Arquivo do mês: março 2020

Na quarentena, a teleficção como melhor companheira

Os Dias Eram Assim: supersérie fala de Ditadura e revive Diretas Já !

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   Renato Goes e Sophie Charlotte vivem par romântico que a ditadura separa                                                            

A seleção brasileira fazia o jogo final da Copa de 1970. Nas ruas, um clima de euforia. Na história que pulsava por baixo dessa euforia de quem está prestes a sagrar-se campeão mundial, corria outra sensação, a de aviltamento da dignidade humana, alicerce do período sombrio da ditadura brasileira.

Há uma dor funda e recente que cerca esse momento da vida brasileira. Aquele tempo ainda não foi bem assimilado na memória nacional. É difícil falar sobre aqueles dolorosos anos e, talvez por isso, ainda há quem duvide que eles existiram de fato.

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Daniel de Oliveira, Antônio Calloni e Marco Ricca em atuações memoráveis como apoiadores do regime que suprimiu as liberdades no Brasil por mais de 20 anos.

O período sombrio que extirpou a liberdade do cotidiano nacional cheira a repressão, ditadura, violência, aviltamento dos direitos fundamentais, cerceamento da liberdade, e é sobre isso que fala a supersérie Os dias eram assim.

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Estreada no último dia 17 de abril, a obra tem co-autoria de Ângela Chaves e Alessandra Poggi, e direção capitaneada pelo mestre Walter Carvalho (o festejado paraibano diretor de fotografia de tantos trabalhos memoráveis), com direção geral de Carlos Araújo.

É nesse contexto da ditadura, tematizado em Os Dias eram assim, que Alice (Sophie Charlotte) e Renato (Renato Góes) se conhecem e iniciam uma história de amor que vai atravessar quase duas décadas, cruzando com eventos históricos importantes. Da repressão às Diretas Já, o amor vai passar por vários percalços, e talvez sobreviva: medo, intrigas, separação, dor, tristeza, esperança.

Renato é médico e primogênito de uma família de classe média, moradora de Copacabana. Tem dois irmãos, os estudantes Gustavo (Gabriel Leone) e Maria (Carla Salle).  O pai era professor universitário e a mãe é dona de uma livraria, Vera (Cássia Kis). Cada um a seu modo, estão todos engajados na luta pela liberdade: enquanto Gustavo sai às ruas, Maria usa a arte como forma de expressão.

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Alice (Sophie Charlotte), mocinha da trama, é a protagonista que simboliza o feminismo nascente nos anos de 1970.

No universo da jovem Alice (Sophie Charlotte), a batalha é contra o pensamento conservador da família. Questionadora, a estudante sempre bateu de frente com os pais. Dono de uma construtora, Arnaldo (Antônio Calloni) é um empresário rico e de padrões fascistas: não se conforma com o fato de a mulher, Kiki (Natália do Valle), nunca ter conseguido reprimir a inquietude da filha. Para ele, a mulher é a culpada por tudo de ruim que acontece no lar e na família. O empresário é um típico vilão, homem deplorável que causa nojo e revolta, feito com invejável maestria por um Ator do quilate de Antônio Calloni.

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Alice apaixona-se por Renato e, a partir daí, começa a ter rasgos de insuspeitada coragem: o primeiro passo é ir contra o desejo dos país e contrariar o principal projeto deles para a vida dela: a jovem rompe o namoro de anos com o machista Vitor (Daniel de Oliveira), que não se conforma com o rompimento. Tudo o que Vitor deseja é tornar-se dono da fortuna do pai de Alice. O casamento seria a concretização de seu ideal.

O abjeto Vitor é braço-direito de Arnaldo na construtora, e filho  arrogante e oportunista Cora (Susana Vieira). Os mundos de Renato e Alice se cruzam por amor e serão separados pela divisão ideológica entre as duas famílias, potencializada pelo ambiente político reinante no país. Ambientada entre as décadas de 70 e 80, período que vai da repressão às Diretas Já, a supersérie Os dias eram assim é exibida por volta das onze da noite e vem tendo boa audiência.

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O comício das Diretas Já serviu de belas cenas para a teleficção…

Aqui, como em todo o formato da teleficção audiovisual, o drama amoroso é o grande motim: “A História é o pano de fundo dessa trama de amor. Tratamos de encontros e desencontros desse casal que é separado de forma abrupta e, depois, vai se reencontrar quando os dois já não são mais os mesmos”, diz Ângela. Já Alessandra afirma: “Alice e Renato vivem uma história de amor muito forte no primeiro momento, mas, quando são separados, cada um resolve seguir sua vida. A maior parte da história ocorre após o reencontro, no período de pré-abertura política, em 1984”.

Para nós, soa engraçado, para não dizer apressado e preconceituoso, os comentários acerca da supersérie que pretendem analisar uma obra que não é a que está na TV. A supersérie fala sobre uma história de amor interrompido, como assim acontece em qualquer obra teledramatúrgica. Basta ler um pouquinho sobre o tema para saber que a telenovela tornou-se nosso maior produto cultural de exportação e ocupa um lugar de destaque na programação televisiva diária, sendo que existe desde  1951. A partir de 1963, tornou-se atração diária. De lá pra cá, o gênero se consolidou e tem clara filiação melodramática. Portanto, querer ver uma telenovela e acreditar que seu principal enfoque não será uma história de amor é desconhecimento, ingenuidade ou má vontade.

Seguindo o raciocínio, o que nos parece mais instigante é justamente o fato de repetir-se uma fórmula, absolutamente popular e consagrada, e, mesmo assim, continuar agradando e atraindo imensa audiência. Fazendo uma analogia com o cardápio gastronômico, a telenovela é assim uma espécie de bolo: todo mundo tem um preferido. Logo, sabemos haver uma enorme variedade, que atende a múltiplos gostos, mas a base da receita é sempre a mesma: atrai inúmeros seguidores, pode ser feita com diferentes ingredientes, e o que sobressai é um paladar de alta fidelidade: não há quem não goste de bolo, embora as preferências de gosto variem constantemente.

Pois é, e ainda argumenta-se que a história de Os dias eram assim tem clichês típicos de novela. Ora, pois, se uma mini ou superssérie é assim um ‘primo rico’ da telenovela, como não ter clichês típicos do gênero ? Como fugir ao padrão que tornou a ficção seriada o carro-chefe da programação televisiva brasileira ? E por que haveria de se mexer num ‘time que está ganhando’?

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Danilo e Camila, casal de “Amor de mãe”… Mas afinal, quem não gosta de um bom romance ?

Não estamos assistindo a um filme ou acompanhando uma encenação teatral: Os dias eram assim é uma supersérie. Segue o mesmo esquema básico clássico de uma telenovela, apenas o formato é menor que o desta, embora maior que o de uma minissérie. Seguindo com nossa analogia, o bolo pode ter outro formato e recheio, mas será sempre um bolo, e não um risoto, um uma macarronada ou uma feijoada.

A fórmula de telenovelas, minisséries, microsséries, casos especiais, superséries – teleficção audiovisual – é a mesma há dezenas, e o que encanta é ela permanecer sempre igual em sua diferença de cada novo título. Sempre com a mesma força e capacidade de atrair. E talvez aqui resida um dos trunfos de seu aprimoramento e apuro técnico: como há um sequenciamento ad infinitum do mesmo formato, as equipes realizadoras das telenovelas se esmeram, cada vez mais, ao longo de toda a história da Teledramaturgia Brasileira, em fazer com mais qualidade, primando pela capacitação de seus profissionais.

Isso é o que podemos constatar observando a enorme penetração da produção brasileira no exterior (mais de 130 países compram nossas telenovelas). E quanto mais esse mercado foi crescendo ao longo dos anos, mais o gênero se consolidou e as equipes técnicas, imensas e valorosas, foram sendo lapidadas – direção, fotografia, luz, cenário, maquiagem, direção de arte, trilha sonora e musical, caracterização –, chegando ao patamar que hoje vemos diariamente na telinha e que nos impactam, cada dia mais, pela excelência técnica e artística que exibem.

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Niko e Félix, o par romântico de “Amor à vida” que ganhou torcida nacional em 2014.

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Luzia e Beto Falcão: uma paixão que emocionou a audiência de “Segundo sol”

Afinal, se a história de amor incomoda por ser o fundamento dos enredos é porque o tempo consagra como clichê o que é  considerado bom para a grande maioria. E o clichê foi popularizado por ser reconhecidamente atraente e imbuído de qualidades intrínsecas: quem descobriu, aderiu, quis imitar, virou moda e contagiou. E o poeta Fernando Pessoa sabia tanto e tão bem disso que imortalizou o melhor e mais sábio de todos os clichês: o Amor.

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Leleco (Marcos Caruso) e Tessália (Débora Nascimento): casal rendeu bons momentos em “Avenida Brasil”

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Mercedes e Josafá: casamento na 3a idade foi das melhores coisas de “O outro lado do paraíso”

E, parafraseando o notável poeta português, dizemos:

Todas as histórias de amor são

Ridículas.

Não seriam histórias de amor se não fossem

Ridículas.

As histórias de amor, se há amor,

Tem de ser ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca curtiram

Histórias de AMOR

São ridículas.

As verdadeiras RIDÍCULAS !

É que são Rídiculas.

 

A atualidade de Patativa em tempos de irresponsabilidade social

     Eu sou da classe matuta, da classe que não desfruta das riquezas do Brasil

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Em todo o mundo, a vida social anda em perigo. Não tem sido fácil acompanhar as notícias, tão graves e sérias, sobre a situação de vários povos do mundo, vitimados pela pandemia do Covid19.

Diante da situação alarmante que o país atravessa – com mínimas condições (será nenhuma ?) de atender sua população – sobretudo os mais velhos e mais carentes -, choca assistir, cotidianamente, aos disparates, impropérios, inconsequências e bravatas do titular da República. São tantas e tão colossais que, mesmo grande parte dos que nele votaram (não sem aviso de jornalistas e cientistas do mundo inteiro de que o caos era o ponto mais rápido a se chegar), hoje estão bradando contra o insano “mito” e protestando diariamente nas janelas, nos quatro cantos do país.

A arrogância e prepotência do ex-candidato 17 passou de qualquer limite aceitável, embora uma parcela renitente prossiga defendendo a peste, agarrando-se a qualquer fio de razão (?), ainda que essa venha a bordo de um calhamaço de fakenews.

Estamos todos, os que podemos (há diversos trabalhadores que precisam continuar na rua atuando em prol da coletividade), cumprindo regime de quarentena em nossos lares. Nesta hora, a arte, a ciência, a literatura, a música, o audiovisual, todos que foram tão duramente golpeados pela ideologia fascista que aportou no centro do poder, em Brasília, tem uma utilidade que agora se agiganta. Os que tanto atacaram, vilipendiaram e levantaram calúnias, de todos os matizes, sobre as universidades (sobretudo as públicas), agora precisam admitir o quanto é importante e necessário que elas funcionem bem para que a vida em sociedade tenha alguma condição de sobrevivência saudável. Mas esses, otários e arrogantes diplomados, continuam se negando a admitir que erraram fartamente ao defender o indefensável, o contrassenso, o caos, e a excrescência que o voto no #elesim significa, condenando uma imensa maioria ao massacre atual da ignorância e da irresponsabilidade que afunda o país num manancial de ações nocivas contra sua grande massa trabalhadora – de artistas a profissionais dos serviços básicos coletivos.

A degradação a que o energúmeno-mór chegou é tamanha que até alguns que já lhe foram próximos, agora se espantam e tomam caminhos opostos, ainda bem. Aliás, alguns já declararam o erro de seus votos há algum tempo, felizmente.

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Patativa do Assaré: símbolo cearense da bravura indormida do sertanejo

Tudo isso me veio a propósito de encontrar uns versos do poeta popular cearense Patativa do Assaré (a quem tive a felicidade de conhecer quando ainda cursava a faculdade de Comunicação e apresentava teleaulas diárias na TV Educativa do Ceará) numa rede social. Os versos são da poesia “Seu dotô me conhece ?”, os quais foram ditos por um quase desconhecido poeta popular do cariri cearense no principal palco da capital cearense, o histórico Theatro José de Alencar, no centro da cidade, durante o evento Massafeira Livre.

Artistas de várias áreas estavam juntos nos quatro dias do festival, realizado em março de 1979, embora com censura por parte do governo e quase invisível para a imprensa à época. A entrada de Patativa no palco, aquele sertanejo muito simples, baixinho, vestido sem nenhum figurino especial de artista, tendo ele mais idade do que todos os que lá estavam para tocar e cantar, foi um marco, como conta o colega Nelson Augusto (jornalista/radialista e produtor do programa Frequência Beatles, da Rádio FM Universitária de Fortaleza) em tese do professor e compositor Wagner Castro (2014).

Com sua voz inconfundível e seu jeitinho marcante, Patativa foi quem inseriu, de modo incisivo, a política no meio da cantoria daqueles artistas – irmanados, em movimento encabeçado pelo compositor Ednardo e o letrista/publicitário Augusto Pontes, para mostrar sua produção artística.

Pois foi ali que Patativa chegou com sua verve admirável e recitou os versos, que mais adiante foram musicados pelo querido Mário Mesquita (cantor/compositor/letrista/arranjador), um dos criadores do lendário conjunto musical Quinteto Agreste, de grande atuação na cena musical cearense na década de 1980.

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O templo de Alencar testemunhou então uma imensa plateia ouvindo em atenção respeitosa o poeta dizer:

“Seu doutor só me parece

Que o senhor não me conhece

Nunca soube quem sou eu

Nunca viu minha palhoça

Minha muié (mulher), minha roça e os fio (filho) que Deus me deu

Se não sabe escute agora

Eu vou contar minha histora (história)

Tenha a bondade de ouvir

Eu sou da classe matuta

Da classe que não desfruta da riqueza do Brasil”

E eu fiquei daqui a pensar que falta faz Patativa nesta fase tão difícil, tensa e triste da vida brasileira. Assim como fazem falta Vinícius, Ferreira Gullar, Dias Gomes, Drummond, Belchior, Luiz Melodia, Fernando Brant, e tantos outros.

Reler Patativa hoje me projetou vivamente para a imensa massa de carentes, trabalhadores em condições precárias, moradores de rua e necessitados de toda ordem, habitantes de inúmeras comunidades desassistidas que reafirmam cotidianamente o projeto de Brasil que exclui a partir da educação, como tão bem evidenciou Darcy Ribeiro.

A “crasse matuta” da “histora” de Patativa é a mesma imensa crasse das favelas do Brasil, mergulhada num deserto permanente de descaso e iniquidade, tal qual o pobre matuto do sertão que Patativa cantava. Nascido, criado e vivido ali, no seu pequenino e esquecido Assaré, o poeta sabia exatamente das dores, agruras, sofrimentos e descasos de que eram vítimas seus conterrâneos.

A poética de Patativa tem uma impressionante atualidade. Basta conhecer para engatar a analogia: seus versos ecoam como se saídos da união das vozes dos milhões que formam essa “crasse”, desassistida e vitimada desde sempre pela exclusão, o descaso criminoso, o preconceito e os resquícios da malfadada escravidão que fertiliza, ainda hoje, o território nacional.

“Sou aquele que conhece

A privação que padece

O mais pobre camponês

Tenho passado na vida

De quatro mês em seguida sem comer carne uma vez

Sou que durante a semana

Cumprido a sina tirana na grande labutação

Mode de sustentar a famía (família)

Só tem direito a dois dia

O resto é para o patrão

Sou sertanejo que cansa de votar com esperança

Do Brasil ficar mior (melhor)

Mas, o Brasil continua na cantiga da perua

Que é: pior, pior, pior”

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Sua bênção, Patativa !

Favelados, sertanejos e nordestinos de todo o país,

Estamos na mesma canoa:

 “O Brasil continua na cantiga da perua,

Que é pior, pior, pior !”

 

E por falar em quarentena, que tal rever “Amores Roubados” ?

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Minissérie de 2014 é trunfo da teleficção

*Aurora Miranda Leão

A começar pela expressividade do layout do título e pela impactante abertura, AMORES ROUBADOS é produção singular da nossa Teledramaturgia. Sou das que acompanharam a exibição na grade da programação da TV Globo em 2014 e recomendo que a assistam.

Quem me acompanha ao longo de minha caminhada como jornalista e pesquisadora de teleficção seriada, sabe o quanto aprecio a narrativa ficcional televisiva. Quando as obras são boas – como esta AMORES ROUBADOS -, aí mesmo é que faço questão de dizer que vejo e vejo com prazer ! Porque amo Dramaturgia – seja no Teatro, no Cinema ou na TV. Assumimos desde sempre que o bom é viajar por outras histórias, inventadas por outras cabeças, recheadas de outras fantasias, que não as nossas. Afinal, como diz o poeta gaúcho Carpinejar, nem a nossa história deixa de ser fantasiada por nós mesmos.

O roteiro de Amores roubados é de George Moura, pernambucano que também assina a autoria de “Onde nascem os fortes” (supersérie exibida em 2018), a partir de obra de Joaquim Maria Carneiro Vilela – advogado, ilustrador, pintor paisagista, cenógrafo, juiz, bibliotecário, secretário de Governo, fabricante de gaiolas, e escritor -, escrita entre 1909 e 1912, e merecedora de várias adaptações para o teatro e o cinema. Mas, por certo, o fato de ter obra sua exibida na programação da emissora líder de audiência no país, fará com que o nome do escritor seja definitivamente inscrito entre os grandes de nossa Literatura. Com o título original de “A emparedada da rua Nova”, Carneiro Vilela dizia que a história viera de um relato ouvido de uma escrava. Até hoje, não se sabe ao certo o que foi ficcionado pelo autor e o que realmente aconteceu.

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Cauã Reymond é Leandro, um típico “don juan” contemporâneo do sertão…

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Minissérie marca estreia de Jesuíta Barbosa na telinha: ele faz Fortunato, grande amigo de Leandro (Cauã Reymond).

Mas só em ter valido esta primorosa minissérie, já ganhou – e muito – a história de nossa Teledramaturgia, enriquecida pelas interpretações poderosas de Murilo Benício – um ator que consegue passar todo o sensório de seus personagens só com o olhar -, Irandhir Santos, Cauã Reymond, Isis Valverde, Patricia Pillar (soberba em sua angústia lancinante e silenciosa), Cássia Kiss, Osmar Prado, Dira Paes, César Ferrario, Jesuíta Barbosa, Magdale Alves e Thierry Tremouroux.

PRINCIPAIS DESTAQUES: 

– Direção precisa de José Luiz Villamarim, direção de arte, e fotografia de Walter Carvalho;

– O set, os enquadramentos e a atuação de Osmar Prado e Cássia Kiss na cena do acerto de contas;

– A frieza e vilania intrínseca do personagem Jayme, rapidamente tratando de se ‘descartar’ da conversa ‘incômoda’ do sogro Antônio;

– A luz da cena entre Jaime e o delegado (Walter Breda), num lindíssimo enquadramento em silhueta;

– A conversa entre Jaime e Cavalcante – Murilo Benício de costas, passando toda a emoção somente com a voz – genial !

– A comovente e quase pueril fala de Antônia, encharcada de emoção no velório do avô – ISIS VALVERDE divinal, uma nordestina com naturalidade, beleza singular e profunda empatia, levando o telespectador às lágrimas;

– O encontro de Antônia e Fortunato na beira do rio São Francisco…

* A inserção da bela Jura Secreta, música de Sueli Costa e Abel Silva, cantada de forma singular por um contagiante Raimundo Fagner;

* A qualidade das atuações de Irandhir Santos e César Ferrario numa pujança de força magistral entre dois talentos nordestinos;

* A tocante cena entre Cássia Kiss e Jesuíta Barbosa marcando mais pontos na atuação poderosa do elenco e ressaltando uma direção de arte poderosa a favorecer o contraste entre o vermelho ‘revelador’ da personagem de Cássia, o floral do guarda-chuva e a aridez rochosa às margens do São Francisco;

* Patrícia Pillar e Murilo Benício – contracena de Gigantes !

* Lindíssimos momentos de Isis Valverde, quer seja na fotografia magistral de Walter Carvalho, bem como da atuação emocionada e emocionante da atriz;

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* A sintonia precisa entre Isis e Benício em momentos de revelações perturbadoras;

* O quadro poderoso do grande campo de arames farpados como desfecho para o fim do grande vilão, o temido e maligno Jaime, quando a cena ganhou primorosos ares de réquiem;

* O belíssimo final à beira do rio reunindo 3 gerações – filha, neto e avó, preconizando possíveis (?) novos tempos de calmaria na vida conturbada, triste e sombria da família de Jaime – Isis e Patrícia em belos movimentos de interação mãe-filha X atriz tarimbada-atriz em ascensão !

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Cena final une Isis Valverde e Patrícia Pillar.

De somenos: o não fechamento do destino de João (Irandhir Santos) – personagem e ator mereciam ter sua história amarrada junto ao público; e o do personagem Oscar (Thierry Tremouroux), professor de música da Orquestra Sanfônica, projeto idealizado por Isabel (Patrícia Pillar), ‘exilado’ da cidade a mando de Jaime, e tendo que se passar por Leandro…

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O diretor José Luiz Villamarim dirige Dira Paes e Cauã Reymond…

Amores Roubados é um produto de excelência, que ganhou (como apontamos em artigo de 2014) muitos prêmios: direção, fotografia, ritmo, direção de arte, edição, trilha e atuações magníficas num roteiro de suspense, rico em diálogos bem elaborados e coerentes com o cerne da história. DEZ é ainda pouco para AMORES ROUBADOS ! E é um orgulho para quem, como eu, fica feliz em poder aplaudir a grandiosidade dos nossos artistas e a qualidade a que chegaram os técnicos brasileiros ! Que Teledramaturgia de alto nÍvel faz o Brasil !

As casas dos moradores do distrito estão sendo usadas nas gravações. Um carrossel foi colocado perto da igreja do distrito, que foi expandida para as cenas. Os próprios moradores estão atuando como figurantes em 'Amores Roubados'

O interior do Nordeste brasileiro, fonte perene para a ficção teleaudiovisual.

*Você pode conferir a minissérie inteira acessando o Globo Play. A plataforma pode ser acessada de graça nestes tempos de pandemia.

Pandemia: assunto popular, como a novela. Valmir Moratelli comenta

Valmir Moratelli analisa contexto atual da narrativa preferida dos brasileiros diante da pandemia que fez TV Globo alterar programação

Jornalista, escritor, poeta, cineasta e doutorando em Comunicação pela PUC-Rio, Valmir Moratelli tem como epicentro de suas pesquisas acadêmicas a teleficção brasileira.

Convidado para escrever sobre o panorama atual, que alcança também as telenovelas da TV Globo, reproduzimos aqui a apreciação de Moratelli sobre o momento insólito pelo qual passa essa paixão nacional com quem convivemos desde que a TV Globo levou ao ar sua primeira telenovela, ainda em 1965.

Em nota oficial divulgada na segunda, 15 de março, a emissora informou sobre a suspensão das gravações de suas novelas, a antecipação do final de outras e a inclusão de novas reprises na grade de sua programação. A nota gerou diversas reportagens e causou bastante repercussão nas redes sociais esta semana.

Em bela matéria do colega Marcelo Canellas, a emissora afirma:

“não há novelas sem abraços, apertos de mãos, beijos, festas, cenas de briga, cenas de amor, cenas de carinho, tudo aquilo que reflete a vida real”.

As medidas, super acertadas, tomadas pela direção da TV Globo incluem: intensa cobertura jornalística sobre a Covid-19, liberação da plataforma Globo Play e dos canais de televisão fechada da Globosat (Globo News, SporTV, Multishow, Telecine, Canal Brasil, dentre outros). Uma demonstração clara, relevante e inconteste de responsabilidade social, solidariedade e exemplar respeito ao público, de parte da maior emissora de televisão do Brasil.

Vejamos então o que diz Valmir Moratelli* sobre o tema:

“Em decisão inédita na história da teledramaturgia brasileira, a medida adotada pela TV Globo é uma forma de prevenir a pandemia. Mas o que significa esta paralisação para o país que tem nas novelas sua principal fonte de entretenimento gratuito? Como a população vai se manter em casa, em quarentena pelas próximas semanas, se abstendo das tramas que vinha acompanhando como “Malhação”, “Salve-se Quem Puder” e “Amor de Mãe”? Apenas “Éramos Seis“, já nos últimos capítulos, terá um desfecho. Sua substituta, “Nos Tempos do Imperador”, precisará esperar o desenrolar do drama real que a população enfrenta no combate ao Covid-19.

“O silenciar das novelas acompanha o desenrolar de um assunto grave, da ordem de saúde pública”, afirma o especialista (Foto: Divulgação)

Interromper uma novela não é tão comum no Brasil. Por outros motivos, a TV Globo já teve que embargar produções em andamento. “Roque Santeiro”, de 1975, tinha 10 capítulos editados e quase 30 gravados quando, na noite de estreia, foi proibida de ir ao ar. No ano seguinte, o mesmo aconteceu com “Despedida de Casado”, que vinha sendo escrita para às 22 horas. Em ambos os casos, o bloqueio foi imposição da censura do Governo Militar.

Há também exemplos de produções que foram encurtadas drasticamente por rejeição do público e consequente queda da audiência. Os telespectadores largaram de lado “Cuca Legal”, de 1975, e a novela de Marcos Rey foi encurtada para 118 capítulos. Em 2001, “Bang Bang”, de Mario Prata, perdia público a cada exibição, o que fez a direção da emissora diminuir a duração dos capítulos que, dos habituais 55 minutos, passaram para 45. “As Filhas da Mãe”, de 2001, teve audiência abaixo do esperado. Resultado: A trama de Silvio de Abreu terminou com 125 capítulos. A título de comparação, o sucesso retumbante de “Avenida Brasil”, de 2012, teve 179 capítulos – dois meses a mais no ar.

O que acontece agora em nada se compara com os exemplos do período da ditadura, quando produções foram interrompidas por ordem do governo, ou com tramas encurtadas por questão de audiência, imprimindo a implacável força do mercado. O público fica, já na próxima semana, sem os capítulos inéditos por decisão estratégica da emissora, visando a não colocar em risco de contágio ao Covid-19 os quase 300 funcionários – entre elenco, equipe técnica e de produção – que trabalham em cada obra.

“O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma”

No comunicado enviado à imprensa, a TV Globo informou que tomou a decisão por coerência com os aspectos característicos da sua teledramaturgia, visto que “não há novelas sem abraços, apertos de mãos, beijos, festas, cenas de briga, cenas de amor, cenas de carinho, tudo aquilo que reflete a vida real, mas que, hoje, não pode ser encenado em segurança”. No livro “O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma” (2019, ed. Autografia), resultado de uma pesquisa de mestrado, detalhei duas décadas recentes de produções da emissora, entre 1998 e 2018, diante das transformações políticas de quatro presidentes (Fernando Henrique Cardoso, Luis Inácio Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer).

As telenovelas brasileiras são reflexo dos nossos tempos, servindo de registro histórico às mudanças sociais. Estabilidade econômica, diversidade sexual, a questão das cotas, ascensão da chamada classe C, maior participação das mulheres no mercado de trabalho. Nada passou incólume pelas ficções da TV. E agora que o mundo se vê obrigado a parar as atividades a fim de frear a pandemia, não seria diferente com a ficção. O silenciar das novelas acompanha o desenrolar de um assunto grave, da ordem de saúde pública, arremata Moratelli.

Protagonistas da novela ‘Amor de Mãe’, que teve gravações interrompidas esta semana TV Globo. (Reprodução/Globo)

Em um país onde 99% dos lares brasileiros têm televisão, forjando gerações diante dos amores e dissabores de protagonistas e vilões, fica difícil imaginar um cenário em que nossas rotinas, momentaneamente, serão sem novas novelas. É verdade que a audiência geral da TV aberta vem caindo em relação à última década, principalmente pela maior oferta de streaming, catapultando o telespectador a ser programador de sua TV. O momento é propício ao crescimento dessas novas plataformas– a própria GloboPlay vem lançando séries e documentários inéditos. Mas nem todos os órfãos de novelas vão migrar para a GloboPlay ou Netflix.

Dados do IBGE mostram que mais de um terço dos domicílios brasileiros ainda não têm acesso à internet. Interromper suas novelas é um recado que a TV Globo dá à sociedade e às autoridades. O cancelamento de uma “instituição nacional”, como é o caso da novela das 21h, transmite a ideia da seriedade coletiva que o país precisa ter pelas próximas semanas.

Parte do elenco da novelo Avenida Brasil, uma das reprises transmitidas pela Rede Globo neste momento de pandemia. (Reprodução/Globo)

No lugar das produções interrompidas nos últimos dias, a TV Globo vai reexibir tramas bem aceitas pelo público (“Totalmente Demais” e “Fina Estampa”, por exemplo), além de aumentar o tempo de transmissão dos telejornais no canal aberto e reforçar o conteúdo da GloboNews. O que também vem em boa hora para a emissora, visto que a CNN Brasil estreou no final de semana trazendo possibilidades de concorrência à altura de seus programas. Oferecer escolhas internas ao público, cada vez mais exposto a outras opções, é uma estratégia certeira. Enquanto a população fica sem os afagos de “Amor de Mãe” , ou aguarda pelas aventuras de “Nos Tempos do Imperador”, resta-nos entender que quarentena não é drama e nem histeria. É o mundo real chacoalhando nossas rotinas a tal ponto que interrompeu até a ficção. A telenovela há de resistir. Até porque esperamos todos por um happy end.

* Valmir Moratelli é jornalista e doutorando da PUC-Rio.

*Artigo originalmente escrito para o site da jornalista Heloisa Tolipan.