Arquivo do mês: setembro 2020

E no entanto é preciso sambar…

Documentário de Valmir Moratelli é libelo contra o racismo

*Aurora Miranda Leão

           Faltam 30 dias para o carnaval começar. O cenário é a capital carioca, berço mais popular do samba, e as verbas para fazer a folia desfilar como Rainha na cidade, tão decantada em verso e prosa, perigam não chegar para garantir a festa que leva milhares à Passarela do Samba e encanta retinas do mundo inteiro. Dezenas de comunidades que trabalham o ano inteiro para fazer a tristeza sucumbir em meio a lantejoulas, ritmistas, baterias, confetes, atabaques, passistas, brilhos e adereços, e ver a algazarra acontecer, vivem dias de ansiedade e aflição com a espera que parece não ter fim.

             Diante desse dilema, o jornalista Valmir Moratelli, de longa estrada na cobertura do carnaval das escolas de samba cariocas, cansado de ver diariamente o descaso que a prefeitura do Rio de Janeiro distribui, desavergonhadamente, para as festividades de Momo, toma uma decisão insólita – própria de quem sabe que a resistência é pedra fundamental entre os que pensam arte, defendem a vida e semeiam a igualdade -, inspirado pela incongruência política e incompetência dos gestores municipais.

            O ano é 2018 e a decisão de Moratelli foi convergente com sua sensibilidade: escancarar o descaso com a cultura egressa do povo, que ele tanto admira, aplaude e acompanha. Jornalista antenado e consciente das demandas sociais de seu tempo, capaz de compor um bailado rizomático de imagens poéticas, a opção de Valmir para exercitar seu direito de protestar contra as injustiças e arbitrariedades sociais foi fazer um registro audiovisual sobre essa peleja da cultura popular contra o assombroso descaso governamental com a maior festa coletiva do Brasil. Juntou alguns amigos, angariou parceiros para levar sua ideia adiante, partiu para uma vaquinha virtual e assim foram nascendo os primeiros atalhos na trilha do seu objetivo.

               Exatamente, um mês depois disso, estava pronto seu primeiro ensaio imagético sobre os dias difíceis, tensos, aflitivos e ansiosos que antecederam o carnaval carioca de 2019: TRINTA DIAS, um Carnaval entre a alegria e a desilusão !

            O documentário marca de forma auspiciosa a chegada de Valmir no arâmio audiovisual: TRINTA DIAS é muito mais que um desabafo contra o flagelo a que a desastrosa classe política do Rio de Janeiro vem submetendo o carnaval da terra do inesquecível Lalá, o monumental Lamartine Babo (compositor de todos os hinos dos clubes de futebol carioca).

             Com câmera sensível e competente nos registros; muito bem elaborada fotografia; produção que nem parece ter atuado movida apenas pelo gás da vontade de documentar; edição cuidadosa; roteiro que revela a competência jornalística de seu criador; depoimentos fortes, bonitos, emocionados e emocionantes, o filme perfaz um caminho narrativo simples, ideal para dar seu vigoroso recado contra o preconceito, a intolerância religiosa, a escravização vergonhosa de que este país é herdeiro, e a favor da pluralidade e da emergência de novos paradigmas sociais.

           “Saravá, meu povo/Saravá, pai Oxalá !”. Canta assim o refrão do samba-enredo da escola Alegria da Zona Sul, protagonista da narrativa audiovisual de Valmir Moratelli. Aguerrida, decidida, intrépida e disposta a estar na Marquês de Sapucaí com toda a garra, alegria e disposição dos milhares de componentes da escola, a Alegria saiu pra passarela do samba debaixo de uma enorme chuva. E é nesse ponto que o filme começa com a voz imponente de Camila Xavier (diretora da ala das baianas da escola) convocando todas as mulheres da agremiação a adentrarem a avenida dando seu melhor, algo como “Cada uma de nós será a outra desfilando em beleza, força e emoção. Cada uma dará a mão a outra, cada uma ajudando a outra a se vestir: aqui cada uma é todas nós ! Vamos, juntas o tempo todo, ser a voz e a alegria de cada uma, ecoando pela Sapucaí com toda a força da nossa emoção e do nosso samba. Agora a Alegria é o Carnaval e nós vamos sacudir a Sapucaí !”

           A voz pujante e impávida de Camila anuncia nas entrelinhas o que iremos ver, não apenas no Sambódromo construído por Brizola mas, sobretudo, na forma como a escola da Alegria vai desfilar na avenida fílmica de Moratelli. Tudo no documentário “Trinta Dias” é construído com tocante singeleza: os preparativos dos artesãos da escola, o dia da tradicional feijoada, os passos dos brincantes em genuína celebração da festa que trazem no berço de sua ancestralidade, a desesperança do diretor da escola, o desestímulo do presidente da liga do grupo de acesso da folia, mergulhado em revolta e tristeza ao constatar o desprezo a que foi relegada a maior festa da cultura popular do planeta.

           Não há dúvida: há um poeta do jornalismo conduzindo o enredo que mescla desilusão e alegria mas em nenhum ponto desequilibra. Há um comunicador que tem o dom da fala e a eloquência da imagem para conduzir o desassossego que é mote do seu coração quando se fala em povo, carnaval, Rio de Janeiro e Cultura.

               “Trinta Dias” poderia ser um filme pequeno, contando apenas 30 dias de uma lenta (e inconcebível) agonia. Mas não: é muito mais que um registro audiovisual de uma fase ignóbil do carnaval do Rio. Valmir Moratelli mostra que quando entra na cena é pra valer e agiganta de forma notável a temática que embasa seu constructo audiovisual. Os trinta dias de tensão e afligimento da escola de samba “Alegria da zona sul” se transformam em senha para a metanarrativa que ele quer levar adiante.

         Além de Camila abrindo o filme com uma legenda imaginária que escreve Negritude, Feminismo e Liberdade em letras garrafais, o filme traz também os depoimentos de Luiz Antônio Simas, Fábio Fabato, Felipe Ferreira e Carolina Rocha Silva. Todos num belo mosaico semiótico que vai sendo desenhado com cuidado e delicadeza para bradar contra o racismo, denunciar o preconceito, saudar o sagrado e o profano, misturar todas as etnias e celebrar a potência cultural brasileira.

            Um caloroso Parabéns a Valmir Moratelli e Fabiano Araruna (El Tigre Produções) pelo aguerrido trabalho, e um Viva à sua competente equipe: Vitor Kruter no som; Guilherme Bezerra, Pedro Villaim e Fabrício Menicucci na fotografia, e Artur de Carvalho no design.

        TRINTA DIAS é um libelo contra o preconceito e uma ode às nossas raízes afro-ameríndias. Precisa ser visto: é uma aula de história, apreço pelo carnaval e respeito pela Cultura Popular. Tem ademais uma bela fotografia, enquadramentos preciosos (como a chuva amanhecendo no viaduto da Sapucaí), depoimentos fortíssimos sobre nossas raízes, e críticas potentes à descabida equação do binarismo sagrado X profano.

Documentário pode ser visto online no canal Prime Box Brasil

        TRINTA DIAS é um belo e respeitável Documentário ! Vale a pena ser visto e revisto com atenção e carinho.

*Aurora Miranda Leão é jornalista, pós-graduada em Audiovisual em meios eletrônicos, doutoranda em Comunicação pela UFJF e editora do blog Aurora de Cinema.