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Quarentena: zero abraços e muitos livros

Clipe Livros

50 personalidades indicam livros como companhia na Quarentena

A ideia é ótima e se espalhou pelas redes, jornais, rádio, televisão e novas mídias. E como ideia boa não precisa ter exatamente um dono mas sim uma consequência, foi assim:

Tudo começou com lives culturais noturnas, no finalzinho de março. Quem tomou essa iniciativa e convidou o blog #auroradecinema foi o jornalista, roteirista, documentarista e escritor carioca Valmir Moratelli. Dos encontros virtuais com amigos, parceiros, colegas de profissão, artistas e pessoas interessantes de diversas áreas, nasceu a ideia de colocar todo mundo para fazer pequenos vídeos indicando livros para esta quarentena forçada.

Jornalista Laurentino Gomes lança livro no Recife sobre escravidão

E assim foi:: cinquenta pesso@s, de diferentes nichos – atrizes, atores, escritores, escritoras, engenheiros, advogados, jornalistas, médicos, professores/professoras – gravaram, de suas casas, evidenciando o livro como bom companheiro no isolamento. 

Escritor contumaz e grande amante da literatura, Valmir Moratelli não podia estar em lugar mais indicado que o de incentivador da leitura Num país onde o livro é tão caro e a população, de modo geral, é tão cartente de educação, a leitura é ingrediente ainda mais essencial. Foi esse o mote para a campanha comandada por Moratelli, cujo vídeo está disponível nas redes e na conta dele no Instagram: @vmoratelli.

Valmir e Ma João

Valmir Moratelli e a atriz portuguesa Maria João no lancamento de livro dele, no Rio.

A ação nas redes sociais objetiva também chamar atenção para o fato da venda online das livrarias estar despencando. Muitas delas dependem dessa venda para continuar pagando os funcionários nesta pandemia.

Amandha Lee estará na próxima novela da Record - TV & Novelas - iG

Amandha Lee, atriz e tri-atleta, também participa do clipe de incentivo à aleitura.

O clipe da campanha de INCENTIVO à LEITURA está nas redes sociais desde abril e conta com a participação das atrizes Cinnara Leal e Dandara Mariana, da autora Rosane Svartman, do advogado Ricardo Brajterman, da fotógrafa Nana Moraes, e de muitos outros. 

Romeu Evaristo revela ter superado depressão e comemora nova fase ...

Dandara Mariana e o pai, o também ator Romeu Evaristo, estão no clipe de incentivo à leitura para esta quarentena !

Livro Hibisco roxo - Chimamanda Ngozi Adichie | TAG Livros Como Deixar um Relogio Emocionado - 9788573200492 - Livros na ...

Livros de Ruth Manus | Estante VirtualMe Ajude a Chorar – Fabrício Carpinejar | Le Livros Amazon.com.br eBooks Kindle: Onde os porquês tem respostas ...O QUE AS TELENOVELAS EXIBEM ENQUANTO O MUNDO SE TRANSFORMA - 1ªED ...

Livro Vinícius Sem Ponto Final. João Carlos Pecci. Prim

Poesia, música, telenovela, feminismo e antirracismo estão entre os livros indicados !

Coronavírus escancarou preconceito com idosos que telenovela já havia mostrado

Jornalista Valmir Moratelli analisa cenário inóspito para idosos 

Leopoldo e Flora Mulheres Apaixonadas (Foto: CEDOC/ TV Globo)

Flora (Carmem Silva) e Leopoldo (Oswaldo Louzada) sofriam nas mãos da neta.

 

Novela Mulheres Apaixonadas, 2003*: Dóris (vivida por Regiane Alves) é uma menina minada, que despreza e humilha os avós, Flora e Leopoldo (interpretados por Carmem Silva e Oswaldo Louzada), com quem divide o apartamento no Leblon, na zona sul do Rio. Em uma das cenas, do primoroso texto de Manoel Carlos, Dóris assim se dirige aos avós: “Tem que ter um pouco mais de juízo e um pouquinho mais de consciência de que vocês atrapalham, gente! (…) Vocês dão muito trabalho, dão muita despesa também. Vovô agora com esses chiliques, só de remédio foi uma fortuna. (…) Não servem pra nada. Já pensaram quando morrer? Vão ser enterrados onde? Já pensaram nisso?”.

As fortes cenas de Dóris maltratando os avós chocaram o país, a ponto do Congresso ter aprovado, ainda em 2003, o Estatuto do Idoso. O que o Brasil ouve agora nos discursos de governantes e empresários já foi denunciado lá atrás, há 17 anos, pela nossa ficção televisiva. É o chamado “ageísmo” – que vem do inglês “age” (idade), e significa discriminação etária. Na verdade, a pandemia do coronavírus (covid-19) apenas escancarou o preconceito com idosos sempre emudecido no Brasil.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), idoso é todo indivíduo com 60 anos ou mais. O Brasil tem mais de 28 milhões de pessoas nessa faixa etária, o que representa 13% da população. A projeção é que, em 2031, o número de idosos (43,2 milhões) supere pela primeira vez o de crianças de 0 a 14 anos (42,3 milhões). Esses números reforçam que os idosos são parcela significativa de uma população que, mesmo ainda se enganando como jovem, envelhece em ritmo acelerado.

O presidente Jair Bolsonaro, ao minimizar a pandemia e contrário às orientações da OMS, fez a seguinte declaração: “Eles têm outras doenças, mas dizem que morrem de coronavírus. (…) Não é o coronavírus que mata os velhinhos, essas pessoas já estão debilitadas”. Ainda nas primeiras temerosas semanas de março, o empresário e apresentador de TV Roberto Justus teve um áudio vazado, no qual conversava com amigos: “Na favela (o vírus) não vai matar ninguém. Vai matar só velhinho e gente doente”. No mesmo período, o empresário curitibano Júnior Dorski, sócio de uma rede de restaurantes, gravou um vídeo afirmando que “não podemos (parar) por conta de 5 mil ou 7 mil pessoas”.

O coronavírus, entre tantas consequências nefastas, desnudou o ageísmo do Brasil. E por isso o texto de Manoel Carlos permanece tão atual. Só que agora quem fala que os idosos “não servem pra nada” e “dão muito trabalho” não é obra de ficção. A agressividade com que tratam a população idosa, diminuindo sua importância econômica e – mais violento – menosprezando sua humanidade, é reflexo de um país que não quer se enxergar no espelho. Mas já foi escancarado na telenovela.

O Brasil assiste em 2020 à continuação do discurso de Dóris. Se aquela jovem atroz vivesse nos tempos atuais, mandaria seus doces avós, Flora e Leopoldo, circularem livremente pela orla, e ainda diria para não se preocuparem com o vírus que já contaminou mais de três milhões de pessoas no mundo, pois “é só uma gripezinha”.

▷ Aurora Miranda Leao 📷🎬📺🎶🎭 (@auroradecinema) • Instagram ...

* Valmir Moratelli é autor do livro “O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma e doutorando em Comunicação pela PUC-Rio.

Antropóloga Miriam Goldenberg atua para dirimir preconceito com 3a idade

Referendando a percepção de Moratelli, a antropóloga Mirian Goldenberg, que há duas décadas pesquisa sobre envelhecimento, também revela preocupação com o momento atual. Para a pesquisadora, esse preconceito sempre existiu e foi intensificado pela pandemia:

“O que temos visto nesta pandemia são discursos que chamo de velhofóbicos se generalizando. Políticos, empresários e até o presidente da República já disseram que ‘não se pode deixar a economia parar’ e que os jovens ‘têm que voltar a trabalhar’. Ou até que os velhos vão morrer ‘mais cedo ou mais tarde’. Estamos assistindo horrorizados a discursos sórdidos, recheados de estigmas, preconceitos e violências contra os mais velhos. […] Os velhos sempre foram vistos como um peso para a sociedade, ou seja, já experimentam o que chamo de ‘morte simbólica’. O valor que se dá a essas pessoas mais velhas é quase nulo, socialmente e dentro de casa”.

E dá uma importante dica:

“Tenho tentado fazer as pessoas escutarem os mais velhos. Esse é meu propósito desde que começou essa pandemia. Não dá para ficar dando ordem. Precisamos compreender a a realidade deles e juntos com eles encontrar alternativas para amenizar essa situação, de forma que eles não vivam como se estivessem numa prisão.

Isso seria uma morte antecipada para eles.

Ligue para eles, faça atividades junto com eles. Faça com que eles se sintam vivos, úteis, amados, cuidados”.

Goldenberg e seu amigo, Guedes, de 97 anos

Mirian Goldenberg e Guedes, seu amigo de 97 anos…

“Todos caminham para a velhice”, alerta Miriam Goldenberg:

“É urgente que todos aprendam uma lição importante: a única categoria social que une todo mundo é ser velho. A criança e o jovem de hoje serão os velhos de amanhã. Os velhofóbicos estão construindo o seu próprio destino como velhos, e também o destino dos seus filhos e netos: os velhos de amanhã. Ou seja, muitas dessas pessoas não se enxergam como velhos. A velhice é associada à imobilidade, à doença, à incapacidade, à inutilidade. Por isso ninguém se reconhece como velho, nem os próprios velhos.”

*Com informações de Luis Barrucho, da BBC News Brasil

Veja mais em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52425735

Das coisas que aprendi nos discos…

  * Aurora Miranda Leão

Belchior: No presente a mente, o corpo é diferente E o ...

Cearense Querido
Criador Universal
Poeta
Das grandes Palavras
Artista Intemporal
Agiganta-se tua falta,
Conterrâneo
Nestes tempos
Em que tudo
É incerteza, medo, insegurança
Dias em que nossa
Alucinação
Perdeu qualquer
Parâmetro
E nosso delírio
É a inconsistência
Das coisas reais…

Não somos mais os mesmos
Nunca mais seremos
Mas talvez cantar agora
Como nossos pais
Ainda seja
A velha roupa
Colorida
Que tanto queremos
Assim como nossa
Eterna rede branca
Com o charme brasileiro
De alguém sorrindo a cismar

Hoje o perigo não está
Mais só na esquina
E na divina comédia humana
O braço, o lábio e a voz
Já não podem beijar nas ruas…

Belchior, esse desconhecido, hoje 'teria a mesma angústia que nós ...

Belchior: legado do compositor atravessa gerações e se consagra como eterno…

Sim, viver é melhor que sonhar
E o maior sonho se tornou
VIVER !

Adriana Esteves eterniza Avenida Brasil

Resumo semanal de Avenida Brasil de 20/01/2020 a 24/01/2020 ...

Adriana Esteves é Carminha e Débora Falabella é Rita: contracena de gigantes !

Avenida Brasil está desde outubro preenchendo a tarde nobre da TV Globo. A exibição do megasucesso, que desbancou Escrava Isaura em número de vendas para diversos países, está na reta final: termina no dia em que maio adentra o calendário, portanto, no Dia do Trabalho.

Por conta disso, decidi postar artigo escrito quando do final da exibição da novela, em 2012, numa homenagem a esta atriz formidável, que considero a maior do Brasil – não esquecendo que Fernanda Montenegro pertence à notória categoria Hors-Concours -, a protagonista Adriana Esteves.

O que mais surpreendeu em AVENIDA BRASIL não foi o mega ibope do último capítulo nem a forma como o autor se inspirou em autores famosos, nem a trilha, nem o encantamento com o subúrbio traduzido no Divino.

Tudo isso já houve antes, e continuará acontecendo. Há um farto arsenal de motivos pelos quais a novela de João Emanuel Carneiro virou um ícone nacional.

Mas o que mais nos chama a atenção – depois de ler, reler e encontrar, nos mais diferentes espaços informativos, comentários sobre a novela, é uma sensação de “Queremos Carminha !”, ainda no ar.

Vilã de 'Avenida Brasil', Adriana Esteves faz revelação: 'Eu não ...

A atriz acredita que, mesmo com as maldades, Carminha conquistou o público por ser corajosa e divertida: “Ela enxergava a vida com inteligência e humor”, disse em entrevista de divulgação da Globo sobre a reprise. Para ela, a maior maldade de Carminha era maltratar e debochar da própria filha, Ágata (Ana Karolina).

Adriana Esteves revela ainda que fazer a vilã foi sua maior entrega como atriz: “Quando terminou a novela, foi a primeira vez que eu senti uma dificuldade muito grande de abandonar a personagem […] Eu estava no 220 volts, e precisava voltar para o 110 para continuar a viver ou até para fazer outros trabalhos, porque como é que eu ia conseguir fazer outra coisa naquela vibração ?”

O que esta magnânima ATRIZ Adriana Esteves conseguiu, através da bem construída personagem criada por João Emanuel Carneiro, é algo ainda a ser estudado por especialistas da área, e quem sabe mereça muito mais a análise de quem atua na seara da psicologia.

Adriana Esteves alcançou através de Carminha muito mais do que o apoio popular e a adesão total de todo o público de Avenida Brasil. O que Adriana e sua irretocável CARMINHA conseguiram foi mexer no imaginário coletivo e fustigar a emoção de quantos puderam ver – e vibrar – com a estupenda interpretação desta Atriz para uma personagem capaz das maiores vilanias e atrocidades. Intérprete e personagem entrelaçaram-se no gosto popular criando um emaranhado de emoções e cumplicidade que responde por grande parte do êxito da trama de João Emanuel Carneiro.

Esta sensação é o que vai por baixo das afirmações, e corre no íntimo de quantos agora comentam o final da novela – todos viram a mobilização nacional gerada pela exibição do último capítulo da trama, praticamente parando São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre -, é o que aflora quando se afirmam coisas do tipo “Carminha podia ter reagido”, ou “Pensei que Carminha estava mentindo”, ou ainda “Achei que Carminha ia dar a volta por cima”, ou, mais agudo ainda, “Queria que Carminha tivesse terminado rica, numa mansão na zona sul”, ou “Queria Carminha milionária enganando um novo Tufão”…

Carminha (Adriana Esteves) - Personagens de "Avenida Brasil" | Amo ...

Isso tudo é a tradução mais latente e verdadeira de que o envolvimento com a Carminha de ADRIANA ESTEVES tomou tal proporção que o público desejava não só não ver a vilã ficar pobre e sem glamour, como gostaria de ver novamente a atriz – que ele aprendeu a amar e ver bela, mesmo com todas as maldades de Carminha – esbanjando charme e eloquência de vencedora.

Adriana Esteves não estará na próxima trama de João Emanuel ...

Criatura e Criador: Adriana Esteves e o autor João Emanuel Carneiro…

Foi isso que fez nascer Laureta, a personagem seguinte de João Emanuel Carneiro para a atriz em sua trama posterior para o horário nobre. Detalhe de extrema relevância na bela parceria dos dois. Mas isso será tema de artigo em fase de elaboração.

Este público queria rever/reencontrar sua Carminha-Adriana de novo linda, loura, derramada em elegância, destratando os pobres, enganando o marido, tripudiando com as funcionárias, fazendo exigências homéricas, zombando dos suburbanos e dizendo – sem papas na língua e com a maior desfaçatez – as insanidades que dizia. Porque a Carminha vencedora, bonita e altiva era também o alter ego da enorme classe C, ou de quantos se sentiram/sentem inferiorizados tantas vezes, e que, naqueles momentos de altivez sórdida da vilã, se sentiam vingados ou de alma lavada através dos ótimos diálogos da trama. E aqui entra, intenso e avassalador, o potencial artístico de ADRIANA ESTEVES, a quem a imensa maioria da plateia queria ver novamente brilhando e tendo as rédeas da história nas mãos. SENSACIONALLLLLLLL !

Globo pode trocar Êta Mundo Bom por Avenida Brasil na próxima ...

E isso só é possível de ser alcançado, em se tratando de personagem antagonista, quando se tem uma intérprete do quilate de Adriana Esteves, cuja maestria, competência e natural vocação fazem dela uma atriz do mais alto refinamento interpretativo.

Adriana Esteves foi de tal modo encantadora que, através de Carminha, alcançou instâncias que significam muito mais do que receber o apoio absoluto da audiência, a vibração da plateia, a emoção do telespectador, o entusiasmo dos colegas, a vibração da crítica, o encantamento do autor, ou o misto de adesão x revolta que se viu durante todo o desenrolar da telenovela. Tão arrebatadora foi a atuação de Adriana que “puxou” todo um corolário de êxitos para a novela: Avenida Brasil foi a primeira novela brasileira que bateu o recorde alcançado pela lendária “Escrava Isaura” (1976), de Gilberto Braga, até então a telenovela brasileira mais exportada.

Adriana Esteves enfrenta desafio como grande vilã de “Avenida ...

A capacidade impressionante e invejável de ADRIANA ESTEVES de criar expressões faciais diversas para ‘Carminha’, numa mesma cena – passando, em questão de segundos, de um semblante triste para a agressividade, de um sereno para um irônico, de um alegre para um raivoso, de um amoroso para um sarcástico – ecoou fundo na emoção do telespectador e criou uma empatia só explicável pelas leis do sentimento. Sua inserção na cena artística brasileira se dá como uma Atriz completa, disposta e capaz de se jogar em qualquer personagem com a mesma extrema e singular capacidade com a qual ela transformou Carminha na melhor personagem do ano e, quiçá, na vilã mais adorada de todas as novelas.

Adriana Esteves ganha troféu como Carminha; confira os destaques ...

O primeiro prêmio por Carminha foi o do Jornal Extra. Depois vieram outros 7…

Veja fotos do 15º Prêmio Contigo! de TV no Rio de Janeiro

Carminha deu a Adriana todos os prêmios como Atriz do ano de 2012, num total de 8 estatuetas.

         Atriz ganha prêmio da ABI pela personagem Inês, da novela “Babilônia”, de Gilberto Braga…            

                        Um DEZ gigante e emocionado para Adriana Esteves !

Carpinejar: “Somos o que ficamos depois de sofrer”

Carpinejar questiona a supervalorização do celular nos ...

Poeta Carpinejar faz lives na quarentena e vai prosear com o #auroradecinema nesta quarta, 15 de abril…

 

Gostei do que ele escreve desde as primeiras frases que li. Era tão bonito e diferente, que fui procurar saber do autor. Fui encontrando outros textos, e descobri matérias de jornais e sites. E fui procurar outros textos, e encontrei, e gostei mais ainda. Até que cheguei às entrevistas, e um dia lá estava ele na tevê, no saudoso programa do qual a gente lembra com saudade porque não ia pra cama sem ele. Jô Soares entrevistou por mais de uma vez o poeta gaúcho de Caxias do Sul, filho do escritor Carlos Nejar (sobre quem meu pai costumava falar) e foi sempre ótimo: a poesia se derramava em respostas ágeis, inteligentes, espontâneas e sempre de mãos dadas com a transgressão. Seria impossível não empatizar.

Fabrício Carpinejar: o olhar de despedida é o mais bonito: o ...

Desde aquele 2000, nunca mais deixei de ler CARPINEJAR. E ele escreve coisas novas todos os dias. Adoráveis. Leio as novas, e revisito as antigas, cotidianamente. Nas manhãs de quarta, é possível ver o poeta no programa de Fátima Bernardes. Mas sua grandeza e eloquência são muito anteriores à presença na TV: ao contrário, a tevê é que o chamou para enriquecer suas manhãs.

Fabrício Carpinejar é um esteta da emoção. Impressiona-me sua capacidade de dizer tão bem sobre temas tão diversos e trazer sempre um frescor em sua poética tão singular. Interrogo-me sobre como é possível dizer e escrever com tanta maestria, e procuro, em vão, uma palavra capaz de traduzir a riqueza imagética, sensorial e emocional que habita suas crônicas diárias.

Fabrício Carpinejar: "Como eu amo quem se importa em amar, apesar ...

Difícil não sintonizar Carpinejar. O poeta gaúcho parece dotado de infinita capacidade de transformar tudo que escreve em metal precioso. Não raras vezes, arrepio ou choro lendo texto dele. Não canso de repetir isso, nem de ler o poeta, tampouco de aplaudir o que faz.

Os que o acompanham sabem, e são milhares: Carpinejar foi criança vista com limitado coeficente de atenção, sem condição de ser alfabetizado e frequentar uma escola. À mãe dele, recomendaram colocá-lo para estudar numa escola especializada em pessoas desprovidas de capacidade. Sim, aos 8 anos, o poeta foi “diagnosticado” com deficiência motora grave, incapaz de ter desenvolvimento motor sadio, normal, em contato com outras crianças.

Pois foi graças à sabedoria, dedicação e suprema ousadia e lucidez da poetisa Maria Carpi que a criança “descapacitada” transformou-se neste que é hoje o Mais Aplaudido Poeta Brasileiro Vivo, notável expressão da poesia nacional, com mais de 40 livros publicados, os maiores prêmios literários do país, programas de rádio, e milhares de seguidores em diversas redes sociais. Carpi já chegou ao teatro, divide parceira musical com a dupla Kleiton e Kledir, e faz semanalmente um consultório sentimental chamado “Procon do Amor”, no qual há espaço para desabafos e confissões de apaixonad@s, sobretudo do sexo masculino. É o poeta, mais uma vez, trilhando a contramão da normalidade e reafirmando o poder da transgressão e da livre profusão de caminhos.

Foi ela, a ousada e aguerrida Maria Carpi, sua mãe, que resolveu ensinar as letras que a escola não o julgava capaz de aprender: Maria assumiu a árdua e doce tarefa de alfabetizar o filho e conduzi-lo pelos caminhos das letras. Foi inventando versos, rascunhando tarefas – em dimensões que só o amor alcança, e lapidando modos para ensinar as letras que a escola formal não o julgava capaz de aprender -, que a mãe deu força, luz, fé, garra e confiança ao filho para chegar onde chegou. E o Poeta sabe bem disso. É de uma gratidão linda, comovente, profunda e constante à mãe. Como cabe ao tamanho de Poeta e Homem Iluminado que é Carpinejar.

Enquanto a escola da infância o taxava de ‘incapaz de estudar junto às crianças normais”, “incapaz de aprender como os outros”, “incapaz de ser alfabetizado com as mesmas regras das crianças normais”, o amor de mãe prosseguiu lhe ofertando amor, respeito, inteligência e dedicação, e assim foi lapidando o vigor intelectual e o redemoinho de emoções que o poeta espraia pela profícua obra que chegou ao público em 1998 com o primeiro livro, “Um terno de pássaros ao sul”.

25 melhores imagens de Carpinejar | Carpinejar frases, Pensamentos ...

Carpinejar acaba de disponibilizar na internet o audiobook de seu penúltimo mais recente livro (“Família é tudo” é o mais recente), “Cuide dos pais antes que seja tarde”, mais um best-seller da carreira, com mais de 40 mil cópias vendidas. Para fazer o download, basta acessar o site da Auti Books: queroacessar/autibookscom/vamosajudar e utilizar o cupom de desconto integral. A obra traz pequenas reflexões, sem títulos e sem divisão em capítulos, sobre o envelhecer em família: “É uma canção de ninar aos pais, um pedido de desculpas de um filho adulto tentando ser o filho possível”, diz o poeta.

Sobre o livro, diz ainda o poeta: “É a maturação do meu processo de ser um bom filho, porque tinha percebido que não estava sendo, que odiava meus pais, que não os conhecia e que eles eram estranhos íntimos. Os filhos acabam realizando uma omissão de socorro. Por outro lado, os pais não têm medo da morte, mas sim, da solidão. Querem ouvir do filho ‘estou aqui, pai, estou aqui, mãe’. Só não querem ir para o outro lado sem segurar a mão do filho”.

 

Carpinejar acredita que há uma recuperação desse mundo paterno e materno em que nem todos se enxergam e conta como nasceu a ideia do livro: “Só nos damos conta quando perdemos. Quando fui levar meu pai ao médico, ao preencher o prontuário percebi que não sabia nada dele. Se tinha alergia a alguma medicação, se tinha feito alguma cirurgia, quais remédios tomava, o tipo sanguíneo”. A partir daquele dia, percebeu que era filho mas não amigo do pai: “Ele me sabia de cor, mas eu não sabia ele de cor. Passamos a metade da vida fugindo deles e a outra procurando-os. Os pais não querem muito. Não querem nada nababesco, faraônico, querem que os filhos cheguem à casa deles de surpresa.”
Carpinejar destaca como gestos simbólicos, como um café da tarde com os pais, são importantes:
“Não nos damos conta do tempo que a gente pode devolver, só do que a gente quer consumir. Não temos a gratidão, e isso é o que mais falta hoje. Quem tem gratidão perdoa com mais facilidade. O único jeito de curar lembranças tristes não é ficando longe, é continuando a conviver, criando lembranças felizes”.

Ele, o Poeta, que encanta e atua em várias áreas, brilhante em todas elas – seja como jornalista, radialista, apresentador de TV, cronista televisivo, conselheiro sentimental, palestrante, poeta e escritor, merecedor de vários prêmios, no país e no exterior, aplaudido onde quer que vá -, anda fazendo lives nesta quarentena. Como não podia deixar de ser: nada mais semelhante a Carpi do que abrir trilhas para o contato com o leitor/seguidor, e sua imensa capacidade de renovação.

Pois quem participará de uma LIVE com o Poeta nesta quarta, 15 de abril, é esta que vos fala: foi com muita emoção que recebemos o convite do próprio poeta na semana passada. E de lá pra cá, estamos a reler Carpi e a nos mobilizar para recomeçar uma conversa com o poeta, ainda que virtual, mesmo que cada um na sua casa. Tudo bem: o tempo exige, a quarentena dita e nós fazemos nossa parte. Mesmo porquê, próximo ou distante, eu e Carpi estamos e estaremos sempre próximos em sentimento, emoção e palavras e empatia.

Carpinejar | Aurora de Cinema Blog

Poeta Carpinejar e jornalista Aurora Miranda Leão vão se encontrar em Live nesta quarta, 15 de abril, às 20h, pela rede social Instagram…

 

A você, amigo leitor, convidamos para conferir a LIVE Eu e Meu Leitor com o poeta Carpinejar conversando com a jornalista Aurora Miranda Leão: é nesta quarta, 15 de abril, às 20h, na conta dele do Instagram ou na nossa @auroradecinema.

Até lá !

Malhação inclui pandemia e faz história

Malhação - Toda Forma de Amar": veja as primeiras impressões do ...

       Novela das 18h é única no país que adiciona o vírus à sua narrativa

Foi no capítulo final, exibido sexta, aos 3 primeiros dias de abril deste 2020.

Como é sabido, toda a programação da TV Globo foi alterada por conta da doença que assusta o mundo: a informação ganhou muito mais tempo e a equipe esmera-se na intensidade da cobertura jornalística. As gravações de todas as novelas pararam e somente “Éramos seis”, atração das 18h, foi finalizada no tempo previsto porque seu esquema de gravação já tinha sido finalizado. “Salve-se quem puder”, das 19h, e “Amor de mãe”, das 21h, tiveram suas histórias interrompidas, e devem retornar tão logo o isolamento social não seja uma premissa imperativa.

Elenco afinado e apuro estético marcam excelente estreia de ...
Éramos seis: novela cumpriu prazo previsto e trama não abordou pandemia.

“Nos tempos do Imperador”, novela de Alessandro Marson e Thereza Falcão, que iria estrear em substituição a “Éramos seis” e já tinha capítulos gravados, não entrou no ar e a estreia seguirá os protocolos de saúde necessários.

Desse modo, interrompidas abruptamente mas em decisão completamente acertada da direção da TV Globo, as novelas das 19h e 21h não puderam incluir em sua trama nenhuma citação ao caos social em que vivemos, quando uma doença gravíssima assombra gerações e deixa o mundo inteiro em estado de aflição.

“Toda forma de amar” inclui drama e impasse do coronavírus em sua diegese.

Entretanto, por algum motivo desses que só o Mistério responde, coube a “Malhação”, temporada Toda forma de amar, incluir as agruras deste tempo insólito, difícil e incongruente em seu discurso, o curso da comunicação que é verbo e imagem.

Essa insuspeitada inclusão funcionou bem demais porque muito bem realizada. Ainda havia muitas situações da narrativa à espera de resolução: conflitos pediam desfechos e personagens precisavam ter seus destinos definidos. Isso poderia gerar um tremendo vácuo na trama e tornar insosso e pouco plausível o final da história.

Ao contrário disso, o que se viu foi um diálogo pujante, importante e oportuno entre os dois protagonistas da trama. Foi lindo e, sobretudo, necessário. Nós não acompanhávamos a novela; aqui acolá, via uma cena ou outra. E foi por acaso que estava diante da telinha quando a cena em que a pandemia é inserida começa e me rouba a atenção.

Rita e Felipe formam o par romântico mas não trocam beijo nem abraço no capítulo final.

Rita (Alanis Guillen) e Filipe (Pedro Novaes) estão no centro da cena, no meio da cidade (a imagem evidencia o espaço cenográfico vazio) e travam um diálogo que começa assim: “A gente ainda tem que contar tudo que não vai poder mostrar para as pessoas por conta dessa epidemia de coronavírus”, diz ela, que havia sido sequestrada e passara dias num cativeiro. Filipe completa: “Realmente essa epidemia acabou atrapalhando um pouco o final da nossa história”. Ambos estão com fisionomia serena mas não escondem a sensação de desamparo e espanto diante do que estão vivendo. Embora estejam ali para indicar os rumos da trama, que está chegando ao final, há um subtexto que perpassa toda a ambiência e que comunica muito fortemente a perplexidade que toma conta de todos nós neste momento.

No encontro registrado pela cena, estavam tristes e com ar desenxabido não apenas a Rita e o Filipe, mas também a Alanis e o Pedro, ao mesmo tempo em papéis que lhes deram chance de revelar sua competência para o métier da interpretação (os dois ganharam bastante adesão do público), mas, sobretudo, simbolizando uma gama de sentimentos agora comuns a todos os brasileiros diante deste panorama invasivo e indesejável de pandemia.

Novela 'Malhação - Toda Forma de Amar': Rita fica com Filipe após ...
Alanis Guilen e Pedro Novaes: talento e carisma na Malhação 2020.

Tê-los como epicentro do último capítulo de “Toda forma de amar” tem uma simbologia ainda mais forte. Porque eram o par romântico que todos queriam ver juntos no final. Ademais para Alanis e Pedro, jovens atriz e ator, acostumados a gravar a novela cercados de pessoas as mais diversas — da figuração ao contrarregra, dos câmeras aos diretores -, ter de finalizar a história, que sempre tem um elenco majoritariamente jovem, sem um abraço, sem um beijo, num cenário vazio, no qual a solitude impera, inesperada e obrigatória, deve ter sido um momento inaugural estranho. E a sensação do espasmo diante de tantas interrogações e a imprecisão da continuidade, revestiu a cena de sutil assombro, afirmando a supremacia do enredo da vida real sobre a criação literária.

O que aconteceu com “Malhação” foi um caso claro de transcurso da comunicação, conforme a classificação proposta pelo mestre Artur da Távola em seus preciosos estudos sobre a linguagem televisiva, em especial sobre a telenovela. Segundo o jornalista/cronista/escritor, a comunicação segue um processo que abrange oito cursos. O mais conhecido deles é o discurso, sobre o qual recai a maior parte das análises. Mas há ainda os outros sete, que são: decurso, recurso, incurso, excurso, percurso, concurso e transcurso.

O transcurso é o mais complexo e profundo componente do curso da comunicação. Ele se faz em dois planos: através da comunicação e acima dela. Surge através de algo que vai além do curso habitual ou previsível, algo que o ultrapassa. Registra-se quando se estabelecem momentos muito especiais, únicos, dentro da comunicação: são fenômenos de integração súbita de toda uma equipe. Ele acontece raramente, jamais como norma ou técnica alcançada. Ao contrário, o transcurso escapa ao controle de qualquer técnica. É, por definição, súbito e incontrolável. A partir dele, obtém-se níveis profundos de comunicação e empatia.

O assunto é deveras instigante. Nesta “Malhação” 2020, há um caso claro de transcurso da comunicação no momento em que a pandemia de coronavírus se interpõe na vida do país. E foi isso que aconteceu com a atração das 18h: um transcurso, sabiamente incorporado à narrativa.

Câmera subjetiva substitui Domingos Montagner em 'Velho Chico' e ...
Morte de Domingos Montagner foi outro caso de transcurso encravado na narrativa.

Assim com “Toda forma de amar”, como semelhante foi no caso da morte do ator Domingos Montagner em plena realização da novela “Velho Chico”, em 2016. Lá, como cá, os autores do texto e a direção da novela (além da direção da emissora) absorveram com enorme competência e propriedade a manifestação do real em seus enredos ficcionais. Faz-se relevante, portanto, que ressaltemos o acerto na condução das narrativas.

No caso específico de “Malhação”, a autoria (escritores e diretores) assina seu passaporte para a história da teledramaturgia brasileira ao incluir, de forma oportuna, inteligente, importante e necessária, a dureza da pandemia na diegese da obra, na qual as tramas paralelas foram encerradas com o casal protagonista narrando em off os desfechos de cada uma.

O final de “Toda forma de amar” alcançou enorme repercussão nas redes sociais, dividindo-se os comentários entre elogios e críticas. A maioria não gostou do final sem um beijo, o que é sempre esperado nas histórias românticas, seja em que lugar ocorram, porém era absolutamente necessário cortar qualquer afago por conta da covid-19; outros tantos reclamavam que tal ou qual ponta da trama ficou sem esclarecimento.

Enfim, em que pese a validade das perguntas sobre a narrativa, o que mais conta é a afirmação da vitalidade da novela das 18h, como prova o grande índice de posts nas redes sociais. Outrossim, o que mais fica patente é o lugar de destaque que “Malhação” ganha na literacia da teleficção seriada.

“Malhação — Toda forma de amar” entra para a história da Teledramaturgia como o único exemplar brasileiro que incluiu a pandemia em seu discurso textual e imagético. Assim, o momento difícil e aflitivo pelo qual passa o Brasil (como de resto, o mundo inteiro) por causa do invisível inimigo, é histórico também através da narrativa dramatúrgica nacional, reafirmando, com louvor, a dialogia intensa, constante, bonita e convergente do real com a ficção.

Trama 2020 é de autoria de Emanuel Jacobina.

Enfim, Malhação — Toda forma de amar, de autoria de Emanuel Jacobina e com direção artística de Adriano Melo, teve final cercado de emoção, a qual veio muito mais da força do real invadindo o ficcional, do que propriamente dos impasses dramáticos que reclamavam solução. E, pela primeira vez na história, a Teledramaturgia Brasileira precisou mudar o rumo de sua trivialidade (a TV Globo interrompeu o curso normal de exibição das tramas e suspendeu todas as gravações de telenovela, por tempo indeterminado) para enfrentar uma pandemia como a que o planeta vive agora e #malhacao arrepiou colocando a gravidade da doença na diegese de “Toda forma de amar”.

Por tudo isso, “Malhação — toda forma de amar” entra para a posteridade com destaque e merece nosso aplauso. Portanto, a todos que participaram e contribuíram para a realização de mais uma MALHAÇÃO, nossos calorosos Parabéns !

Malhação: Toda Forma de Amar é menos vista que reprise de Por Amor ...

Novela teve boa audiência e temas fortes como o embate entre mãe biológica e adotiva.

Na quarentena, a teleficção como melhor companheira

Os Dias Eram Assim: supersérie fala de Ditadura e revive Diretas Já !

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   Renato Goes e Sophie Charlotte vivem par romântico que a ditadura separa                                                            

A seleção brasileira fazia o jogo final da Copa de 1970. Nas ruas, um clima de euforia. Na história que pulsava por baixo dessa euforia de quem está prestes a sagrar-se campeão mundial, corria outra sensação, a de aviltamento da dignidade humana, alicerce do período sombrio da ditadura brasileira.

Há uma dor funda e recente que cerca esse momento da vida brasileira. Aquele tempo ainda não foi bem assimilado na memória nacional. É difícil falar sobre aqueles dolorosos anos e, talvez por isso, ainda há quem duvide que eles existiram de fato.

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Daniel de Oliveira, Antônio Calloni e Marco Ricca em atuações memoráveis como apoiadores do regime que suprimiu as liberdades no Brasil por mais de 20 anos.

O período sombrio que extirpou a liberdade do cotidiano nacional cheira a repressão, ditadura, violência, aviltamento dos direitos fundamentais, cerceamento da liberdade, e é sobre isso que fala a supersérie Os dias eram assim.

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Estreada no último dia 17 de abril, a obra tem co-autoria de Ângela Chaves e Alessandra Poggi, e direção capitaneada pelo mestre Walter Carvalho (o festejado paraibano diretor de fotografia de tantos trabalhos memoráveis), com direção geral de Carlos Araújo.

É nesse contexto da ditadura, tematizado em Os Dias eram assim, que Alice (Sophie Charlotte) e Renato (Renato Góes) se conhecem e iniciam uma história de amor que vai atravessar quase duas décadas, cruzando com eventos históricos importantes. Da repressão às Diretas Já, o amor vai passar por vários percalços, e talvez sobreviva: medo, intrigas, separação, dor, tristeza, esperança.

Renato é médico e primogênito de uma família de classe média, moradora de Copacabana. Tem dois irmãos, os estudantes Gustavo (Gabriel Leone) e Maria (Carla Salle).  O pai era professor universitário e a mãe é dona de uma livraria, Vera (Cássia Kis). Cada um a seu modo, estão todos engajados na luta pela liberdade: enquanto Gustavo sai às ruas, Maria usa a arte como forma de expressão.

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Alice (Sophie Charlotte), mocinha da trama, é a protagonista que simboliza o feminismo nascente nos anos de 1970.

No universo da jovem Alice (Sophie Charlotte), a batalha é contra o pensamento conservador da família. Questionadora, a estudante sempre bateu de frente com os pais. Dono de uma construtora, Arnaldo (Antônio Calloni) é um empresário rico e de padrões fascistas: não se conforma com o fato de a mulher, Kiki (Natália do Valle), nunca ter conseguido reprimir a inquietude da filha. Para ele, a mulher é a culpada por tudo de ruim que acontece no lar e na família. O empresário é um típico vilão, homem deplorável que causa nojo e revolta, feito com invejável maestria por um Ator do quilate de Antônio Calloni.

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Alice apaixona-se por Renato e, a partir daí, começa a ter rasgos de insuspeitada coragem: o primeiro passo é ir contra o desejo dos país e contrariar o principal projeto deles para a vida dela: a jovem rompe o namoro de anos com o machista Vitor (Daniel de Oliveira), que não se conforma com o rompimento. Tudo o que Vitor deseja é tornar-se dono da fortuna do pai de Alice. O casamento seria a concretização de seu ideal.

O abjeto Vitor é braço-direito de Arnaldo na construtora, e filho  arrogante e oportunista Cora (Susana Vieira). Os mundos de Renato e Alice se cruzam por amor e serão separados pela divisão ideológica entre as duas famílias, potencializada pelo ambiente político reinante no país. Ambientada entre as décadas de 70 e 80, período que vai da repressão às Diretas Já, a supersérie Os dias eram assim é exibida por volta das onze da noite e vem tendo boa audiência.

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O comício das Diretas Já serviu de belas cenas para a teleficção…

Aqui, como em todo o formato da teleficção audiovisual, o drama amoroso é o grande motim: “A História é o pano de fundo dessa trama de amor. Tratamos de encontros e desencontros desse casal que é separado de forma abrupta e, depois, vai se reencontrar quando os dois já não são mais os mesmos”, diz Ângela. Já Alessandra afirma: “Alice e Renato vivem uma história de amor muito forte no primeiro momento, mas, quando são separados, cada um resolve seguir sua vida. A maior parte da história ocorre após o reencontro, no período de pré-abertura política, em 1984”.

Para nós, soa engraçado, para não dizer apressado e preconceituoso, os comentários acerca da supersérie que pretendem analisar uma obra que não é a que está na TV. A supersérie fala sobre uma história de amor interrompido, como assim acontece em qualquer obra teledramatúrgica. Basta ler um pouquinho sobre o tema para saber que a telenovela tornou-se nosso maior produto cultural de exportação e ocupa um lugar de destaque na programação televisiva diária, sendo que existe desde  1951. A partir de 1963, tornou-se atração diária. De lá pra cá, o gênero se consolidou e tem clara filiação melodramática. Portanto, querer ver uma telenovela e acreditar que seu principal enfoque não será uma história de amor é desconhecimento, ingenuidade ou má vontade.

Seguindo o raciocínio, o que nos parece mais instigante é justamente o fato de repetir-se uma fórmula, absolutamente popular e consagrada, e, mesmo assim, continuar agradando e atraindo imensa audiência. Fazendo uma analogia com o cardápio gastronômico, a telenovela é assim uma espécie de bolo: todo mundo tem um preferido. Logo, sabemos haver uma enorme variedade, que atende a múltiplos gostos, mas a base da receita é sempre a mesma: atrai inúmeros seguidores, pode ser feita com diferentes ingredientes, e o que sobressai é um paladar de alta fidelidade: não há quem não goste de bolo, embora as preferências de gosto variem constantemente.

Pois é, e ainda argumenta-se que a história de Os dias eram assim tem clichês típicos de novela. Ora, pois, se uma mini ou superssérie é assim um ‘primo rico’ da telenovela, como não ter clichês típicos do gênero ? Como fugir ao padrão que tornou a ficção seriada o carro-chefe da programação televisiva brasileira ? E por que haveria de se mexer num ‘time que está ganhando’?

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Danilo e Camila, casal de “Amor de mãe”… Mas afinal, quem não gosta de um bom romance ?

Não estamos assistindo a um filme ou acompanhando uma encenação teatral: Os dias eram assim é uma supersérie. Segue o mesmo esquema básico clássico de uma telenovela, apenas o formato é menor que o desta, embora maior que o de uma minissérie. Seguindo com nossa analogia, o bolo pode ter outro formato e recheio, mas será sempre um bolo, e não um risoto, um uma macarronada ou uma feijoada.

A fórmula de telenovelas, minisséries, microsséries, casos especiais, superséries – teleficção audiovisual – é a mesma há dezenas, e o que encanta é ela permanecer sempre igual em sua diferença de cada novo título. Sempre com a mesma força e capacidade de atrair. E talvez aqui resida um dos trunfos de seu aprimoramento e apuro técnico: como há um sequenciamento ad infinitum do mesmo formato, as equipes realizadoras das telenovelas se esmeram, cada vez mais, ao longo de toda a história da Teledramaturgia Brasileira, em fazer com mais qualidade, primando pela capacitação de seus profissionais.

Isso é o que podemos constatar observando a enorme penetração da produção brasileira no exterior (mais de 130 países compram nossas telenovelas). E quanto mais esse mercado foi crescendo ao longo dos anos, mais o gênero se consolidou e as equipes técnicas, imensas e valorosas, foram sendo lapidadas – direção, fotografia, luz, cenário, maquiagem, direção de arte, trilha sonora e musical, caracterização –, chegando ao patamar que hoje vemos diariamente na telinha e que nos impactam, cada dia mais, pela excelência técnica e artística que exibem.

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Niko e Félix, o par romântico de “Amor à vida” que ganhou torcida nacional em 2014.

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Luzia e Beto Falcão: uma paixão que emocionou a audiência de “Segundo sol”

Afinal, se a história de amor incomoda por ser o fundamento dos enredos é porque o tempo consagra como clichê o que é  considerado bom para a grande maioria. E o clichê foi popularizado por ser reconhecidamente atraente e imbuído de qualidades intrínsecas: quem descobriu, aderiu, quis imitar, virou moda e contagiou. E o poeta Fernando Pessoa sabia tanto e tão bem disso que imortalizou o melhor e mais sábio de todos os clichês: o Amor.

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Leleco (Marcos Caruso) e Tessália (Débora Nascimento): casal rendeu bons momentos em “Avenida Brasil”

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Mercedes e Josafá: casamento na 3a idade foi das melhores coisas de “O outro lado do paraíso”

E, parafraseando o notável poeta português, dizemos:

Todas as histórias de amor são

Ridículas.

Não seriam histórias de amor se não fossem

Ridículas.

As histórias de amor, se há amor,

Tem de ser ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca curtiram

Histórias de AMOR

São ridículas.

As verdadeiras RIDÍCULAS !

É que são Rídiculas.

 

A atualidade de Patativa em tempos de irresponsabilidade social

     Eu sou da classe matuta, da classe que não desfruta das riquezas do Brasil

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Em todo o mundo, a vida social anda em perigo. Não tem sido fácil acompanhar as notícias, tão graves e sérias, sobre a situação de vários povos do mundo, vitimados pela pandemia do Covid19.

Diante da situação alarmante que o país atravessa – com mínimas condições (será nenhuma ?) de atender sua população – sobretudo os mais velhos e mais carentes -, choca assistir, cotidianamente, aos disparates, impropérios, inconsequências e bravatas do titular da República. São tantas e tão colossais que, mesmo grande parte dos que nele votaram (não sem aviso de jornalistas e cientistas do mundo inteiro de que o caos era o ponto mais rápido a se chegar), hoje estão bradando contra o insano “mito” e protestando diariamente nas janelas, nos quatro cantos do país.

A arrogância e prepotência do ex-candidato 17 passou de qualquer limite aceitável, embora uma parcela renitente prossiga defendendo a peste, agarrando-se a qualquer fio de razão (?), ainda que essa venha a bordo de um calhamaço de fakenews.

Estamos todos, os que podemos (há diversos trabalhadores que precisam continuar na rua atuando em prol da coletividade), cumprindo regime de quarentena em nossos lares. Nesta hora, a arte, a ciência, a literatura, a música, o audiovisual, todos que foram tão duramente golpeados pela ideologia fascista que aportou no centro do poder, em Brasília, tem uma utilidade que agora se agiganta. Os que tanto atacaram, vilipendiaram e levantaram calúnias, de todos os matizes, sobre as universidades (sobretudo as públicas), agora precisam admitir o quanto é importante e necessário que elas funcionem bem para que a vida em sociedade tenha alguma condição de sobrevivência saudável. Mas esses, otários e arrogantes diplomados, continuam se negando a admitir que erraram fartamente ao defender o indefensável, o contrassenso, o caos, e a excrescência que o voto no #elesim significa, condenando uma imensa maioria ao massacre atual da ignorância e da irresponsabilidade que afunda o país num manancial de ações nocivas contra sua grande massa trabalhadora – de artistas a profissionais dos serviços básicos coletivos.

A degradação a que o energúmeno-mór chegou é tamanha que até alguns que já lhe foram próximos, agora se espantam e tomam caminhos opostos, ainda bem. Aliás, alguns já declararam o erro de seus votos há algum tempo, felizmente.

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Patativa do Assaré: símbolo cearense da bravura indormida do sertanejo

Tudo isso me veio a propósito de encontrar uns versos do poeta popular cearense Patativa do Assaré (a quem tive a felicidade de conhecer quando ainda cursava a faculdade de Comunicação e apresentava teleaulas diárias na TV Educativa do Ceará) numa rede social. Os versos são da poesia “Seu dotô me conhece ?”, os quais foram ditos por um quase desconhecido poeta popular do cariri cearense no principal palco da capital cearense, o histórico Theatro José de Alencar, no centro da cidade, durante o evento Massafeira Livre.

Artistas de várias áreas estavam juntos nos quatro dias do festival, realizado em março de 1979, embora com censura por parte do governo e quase invisível para a imprensa à época. A entrada de Patativa no palco, aquele sertanejo muito simples, baixinho, vestido sem nenhum figurino especial de artista, tendo ele mais idade do que todos os que lá estavam para tocar e cantar, foi um marco, como conta o colega Nelson Augusto (jornalista/radialista e produtor do programa Frequência Beatles, da Rádio FM Universitária de Fortaleza) em tese do professor e compositor Wagner Castro (2014).

Com sua voz inconfundível e seu jeitinho marcante, Patativa foi quem inseriu, de modo incisivo, a política no meio da cantoria daqueles artistas – irmanados, em movimento encabeçado pelo compositor Ednardo e o letrista/publicitário Augusto Pontes, para mostrar sua produção artística.

Pois foi ali que Patativa chegou com sua verve admirável e recitou os versos, que mais adiante foram musicados pelo querido Mário Mesquita (cantor/compositor/letrista/arranjador), um dos criadores do lendário conjunto musical Quinteto Agreste, de grande atuação na cena musical cearense na década de 1980.

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O templo de Alencar testemunhou então uma imensa plateia ouvindo em atenção respeitosa o poeta dizer:

“Seu doutor só me parece

Que o senhor não me conhece

Nunca soube quem sou eu

Nunca viu minha palhoça

Minha muié (mulher), minha roça e os fio (filho) que Deus me deu

Se não sabe escute agora

Eu vou contar minha histora (história)

Tenha a bondade de ouvir

Eu sou da classe matuta

Da classe que não desfruta da riqueza do Brasil”

E eu fiquei daqui a pensar que falta faz Patativa nesta fase tão difícil, tensa e triste da vida brasileira. Assim como fazem falta Vinícius, Ferreira Gullar, Dias Gomes, Drummond, Belchior, Luiz Melodia, Fernando Brant, e tantos outros.

Reler Patativa hoje me projetou vivamente para a imensa massa de carentes, trabalhadores em condições precárias, moradores de rua e necessitados de toda ordem, habitantes de inúmeras comunidades desassistidas que reafirmam cotidianamente o projeto de Brasil que exclui a partir da educação, como tão bem evidenciou Darcy Ribeiro.

A “crasse matuta” da “histora” de Patativa é a mesma imensa crasse das favelas do Brasil, mergulhada num deserto permanente de descaso e iniquidade, tal qual o pobre matuto do sertão que Patativa cantava. Nascido, criado e vivido ali, no seu pequenino e esquecido Assaré, o poeta sabia exatamente das dores, agruras, sofrimentos e descasos de que eram vítimas seus conterrâneos.

A poética de Patativa tem uma impressionante atualidade. Basta conhecer para engatar a analogia: seus versos ecoam como se saídos da união das vozes dos milhões que formam essa “crasse”, desassistida e vitimada desde sempre pela exclusão, o descaso criminoso, o preconceito e os resquícios da malfadada escravidão que fertiliza, ainda hoje, o território nacional.

“Sou aquele que conhece

A privação que padece

O mais pobre camponês

Tenho passado na vida

De quatro mês em seguida sem comer carne uma vez

Sou que durante a semana

Cumprido a sina tirana na grande labutação

Mode de sustentar a famía (família)

Só tem direito a dois dia

O resto é para o patrão

Sou sertanejo que cansa de votar com esperança

Do Brasil ficar mior (melhor)

Mas, o Brasil continua na cantiga da perua

Que é: pior, pior, pior”

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Sua bênção, Patativa !

Favelados, sertanejos e nordestinos de todo o país,

Estamos na mesma canoa:

 “O Brasil continua na cantiga da perua,

Que é pior, pior, pior !”

 

E por falar em quarentena, que tal rever “Amores Roubados” ?

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Minissérie de 2014 é trunfo da teleficção

*Aurora Miranda Leão

A começar pela expressividade do layout do título e pela impactante abertura, AMORES ROUBADOS é produção singular da nossa Teledramaturgia. Sou das que acompanharam a exibição na grade da programação da TV Globo em 2014 e recomendo que a assistam.

Quem me acompanha ao longo de minha caminhada como jornalista e pesquisadora de teleficção seriada, sabe o quanto aprecio a narrativa ficcional televisiva. Quando as obras são boas – como esta AMORES ROUBADOS -, aí mesmo é que faço questão de dizer que vejo e vejo com prazer ! Porque amo Dramaturgia – seja no Teatro, no Cinema ou na TV. Assumimos desde sempre que o bom é viajar por outras histórias, inventadas por outras cabeças, recheadas de outras fantasias, que não as nossas. Afinal, como diz o poeta gaúcho Carpinejar, nem a nossa história deixa de ser fantasiada por nós mesmos.

O roteiro de Amores roubados é de George Moura, pernambucano que também assina a autoria de “Onde nascem os fortes” (supersérie exibida em 2018), a partir de obra de Joaquim Maria Carneiro Vilela – advogado, ilustrador, pintor paisagista, cenógrafo, juiz, bibliotecário, secretário de Governo, fabricante de gaiolas, e escritor -, escrita entre 1909 e 1912, e merecedora de várias adaptações para o teatro e o cinema. Mas, por certo, o fato de ter obra sua exibida na programação da emissora líder de audiência no país, fará com que o nome do escritor seja definitivamente inscrito entre os grandes de nossa Literatura. Com o título original de “A emparedada da rua Nova”, Carneiro Vilela dizia que a história viera de um relato ouvido de uma escrava. Até hoje, não se sabe ao certo o que foi ficcionado pelo autor e o que realmente aconteceu.

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Cauã Reymond é Leandro, um típico “don juan” contemporâneo do sertão…

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Minissérie marca estreia de Jesuíta Barbosa na telinha: ele faz Fortunato, grande amigo de Leandro (Cauã Reymond).

Mas só em ter valido esta primorosa minissérie, já ganhou – e muito – a história de nossa Teledramaturgia, enriquecida pelas interpretações poderosas de Murilo Benício – um ator que consegue passar todo o sensório de seus personagens só com o olhar -, Irandhir Santos, Cauã Reymond, Isis Valverde, Patricia Pillar (soberba em sua angústia lancinante e silenciosa), Cássia Kiss, Osmar Prado, Dira Paes, César Ferrario, Jesuíta Barbosa, Magdale Alves e Thierry Tremouroux.

PRINCIPAIS DESTAQUES: 

– Direção precisa de José Luiz Villamarim, direção de arte, e fotografia de Walter Carvalho;

– O set, os enquadramentos e a atuação de Osmar Prado e Cássia Kiss na cena do acerto de contas;

– A frieza e vilania intrínseca do personagem Jayme, rapidamente tratando de se ‘descartar’ da conversa ‘incômoda’ do sogro Antônio;

– A luz da cena entre Jaime e o delegado (Walter Breda), num lindíssimo enquadramento em silhueta;

– A conversa entre Jaime e Cavalcante – Murilo Benício de costas, passando toda a emoção somente com a voz – genial !

– A comovente e quase pueril fala de Antônia, encharcada de emoção no velório do avô – ISIS VALVERDE divinal, uma nordestina com naturalidade, beleza singular e profunda empatia, levando o telespectador às lágrimas;

– O encontro de Antônia e Fortunato na beira do rio São Francisco…

* A inserção da bela Jura Secreta, música de Sueli Costa e Abel Silva, cantada de forma singular por um contagiante Raimundo Fagner;

* A qualidade das atuações de Irandhir Santos e César Ferrario numa pujança de força magistral entre dois talentos nordestinos;

* A tocante cena entre Cássia Kiss e Jesuíta Barbosa marcando mais pontos na atuação poderosa do elenco e ressaltando uma direção de arte poderosa a favorecer o contraste entre o vermelho ‘revelador’ da personagem de Cássia, o floral do guarda-chuva e a aridez rochosa às margens do São Francisco;

* Patrícia Pillar e Murilo Benício – contracena de Gigantes !

* Lindíssimos momentos de Isis Valverde, quer seja na fotografia magistral de Walter Carvalho, bem como da atuação emocionada e emocionante da atriz;

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* A sintonia precisa entre Isis e Benício em momentos de revelações perturbadoras;

* O quadro poderoso do grande campo de arames farpados como desfecho para o fim do grande vilão, o temido e maligno Jaime, quando a cena ganhou primorosos ares de réquiem;

* O belíssimo final à beira do rio reunindo 3 gerações – filha, neto e avó, preconizando possíveis (?) novos tempos de calmaria na vida conturbada, triste e sombria da família de Jaime – Isis e Patrícia em belos movimentos de interação mãe-filha X atriz tarimbada-atriz em ascensão !

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Cena final une Isis Valverde e Patrícia Pillar.

De somenos: o não fechamento do destino de João (Irandhir Santos) – personagem e ator mereciam ter sua história amarrada junto ao público; e o do personagem Oscar (Thierry Tremouroux), professor de música da Orquestra Sanfônica, projeto idealizado por Isabel (Patrícia Pillar), ‘exilado’ da cidade a mando de Jaime, e tendo que se passar por Leandro…

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O diretor José Luiz Villamarim dirige Dira Paes e Cauã Reymond…

Amores Roubados é um produto de excelência, que ganhou (como apontamos em artigo de 2014) muitos prêmios: direção, fotografia, ritmo, direção de arte, edição, trilha e atuações magníficas num roteiro de suspense, rico em diálogos bem elaborados e coerentes com o cerne da história. DEZ é ainda pouco para AMORES ROUBADOS ! E é um orgulho para quem, como eu, fica feliz em poder aplaudir a grandiosidade dos nossos artistas e a qualidade a que chegaram os técnicos brasileiros ! Que Teledramaturgia de alto nÍvel faz o Brasil !

As casas dos moradores do distrito estão sendo usadas nas gravações. Um carrossel foi colocado perto da igreja do distrito, que foi expandida para as cenas. Os próprios moradores estão atuando como figurantes em 'Amores Roubados'

O interior do Nordeste brasileiro, fonte perene para a ficção teleaudiovisual.

*Você pode conferir a minissérie inteira acessando o Globo Play. A plataforma pode ser acessada de graça nestes tempos de pandemia.

Pandemia: assunto popular, como a novela. Valmir Moratelli comenta

Valmir Moratelli analisa contexto atual da narrativa preferida dos brasileiros diante da pandemia que fez TV Globo alterar programação

Jornalista, escritor, poeta, cineasta e doutorando em Comunicação pela PUC-Rio, Valmir Moratelli tem como epicentro de suas pesquisas acadêmicas a teleficção brasileira.

Convidado para escrever sobre o panorama atual, que alcança também as telenovelas da TV Globo, reproduzimos aqui a apreciação de Moratelli sobre o momento insólito pelo qual passa essa paixão nacional com quem convivemos desde que a TV Globo levou ao ar sua primeira telenovela, ainda em 1965.

Em nota oficial divulgada na segunda, 15 de março, a emissora informou sobre a suspensão das gravações de suas novelas, a antecipação do final de outras e a inclusão de novas reprises na grade de sua programação. A nota gerou diversas reportagens e causou bastante repercussão nas redes sociais esta semana.

Em bela matéria do colega Marcelo Canellas, a emissora afirma:

“não há novelas sem abraços, apertos de mãos, beijos, festas, cenas de briga, cenas de amor, cenas de carinho, tudo aquilo que reflete a vida real”.

As medidas, super acertadas, tomadas pela direção da TV Globo incluem: intensa cobertura jornalística sobre a Covid-19, liberação da plataforma Globo Play e dos canais de televisão fechada da Globosat (Globo News, SporTV, Multishow, Telecine, Canal Brasil, dentre outros). Uma demonstração clara, relevante e inconteste de responsabilidade social, solidariedade e exemplar respeito ao público, de parte da maior emissora de televisão do Brasil.

Vejamos então o que diz Valmir Moratelli* sobre o tema:

“Em decisão inédita na história da teledramaturgia brasileira, a medida adotada pela TV Globo é uma forma de prevenir a pandemia. Mas o que significa esta paralisação para o país que tem nas novelas sua principal fonte de entretenimento gratuito? Como a população vai se manter em casa, em quarentena pelas próximas semanas, se abstendo das tramas que vinha acompanhando como “Malhação”, “Salve-se Quem Puder” e “Amor de Mãe”? Apenas “Éramos Seis“, já nos últimos capítulos, terá um desfecho. Sua substituta, “Nos Tempos do Imperador”, precisará esperar o desenrolar do drama real que a população enfrenta no combate ao Covid-19.

“O silenciar das novelas acompanha o desenrolar de um assunto grave, da ordem de saúde pública”, afirma o especialista (Foto: Divulgação)

Interromper uma novela não é tão comum no Brasil. Por outros motivos, a TV Globo já teve que embargar produções em andamento. “Roque Santeiro”, de 1975, tinha 10 capítulos editados e quase 30 gravados quando, na noite de estreia, foi proibida de ir ao ar. No ano seguinte, o mesmo aconteceu com “Despedida de Casado”, que vinha sendo escrita para às 22 horas. Em ambos os casos, o bloqueio foi imposição da censura do Governo Militar.

Há também exemplos de produções que foram encurtadas drasticamente por rejeição do público e consequente queda da audiência. Os telespectadores largaram de lado “Cuca Legal”, de 1975, e a novela de Marcos Rey foi encurtada para 118 capítulos. Em 2001, “Bang Bang”, de Mario Prata, perdia público a cada exibição, o que fez a direção da emissora diminuir a duração dos capítulos que, dos habituais 55 minutos, passaram para 45. “As Filhas da Mãe”, de 2001, teve audiência abaixo do esperado. Resultado: A trama de Silvio de Abreu terminou com 125 capítulos. A título de comparação, o sucesso retumbante de “Avenida Brasil”, de 2012, teve 179 capítulos – dois meses a mais no ar.

O que acontece agora em nada se compara com os exemplos do período da ditadura, quando produções foram interrompidas por ordem do governo, ou com tramas encurtadas por questão de audiência, imprimindo a implacável força do mercado. O público fica, já na próxima semana, sem os capítulos inéditos por decisão estratégica da emissora, visando a não colocar em risco de contágio ao Covid-19 os quase 300 funcionários – entre elenco, equipe técnica e de produção – que trabalham em cada obra.

“O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma”

No comunicado enviado à imprensa, a TV Globo informou que tomou a decisão por coerência com os aspectos característicos da sua teledramaturgia, visto que “não há novelas sem abraços, apertos de mãos, beijos, festas, cenas de briga, cenas de amor, cenas de carinho, tudo aquilo que reflete a vida real, mas que, hoje, não pode ser encenado em segurança”. No livro “O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma” (2019, ed. Autografia), resultado de uma pesquisa de mestrado, detalhei duas décadas recentes de produções da emissora, entre 1998 e 2018, diante das transformações políticas de quatro presidentes (Fernando Henrique Cardoso, Luis Inácio Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer).

As telenovelas brasileiras são reflexo dos nossos tempos, servindo de registro histórico às mudanças sociais. Estabilidade econômica, diversidade sexual, a questão das cotas, ascensão da chamada classe C, maior participação das mulheres no mercado de trabalho. Nada passou incólume pelas ficções da TV. E agora que o mundo se vê obrigado a parar as atividades a fim de frear a pandemia, não seria diferente com a ficção. O silenciar das novelas acompanha o desenrolar de um assunto grave, da ordem de saúde pública, arremata Moratelli.

Protagonistas da novela ‘Amor de Mãe’, que teve gravações interrompidas esta semana TV Globo. (Reprodução/Globo)

Em um país onde 99% dos lares brasileiros têm televisão, forjando gerações diante dos amores e dissabores de protagonistas e vilões, fica difícil imaginar um cenário em que nossas rotinas, momentaneamente, serão sem novas novelas. É verdade que a audiência geral da TV aberta vem caindo em relação à última década, principalmente pela maior oferta de streaming, catapultando o telespectador a ser programador de sua TV. O momento é propício ao crescimento dessas novas plataformas– a própria GloboPlay vem lançando séries e documentários inéditos. Mas nem todos os órfãos de novelas vão migrar para a GloboPlay ou Netflix.

Dados do IBGE mostram que mais de um terço dos domicílios brasileiros ainda não têm acesso à internet. Interromper suas novelas é um recado que a TV Globo dá à sociedade e às autoridades. O cancelamento de uma “instituição nacional”, como é o caso da novela das 21h, transmite a ideia da seriedade coletiva que o país precisa ter pelas próximas semanas.

Parte do elenco da novelo Avenida Brasil, uma das reprises transmitidas pela Rede Globo neste momento de pandemia. (Reprodução/Globo)

No lugar das produções interrompidas nos últimos dias, a TV Globo vai reexibir tramas bem aceitas pelo público (“Totalmente Demais” e “Fina Estampa”, por exemplo), além de aumentar o tempo de transmissão dos telejornais no canal aberto e reforçar o conteúdo da GloboNews. O que também vem em boa hora para a emissora, visto que a CNN Brasil estreou no final de semana trazendo possibilidades de concorrência à altura de seus programas. Oferecer escolhas internas ao público, cada vez mais exposto a outras opções, é uma estratégia certeira. Enquanto a população fica sem os afagos de “Amor de Mãe” , ou aguarda pelas aventuras de “Nos Tempos do Imperador”, resta-nos entender que quarentena não é drama e nem histeria. É o mundo real chacoalhando nossas rotinas a tal ponto que interrompeu até a ficção. A telenovela há de resistir. Até porque esperamos todos por um happy end.

* Valmir Moratelli é jornalista e doutorando da PUC-Rio.

*Artigo originalmente escrito para o site da jornalista Heloisa Tolipan.