Os Dias eram assim como Belchior cantou

            *Aurora Miranda Leão

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Gabriel Leone e Renato Goes em Os dias eram assim

Era meados dos anos 70. O capítulo começa com uma panorâmica sobre a orla carioca. Depois, se vê IMPRENSA LIVRE em letras garrafais na vidraça de um prédio, logo em seguida estourada… Um militar aparece dizendo: “Ato público está proibido: não aceitamos passeata nem comício”. A violência invade as ruas do centro do Rio; foco no cineasta Glauber Rocha que diz: “A loucura, meus amigos, a loucura da violência”. Na sequência, mais cenas de violência: policiais montados em cavalos irrompem contra as pessoas na rua, estudantes são vítimas de agressões e bombas estouram; o general Médici passa a faixa para o general Geisel. Era 1974. Na Nigéria, estavam Renato e Rimena em missão solidária. Em Miami, Victor e Alice formam uma família feliz (?) com os filhos num belo apartamento de classe alta. Corte para uma menina negra: olhar carente, com um buquê de flores, ela olha o médico como quem agradece com ternura, e uma tristeza funda assoma naquele rosto tão puro e ainda imune às maldades do mundo.

São pequenos detalhes que vão se unindo num crescendo a formar um conjunto eloquente de significação, captados por uma câmara operada com intensidade latente, reforçada por uma edição primorosa. Imagens históricas, nunca antes exibidas na teleficção, tomam conta da tela em linha simétrica com imagens ficcionais: um general declara que estão proibidas manifestações e protestos populares nas ruas. Glauber Rocha aparece bradando contra a ditadura, imagens da repressão passam em ritmo veloz e o Cálice de Chico e Milton emoldura uma narrativa teledramatúrgica de forte acento político, que tem o período mais duro da vida brasileira como ambiente.

Em meio a lembranças que tanto doem na parede da memória, a narrativa de extrema competência, beleza, pujança, senso estético e sentido de cidadania de OS DIAS ERAM ASSIM é a comprovação mais cabal – guardada nos arquivos históricos da teleficção – do nível de excelência alcançado pela nossa Teledramaturgia ! Que vigor, que potência, que qualidade alcançamos !

Assisto à supersérie e, depois de todas as sensações que ela me provoca, e todas as emoções que ela aviva, sobrevém um enorme orgulho de constatar o nível magistral de qualidade a que chegamos. Sinto-me honrada de ser partícipe deste tempo no qual a Teledramaturgia consagra sua magnitude como testemunho da contemporaneidade, e se inscreve com fundamental importância como portadora de um sentido de pertença e de memória da vida de um país como jamais antes nenhuma outra linguagem brasileira alcançou. Este mérito de guardar, repassar, prospectar, divulgar, reavivar, rememorar, ressignificar a história em som e imagem com a amplidão que a teledramaturgia alcança no país (milhares de locais com acesso à produção audiovisual gratuita), amplificada por conta dos avanços da tecnologia – podendo ser vista por qualquer pessoa, a qualquer hora, em qualquer lugar, de graça -, jamais foi alcançado por nenhum outro meio de comunicação no país. Outrossim, poder assistir a um produto audiovisual de tamanha qualidade, todo criado e executado por profissionais brasileiros, que dão o seu melhor para chegar à telinha com o padrão que chegam, é por demais auspicioso.

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Antônio Calloni, Mariana Lima e Bárbara Reis em Os dias eram assim

E no capítulo da quinta passada, para coroar tudo o que a supersérie já traz de bom e louvável, seus criadores ainda incluíram Belchior e seu emblemático canto menestrel na preciosa trilha sonora de OS DIAS ERAM ASSIM:

Foi quando o jovem Gustavo (Gabriel Leone em atuação soberba), defensor da causa democrática, finalmente deixa a prisão, após 5 anos encarcerado, e a mãe e a irmã vão buscá-lo: quando Gustavo surge na porta da penitenciária, a voz de Belchior avulta…

“Não quero lhe falar meu grande amor/ Das coisas que prendi nos livros/ Quero lhe contar como eu vivi/ E tudo que aconteceu comigo…”

E a emoção vai lá no alto: BELCHIOR era a voz que precisava intervir no contexto narrativo profundo, cívico e profundamente relevante de Os Dias eram Assim.

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“Quero lhe contar como eu vivi, e tudo  que aconteceu comigo…”

Cabe-nos ressaltar que, há alguns dias, havíamos falado aqui no #blogauroradcinema que esta música – COMO NOSSOS PAIS – já merecia há tempos uma olhada séria e bem intencionada da teledramaturgia para lhe dar realce e fazê-la ecoar pelos milhões de lares brasileiros que sintonizam a emissora líder em todos os cantos do país, inclusive naqueles distantes lugares que a gente nem sequer imagina existirem.

Fizemos aqui no #bloauroradecinema uma analogia sobre a tradução poética que as canções Aos Nossos Filhos (o tema de abertura, de Ivan Lins e Victor Martins) e Como nossos Pais (de Belchior, consagrada na voz de Elis Regina) fazem de um tempo histórico com precisão de ourives. Pois foi com a emoção latejando por tudo que nos diz esta supersérie OS DIAS ERAM ASSIM (sobre ética, política, dignidade, liberdade, tempos sombrios, violência e repressão, mas também sobre amor, arte e pessoas que ousaram ir além e não deixaram de gritar por LIBERDADE) e a saudade musical ensejada pela partida repentina de Belchior, que assistimos àquela cena e fomos às lágrimas.

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Ana Miranda, Gabriel Leone, Carla Salle e Cássia Kiss em Os dias eram assim

E é assim, ainda marejando de emoção, que deixamos um caloroso aplauso para toda a equipe que assina OS DIAS ERAM ASSIM.

Por hoje, ficamos aqui mas não sem antes sugerir que assistam a esse primoroso capítulo da quinta passada, 25 de maio. Está no site Globo.com ou no app Globo Play, de graça. Pode ter certeza: é você quem vai ganhar ao assistir uma obra audiovisual com a qualidade estrondosa que tem OS DIAS ERAM ASSIM.

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Antônio Calloni, um Mestre, em atuação digna de todos os aplausos !

Orgulho enorme do naipe excepcional de criadores que assina este trabalho lindo: desde suas autoras Ângela Chaves e Alessandra Poggi; aos diretores Walter Carvalho,  Isabella Teixeira e Cadu França, mais o diretor artístico Carlos Araújo, passando por toda a equipe técnica e de produção, pedimos licença hoje para cumprimentarmos a todos nas pessoas do ator Antônio Calloni (magnânimo na interpretação do abjeto empresário que apoiou/financiou a ditadura), Natália do Valle, Sophie Charlotte e Gabriel Leone.

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As autoras Ângela Chaves e Alessandra Poggi com o diretor Carlos Araújo…

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