Raimundo Rodriguez imprime sua arte em série gravada no Pantanal

Resultado de imagem para raimundo rodriguez

Raimundo Rodriguez: em qualquer tempo, a criação de universos mágicos com matriz na cultura popular

Chama O Pantanal e Outros Bichos a série que deve ser exibida ano que vem pela rede de TV pública do Brasil, que tem direção de Amauri Tangará, e foi rodada no Pantanal. 

Com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA/BRDE /ANCINE), a série terá 26 capítulos e tem como público-alvo crianças e adolescentes. O enredo fala de tecnologia e meio-ambiente. Tudo começa na fazenda de um  casal que vive no Pantanal. Os avós recebem  com alegria a visita dos netos mas quando percebem que as crianças só querem saber de tecnologia (o dia todo com o celular), eles decidem levá-los para conhecer o mundo mágico do Pantanal. É aí que aparecem os diversos personagens mitológicos da região, como o Pé de Garrafa, a Mãe do Morro e a Porca dos sete leitões.

Imagem relacionada

O Pantanal e outros bichos é uma realização da produtora Cia D’Artes Brasil e o elenco conta com 90% de atores mato-grossenses. Tati Mendes, produtora-geral da série, conta que 8 companhias de teatro da região foram convidadas a participar, dentre elas o Grupo Tibanaré, a Cia Faces de Teatro (de Primavera do Leste) e o In-Próprio Coletivo:

Além de contemplar os artistas locais, a produção da série também fez questão de chamar artistas nacionais conhecidos, como é do ator Roberto Bonfim, que tem mais de 50 novelas no currículo, dezenas de peças teatrais e 44 longas-metragens, vai interpretar o avô em O Pantanal e Outros Bichos. Outro convidado de fora da região era o cineasta Geraldo Moraes, que faleceu há poucos meses.

Imagem relacionada

Roberto Bonfim tem papel de destaque em série sobre o Pantanal…

“Eu faço o avô, o velho fazendeiro. Ele é um pantaneiro, na verdade ele não é do Pantanal, ele é do Rio de Janeiro, mas casou com uma pantaneira, comprou uma fazenda e passou a ser um fazendeiro da região. A história gira em torno desses netos, que são informatizados, vidrados no celular, e que vem visitar o avô e começam a largar a tecnologia visitando esse mundo fantástico”, diz Bonfim. “Fiquei maravilhado exatamente por isso. Eu já fui folclorista, mas este mundo da fantasia, esses entes, essas entidades fantasiosas do Pantanal, eu não conhecia. Eu conheço do nordeste, conheço do Sul… mas a ‘Mãe do Morro’, o ‘Pé de Garrafa’, são personagens que eu não conhecia. Quando eu comecei a ler, eu falei “mas como é que eu não conhecia?” Então me entusiasma nesse sentido. Primeiro porque revela este mundo magnífico do Pantanal, um outro mundo. Você imagina, eu fui folclorista e não conhecia, imagina o resto do Brasil?!”

Mas o grande trunfo dessa produção televisiva é contar com a presença do artista plástico Raimundo Rodriguez, o que por si só já é indício de que vem por aí uma obra com requintes de alta qualificação cenográfica, visual e imagética.

Raimundo Rodriguez é um artista com singularidades de poeta popular. Ama o que faz e parece despetalar sua alma em mil pedacinhos quando assume um trabalho. A rotina do artista vira de cabeça para baixo: ele mergulha de tal modo no universo a ser criado que seu cotidiano passa a ser o do mundo que ele vai representar com sua criatividade ancestral. Seja imaginando o figural dos personagens ou desenhando mentalmente a ambiência ao qual vai dar vida, cor e sentido, Raimundo Rodriguez é um artista em quem a arte coabita, indissociável, com sua personalidade.

Imagem relacionada

Raimundo Rodriguez e Luiz Fernando Carvalho: quem ganha é a Dramaturgia !

Ciente disso é que o diretor/cineasta Luiz Fernando Carvalho o convidou para criar a ambiência cênica da minissérie Hoje é Dia de Maria, e nunca mais perdeu Raimundo de vista. Juntos, criaram obras memoráveis como A Pedra do Reino, Capitu, Meu Pedacinho de Chão, e Velho Chico, e já sabemos que vem mais por aí. A parceria de Carvalho e Rodriguez é um marco decisivo na teledramaturgia brasileira.

Pois bem: qualquer espectador esperto percebe isso, e os que militam na área do audiovisual tem sobejas razões para querer a assinatura de Raimundo Rodriguez em suas produções. Portanto, se RR está na criação estética de O Pantanal e Outros Bichos, a série televisiva tem meio caminho andado para agradar.

Imagem relacionada

A marca de Raimundo Rodriguez é o trabalho com reciclagem. E é por esse viés que o artista assina a cenografia, os figurinos e a direção de arte de O Pantanal e Outros Bichos. Entusiasmado, ele conta: “Achei maravilhoso o projeto, principalmente porque eu só aceito trabalhar com pessoas que se identificam com meu trabalho. Porque, na verdade, o que eu faço é continuar o meu trabalho como artista plástico, eu não preciso mudar a minha forma de linguagem. O que eu faço é adequar essas peças, o que eu crio para a dramaturgia exigida”, conta. “A minha identidade vai aparecer muito mais no mundo mágico, porque eu uso muita lata. O cavalo é de lata, a sereia é de lata, de caixas de leite na parte metálica, tudo eu remeto a lata, é uma linguagem que é reconhecida dentro do meu trabalho”.

Imagem relacionada

Hoje é dia de Maria: obra que celebra a parceria Luiz Fernando Carvalho e Raimundo Rodriguez

Para Raimundo Rodriguez – esse cearense notável que tivemos a honra de conhecer através da telenovela Meu Pedacinho de Chão (obra-prima de Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho), o importante não é usar a reciclagem pela reciclagem, mas sim valorizar a energia dos produtos: “Eu falo sempre que a reciclagem é um princípio humano. Desde que o homem é homem ele recicla. Quando ele transforma uma pedra em uma ponta de lança, ele já reciclou. Eu acho que é uma questão de sobrevivência. Eu gosto da questão dos materiais. Pra mim, se é material, eu uso como matéria-prima. O que eu gosto é de ter a energia das coisas usadas. Se aquilo foi usado por alguém, utilizado pra construir uma casa, pra cavar um buraco, pra erguer outra coisa, que seja o que for, e aquilo não tem mais aquela função, eu gosto de transformar e dar uma nova vida a elas”.

Resultado de imagem para raimundo rodriguez

O fabuloso cenário de latas criado por Raimundo Rodriguez para abrigar a narrativa da telenovela Meu Pedacinho de Chão

Mitos do Pantanal

Amauri Tangará, diretor da série, tem mais de vinte e cinco anos de experiência, diversos longas e curtas no currículo, além de uma extensa estrada no meio teatral. Mas esta é a primeira vez que trabalha com televisão:

Você fazer uma série de 26 capítulos, onde você tem que ter uma preocupação muito grande com o fio condutor da historia, de prender o espectador, criar situações para que ele queira continuar vendo esses capítulos, tudo isso é uma estreia pra mim. Eu cheguei a fazer até uma série no Araguaia de cinco capítulos, mas como era uma série documental, era diferente, cada capítulo era temático, então não tinha problema nenhum. Mas essa não, essa é uma história só”, afirma. “O trabalho então corresponde a quatro longas-metragens ! São quatro longas-metragens numa história só, então é um tremendo desafio”.

Segundo o diretor, outro desafio foi colocar o Pantanal como pano de fundo da história, e inserir os mitos no roteiro: “E depois também a forma como nós encontramos de poder misturar o real e o irreal, a fantasia e a realidade, que se cruzam, que estão juntos. Então isso tudo ajuda você a desenvolver um tema, te dá mais facilidade, porque como você mistura as duas coisas, você não sabe mais que momento está com o real e o irreal. Foi muito legal transitar por esses dois lados, recuperar alguns mitos que são daqui”.

O diretor Amauri Tangará junto ao cavalo de lata criado por Raimundo Rodriguez. (Foto: Olhar Conceito)

A ideia inicial da história partiu de Luck P. Mamute, escritor e filho de Amauri. Tudo começou há cerca de dois anos: “Quando o Amauri chegou pra mim e falou ‘vamos fazer uma série pra crianças, com uma temática diferente’, eu olhei pro lado e vi minha filha e minhas três sobrinhas com o celular na cara, e a gente na Chapada dos Guimarães. Então pensei, alguma coisa está errada, vamos pegar essa molecada e colocar num universo com essa tecnologia, mas que eles tenham outras possibilidades. E foi mais ou menos daí que nasceu O Pantanal e outros bichos, pra molecada sair da frente do celular e ver tudo o que a gente tem no mundo. E o que está dentro da série, nada mais é do que possibilidades, porque eu duvido alguém falar que não existe”.

As gravações da série terminaram em setembro e a ideia é que o produto esteja pronto em janeiro ou fevereiro: “Nos primeiros seis meses depois de pronta, ela vai ficar à disposição de todas as TVs públicas do Brasil, que são 180 canais. Seria uma forma de pagamento do dinheiro que a gente pegou emprestado. Porque as pessoas acham que este é um dinheiro público, mas não é. Esse é um dinheiro de um fundo que a gente vai ter que devolver. A gente pega esse dinheiro, faz o filme, depois vai ter que devolver para que continuem gerando outros projetos. Esses primeiros seis meses, serão como se a gente estivesse pagando juros disso. Depois vai ficar à disposição pra gente vender para qualquer canal que quiser”, explica Amaury Tangará.

Os produtores da série também estudam a produção de um longa-metragem, um livro de receitas pantaneiras do ‘Tio Berê’ e outras temporadas da série: ‘O Cerrado e Outros Bichos’, ‘A Floresta e Outros Bichos’ e ‘A Cidade e Outros Bichos’.

Parte da equipe envolvida com a série para TV pública sobre o Pantanal, vendo-se a direita o ator Roberto Bonfim (sentado) e o artista plástico Raimundo Rodriguez.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s