David Cardoso recebe homenagem do Festival de Inverno de Bonito

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A 18ª edição do Festival de Inverno de Bonito, a 278 quilômetros de Campo Grande, será encerrada hoje.

Sendo o festival de arte e cultura mais tradicional do Mato Grosso, este ano  a programação vai totalizar 149 atrações artísticas, 32 oficinas e cursos, nove estandes e 17 horas diárias de programação gratuita.

E a diversidade é grande: a programação terá exposição de artes, artesanatos, shows, teatro, dança, circo, culinária, e não podia faltar espaço para o cinema.  E no espaço da Sétima Arte, o grande homenageado desta edição é o ator, diretor, roteirista e produtor David Cardoso.

Festa terá shows de Ney Matogrosso e Karol Conka. Foto: Facebook Oficial/Divulgação

A inclusão de atividades no espaço do Centro de Múltiplo Uso (CMU) é uma das novidades desta edição, sendo o novo endereço do FIB em Bonito nesta edição comemorativa. O local vem servindo de ponto de encontro entre os estudantes bonitenses para participarem de oficinas, atividades culturais e espetáculos. Uma tenda de circo recebe apresentações de estudantes de escolas públicas bonitenses e outras instituições, como o Centro de Educação Infantil Laura Vicuña, Pestallozzi, Studio Kadoshi Dance e Instituto Família Legal.

No CMU, também acontecem múltiplas atividades contando com a presença de artistas como o poeta, escritor e ator Emmanuel Marinho, a banda Muchileiros, a cantora Juci Ibanez, os palhaços Anderson Lima, Pietro Lara e Pepa Quadrini & Junior de Oliveira, o mágico Tabajara, o grupo Arte e Riso Cia de Animação e Grupo Guavira com teatro de bonecos, a atriz Ramona Rodrigues com um varal de poesia com a obra de Manoel de Barros e o instrumentista Marcos Assunção com a sua viola pantaneira.

Já o ator David Cardoso, um dos mais notáveis artistas da região pantaneira, é o Homenageado do Festival de Bonito em sua 18a edição. E a trajetória do artista, que tem mais de 80 longas-metragens no curriculo, é por si só um grande reconhecimento para torná-lo merecedor das mais justas homenagens, sobretudo em sua terra natal.

Este sábado em Bonito começou com uma apresentação do grupo de dança sul-matogrossense Bailah, seguindo-se exposições, campeonato de skate, cinema, palestra e passeio noturno de bicicleta até a Capelo do Sinhozinho. Logo mais, às 20h, haverá apresentação da cantora Alzira Espíndola e, logo depois, é a vez do cantor Ney Matogrosso subir ao palco.

Amanhã, a programação termina com a Corrida de Inverno, intervenção artística, teatro, cine truck e shows de Marcelo Loureiro e Gabriel Sater.

David Cardoso, o Homenageado

Engajado com as causas ambientais desde quando isso ainda era uma ferramenta quase desconhecida, David Cardoso tem uma prosa farta e agradável. Difícil estar com ele sem dar boas risadas, falar muito sobre Cinema, cantarolar algumas pérolas do nosso cancioneiro, e tirar sarro das situações mais bizarras. Dizendo melhor: David Cardoso é um gentleman, um homem de Cinema (de fato e de direito), e um Querido, indo e voltando.

David Cardoso não passa incólume em lugar algum onde vá: ele sempre retorna pra casa com novos e muitos convites para ir lançar seu livro, exibir seu filme, fazer palestras e/ou participar de debates sobre Cinema e questões afins em quaisquer eventos onde ser autêntico e fugir do estereótipo de celebridade seja mais importante que arrotar sapiência e enumerar vantagens simplórias travestidas de conhecimento num terreno onde o descartável virou rotina e a desfaçatez posa de bacana.

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David Cardoso ao lado do Rei Roberto Carlos…

“Fiz tudo o que você imaginar sem estudar. Era um analfabeto. Colei a vida toda, o que não recomendo para ninguém. Mas aprendia vendo os outros, de curioso. Quando eu era continuísta, enquanto o pessoal ia para a farra, eu ficava passando as folhas a limpo. Olhava a câmera de 40 e tantos quilos, a lente…”

Aos 74 anos, completados em 9 de abril, David Cardoso conta que o patrimônio adquirido foi fruto de muito suor: “Abri mão de comprar Mustang e fumo – nada contra, mas todo dinheiro que ganhava, mandava para o meu pai”. Atualmente, ele “corre atrás” dos inquilinos que não pagam e acorda antes das 5 horas, dormindo apenas 240 minutos por dia, fruto de uma insônia que o acompanha há 60 anos:

“Hoje acordei às 3h20. Fiz comida, pratiquei uma hora de boxe, vim para o escritório e agora estou falando com você… Não tem preguiça. Nunca cheguei atrasado em qualquer encontro, fosse com homem, mulher, cachorro ou viado. Sei que uma hora vou cair duro, estafado”, revela o irrequieto ator, diretor e produtor. David Cardoso ainda é reconhecido pelo grande público como o “rei da pornochanchada”, aquele que transou com mais de 800 mulheres.

O ator continua: “No táxi, o motorista me reconhece, fala que não vai cobrar nada e liga para a esposa, para mostrar quem está com ele no carro, dizendo que tivemos um papo incrível. Mas há outras pessoas que torcem o nariz. Apesar disso, posso afirmar que tive uma vida gratificante, fulgurosa”, sintetiza o ator, que, entre os filmes mais marcantes, fez “A Moreninha”, com Sônia Braga, e “Caingangue, a Pontaria do Diabo”.

David Cardoso revela que gostaria de ter sido um Tony Ramos, um “cara correto, que dá todo o dinheiro que recebe à mulher”, mas que ele e a TV não foram feitos um para o outro. Chegou a participar de algumas novelas, no final dos anos 70 e início dos 80, mas o fato de ficar longe de sua terra, levou-o a abandonar o estrelato na telinha: “Enquanto estava na Globo, roubaram minha fazenda, pegaram o meu avião para saltar de para-quedas, além de 17 vacas”.

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Amigos de Cinema: Alice Gonzaga, Aurora Miranda Leão e David Cardoso em noite festiva em Araxá…

David Cardoso ficou estigmatizado, rotulado pelas várias produções com mulheres peladas (e ele também): “Falavam que meus filmes tinham de tudo. Durante muito tempo, eu era o rei da sacanagem no Brasil. Nunca participei de suruba, nunca transei com duas mulheres ao mesmo tempo… Mas nada como o tempo para ir acertando tudo”, sublinha.

O problema, segundo ele, é que as pessoas fundiam o personagem com o ator, algo que, admite, não fazia questão de refutar na época, como parte do marketing de suas produções:“Fiz um filme, o ‘Dezenove Mulheres e um Homem’, e falaram que eu tinha comido todas as 19 atrizes… Quando eu era ator e produtor dos filmes, eu não me envolvia com elas. Terminadas as filmagens, aí sim, envolvi-me com várias, não vou negar”.

Segundo David, o lendário “teste do sofá” nunca aconteceu em suas produções, com as atrizes sendo convidadas pela beleza e pelo talento: “A Matilde Mastrangi (uma das rainhas da pornochanchada) fez seis filmes comigo e só pus a mão nela em cena. Numa viagem a Portugal, chegamos a dormir na mesma cama, mas ela era noiva e eu também. Sempre a respeitei”, salienta.

Ele lembra que empregou muita gente e abriu as portas para atrizes que deslancharam no gênero posteriormente. “Vi muitas boas profissionais começando na pornochanchada. Não havia putaria. Nunca as vi fazendo programa. Eram algumas vezes trouxas, caindo de amores por homens, ricos ou pobres”, recorda David.

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David Cardoso, Carlos Alberto Ricceli e Rubens Ewald Filho (foto Aurora de Cinema)

Produtor de 34 filmes, David Cardoso faz questão de frisar que nunca foi acionado na Justiça trabalhista: “Venho da escola Mazzaropi, pagando religiosamente todos os funcionários nas sextas-feiras. Chorava até o último momento, mas pagava o combinado”, destaca. O seu filme de maior bilheteria foi Dezenove Mulheres (no qual só há 18 atrizes porque uma saiu em cima da hora) que ficou oito meses em cartaz no Cine Marabá, de São Paulo.

O filme mais recente produzido por David Cardoso é Sem Defesa, que ele define como um trabalho “contundente, misto de ficção e documentário, sobre a violência brasileira”, com participação dos apresentadores Datena e Ratinho e do senador Álvaro Dias, do Paraná.

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David Cardoso rodando o país para mostrar seu longa Sem Defesa

“A Justiça brasileira é capenga, com ninguém indo preso”, critica David Cardoso, que pôs a mão no bolso para bancar parte dos R$ 400 mil gastos na produção, realizada em apenas quatro dias e já exibida fora do país. “Com esse filme, encerrei a carreira de produtor”, avisa, sem, no entanto, abdicar do amor ao cinema.

“Pedi R$ 100 mil para atuar em um filme paulista. O diretor acabou me pagando R$ 10 mil em dez vezes. Mas se gosto do projeto, não é o dinheiro que irá me fazer desistir. Amo o cinema. Vi ‘Matar ou Morrer’ 46 vezes. ‘Meu Ódio Será Tua Herança’, 28. Vejo um mesmo filme duas vezes num mesmo dia”, registra.

* Trecho de entrevista realizada pelo jornalista Paulo Henrique Silva, do site mineiro Hoje em Dia.

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