca de 6 a 8 meses – tempo corriqueiro para as telenovelas da TV Globo -, é fundamental para cativar a audiência. A Lei começou com sinais de que teria um thriller político como fio condutor.

Nós, que vínhamos de um mergulho sensório belo e profundo nas entranhas de Velho Chico (obra da notável parceria de Benedito Ruy Barbosa, Bruno Luperi e Luiz Fernando Carvalho com auxílio luxuoso de Raimundo Rodriguez), ressaltamos: desde a estreia, pareceu-nos ver em A Lei do Amor uma tentativa imagética e musical de revalidar sentidos estéticos desenhados (com imensa maestria) pelos artífices de Velho Chico (VC). Senão vejamos: o casal principal (Helô e Pedro) também havia sido separado por artimanhas de vilões que os fizeram ficar distantes por 20 anos (em VC, o afastamento de Teresa e Santo foi de 30 anos); os encontros mais felizes de Santo e Tereza se passavam à beira do famoso rio nordestino. Em A Lei, Pedro e Helô começam seu romance com viagens no veleiro do jovem apaixonado, e as tomadas iniciais (com o veleiro visto do alto e o mergulho do casal no mar) apontavam claras marcas indiciais de intercessão com a ambiência estética de VC. Nada demais: é salutar retomar caminhos que se mostraram belos e abriram janelas para uma bela construção sensorial. E a saudade da trama semeada às margens do São Francisco, referendada por um diálogo artístico com a obra anterior à LEI, também pode ser registrada através da grande ciranda de abertura da trama: pés correndo em direção a melhores oportunidades ou a novos enredos num chão de terra batida, por onde escorre um riacho, como a trazer de volta o sertão ressignificado por VC.

Também na trilha, essa subliminar sintonia com a história anterior se fez presente, submersa ou alicerçando a camada de sentidos principal: se em VC nomes de insuspeita qualidade musical eram também fio condutor do enredo (Elomar, Xangai, Maria Bethânia, Tom Zé, Caetano Veloso, Lenine), em A Lei do Amor também houve (com mais força nos primeiros meses) uma valoração de canções e compositores de reconhecido destaque no cancioneiro nacional, como Roberto Carlos (“À distância”), Raul Seixas (“Cowboy fora da lei”), Gonzaguinha (Grito de alerta); Dalto (Pessoa, sucesso dos anos 80 na voz de Marina Lima). E ainda na interpretação da notável Bethânia para a  belíssima canção Era pra Ser, de Adriana Calcanhotto, tema do casal Thiago e Isabela, que voltou com primorosa eloquência no capítulo final.

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Desfecho insólito para a terrível vilã Magnólia, a grande personagem de A Lei do Amor

Ao observar os muitos comentários sobre A LEI DO AMOR via imprensa e redes sociais, o que mais chamou-nos atenção foi o fato de ninguém reportar-se à direção da novela. E eu mesma me peguei surpresa ao pensar em quem assinava a direção: tive de ir pesquisar pois não lembrava o nome do diretor. Natália Grimberg e Denise Saraceni são as responsáveis.

Neste ponto, que é crucial e onde concentra-se grande parte do resultado de uma obra de ficção teleaudiovisual, registra-se a primeira clara distinção entre A LEI e Velho Chico, por exemplo. Enquanto em A LEI ninguém toca no nome do diretor ao comentar a obra, é impossível falar de VC sem citar Luiz Fernando Carvalho. Apenas uma ressalva relevante que reafirma o diretor como co-autor da obra, ainda quando existe apenas um roteiro a ser filmado (óbvio que, novela começada, há o elenco e toda uma grandiosa equipe que constroem juntos o êxito ou fracasso da obra).

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Vera Holtz em mais uma atuação notável !

Feito esse adendo sobre a questão da direção, vamos aos acertos do capítulo final de A Lei do Amor:

  1. O final trágico de Magnólia, insólito, à altura da personagem, e trazendo o simbolismo da força do trem da vida, cantado na música-tema de Villa-Lobos e Ferreira Gullar, para o centro do desfecho;
  2. Não mostrar o enterro de Magnólia: a dona de vilania tão ostensiva e maléfica não merecia condescendência alguma, nem mesmo na diegese;
  3. A vitória do amor de Helô e Pedro com o nascimento do filho tão esperado: é corriqueiro mas não deixa de emocionar, sempre, a chegada do NOVO trazendo luz em qualquer ambiente, sobretudo ali, após o aflitivo sofrimento vivido pelo casal e suas famílias nos últimos capítulos;
  4. O final em aberto para a relação Isabela-Thiago: autores fizeram uma opção condizente para um casal complexo desde seu início, aludindo à contemporaneidade de um mundo quase perplexo ante mudanças tão rápidas e avanços comportamentais impensáveis décadas atrás;
  5. Boa solução para a punição de Tião Bezerra: um AVC que o deixa preso a uma cama de hospital (o todo-poderoso, com toda a fortuna que amealhou, completamente sozinho), remetendo a uma situação dos primórdios da novela, quando o personagem tinha tido um ‘apagamento’ de memória em plena ponte da cidade de São Dimas;
  6. Dois casais homossexuais leves e felizes em meio a uma festa promovida pela prefeita Salete. A ficção referendando cenários de tolerância e enfatizando a dimensão maior do amor, que corre por diversos atalhos: personagens de Maria Flor (Flávia) e de Raphael Ghanem (Gledson) curtindo plenamente com seus pares formados;
  7. Hércules e Aline, deploráveis vilões, elevados à categoria de mendigos em meio à invisibilidade cotidiana da metrópole;
  8. A surpresa, estendida ao máximo, para o par final de Letícia (Isabella Santoni), culminando por ser quem foi, o bem-humorado Antônio (Pierre Baitelle), seu eterno apaixonado.
  9. Ter citado a dor da tragédia de Mariana através do personagem de Gianecchini (Pedro, o rico bom moço e justiceiro) a cobrar punição para o terrível crime ambiental que vitimou a pequena cidade mineira;

10. A cena final, com viés acentuadamente político, promovendo uma imediata homogenia com o atual cenário político brasileiro. Neste ponto, a presença de Tony Ramos como o notório político do ‘rabo preso” que vai ascender à presidência, e terá ao seu lado a tradicional ‘loura burra’ (feita com esmerado requinte por uma convincente Grazi Massafera), foi triunfante ! Tony foi o intérprete perfeito para todas as ilações imediatas… e a comemoração das futuras vitórias políticas – em espaço luxuoso no qual dividem a mesma mesa, a corrupção, a imoralidade ética, a falta de escrúpulos, os desmandos com a coisa pública, os desvios de verbas, as prevaricações, a instrumentação religiosa, a desonestidade de propósitos, o desrespeito ao erário público, e o desprezo pelos que defendem e lutam por uma vida digna num país com tantos problemas colossais e quase insolúveis, foi um ganho excepcional da novela, através do qual se ‘perdoam’ ou tornam-se de somenos importância os muitos baixos e enganos do enredo.

Ainda que você não tenha visto o último capítulo, veja as imagens de sua cena final, e confirme: para bom entendedor, meia equivalência diz tudo, ainda que numa obra assumidamente de ficção.

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Licença Poética ou ‘furos perdoáveis’

De onde apareceu o carro possante que Isabela dirigiu para levar Thiago à Ilhabela, ela que começara a estudar (antes de virar Marina), com ajuda financeira de Helô – num país em crise como o nosso, como explicar que Marina conseguiu, honestamente, arrumar tão rápido uma fonte de renda para lhe garantir a posse de um carro daquele nível ?

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Como Marina conseguiu a chave que lhe abriu as portas da casa de Ilhabela ?

A rapidez com que Letícia passou a achar o amado pai Tião um homem de ações deletérias;

A igualmente rápida mudança de atitude do apaixonado Pedro, que rapidamente abandonou o lar onde dividia o cotidiano com a amada Helô, ao descobrir uma filha de 4 anos com uma mulher que não via há tempos;

A acelerada mudança de atitude de Mileide, que de mulher com certas conexões paranormais, virou uma fina interesseira no enriquecimento e na ascensão econômica e política… mas a criação/instalação de sua Igreja Sincrética Circular pagou todos os atropelos com a verosimilhança !

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Helô e Pedro num final feliz como o público queria !