Arquivo do dia: 08/06/2020

Miguel e a morte inafiançável

Morte de Miguel expõe o racismo estrutural por trás das ...

Diante da trágica morte do garoto pernambucano Miguel, vítima do descaso, racismo, indiferença e negligência de uma patroa (branca) de sua mãe, ficamos todos mudos e indignados.

O Poeta CARPINEJAR foi quem melhor traduziu toda a perplexidade, revolta, repulsa e aflição diante da evitável tragédia. A seguir, a crônica iluminada do notável escritor gaúcho:

DEUS NÃO ACEITA FIANÇA
Fabrício Carpinejar

Diante de Deus, você não terá direito a fiança, não terá desculpas, não terá influência, não terá advogados poderosos, não terá costas quentes, não terá tradição, não terá imóveis, não terá sobrenome, não terá barganha, não terá privilégios, não terá acesso a celulares de governantes.
Diante de Deus, você não será branca, rica, loira, olhos claros, primeira dama, viajada, culta, nada.
Diante de Deus, conhecerá uma inédita igualdade, uma surpreendente justiça, todos são iguais em Sua presença, o que aconteceria com a doméstica se ela fizesse isso com o seu filho realmente acontecerá com você.
Diante de Deus, pagará a conta de sua consciência, não poderá mentir, disfarçar, sonegar a verdade.
Ele sabe que andar apertou no elevador, Ele sabe que você não quis perder tempo com o filho da empregada, Ele sabe exatamente o que você pensou, Ele sabe quem você é, Ele sabe que você abriu a porta para a morte.
Diante de Deus, entenderá o que é um olhar demorado, o que é cuidar, aquilo que deixou de fazer por uma criança indefesa.
Diante de Deus, suas unhas pintadas não serão mais importantes do que a vida de um menino.
O inferno não é um lugar inventado, vem daqui da terra. De seu coração.

Carpinejar derrama poesia ao falar sobre a mãe

     “A decepção materna é a minha maior intuição”

Sesc convida Maria Carpi para debate sobre poesia - Guia21

A poetisaa gaúcha Maria Carpi, mãe do poeta e cronista Fabrício Carpinejar.

 

Outro dia, quase as lágrimas me invadem logo cedo ao ler crônica do poeta Carpinejar em que ele falava de Decepção.
Foi em sua galeria do Intagram e a foto era de sua mãe, a bela poetisa gaúcha Maria Carpi, aquela mãe exemplar que alfabetizou o filho em verso e prosa com delicadeza, disponibilidade, amor e dedicação invejável, tão logo recebeu do colégio a indicação de que deveria tirar o filho da escola pois ele não tinha condições de acompanhar o desenvolvimento da turma.
Ao que Maria prontamente virou as costas, fez ouvidos de mercador, e exerceu o mais sublime da maternidade: educar com sentimento, verdade, na trilha do bem, convidar para a alegria, abrir espaço para a emoção, estender os braços para a arte do convívio e da generosidade, celebrar as vitórias, sorrir de mãos dadas com o vento e enxergar o positivo em cada curva ou ribanceira do caminho. Dessa forma, ela legou ao filho um arsenal de empatia, amor e disponibilidade ao novo invejáveis.
Por saber de tudo isso é que a foto falando em decepção surpreendeu-me, mas apenas por segundos. Sabia que só poderia vir junto uma torrente de delicadeza e gratidão.
Deixo então você. leitor amigo, com a beleza cheia de ternura desta crônica de Fabrício CARPINEJAR, Poeta de minha maior Admiração !

VOCÊ SÓ DECEPCIONA QUEM É PRÓXIMO

* Fabrício Carpinejar

Para se decepcionar, você precisa ter intimidade.

Confundimos a decepção, que requer o contato constante, com o desapontamento, com o desencantamento. Não é a mesma coisa.

A decepção é feita depois do entendimento de como realmente é o outro. Depende de um longo convívio. Depende do julgamento das virtudes e dos defeitos. Depende de estar próximo para comparar o antes e o depois. Depende de experimentar a fundo a personalidade, ultrapassando as aparências da opinião.

Você decepciona pai e mãe, irmãos, filhos, namorado ou namorada, marido ou esposa, melhores amigos, não quem lhe conhece de fora.

Decepção é mágoa de uma transformação, aponta que rompeu alguma lealdade de origem. Deixou de ser fiel a si.


Tanto que sofro quando a minha mãe me censura dizendo “você não é assim”. Sei que mudei para pior, que estou mesquinho, egoísta, completamente equivocado.

A decepção materna é a minha maior intuição. Sou capaz de me enganar, jamais de enganá-la.

Ela me sabe de cor desde pequeno, meu jeito de fugir dos enfrentamentos, minhas manhas, minhas desculpas, minhas fugas. Não tem como convencê-la de que é só uma impressão. Guarda todas as minhas versões para perceber que me desviei da minha essência.

Ao ouvir sua reprimenda, paro tudo para reestabelecer a rota. Ainda que seja necessário recuar para en
direitar a minha estrada.
carpi e mãe

Aí essa crônica sobre decepção, me trouxe à lembrança outra pérola do Poeta, também dedicada à mãe, que é ANTOLÓGICA:

 

Mãe não tem fim – Fabrício Carpinejar

Minha mãe não tem igual.

Eu não dormia fácil de pequeno, com aquele resmungo de cólica. Minha mãe me carregava no colo, me segurava pela barriga, e não me aquietava. Recusava bico, leite, conforto espiritual. Desdenhava da cama, do móbile, do carrinho, do andador. Aflita, ela pegava o carro e me levava para passear de madrugada. Na terceira quadra, me entregava ao sono.

O carro foi meu segundo ventre. Até hoje quando sento no banco de trás, eu fecho docemente as pálpebras. É o único lugar em que fico em silêncio. Não me apresentei: sou o filho preferido de minha mãe. Meus irmãos também acham que são os filhos preferidos. Ela criou todo filho como se fosse único. Para cada um separava uma cantiga de ninar e um segredo. “Não conta para ninguém, tá?”, ela me alertou. Como eu não falei para meus irmãos, nem meus irmãos falaram para mim, ninguém sabe qual o segredo que é meu, qual o segredo que é deles. Vários segredos juntos formam um mistério.

É um problema quando estamos reunidos. Eu acho que ela cozinhou para mim, os outros também acham. É um problema quando estamos longe. Eu acho que ela só ligou para mim, os outros também acham.

Ela reclama imensamente de mim, nunca está satisfeita com o que eu faço. Penso que somente reclama de mim, reclama da família inteira na mesma proporção. Assim como divide um doce de forma igual. Assim como divide o pão em fatias gêmeas.

Mãe não tem dedos, tem régua. Reclamar é sua lista de chamada. Reclamar é um jeito disfarçado de sentir saudade. No fundo, torce para que eu me distraia de uma de suas regras. Ela aponta a louça para lavar, e logo limpa a pia. Ela pede uma carona, vou me arrumar, já tomou um táxi. Nunca pede duas vezes. Ou ela é rápida demais ou eu demoro. Na verdade, ela é rápida demais e eu demoro.

Mãe é gincana. É agora ou nunca. Nem invente de responder nunca para ela. Sua reclamação tem virtude, sua reclamação é um quarto privativo, reclama só para mim. Para os demais, me torna muito melhor do que sou. Não me elogia para mim porque não quer me estragar. Tem esperança de que não me estraguei.

Ela vibra quando encontra algo que não fiz. Inventa necessidades para ser reconhecida. Atrás da mínima palavra, pergunta se eu a amo. Ela escreve isso com os olhos, eu leio isso em seus lábios. O que a mãe mais teme é ser esquecida. Não tem como: mãe é a memória antes da memória. É a nossa primeira amizade com o mundo.

O que parece chatice é cuidado. Cuidado excessivo. Cuidado a qualquer momento. Cuidado a qualquer hora, ao atravessar a rua, ao atravessar um namoro. Para o nosso bem, repete conselhos desde a infância. Para o nosso bem.

Repetir o amor é aperfeiçoá-lo. Mãe não cansa de nos buscar na escola, mesmo quando não há mais escola. Mãe não cansa de controlar nossa febre, mesmo quando não há febre. Mãe não cansa de nos perdoar, mesmo quando não há pecado. Mãe não cansa de nos esperar da festa, mesmo quando já moramos longe. Mãe se assusta por nada e se encoraja do nada. Entende que o nosso não é um sim, que o nosso sim é talvez. Avisa para pegar o último bolinho, o último bife, em seguida arruma uma marmita para o lanche da tarde.

Mãe tem uma coleção de guarda-chuvas prevendo que perderemos o próximo. Está sempre com a linha encilhada na agulha e caixinha de botões a postos. Conserva nosso quarto arrumado como se houvesse uma segunda infância. Mãe passa fome no lugar do filho, passa sede no lugar do filho, passa a vida guardando lugar ao filho.

Mãe é assim, um exagero incansável. Adora chorar de felicidade nos observando dormir. Minha mãe chorava quando finalmente descansava no carro. Ela sussurrou o segredo, disse que eu era seu filho favorito. Não fofoquei para meus irmãos, não pretendia machucá-los. Eles também não me contaram que eram os favoritos dela.

Carpi frase

Depois da riqueza sentimental que são essas duas crônicas, lembro a você, leitor amigo, que está à venda o mais novo livro do CARPINEJAR:

COLO

“Adaptar-se nunca é uma derrota, é vencer por dentro.”

* Parte das vendas deste novo livro serão revertidas ao Hospital das Clínicas – SP, para ajudar no combate à Covid-19. Adquira seu exemplar num dos endereços a seguir:

“Colo, por favor! – Reflexões em tempos de isolamento”
Fabrício Carpinejar
176 páginas
@planetadelivrosbrasil
Amazon: https://bit.ly/ColoPorFavorAmazon2 (livro) ou https://bit.ly/AmazonColoPorFavor (ebook)
Submarino: https://bit.ly/ColoPorFavorSUB
Livrarias Curitiba: https://bit.ly/ColoCuritiba
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