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Ao filmar Alice Gonzaga, Betse de Paula dialoga com Umberto Eco e agiganta nossa alma !

                                                                                                      *Aurora Miranda Leão

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Novo filme de BETSE DE PAULA abre esta noite a Mostra de Ouro Preto

“Já tá gravando, então volta que eu vou caprichar melhor !”

É assim que Alice Gonzaga diz para a cineasta Betse de Paula quando esta começava a gravar na CINÉDIA as imagens inaugurais com a notável pesquisadora para levar adiante o projeto do documentário DESARQUIVANDO ALICE GONZAGA, que esta noite abre a Mostra de Cinema de Ouro Preto.

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Alice é assim, uma mulher multicor, híbrida, uma composição de várias facetas, espontaneidade e bom humor sempre a postos !

Recebo o trailer que a AURORA CINEMATOGRÁFICA está a lançar no Vimeo e me emociono com a grandeza do filme que Betse de Paula realizou. E logo me vem as palavras de Edgar Morin:

“Literatura, poesia, cinema, psicologia, filosofia deveriam convergir
para tornar-se escolas da compreensão. A ética da compreensão humana
constitui, sem dúvida, uma exigência chave de nossos tempos de
incompreensão generalizada: vivemos em um mundo de incompreensão
entre estranhos, mas também entre membros de uma mesma sociedade, de
uma mesma família, entre parceiros de um casal, entre filhos e pais. […] A compreensão humana nos chega quando sentimos e concebemos
os humanos como sujeitos; ela nos torna abertos a seus sofrimentos e suas
alegrias. É a partir da compreensão que se pode lutar contra o ódio e a exclusão.”

Não, eu não vi o filme ainda, mas esse trailer super bem editado é o prenúncio de um documentário de escol, que tenho certeza, a cineasta carioca realizou.

Sabendo de antemão da qualidade artística de Betse, que tem filmes ótimos como a comédia Vendo ou Alugo e o precioso documentário sobre Sebastião Salgado – além de ter uma carreira marcada por aprendizados com mestres do quilate de Jean-Claude Carrière, Doc Comparato, Joaquim Pedro de Andrade, e Syd Field -, Betse de Paula coleciona prêmios. São estatuetas de vários festivais de cinema do país e também do exterior. Todas são prova da competência e vocação de BETSE de PAULA para a Sétima Arte.

Saber que Alice Gonzaga vai chegar em breve às telas de todo o país a bordo desse filme-emoção que é DESARQUIVANDO ALICE é por si só uma alegria. Constatar que minha amiga querida vai ganhar a telona pelas lentes e o olhar acurado de Betse de Paula é muito mais que uma alegria: é um chafariz a espargir emoção !

O que Betse de Paula conseguiu ao realizar um documentário sobre Alice Gonzaga tem uma grandeza que só pertence aos que militam no território da emoção.

O trailer da Aurora Cinematográfica tem pouco mais de 2 minutos mas tempo suficiente para revelar a riqueza da narrativa que Betse construiu sobre este Patrimônio Brasileiro que  é ALICE GONZAGA.

Captando cenas de Alice Gonzaga em casa, na rua, por entre suas milhares de pastas de arquivos de cinema e de cultura geral, e criando uma dialogia que é da personagem com diversas etapas de sua vida. Seja evidenciando o trabalho meritório do pioneiro Adhemar Gonzaga ou mostrando Alice no colo da mãe, e ainda menina participando dos filmes produzidos pelo pai e que poderiam ter iniciado uma bela carreira artística para a sapeca lourinha, Betse de Paula ressignifica a história do pioneirismo de Adhemar Gonzaga e evidencia a passagem do tempo com uma delicadeza só possível às grandes almas.

Ao captar os vários tempos de Alice, e editar o vasto material colhido com a sensibilidade que vai chegar ao ecrã, Betse protagoniza uma justa e emocionante Homenagem “a maior arquivista do Brasil”: referenda a atuação da Primeira Dama do Cinema Brasileiro e alça voo rumo a um lugar imbuído de magnitude, qual seja o de repartir história, consolidar conhecimento e reafirmar a força precípua da memória, aventurando-se no difícil território da delicadeza, que perfaz uma linha muito tênue com o pieguismo e a puxa-saquice, mas que, ao contar com a inteligência e a sensibilidade de Betse, converte-se outrossim em força de exemplar significação, muito além do que qualquer opinião precipitada possa supor.

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Alice Gonzaga e os preciosos arquivos da Cinédia…

DESARQUIVANDO ALICE reveste-se de relevância ainda maior porque se insere neste tempo de valores incertos e passageiros, de afetos descartáveis, de desatenção ao humano, de refração da memória, misto de insensibilidade, desconhecimento, desvalorização do permanente (ao invés do antigo), e avidez pelo novo que logo se esvai em busca de um novo mais novo.

A potência do documentário de Betse de Paula contrapõe-se exatamente ao caos informativo vivido na contemporaneidade, e que foi tão bem expresso pelo saudoso Umberto Eco:

“A abundância de informações sobre o presente não lhe permite refletir sobre o passado. Quando eu era criança, chegavam à livraria talvez três livros novos por mês; hoje chegam mil. E você já não sabe que livro importante foi publicado há seis meses. Isso também é uma perda de memória. A abundância de informações sobre o presente é uma perda, e não um ganho.”

Portanto, Desarquivando Alice é, de cara, um acerto porque reflete um ganho ! E Betse de Paula ao realizá-lo revela extrema coragem, tão mais forte quanto mais profunda porque sem alarde.

Nestes tempos em que a memória é aviltada ao correr do vento, Betse de Paula inscreve-se como cineasta que acredita na construção de afetos, valores e memórias, e proclama, através dos frames de seu “desaquirvo”, a força da delicadeza, a pertinência da sensibilidade, a necessidade da cultura, e o cultivo da tolerância. São esses os cânones de um cinema que ela realiza com maestria e o faz com a consciência de ser uma cidadã que empresta a seu cinema o lugar de repositório do belo, onde está inscrita a Arte Maior, da qual comunidade nenhuma pode abdicar, sob pena de elegermos motivos para a concretização de uma Sociedade de Poetas Mortos.

E, se a memória é nossa alma, como disse Umberto Eco, visitar a memória, promovê-la, dar a ela o lugar de Patrimônio que merece, é reavivar sua glória, declarar seu valor e a importância de sua preservação. Visitar a memória é aumentar a alma.

E o que Betse de Paula faz ao sublinhar a importância da memória através de Alice Gonzaga é agigantar nossa alma ! 

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Betse de Paula, Daisy Lúcidi, Alice Gonzaga e Natália Thimberg…

Com DESARQUIVANDO ALICE GONZAGA,, Betse de Paula afirma a eloquência do Cinema, confirma a Sétima Arte como lugar de fala necessário para a demarcação de territórios do sensível, e reafirma a importância das mulheres – a partir de Alice Gonzaga e dela mesma – para a construção de espaços nos quais a injustiça morra de sede, a ingratidão não saiba nadar, a injustiça capengue de inanição e a liberdade possar voar sem medo de ousar e ser feliz !

A Betse de Paula, nosso aplauso mais calorosos pela ousadia de seu cinema, e a Alice Gonzaga outros tantos aplausos pela sua não menor coragem de se expor para as lentes, sem mentiras – sem forjar uma Alice que não é, sem esconder ou negar suas idiossincrasias, suas opções, seu modo de ser e estar no mundo -, repleta de uma verdade que ela assume sem poses ou subterfúgios, e que, por isso mesmo, é uma mulher além de seu tempo !

 

Betse de Paula afirma: “Alice Gonzaga é um gigantesco google de papel, memória viva do nosso Cinema !”

Alice 2010 Conservatória

A noite da próxima quinta-feira será de festa na cidade mineira de Ouro Preto: naquela noite, a cineasta Betse de Paula estará lançando seu mais novo filme – DESARQUIVANDO ALICE GONZAGA – na sessão inaugural da décima-segunda edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto – CineOP –, que será aberta àquela data em cerimônia oficial.

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Betse de Paula em noite de entrega do concorrido KIKITO…

Cineasta, produtora e roteirista premiada, desde a infância Betse de Paula vive às voltas com as artes. A família tem vasta tradição, formada por respeitáveis nomes do cinema, do teatro e da TV, como o pai, o cineasta e produtor Zelito Vianna; o tio Francisco (Chico) Anysio, um dos maiores nomes do humor brasileiro; a tia atriz e diretora teatral Lupe Gigliotti; a prima atriz e diretora de televisão Cininha de Paula; e os primos atores, dubladores e radialistas Nizo Neto, Lug de Paula e Bruno Mazzeo, além de ter sempre convivido com grandes nomes da arte brasileira, em especial do cinema, e em particular do Cinema Novo, que frequentavam a casa paterna, como Glauber Rocha, Mário Carneiro, Carlos Diegues e David Neves. Mas foi com o irmão, o futuro ator Marcos Palmeira, que Betse de Paula ainda criança teve a primeira aproximação ao mundo da arte, concebendo e dirigindo peças para o mano atuar.

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Betse de Paula com o irmão Marcos Palmeira no Programa do Jô

A carreira de Betse de Paula é marcada pelo refinamento da matriz cômica, em que atinge a maturidade e o reconhecimento crítico, com o sucesso de Vendo ou Alugo, e o aprofundamento de uma estratégia discursiva para o documentário.

Diretora de filmes importantes como O casamento de Louise e Celeste & Estrela, nos quais retoma elementos das chanchadas e os conjuga com o humor brasileiro contemporâneo (oriundo de programas como Brasil Legal), optando pela leveza do comentário e da ação em vez do escracho e do quiproquó, Betse funda em 97 a Aurora Cinematográfica, sua própria produtora de cinema.

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Betse de Paula com Marieta Severo e Natália Thimberg, protagonistas de seu premiado filme Vendo ou Alugo...

Acompanhando a voga do documentário como principal esteio de produção do cinema brasileiro contemporâneo, Betse de Paula ingressa no longa-metragem com o premiado Revelando Sebastião Salgado, o que lhe permitiu fixar uma linha de trabalho em torno de personagens novamente “enclausuradas”. Nos últimos anos, associou-se à voga das séries contemporâneas, desenvolvendo um longo projeto sobre os diretores de fotografia brasileiros. E outro sobre Guardiãs da Floresta, mulheres que com seu trabalho e modo de vida defendem a Floresta e o Planeta.

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Alice Gonzaga, por sua vez, conhece o mundo da Sétima Arte desde garotinha. Herdeira do jornalista e produtor Adhemar Gonzaga – pioneiro do cinema brasileiro, idealizador da lendária revista Cinearte e fundador da CINÉDIA, famoso e pioneiro estúdio de cinema fundado em 1930 – Alice dedica seu tempo e sua energia a preservar a memória da Cultura, em especial a do Cinema Brasileiro, De 1997 a 2013 desenvolveu incansável trabalho para salvar a filmografia da Cinédia, conseguindo feito inédito no campo da preservação e inspirando muitos outros produtores e realizadores a valorizar suas criações e sua permanência como patrimônio.

Desde que assumiu a condução da Cinédia, em 1971, após a morte do pai, Alice Gonzaga nunca deixou de trabalhar no arquivo documental, nutrindo-o com os acontecimentos do cinema brasileiro e mundial. E assim mais do que triplicou o tamanho do acervo recebido do pai, distribuindo a massa documental que continua a organizar sozinha por mais de 170 arquivos de aço, estantes e armários. Verdadeira fonte de prazer e senso de pertencimento a uma comunidade forjada por seu pai ainda ao tempo da revista Cinearte, o Arquivo Cinédia é atualmente o maior patrimônio documental do país sobre cinema em geral e cinema brasileiro em particular, cobrindo desde os primórdios até a atualidade, acumulando cerca de dois milhões de documentos.

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A ideia para um filme sobre Alice Gonzaga surgiu de um providencial encontro entre a diretora Betse de Paula e sua personagem durante o IV Anápolis Festival de Cinema, em 2014. No início do século XXI, Betse desenvolvera – em parceria com a roteirista Júlia Abreu – um projeto de longa-metragem de ficção sobre a realização do campeão de bilheteria O Ébrio nos estúdios da Cinédia, naquela época funcionando em São Cristovão. Jogada de Milhões nunca foi produzido e ao reencontrar Alice em Anápolis, Betse percebeu que poderia tratar do universo cinediano de outra maneira. Embora estivesse na cidade goiana para apresentar sua mais nova comédia dramática, Vendo ou Alugo, Betse de Paula se aproximara um pouco antes do documentário como uma linguagem que lhe permitia aprofundar certos aspectos de personalidades que lhe interessavam, como em Revelando Sebastião Salgado, seu primeiro documentário, premiado em Gramado e noutros festivais.O novo campo também lhe interessava por desafios de criação opostos aos da ficção, na medida em que tinha que lidar com o imponderável e a mudança constante dos parâmetros de filmagem.

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Alice Gonzaga no red carpet do Amazonas Film Festival ao lado do ator Rômulo Hussen…

Originalmente pensado como um longa centrado em conversas com Alice Gonzaga, Desarquivando Alice logo transformou-se no acompanhamento da rotina diária da incansável pesquisadora, que se conecta menos com a empresa e mais com seu trabalho cotidiano de recolhimento, organização, catalogação e arquivamento de milhares de documentos anuais relativos à atividade cinematográfica no Brasil. Betse descobriu no portentoso Arquivo Cinédia o cenário ideal para desenhar seu novo filme e um lado pouco conhecido daquela que foi chamada pelo jornalista Arthur Xexéo de “Primeira Dama do Cinema Brasileiro”.

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Alice Gonzaga e o curador do acervo Cinédia, o escritor e professor Hernani Heffner…

Certamente a biografia de Alice Gonzaga poderia se confundir com muitos momentos importantes que a cercaram desde os anos 30 do século passado, passando pelo contato com notáveis das artes, da política e da sociedade; poderia acompanhar sua carreira de jornalista, empresária, produtora e cineasta; poderia até mesmo desvendar um pouco do lado self-made-woman que caracteriza Alice desde que ela resolveu ter renda pessoal e trilhar um caminho próprio. Mas uma Alice Gonzaga no presente se impôs. Do alto de seus 82 anos, não havia como deixar de captar a energia, vivacidade e espírito da Sra. Cinédia.

E assim nasceu DESARQUIVANDO ALICE. Foram 10 encontros ao longo do ano de 2016, com Betse sempre seguindo Alice pelos corredores do arquivo, “com ela nos guiando por sua vida ao mesmo tempo em que arquivava os últimos recortes e nos mostrava tesouros da história familiar, da companhia e do cinema brasileiro.”

Um roteiro completamente diferente do que estamos acostumados, só interrompido pelo mergulho nas imagens e sons do tempo, muitos sugeridos por ela, outros descobertos pela produção. “Na medida que os encontros iam se sucedendo, ela vinha com mais informações, mais documentos, mais filmes. Já tínhamos formatado uma primeira montagem e Alice nos presenteou com imagens inéditas de sua primeiríssima infância. Cenas deliciosas dela bebê, com os pais e brincando na Cinédia ainda em formação. Mudamos tudo e poderíamos ter mudado outras vezes porque o arquivo é inesgotável”, comentou Betse com a montadora Dominique Paris ao final da edição.

O resultado final é um delicado equilíbrio entre as diferentes facetas de uma mulher extraordinária, com destaque para a produtora, a arquivista e a preservadora. Esta última persona talvez tenha sido a mais desafiadora e a mais importante, pois o acervo de filmes e documentos da Cinédia poderia ter tido o destino ingrato de tantas outras iniciativas do cinema brasileiro, não fosse a determinação de cuidar, de preservar, de transmitir que Alice teve, ao procurar os filmes, restaurá-los duas vezes e zelar por sua preservação. “Desarquivar Alice foi também desarquivar um pouco dessa história oculta”, afirma a diretora, emocionada.

Agora é marcar a passagem para Ouro Preto e correr pro abraço em Betse de Paula e Alice Gonzaga, duas fortalezas do Cinema Brasileiro !

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Betse de Paula com a família: o mano Marcos Palmeira, a mãe Vera e o pai Zelito Vianna

Latorraca, Milton Nascimento, Wilker e Caetano vão às ruas por Diretas Já !

Os Dias eram assim irrompe em grito de liberdade com denúncias fortíssimas contra o binômio opressão-corrupção

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Sophie Charlotte: Alice num país que não tem nada de Maravilha…

                 Ela é bela e jovem, filha de um grande empresário e mora na zona sul carioca. Transgressora, Alice foi criada sob o tacão da repressão paterna ao tempo em que as agruras da ditadura davam as cartas. Apaixona-se por um jovem médico idealista. Paixão correspondida, a garota vive lindos momentos de descoberta ao lado de Renato, filho mais velho de uma família de classe média. Os pais querem a filha casada com um jovem ‘almofadinha’, que se finge de grande apaixonado por ela, mas apenas almeja tornar-se herdeiro da grande fortuna do sogro. Sem conseguir demover Alice da ideia de abandonar o romance com o médico, que passa a ser perseguido pela polícia por conta do irmão (visto como subversivo), o pai de Alice arma um plano aviltante – com o futuro genro e o delegado mais próximo -, e consegue interromper o vinculo afetivo entre Alice e Renato.

Para Alice, a história oficial diz que o noivo morreu. Até enterro fictício foi feito e a garota passou anos a chorar a morte do grande amor. Por sua vez, Renato, que saiu do país e viveu anos exilado no Chile, guarda o triste rompimento como um trauma gigantesco, nunca totalmente superado. Um não sabe que narrativa foi contada ao outro.

O fato é que, quase 10 anos depois, já no início dos anos 80, ambos estão no Brasil, e são dois corações com uma profunda chaga causada pelo regime ditatorial que manchou a história política brasileira. Renato quer reencontrar Alice para tentar entender porque ela nunca foi ao encontro dele no Chile, conforme havia sido combinado. Alice retorna ao país para enterrar o pai, e, na sequência, volta novamente após brigar com o marido (que a trai descaradamente, é violento, repressor, grosseiro e machista), de quem quer a separação oficial. Mas ela tem 2 filhos de Victor e tem medo que ele consiga a guarda das crianças na Justiça – naquela época, mulher separada ainda era um anátema para as famílias tradicionais. O primogênito é filho de Renato: Victor sabe disso e assim o menino, para ele, é sempre um renovar da certeza de que o grande amor de Alice nunca foi ele.

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Em linhas gerais, é essa a trama de amor de Os Dias Eram Assim, a supersérie que a TV Globo exibe no horário das 22:30h, e que é um notório marco divisor na história da Teledramaturgia Brasileira. A outra trama, a correr em paralelo à história de amor – pois assim se organizam as narrativas teleaudiovisuais desde sempre – é a ditadura que imperou no Brasil, tematizada aqui a partir do ano de 1970.

Já escrevemos outras vezes aqui no #blogauroradecinema sobre o imenso potencial dramático de #osdiaseramassim e sua importância singular para a história da nossa Teledramaturgia, que se reveste de uma relevância ainda maior se a entendemos inserida no conturbado contexto histórico que o Brasil atravessa agora.

Por conta de tudo isso, esperamos que você, leitor amigo do #blogauroradecinema, esteja acompanhando a antológica série da TV Globo. Caso ainda não o esteja fazendo, sugerimos que veja os capítulos já exibidos na telinha através do aplicativo #GloboPlay, e não deixe de acompanhar este grito de denúncia e revolta tantos anos calado, que a teledramaturgia agora vem e redimensiona com toda a excelência de um país que produz a melhor Teledramaturgia do mundo.

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Cássia Kiss e Carla Salle: mãe e filha enterram um morto que não existiu…

OS DIAS ERAM ASSIM é um libelo em defesa da LIBERDADE ! Irmão siamês de um clamor que se ouve nas ruas do pais por DIRETAS JÁ, Fora Temer, Xô Corrupção !

Os Dias eram assim soa como o grito que todos os brasileiros de bem carregam no peito hoje, a procurar guarida e ressonância que apontem para uma forma de escapar do lamaçal que assola o país, onde decência, dignidade e ética parecem estar de eternas férias. Somos vítimas de um enredo que se abastece cotidianamente nas malhas da corrupção, desmandos na esfera política, desvio de verbas, obras inacabadas, e aviltamento da cidadania a escorrer noite e dia dos noticiários que proliferam nas redes sociais. Outrossim, explodem vozes em uníssono por todas as praças do país contra a malfadada representação política instalada no centro do poder, e um desejo muito intenso por mudança parece buscar respaldo num porvir que nos aponte algum atalho para se voltar a respirar sem tantos sobressaltos.

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Daniel de Oliveira, Antônio Calloni e Marco Ricca: personagens são parceiros na repressão

A razão de tudo isso tem uma filiação clara e inequívoca com as cenas que a supersérie OS DIAS ERAM ASSIM mostram com riqueza de detalhes e estrondosa competência. Cada capítulo da obra é para ser observado com a maior atenção e, felizmente, o #globoplay está aí para que possamos ver e rever capítulos e cenas para apurar as sensações, reavivar significações e entender melhor o que no Brasil de hoje é herdeiro direto do país de ontem. Entender para saber prospectar e não mais vacilar.

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Ontem como Hoje: o  povo pede DIRETAS JÁ !

Nesse sentido, a TV Globo vai ainda mais fundo ao exibir, no mesmo período, a novela Novo Mundo, atração das 18h (outra obra primorosa com texto de Thereza Falcão e Alessandro Marson, e direção notável de Vinícius Coimbra). Esta tem como foco o Brasil do Primeiro Reinado com toda a sua carga de tristes estigmas: a escravidão, a opressão à mulher, a repressão à imprensa, a perseguição aos índios, e o aviltamento da classe trabalhadora. Portanto, a emissora carioca está com ícones em sua programação que nos mostram o país que éramos e o Brasil que fomos, cardápio ideal para se pensar com mais clareza (acuidade que as imagens nos propiciam com inquestionável força) que país estamos construindo e para onde queremos ir. Se a esse leque propiciado pela teleficção acrescentarmos os telejornais da programação – Bom Dia Brasil, Jornal Hoje, Jornal Nacional e Jornal da Globo –, teremos então diante de nossos olhos e ao dispor de nossa argumentação uma narrativa que se tece em várias tramas paralelas, mas que compõem, todas juntas, um intrincado painel de analogias/simetrias/sincronias aglutinador da vida nacional e com inegável potencial de significado, capaz de tornar mais nítido o estado caótico atual em que está mergulhado o Brasil.

Esse mesmo de que nos fala Caetano Veloso em seus Podres Poderes, que encerrou o capítulo dessa quinta, 14 de junho (feriado de Corpus Christ) de forma arrepiante:

Será que nunca faremos senão confirmar
Na incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, será que será que será que será,
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?

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Gabriel Leone é o ‘subversivo’ Gustavo, vítima dos horrores de um tempo cruel…

Assistir à supersérie Os Dias eram Assim é bem mais que reiterar nosso gosto pela teleficção audiovisual, e muito além de apreciar uma obra cheia de qualidades, merecedora de muitos Prêmio EMMY. Assistir à Os Dias eram Assim não é apenas incluir mais uma minissérie no seu currículo de telespectador: é um Exercício Cívico que cada brasileiro deve assumir com a consciência de estar se permitindo o direito de conhecer e/ou entender melhor o significado dos anos de repressão que assolaram o Brasil por mais de duas décadas. É conscientizar-se do profundo mal que o estado de exceção causou na formação sócio-cultural do país para entender que todos, juntos, precisamos saber para definir; entender para não mais permitir que se ande para trás; para que nunca seja possível reviver; para que se caminhe na direção de um país livre, de fato e de direito,  não só da barbaridade da ditadura, mas dos desmandos da corrupção, dos desatinos da classe política, dos desvarios dos que se acham melhores – por condição econômica, classe social, etnia ou subjetividade de qualquer matiz -, dos absurdos da violência, da repressão, da covardia, dos preconceitos (de toda ordem), e da omissão injustificada.

Um aplauso muito afetuoso e entusiasta a todos quanto fazem esta obra-prima que é

         OS DIAS ERAM ASSIM !

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Atores de Os Dias mesclam narrativa ficcional e realidade ao sair as ruas por DIRETAS JÁ !

Cinemas de Juiz de Fora ganham importante registro em livro

livro Cine SL
O dia era 15 de julho de 1955 e o filmeRebelião no Presídio, do diretor Don Siegel*. Comerciantes, industriais, jornalistas, gerentes de banco e radialistas estavam entre os elegantes espectadores na primeira sessão de Cinema do histórico Cine São Luiz, em Juiz de Fora. Essa data marcou uma longa história de muitas sessões de cinema, grande afluência de público, e exibições dos mais diversos títulos, capazes de agradar a todo tipo de plateia.
E não seria para menos: afinal, desde sua abertura, naquela noite de 15 de julho até 2004, foram mais de 50 anos de funcionamento, tempo no qual diversas gerações se revezaram nas poltronas confortáveis do cinema que era espaço tradicional de cultura na cidade mineira da Zona da Mata.

Outrossim, esse Cine São Luiz – espaço relevante do cotidiano cultural de Juiz de Fora -, agora poderá ser revisitado em livro: a importância do São Luiz, um dos mais emblemáticos cenários de lazer e cultura da mineira JF, é o foco do livro Os Cinemas de Rua de Juiz de Fora – Memórias do Cine São Luiz, com lançamento grifado para a próxima quarta, 14 de junho, às 19h30, na Planet Music (Rua Moraes e Castro, 218 – Alto dos Passos, JF).

Viabilizada com financiamento da Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, mantida pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) e gerenciada pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), a publicação apresenta detalhada historiografia do antigo cinema, realizada por Christina Ferraz Musse, Gilberto Faúla Avelar Neto e Rosali Maria Nunes Henriques, todos ligados ao grupo de pesquisa Comunicação, Cidade e Memória, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

A ideia do livro nasceu da vontade de seus autores de preservar esse importante momento da cultura juizforana para a posteridade, resgatando e registrando a memória do cinema por meio de relatos orais de frequentadores e ex-funcionários, incluindo vasto material de pesquisa em documentos e acervos.

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Prédio do antigo Cine São Luiz, no centro de Juiz de Fora…

O livro retoma parte da história da Praça da Estação, cenário no qual estava inserido o lendário Cine São Luiz, num prédio com características art déco, destoando do restante do conjunto arquitetônico da região.

Concebido arquitetonicamente com padrões de luxo e conforto, o saudoso cinema podia comportar até 900 espectadores. Diferente do que possa imaginar alguém de uma geração que não frequentou o tradicional cine juizforano, aquela tela se fazia de fato democrática: por ela passaram diversos filmes e todos os gêneros estiveram representados.

Segundo os estudos e pesquisas da trinca Christina Musse, Gilberto Avelar e Rosali Henriques, até 1959 o Cine São Luiz exibia, predominantemente, dramas. Já nos idos de 1960. a tela era mais frequentada por películas bíblicas e de aventuras. Na década seguinte, o drama voltou a ser o gênero com maior número de exibições e, somente a partir dos anos 80, a pornochanchada e os filmes pornográficos começaram a também aparecer na telona e ganhar público.

O livro estará à venda por R$ 20 na noite de lançamento, ou pode ser adquirido diretamente com os autores, por meio do e-mail musse@terra.com.br

* DON (Donald) SIEGEL foi um cineasta americano, nascido em Chicago, Illinois, em 1912, e falecido na Califórnia em 1991. Em 1956, o cineasta realizou o clássico filme B Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers), angariando reputação de realizador de excelentes trabalhos, mesmo com limitações de orçamento e produção. Siegel dirigiu também o último filme de JohnWayne, o western clássico O Último Pistoleiro (The Shootist, 1976). Entre seus inúmeros trabalhos na televisão, destacam-se dois episódios da série Além da Imaginação (The Twilight Zone), “The Self-Improvement of Salvadore Ross” e “Uncle Simon”, além de longas-metragens e episódios para diversas outras séries, como Destry, The Lloyd Bridges Show, Bus Stop e The Legend of Jesse James.

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Vampiros de Alma, o mais conhecido filme de Don Siegel…

Sobre o clássico Vampiros de Alma, escreveu o crítico L.G. de Miranda Leão:
“Ao contrário da maioria das histórias de FC, ´Vampiros…´ não nos mostra espaçonaves ou engenhos de galáxias distantes, tampouco marcianos ou monstros horrendos vindos para invadir a Terra. O poder maligno agindo por trás de tudo sequer é visto ou sugerido, mas apenas imaginado pelo leitor-espectador atento: não se sabe quem é nem de onde veio. O objetivo dos invasores é a dominação dos EUA e depois, provavelmente, do planeta. Serve-lhes de cabeça-de-ponte a pequena cidade de Santa Mira, no interior da Califórnia e a invasão se faz através.de misteriosas sementes vindas ´out of the sky´, como diz a certa altura o Dr. Miles Bennel (Kevin MacCarthy, nada a ver com o Senador citado), personagem central. Essas sementes se transformam em enormes vagens, as quais são depositadas no interior das casas para se reproduzirem como formas humanas idênticas, absorver-lhes as memórias e o pensamento crítico, transformá-las em zumbis ou robôs de outra era. Para isso basta caírem no sono as pessoas para cujos corpos as vagens se destinam. Quem não estiver ´acordado´, quem dormir, terá seu corpo tomado por uma réplica vinda de fora. ´Não há dor alguma´, diz o psiquiatra, agora um dos ´transformados´… Gera-se então a desintegração do ´original´ – um novo ser, desprovido de medo, sentimentos, ambições, sem emoções de espécie alguma, apenas com o instinto de sobrevivência e de obediência cega a entidades superiores. 

[…] Em suma, Vampiros de Almas é pequena jóia dos anos 50 não apenas para colecionadores de clássicos mas também para os amantes do bom cinema.”

*L. G. de Miranda Leão, crítico de Cinema e professor universitário, autor dos livros Analisando Cinema (Coleção Aplauso/Imprensa Oficial de SP), e Ensaios de Cinema (edições BNB/BNDES).

Euclides Moreira Neto autografa hoje livro-homenagem aos 40 do Guarnicê !

Euc livro Guarnecendo Memórias. Este é o título do livro-homenagem que o professor/cineasta/pesquisador Euclides Moreira Neto autografa esta noite no Centro de Criatividade Odylo Costa Filho, no aconchegante centro histórico de São Luis, a partir das 18h.  A noite de autógrafo integra a programação dos 40 anos do Festival Guarnicê de Cinema, do qual o professor Euclides Moreira foi o mais profícuo dos coordenadores.

O livro foi lançado no último dia 2 de junho com apoio da Universidade Federal do Maranhão e do Instituto Guarnicê por ocasião da solenidade de abertura do Festival Guarnicê.

Guarnecendo Memórias é assinado pelo jornalista, Mestre em Comunicação Social e doutorando em Estudos Culturais pela Universidade de Aveiro (Portugal), Euclides Moreira Neto, que participou efetivamente das 31 primeiras edições do referido festival, como concorrente e coordenador, posteriormente. O livro Guarnecendo Memórias reúne 26 depoimentos primorosos de protagonistas do festival audiovisual maranhense, os quais relatam experiências e momentos singulares propiciados pelo Festival Guarnicê. Entre os colaboradores, nomes muitos atuantes no meio cultural maranhense e brasileiro, tais como Alice Gonzaga, Joaquim Haickel, Murilo Santos, Cecília Leite, Aurora Miranda Leão, Amélia Cristina, João Ubaldo de Moraes, Breno Ferreira, Nerine Lobão e Mário Cella.

Falando sobre o livro, o Chefe do Departamento de Comunicação Social da UFMA, Protássio Santos, afirma: “A cada ‘capítulo’ o tempo salta e envolve o leitor, ‘levando-o a reviver todo um diálogo onde o autor e os demais convidados, que violaram suas memórias dando depoimentos primorosos, são protagonistas e narradores”. O professor Doutor Protassio diz ainda que os relatos descritos em Guarnecendo Memórias nos dão a certeza de que o que aconteceu em São Luís por conta do Guarnicê – nas décadas de 70, 80 e 90 do século passado e nos primeiros anos deste século -, “não são coisas do passado e sim a história viva e aguerrida de grande significado atual para nós que vivemos e fazemos a cultura deste estado”.

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Aurora Miranda Leão e Euclides Moreira Neto: amizade nascida no Guarnicê…

E conclui: “Euclides Moreira Neto nos permite, com suas lembranças e “outros  testemunhos férteis”, ver a vida como “uma peça em andamento”, e “fazer o hoje melhor do que o ontem que não conseguimos realizar”. O livro Guarnecendo Memórias nos faz confrontar sentimentos e lutas que ainda habitam em nós, finaliza o professor Protássio Santos, titular do DCSo/UFMA.

RESGATE E HOMENAGEM

Euclides Moreira Neto conta que quando decidiu escrever o livro, o sentimento que lhe moveu foi o de trazer à tona lembranças de fatos e acontecimentos que vivenciou durante sua trajetória na comunidade acadêmica, a qual ele dedicou toda sua competência como gestor público, fazendo da UFMA uma referência no campo cultural nas décadas de 1980, 1990 e nos primeiros anos dos anos 2000, quando aquela Instituição de Ensino Superior era vista como vanguarda no movimento cultural maranhense e do Nordeste.

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Euclides Moreira Neto faz importante resgate histórico do cinema no Maranhão…

Além disso, Euclides diz ter se sentido provocado a prestar contas de sua atuação como gestor e das cumplicidades vividas no campo acadêmico com pessoas de todas as áreas de atuação. Por isso, ao convidar tantos amigos para expressarem suas impressões em relação ao Guarnicê, Euclides também se viu imbuído da ideia de homenagear aqueles tantos com quem partilhou momentos, alegrias, ideias e projetos audiovisuais, eles todos irmanados como construtores de sonhos.

Quando o festival Guarnicê foi criado, em 1977, só havia 2 universidades no Maranhão, a UFMA e a UEMA, e em nenhuma dessas havia cursos ligados ao audiovisual, por isso o festival assumiu um papel vital para manter vivo o movimento audiovisual em terras maranhenses.

Guarnicendo Memórias, lançado pelo selo da editora da UFMA (EDUFMA), tem 376 páginas, e sua primeira edição está sendo impressa na Gráfica Minerva com prefácio do também jornalista e pesquisador de cultura popular, Herbert de Jesus Santos, que afirma em seu depoimento: “Desejamos que Guarnecendo Memórias atinja a culminância traçada pelo seu idealizador, já ele, por assim dizer, sabatinado nos versos do alteroso “I-Juca-Pirama”, ou o monumental poema épico americano, de Gonçalves Dias, colocando voz no chefe Timbira para o guerreiro Tupi: “(…) Dize-nos quem és, teus feitos canta,/ou se mais te apraz, defende-te! (…)”, ou, no popularizado e, também, demasiadamente, repetido, por nós: “Diga com quem andas, e eu te direi quem és!”.

Para Herbert, há muitos outros ditos da coleção maranhense nos quais se pode encaixar, perfeitamente, este entusiasta e reluzente Guarnecendo Memórias, de Euclides Moreira Neto. Mesmo ele, modestamente, avisando aos navegantes que “O tema não se encerra com essa narrativa, porém, que ela seja motivadora, para que outras narrativas venham à tona e delas surjam frutos benéficos para outros se inspirarem”. E arremata: “O Mundo é minha provocação!”.

*O conteúdo do novo livro de Euclides Moreira Neto já está disponibilizado ao público pela plataforma digital da Editora EDUFMA.

Theatro lotado menor

Theatro Arthur Azevedo, Patrimônio do Maranhão, lotado em noite de Cinema na edição Guarnicê 2008…

SERVIÇO 

O QUÊ: Noite de autógrafos do livro Guarnecedendo Memórias

QUANDO: 09 de junho de 2017, às 18 horas

ONDE: Centro de Criatividade Odylo Costa Filho – Centro Histórico de São Luís.

Com depoimentos de: Alice Gonzaga, Amélia Cristina, Aurora Miranda Leão, Arly Arnaud, José Guterres Filho, Joaquim Haickel, Mário Cella, Murilo Santos, Cecília Leite, Luís Carlos Cintra, Bertrand Lira, Breno Ferreira, Joaquim Santos, Miguel Veiga, Francisco Colombo, Nerine Lobão, João Ubaldo de Moraes, Fábio Eneas, José Maria Eça de Queiroz, Raimundo Nonato Medeiros, Renato Alexandre Ferreira, Frederico Machado, Ralf Tambik, Wilson Chagas, Celso Brandão, Isa Albuquerque e outros.

ENTRADA FRANCA

 

Filme de Betse de Paula sobre Alice Gonzaga abre mostra em Ouro Preto

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Alice Gonzaga, Primeira Dama do Cinema Brasileiro, estará na telona de Ouro Preto, captada pelas lentes preciosas da cineasta Betse de Paula…

A cineasta carioca Betse de Paula apresentará em pré-estréia mundial na abertura da 12ª. Mostra de Cinema de Ouro Preto – CineOP, mais importante festival dedicado à memória cinematográfica do país, seu mais novo projeto, o longa metragem Desarquivando Alice Gonzaga. Documentário finalizado em 2K, a produção da Aurora Cinematográfica, empresa originalmente brasiliense que está completando 20 anos de fundação, aborda a vida e a carreira de uma das grandes personalidades do cinema brasileiro, a empresária e preservadora audiovisual Alice Gonzaga.

Rodado ao longo de 2016, Desarquivando Alice Gonzaga revela um lado pouco conhecido da diretora da Cinédia, famoso e pioneiro estúdio de cinema fundado em 1930 por seu pai, o jornalista, produtor e cineasta Adhemar Gonzaga. O filme explora seus relatos de memória – pessoal, familiar e em torno do cinema brasileiro que conheceu e vivenciou junto ao estúdio. E o seu trabalho solitário e cotidiano de arquivar a história do cinema, sob a forma de recortes, fotos, cartazes, cartas e outros registros reunidos no lendário e pouquíssimo visto “Arquivo Cinédia”, gigantesco repositório documental iniciado em 1914 e ainda alimentado nos dias atuais.

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Betse de Paula, cineasta premiada em diversos festivais, estará em Ouro Preto para lançar filme sobre a pesquisadora/produtora Alice Gonzaga.

Em uma rara incursão a esse grande tesouro cultural desconhecido do país, cenário de grande parte do filme e fruto direto de sua persistência, tenacidade e compromisso, a narrativa leve e descontraída de Desarquivando Alice acompanha Alice Gonzaga em sua paixão e relação com a memória, com a organização do passado, pessoal, familiar e corporativo, e com sua preservação para gerações futuras. Bem humorada, vaidosa, sem papas na língua, a personagem comenta também o papel e a posição da mulher que, vinda de uma era machista, sexista e preconceituosa, precisou de uma “autorização para comerciar”, mas soube se impor como empresária, realizadora, produtora, pesquisadora, escritora e preservadora.

O trabalho de conservação e restauração da filmografia da Cinédia e da família Gonzaga rende descobertas e momentos preciosos, desde as imagens do bebê Alice, feitas pelo famoso diretor de fotografia Edgar Brasil, até os raríssimos registros de bastidores dos estúdios de São Cristóvão em sua época de ouro. O material de arquivo, oriundo da era da película, foi digitalizado em alta definição e recebeu tratamento especial de som e imagem, sem retirar o toque de época que Alice tanto preza e preserva. Entre as pérolas estão clips de filmes clássicos como Alô, Alô, Carnaval, registros das famosas feijoadas nos anos 1970 e até momentos dramáticos como a queima dos nitratos originais em 1986 e a enchente que ameaçou o acervo até então restaurado.

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Germano Pereira, Alice Gonzaga, Rubens Ewald Filho e Aurora Miranda Leão

No dizer de sua diretora, Desarquivando Alice Gonzaga não é propriamente uma cinebiografia, mas um auto-retrato composto em grande medida pela própria personagem principal. Uma investigação sincera de um dos grandes ícones por trás das câmaras, na trajetória do cinema brasileiro. Alice conheceu várias gerações de técnicos, realizadores, artistas, distribuidores, críticos e exibidores, convivendo com personalidades como Carmen Miranda, Luís de Barros, Oswaldo Massaini, Francisco Alves, Gilda Abreu e Humberto Mauro, entre centenas de nomes, e traz um relato vibrante de uma cinematografia que teimou em se impor às adversidades.

Ainda sem data de lançamento no circuito comercial, Desarquivando Alice Gonzaga percorrerá inicialmente o circuito de festivais, promovendo também a causa da preservação audiovisual, que tem em sua pessoa uma das encarnações vivas da luta contra o esquecimento e a destruição do patrimônio cinematográfico brasileiro.

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Mulheres de Cinema: Betse de Paula, Daisy Lúcidi, Alice Gonzaga e Nathália Timberg…

SERVIÇO

Pré-estreia do filme DESARQUIVANDO ALICE

Documentário de Betse de Paula

Com Alice Gonzaga

Quando: abertura da 12ª CineOP

            22 de junho, às 20:30h

ONDE: Cine Vila Rica, em Ouro Preto

ENTRADA FRANCA

Os Dias eram assim como Belchior cantou

            *Aurora Miranda Leão

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Gabriel Leone e Renato Goes em Os dias eram assim

Era meados dos anos 70. O capítulo começa com uma panorâmica sobre a orla carioca. Depois, se vê IMPRENSA LIVRE em letras garrafais na vidraça de um prédio, logo em seguida estourada… Um militar aparece dizendo: “Ato público está proibido: não aceitamos passeata nem comício”. A violência invade as ruas do centro do Rio; foco no cineasta Glauber Rocha que diz: “A loucura, meus amigos, a loucura da violência”. Na sequência, mais cenas de violência: policiais montados em cavalos irrompem contra as pessoas na rua, estudantes são vítimas de agressões e bombas estouram; o general Médici passa a faixa para o general Geisel. Era 1974. Na Nigéria, estavam Renato e Rimena em missão solidária. Em Miami, Victor e Alice formam uma família feliz (?) com os filhos num belo apartamento de classe alta. Corte para uma menina negra: olhar carente, com um buquê de flores, ela olha o médico como quem agradece com ternura, e uma tristeza funda assoma naquele rosto tão puro e ainda imune às maldades do mundo.

São pequenos detalhes que vão se unindo num crescendo a formar um conjunto eloquente de significação, captados por uma câmara operada com intensidade latente, reforçada por uma edição primorosa. Imagens históricas, nunca antes exibidas na teleficção, tomam conta da tela em linha simétrica com imagens ficcionais: um general declara que estão proibidas manifestações e protestos populares nas ruas. Glauber Rocha aparece bradando contra a ditadura, imagens da repressão passam em ritmo veloz e o Cálice de Chico e Milton emoldura uma narrativa teledramatúrgica de forte acento político, que tem o período mais duro da vida brasileira como ambiente.

Em meio a lembranças que tanto doem na parede da memória, a narrativa de extrema competência, beleza, pujança, senso estético e sentido de cidadania de OS DIAS ERAM ASSIM é a comprovação mais cabal – guardada nos arquivos históricos da teleficção – do nível de excelência alcançado pela nossa Teledramaturgia ! Que vigor, que potência, que qualidade alcançamos !

Assisto à supersérie e, depois de todas as sensações que ela me provoca, e todas as emoções que ela aviva, sobrevém um enorme orgulho de constatar o nível magistral de qualidade a que chegamos. Sinto-me honrada de ser partícipe deste tempo no qual a Teledramaturgia consagra sua magnitude como testemunho da contemporaneidade, e se inscreve com fundamental importância como portadora de um sentido de pertença e de memória da vida de um país como jamais antes nenhuma outra linguagem brasileira alcançou. Este mérito de guardar, repassar, prospectar, divulgar, reavivar, rememorar, ressignificar a história em som e imagem com a amplidão que a teledramaturgia alcança no país (milhares de locais com acesso à produção audiovisual gratuita), amplificada por conta dos avanços da tecnologia – podendo ser vista por qualquer pessoa, a qualquer hora, em qualquer lugar, de graça -, jamais foi alcançado por nenhum outro meio de comunicação no país. Outrossim, poder assistir a um produto audiovisual de tamanha qualidade, todo criado e executado por profissionais brasileiros, que dão o seu melhor para chegar à telinha com o padrão que chegam, é por demais auspicioso.

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Antônio Calloni, Mariana Lima e Bárbara Reis em Os dias eram assim

E no capítulo da quinta passada, para coroar tudo o que a supersérie já traz de bom e louvável, seus criadores ainda incluíram Belchior e seu emblemático canto menestrel na preciosa trilha sonora de OS DIAS ERAM ASSIM:

Foi quando o jovem Gustavo (Gabriel Leone em atuação soberba), defensor da causa democrática, finalmente deixa a prisão, após 5 anos encarcerado, e a mãe e a irmã vão buscá-lo: quando Gustavo surge na porta da penitenciária, a voz de Belchior avulta…

“Não quero lhe falar meu grande amor/ Das coisas que prendi nos livros/ Quero lhe contar como eu vivi/ E tudo que aconteceu comigo…”

E a emoção vai lá no alto: BELCHIOR era a voz que precisava intervir no contexto narrativo profundo, cívico e profundamente relevante de Os Dias eram Assim.

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“Quero lhe contar como eu vivi, e tudo  que aconteceu comigo…”

Cabe-nos ressaltar que, há alguns dias, havíamos falado aqui no #blogauroradcinema que esta música – COMO NOSSOS PAIS – já merecia há tempos uma olhada séria e bem intencionada da teledramaturgia para lhe dar realce e fazê-la ecoar pelos milhões de lares brasileiros que sintonizam a emissora líder em todos os cantos do país, inclusive naqueles distantes lugares que a gente nem sequer imagina existirem.

Fizemos aqui no #bloauroradecinema uma analogia sobre a tradução poética que as canções Aos Nossos Filhos (o tema de abertura, de Ivan Lins e Victor Martins) e Como nossos Pais (de Belchior, consagrada na voz de Elis Regina) fazem de um tempo histórico com precisão de ourives. Pois foi com a emoção latejando por tudo que nos diz esta supersérie OS DIAS ERAM ASSIM (sobre ética, política, dignidade, liberdade, tempos sombrios, violência e repressão, mas também sobre amor, arte e pessoas que ousaram ir além e não deixaram de gritar por LIBERDADE) e a saudade musical ensejada pela partida repentina de Belchior, que assistimos àquela cena e fomos às lágrimas.

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Ana Miranda, Gabriel Leone, Carla Salle e Cássia Kiss em Os dias eram assim

E é assim, ainda marejando de emoção, que deixamos um caloroso aplauso para toda a equipe que assina OS DIAS ERAM ASSIM.

Por hoje, ficamos aqui mas não sem antes sugerir que assistam a esse primoroso capítulo da quinta passada, 25 de maio. Está no site Globo.com ou no app Globo Play, de graça. Pode ter certeza: é você quem vai ganhar ao assistir uma obra audiovisual com a qualidade estrondosa que tem OS DIAS ERAM ASSIM.

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Antônio Calloni, um Mestre, em atuação digna de todos os aplausos !

Orgulho enorme do naipe excepcional de criadores que assina este trabalho lindo: desde suas autoras Ângela Chaves e Alessandra Poggi; aos diretores Walter Carvalho,  Isabella Teixeira e Cadu França, mais o diretor artístico Carlos Araújo, passando por toda a equipe técnica e de produção, pedimos licença hoje para cumprimentarmos a todos nas pessoas do ator Antônio Calloni (magnânimo na interpretação do abjeto empresário que apoiou/financiou a ditadura), Natália do Valle, Sophie Charlotte e Gabriel Leone.

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As autoras Ângela Chaves e Alessandra Poggi com o diretor Carlos Araújo…

A antropofagia imagética de Gui Castor em diálogo com mestres da Fotografia

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GUI CASTOR começa o mundo em Vitória…

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Daqui começo o mundo este é o título da instigante exposição do artista, fotógrafo e cineasta GUI CASTOR em cartaz na Galeria Homero Massena em Vitória, capital do Espírito Santo.

O mundo de Gui Castor começa sempre com um farto sorriso e é isso que convoca imediata empatia com o artista. Na sequência, a sensibilidade de GUI promove conexões com uma benfazeja capacidade de descobrir porções do inusitado que ele sai recolhendo por onde passa e oferece em porções imagéticas através de belas fotografias e inusitados vídeos e filmes.

A trajetória de GUI CASTOR é pontilhada de participações em eventos internacionais, exposições coletivas, festivais de cinema, oficinas, e coisas afim. Agora, o jovem capixaba juntou as paixões – fotografia e cinema – e reúne alguns de seus principais takes e olhares no livro Daqui começo o mundo.

Na obra atual de GUI Castor há um diálogo evidente com a exposição “Moderna Para sempre – Fotografia Modernista Brasileira na Coleção Itaú”, em cartaz no Palácio Anchieta na capital do Espírito Santo, que reúne um dos mais importantes e significativos conjuntos dos primórdios da fotografia artística no Brasil.

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A galeria Humberto Massena abriga a exposição com obras de GUI Castor…

Como parte integrante desta programação dedicada aos temas da fotografia no campo da arte, a Galeria Homero Massena recebe o trabalho fotográfico e em vídeo do artista capixaba Gui Castor. A intenção dos organizadores foi criar uma exposição com referência histórica e consolidada no campo da fotografia, ao mesmo tempo em que um jovem artista elabora trabalhos que podem ser interpretados como respostas contemporâneas a questões semelhantes às desenvolvidas pelos grandes fotógrafos brasileiros dos anos 1940 a 1970, apresentados pela mostra do Instituto Itaú Cultural.

Assim, as duas exposições apresentam complementaridade em suas abordagens. O visitante que vai ao Palácio Anchieta e tem contato com uma produção das mais importantes do Brasil, poderá também ter contato intenso com a produção atual, a partir do olhar inspirado de GUI CASTOR, jovem artista capixaba.

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Gui Castor é também o idealizador do popular festival de cinema Cine Rua 7

O título Daqui começo o mundo é inspirado em pintura do renomado Cícero Dias, na qual há uma valorização do local para a interpretação do mundo. O artista escreve em sua tela uma das jóias do modernismo pernambucano/brasileiro: “Eu vi o mundo, ele começava no Recife”. Esta é uma frase que faz com que a herança européia e as referências dominantes da arte sejam metabolizadas e reinterpretadas segundo um sotaque local.

Nesse sentido, há um trânsito que incorpora aspectos da alteridade, ao mesmo tempo em que constrói a própria identidade, um contato com o outro mas com constante referências ao local. Segundo o curador da mostra, o mineiro Júlio Martins,“Gui Castor é um artista que possui muitas obras em solo estrangeiro, mas ele estabelece contatos e firma seu local de fala a partir de um sotaque próprio, um sotaque capixaba.”

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Gui Castor finalizando a montagem da exposição…

As várias linguagens presentes na mostra contribuem com a politização do discurso do modernismo brasileiro que hoje, na contemporaneidade, é matéria para o trabalho de muitos artistas, que pesquisam, problematizam e desdobram as heranças da estética moderna. Novamente, segundo Martins, “a produção de Gui Castor é interessante pois traça uma voz que foi esquecida pelo discurso dominante da modernidade e que ressurge na modernidade como problematização”.

Por exemplo, foram construídas, sob a mesma lógica moderna, cidades para abrigar e excluir os leprosos do convívio social, e Gui Castor passou dois anos investigando como esta cidade hoje, no interior do Espírito Santo, bastante à margem portanto, lida com os dilemas de consciência em relação à doença ter se modificado enquanto que o preconceito continua o mesmo.

De certa maneira a leitura do modernismo é muito formal, somente interessado nas formas, nos jogos de percepção, deixando de lado o contexto social e político. Os trabalhos de Gui Castor lidam com a herança moderna mas realizam uma contra leitura, uma leitura crítica e atual dos temas. É um convite aos contrapontos.

O título da exposição de GUI CASTOR é inspirado na tela do pintor modernista pernambucano Cícero Dias: a obra “Eu vi o mundo, ele começava no Recife” é uma afirmação muito forte e no melhor espírito da antropofagia brasileira. A frase é uma afirmação antropofágica e de autoestima. Desenha a possibilidade de se apropriar de diversas influências, de vários lugares, como a dita alta cultura européia, numa mistura própria. Para o curador, “a antropofagia constitui uma das matrizes mais poderosas da formação da nossa cultura brasileira. O sentido da frase que batiza a exposição Daqui começo o mundo diz respeito a esta habilidade em receber a cultura que vem de fora e devolvê-la em novos contornos, aqueles que me interessam. É algo muito poderoso e de extrema autoestima, algo que precisamos recuperar na contemporaneidade”.

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Artista capixabamente universal, GUI CASTOR é um Querido desde sempre !

Outro aspecto a se destacar é a postura do artista Gui Castor como antropólogo do contemporâneo. O artista participa de uma tendência das artes atuais em buscar o convívio e o diálogo com o outro, de construir relações, encontros, tal como o approach de um antropólogo, que chega em uma tribo sem informações prévias e busca conhecer e evidenciar os fatos que vivencia, relacionando-se diretamente com seu objeto de estudo.

O curador Júlio Martins relembra uma frase de Cildo Meireles: “o artista, tal como o garimpeiro, vive de procurar o que nunca perdeu.” Assim, nessa postura de “artista como etnólogo”, como conceituou o crítico de arte Hal Foster, Gui Castor procura em seus trabalhos estabelecer encontros e relações com o outro. O artista define sua postura assim: Exercito um olhar aberto que recolhe, nos encontros rápidos e anônimos, a busca do contato com o outro”.

Gui e eu

Esta redatora e Gui Castor: sempre um encontro de ótimas energias !

SERVIÇO:

Daqui começo o mundo: fotografias, videos e livros de GUI CASTOR

Curadoria Júlio Martins

Galeria Homero Massena
Dia 29 de maio, TERÇA: lançamento do livro COLÔNIA com bate-papo entre Gui Castor e Júlio Martins

HORA e LOCAL: 19h, galeria Homero Massena – ENTRADA FRANCA

Mirian Tavares e a LITERACIA: a Arte de decifrar as imagens

Mirian lap - Cópia

Mirian Tavares ensina a Literacia Fílmica para melhor compreensão do Cinema…

Qualquer forma de Audiovisual vale a pena ! Todas elas, que vemos hoje proliferarem pelo mundo em ritmo intenso, são filhas do Cinema. A partir dessa premissa, mergulhar no mundo do cinema se faz necessário. Ou melhor: é preciso entender como se processa o modo de criação de linguagem através das imagens.

Porque não se trata apenas de abrir os olhos e ver. Há na visualização das imagens uma multifária capacidade de produzir sentidos. Os resultados a alcançar vão ser inferidos a partir da visão mais ou menos abrangente do espectador, ou da menor ou maior alfabetização de quem acesse seus conteúdos.

Para ‘entender’ cinema, não temos necessidade de um “tradutor” – basta abrir os olhos e se veem as imagens – , como nos ensina Mirian Tavares, e é nesse ponto que começa o nó da questão: achar que o que vemos é a realidade ! Aqui é dado o start para que a LITERACIA se faça uma ferramenta de suma importância e acuidade: a sensação primeira de qualquer pessoa diante do ecrã (tela) é de acreditar que o que está sendo exibido é real. Quer seja em televisão, vídeos, fotos no Instagram, Face ou qualquer outra rede social, acreditamos de pronto que o que se mostra é a realidade. A sensação é de  “se eu vejo é porque existe”.

Acontece que essa operação que poderia parecer um plano-sequência óbvio, não tem nada de simples nem de resultados óbvios: para ser entendida em toda sua complexidade, a expressão imagética via tela requer um acurado conhecimento de diversas operações que constituem o cerne do que se chama Sétima Arte.

O Cinema fascina o olhar e instiga diversas sensações, ao mesmo tempo em que é uma linguagem altamente sofisticada, construída sobre um processo que remonta ainda ao Renascimento, baseado em elaborados processos matemáticos que partem da proporção para representar o mundo. Isto é, o que vemos na tela nada mais é do que uma REPRESENTAÇÃO. O CINEMA  e todas as artes ligadas à IMAGEM são representações. E não a vida real, como a maioria supõe.

“Toda imagem é filha de um recorte, tem uma visão autoral que decide o que quer mostrar e, portanto, define o que será visto. O que vai para a tela é uma escolha de alguém para dizer alguma coisa”, nos ensina Mirian Tavares.

Por conta disso, a LITERACIA então se faz relevante e necessária, cada vez mais, para que possamos entender que, por trás das imagens, há sempre um autor e uma intenção. Ou por outra: se você quer entender o que falam as imagens, ou se pretende decifrar o que uma imagem está a dizer, será preciso que conheça e entenda a LITERACIA FÍLMICA.

Basicamente, Literacia é uma alfabetização que oportuniza o aprendizado da leitura das imagens mas não apenas isso: a LITERACIA é uma ferramenta de aprendizado para ensinar a ver/ler imagens de CINEMA de forma crítica, como nos ensina Mirian Tavares.

Inicialmente, é preciso ter em conta que O OLHO é uma operação altamente sofisticada, ele não é um instrumento neutro: é um dos postos avançados do encontro do cérebro com o mundo, é o mediador entre a realidade e o cérebro. Nesse sentido, a intenção da Literacia é dotar as pessoas da capacidade de ler o mundo de forma mais profunda e mais completa do que simplesmente ver, conforme palavras da profa Mirian Tavares.

Partindo do princípio de que REALIDADE é tudo o que está fora do ecrã, ser um estudante ou seguidor da Literacia significa ter “a capacidade de manuseamento e apreensão crítica das imagens”.

Para que serve mesmo essa coisa chamada LITERACIA ?

Para dotar as pessoas de capacidade para ler o mundo de forma mais profunda e mais completa do que simplesmente ver, como nos explica a professora Mirian Tavares.

Porque na nossa relação com as imagens, além da parte físico/química, intervém ainda nossa capacidade perceptiva, os afetos, o saber, as crenças, a sua relação social, histórica, mas há também constantes trans-históricas e interculturais.

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Mirian Tavares e imagens do cinema de Buñuel, cineasta-tema de sua tese de Doutorado

Assim, o ato de ver seria comparar o que vemos com o que sabemos do mundo e, dessa forma, VER torna-se uma tradução de nossa capacidade de contextualizar as imagens e fazer conexões com o mundo. Mais ou menos como disse Ernest Gombrich: a imagem tem por função garantir, reforçar, reafirmar e explicitar a nossa relação com o mundo visual. E diante delas, há duas formas possíveis de investimento psicológico: o Reconhecimento e a Rememoração. Por isso, o Cinema é ponte, promove interligações com o que já trazemos de conhecimento do mundo.

O cinema seria então, como o sentia George Melliés, mágico e fazedor de espetáculos, um meio hipnotizador. Foi isso que o cineasta buscou no Cinema: seu aspecto  mágico, de entorpecimento da alma, de hipnotização dos sentidos. E entramos num estado de sonolência, a partir do qual tudo é possível. Cabe ao realizador a maior ou menor capacidade de instigar e contaminar o público, tornando-o parceiro de sua maneira de conceber o mundo.

Mirian entrevista

Para finalizar, as palavras de Mirian Tavares:

“É preciso termos em conta que dentro do quadro há uma realidade, e fora do quadro existe outra. Ou seja: entender a imagem é fazer uma abstração entre ela e o real. A Literacia nos mostra que só nos hipnotizamos se quisermos. A Literacia serve para nos deixar conscientes o bastante para saber que, só entramos no estado de hipnose, se assim nos deixarmos conduzir.”

Mirian Tavares no reino da LITERACIA 

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Mirian Tavares diz que as imagens são um processo de construção…

Há pessoas que tem o dom de encantar. Seja de que forma for: pela delicadeza, pela inteligência, pela simplicidade, por nos contaminarem com seu escopo cultural e nos promoverem imediata adesão, por nos provocarem sintonias, ou por partilharem as mesmas preferências artísticas, ou até por nos trazerem, em sua seiva de conhecimento, laços por demais semelhantes aos que mantemos com nosso pai. Comigo, em relação à professora Mirian Tavares, emérita pesquisadora, Doutora e Mestre da Universidade do Algarve, foi isso que se deu.

Mirian Tavares, além de ser uma profissional que tem profundo conhecimento sobre o Cinema, área de atuação de sua preferência, é uma intelectual de alto gabarito: fala de temas os mais diversos, sempre partindo do cinema ou sendo por ele conduzida, com a segurança notável de quem fala sobre o que ama, e o faz com tanta categoria, que é impossível ouvi-la e não ficar completamente encantado. Com ela e com a Sétima Arte. Como se não bastasse tudo isso, Mirian Tavares ainda carrega consigo uma simplicidade que emoldura com delicada beleza seu potencial de Conhecimento.

Tive a honra de estar na seleta plateia de seu minicurso de Literacia Fílmica na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora. E posso garantir qe de todas as muitas aulas de cinema as quais assisti, as de Mirian foram as mais iluminadoras. Uma imensa alegria e gratidão ter partilhado de momentos tão singulares propiciados pela competência e profunda bagagem cultural da professora Mirian Tavares. Orgulho tê-la como conterrânea. Mirian Tavares Significa !

Nesse sentido, louvamos aqui o curso de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora, que está constantemente realizando eventos, jornadas, cursos, seminários, ou seja, ensejando ações que promovam o gosto pelo ato de estudar, que motivem alunos e comunidade de modo geral, a descobrir novos modos de aprender e de estar sempre em busca de novos caminhos por onde enriquecer nossos repertórios culturais.  O que a FACOM/PPGCom/UFJF oportuniza a seu corpo docente é o gosto pela busca de novas fontes de leitura e aprendizado sobre o Saber, e assim está sempre a promover a abertura de novas janelas ao conhecimento, o que por si só já torna a UFJF uma instituição cheia de méritos, merecedora de aplausos de aprovação e incentivo para seguir na trilha que nos oferta tão generosamente.

Nesse cenário, é preciso ressaltar o trabalho da professora Doutora Gabriela Borges, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFJF, bem como o de todos os seus colegas Mestres Doutores, que cuidam de multiplicar o Conhecimento e instigar novos saberes, repassando o que sabem com desvelo e prestimosidade sempre a postos.

Mirian e eu

Encontro com Mirian Tavares em minicurso na UFJF…

E para terminar, deixamos você, leitor amigo do #blogauroradecinema, com um precioso texto da professora Mirian Tavares:

O Turista acidental

A imagem como ponto de partida para um encontro ou reencontro

Quando a viagem está forçada por trabalho ou necessidade as sensações são diferentes
Quando a viagem está forçada por trabalho ou necessidade as sensações são diferentes
                                                                             * MIRIAN NOGUEIRA TAVARES

O cinema, pródigo criador de imagens, serviu em muitos momentos para suprir, de alguma maneira, ausências. Isto não é um cachimbo. Mas sua imagem pode trazer a boca um certo gosto conhecido, ao olfato um cheiro distante. Como as famosas bolachas de Madeleine que habitaram o imaginário (e os sentidos proustianos), uma imagem (real ou virtual) serve como ponto de partida para um encontro e/ou reencontro com algo que já não está, que nos falta, que foi nosso ou nunca nos pertenceu. Bazin, em seu já mais que célebre texto sobre a Ontologia da Imagem Fotográfica, requeria o carácter de verdade às imagens, realistas em sua origem, cuja função primordial era “salvar o ser pela aparência”[1] – mesmo que discordemos de sua visão do cinema temos que nos render a esta evidencia: “Não se acredita mais na identidade ontológica de modelo e retrato, porém se admite que este nos ajuda a recordar aquele e, portanto, a salvá-lo de uma segunda morte espiritual.” [2] Assim temos que a imagem surge, fundamentalmente, na arte, para salvar a todos da morte certa do esquecimento. Portanto o cinema funciona como o medium perfeito para traçar trajetórias de lembranças, como um álbum de recordações, e mais ainda, para mostrar, a sua maneira, como a nossa relação com o mundo é construída de fragmentos que vão sendo justapostos na tentativa de recriar algo que agora nos falta (ou que sempre nos faltou). Por isso alguns realizadores, em vários momentos de suas cinematografias, traduzem essa maneira especial de estarmos num mundo que não existe por si mesmo, ele é apenas o resultado da nossa invenção. Às vezes a necessidade de reinventarmos o espaço que vivemos torna-se mais premente, como por exemplo, quando estamos longe, deslocados, desterritorializados. Quando somos “turistas acidentais” levados, por vários motivos, a sair daquilo que chamamos lar e chegarmos a um outro lugar que poderá e/ou deverá tornar-se nossa nova casa. Ao contrário dos turistas do costume que viajam em busca da alteridade, esses buscam o mesmo no outro – pedaços reconhecíveis de uma história que ficou para trás.

“Moro no Menino de Deus, do qual Porto Alegre é apenas o que há em volta”. O escritor Caio Fernando Abreu, que escolheu o autoexílio dentro do próprio país, fala da sua cidade, que não é o todo que está em volta, mas seu cantinho, seu bairro, seu microcosmo. E assim resume a nossa relação com a cidade – ela é metonímica. Criamos a nossa própria cartografia, que se compõe de fragmentos que montamos através do traçado do nosso desejo. Saio do bairro se meu desejo está além, mas minha casa, minha cidade é bem mais pequena e circunscrita não só geográfica mas também emocionalmente. Há em todos nós, em maior ou menor grau, uma relação telúrica com o lugar que nos dizem ser o nosso, pátria, terra, casa. Mas somos conduzidos pelo desejo a errar por outras terras, o que nos faz sentir solitários, ou como os personagens de Wenders, eternos errantes. E é por Wenders que quero começar a falar desses turistas acidentais: que deixaram sua cidade natal e partiram. Vou então percorrer três cidades, vistas por 3 cineastas de origens diversas, cujos filmes só podem ser relacionados por mostrarem aqueles que vivem à margem, de uma maneira muito especial, no caso de Wenders, mas que estão “fora de sítio”, deslocados. O cinema, que não pode dizer o indizível, mostra. Revela na sua montagem, na sua essência de fragmentos que são recompostos, a dor que não pode ser sublimada, mas que habita os habitantes, muitas vezes invisíveis dessas cidades, Berlim, Paris e Lisboa, metrópoles que acolhem, mesmo sem querer, sonhos e pessoas que correm atrás deles.

As cidades, com suas particularidades e idiossincrasias, possuem em comum uma voracidade que a tudo devora, uma velocidade que obriga aos que nela vivem, a capacidade de síntese, pois é preciso reconstrui-la quotidianamente a partir de pedaços esparsos, de vazios. A modernidade trouxe consigo um novo conceito de espaço urbano, que aparece, por exemplo, nos ensaios de Baudelaire e de Benjamin. E trouxe também um novo modelo de visão: subjetiva, corpórea, direcionada. Para montar o puzzle que é o espaço urbano, caminhamos orientados por peças fundamentais que destacamos de todo o resto. E todo o resto fica à margem. E é assim que funciona o cinema – concentra o nosso olhar naquilo que realmente interessa à diegese. A nossa visão do mundo é subjetiva e composta de flashbacks: vemos o que nos prende a atenção e aquilo que nos chama a atenção relaciona-se com algo que já vi (vivi). Portanto, a cidade é construída através da montagem que faço com pedaços dela mesma e com outros tantos que já trago dentro de mim. Vivemos numa cidade, que é nossa, onde conhecemos os que passam e cada canto parece ser um velho amigo, só que por alguma razão, seja ela qual for, passamos a errância e acabamos por parar em outras cidades que outrora eram apenas um sonho, um desejo que se torna real deixando assim de ser desejo. E aquela cidade, lá no fundo de nós, que ficou para trás, apodera-se deste novo espaço, e cresce, adquirindo a aura da distância, como as histórias do marinheiro de Benjamin – ela é agora o que já não tenho.

O cinema que mostra os “turistas acidentais” revela o desejo do realizador de desvelar a visão dos que saíram de casa e ainda não sabem bem se aquele lugar que os acolhe será seu novo lar. Assim, Wenders, que é um errante, perde-se na cidade natal (Asas do Desejo), trazendo seres invisíveis que não pertencem a lugar nenhum. Talvez a um céu imaginário. Os anjos de Wenders pousam sobre as coisas e estão ao lado das pessoas mas ninguém os vê. E seu mecanismo de atenção dilui-se e já não ouvem mais nada, só murmúrios indecifráveis e deles filtram apenas a dor. Para participar da cidade, ser parte dela, integrar-se, é preciso estar preparado para a queda. E qual estrangeiros vagueiam pela cidade que agora concreta, torna-se uma estranha, com novos traçados que deverão ser aprendidos, palmilhados e descobertos aos poucos. Vê-se a cidade de baixo e ela não é a mesma – a grande distância entre o sonho e a realidade é mostrado de uma maneira sublime, pensado no sublime como o abismo que nos espreita. O anjo caído de Wenders é uma recorrência no seu cinema, há muitos anjos caídos e sobretudo deslocados e sem destino. Não importa a cidade, podemos ser estrangeiros no lugar mesmo que nos viu nascer. E aí, a cidade que é nossa, deixa de nos pertencer. Torna-se uma estranha cuja cartografia não dominamos e acabamos por nos perder num labirinto interior que se projeta na urbe que nos envolve.

Na obra de Solanas, realizador argentino, somos apresentados a pessoas que partiram porque não podiam ficar (Tangos – O Exílio de Gardel). Paris era o destino sonhado. Mas a visão que eles têm da cidade é uma estação – onde se chega, mas também se parte. Um lugar no meio, entre dois destinos. Um telefone que traz as vozes que ficaram e o desejo de fazer de Paris a Buenos Aires natal. Paris não é o destino turístico dos amantes, sejam eles de qualquer espécie, aqui é um lugar no meio – estão exilados, não podem voltar. Os turistas comuns são também pessoas que chegam e partem, que se relacionam com a cidade de uma maneira impermanente. O que marca profundamente a diferença é que estes, os turistas do costume, percorrem a cidade cartão postal, sem surpresas, sem recantos, sem nostalgia, pois a sua casa está lá, em outro lugar que é o seu ponto de chegada e partida. Mas os outros, de que fala o filme de Solanas, chegaram e não sabem se vão partir, mesmo que não desejem ficar. Não pertencem à cidade e vivem à margem com os olhos voltados para a estação – partir… Não há o gozo do sonho, há a angústia e a nostalgia embalada pelos tangos de Gardel. O realizador faz uma estranha homenagem a uma cidade que acolhe seus personagens que querem e não querem estar ali. Que querem trazer para junto de si a cidade que ficou para trás. Assim vão reconstruindo uma Paris que só existe dentro de cada um deles. O exílio torna-se menos duro quando a memória reinventa o espaço.

O realizador Walter Sales realiza uma viagem à Lisboa no seu filme Terra Estrangeira. Seus personagens escolhem Lisboa como destino para um autoexílio após uma grande desilusão com seu próprio país. Lisboa é estrangeira, mas é também a cidade mãe, centro de um país que partiu para o atlântico e desbravou uma nova-velha terra. É, de alguma maneira, uma terra não estrangeira, uma doce recordação, um déjà-vu. “Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar estas futuras dores dilaceradas”[3] . Mas ao chegar à Lisboa, aqueles que vieram, talvez para ficar, sentem-se como se estivessem “por fora do movimento da vida” e parece que desaprenderam “a linguagem dos outros”. Há um código especial que eles não conhecem. Há uma palavra-passe que não lhes foi fornecida. E a cidade, tão grande, faz com que eles se misturem no mundo dos invisíveis, que passam pelas ruas e ninguém os vê. Ninguém cumprimenta, ninguém conhece. É uma existência que nega a própria existência. É como se o corpo se fundisse com a calçada e as ruas e os carros e a poluição. E os olhos do invisível, não vê a cidade nova que se está à sua frente, mas vê o porto, o atlântico, tão imenso, atravessado na garganta. E o filme mostra: Lisboa fragmentada, marginal, magnífica quando distante, intangível. E os personagens correm para a praia. E um navio ao longe parte, ou chega. Partir e chegar, como diz a canção, são só dois lados de uma mesma viagem. Moro no menino de Deus… Todos moramos no Menino de Deus, de alguma maneira. E o mundo é apenas o que há em volta.

Notas

[1] BAZIN, André. O Cinema. São Paulo, Brasiliense, 1991, p. 19.
[2] Idem, ib. p.20
[3] Trechos retirados do conto “Dama da Noite” de Caio Fernando Abreu.

E quando passarem a limpo, a Teledramaturgia dirá PRESENTE…

 OS DIAS ERAM ASSIM: história revisitada com coragem e qualidade artística                                                                                                                                                                                                                                 *Aurora Miranda Leão

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Tenho ficado um tanto macambúzia a cada vez em que termina um capítulo desta nova minissérie da TV Globo, obra que a emissora decidiu categorizar como supersérie – porque menor que uma novela tradicional e maior que o formato consagrado das minisséries –, o que facilitará também a venda para o mercado internacional. Mas Os dias eram assim é uma Supersérie não só por isso: a construção narrativa de Os Dias faz de sua teledramaturgia uma obra com todas as qualidades para demarcá-la como um divisor de águas.

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A história começa no dia da vitória da seleção brasileira na Copa de 1970. E segue a partir daí num enredo que tem a política como ponto central, do qual partem todas as ações e referências. A política está na escolha das músicas, na direção de arte, nos espaços cênicos, no foco diegético, enfim.

Cada um observa a obra pelo viés que melhor lhe apraz, mas não vale dizer que Os dias eram assim é apenas mais uma história de amor e que, por causa dela, a questão política aparece apenas como pano de fundo.

Dizer isso é faltar com a verdade. Uma obra que tem a abertura com imagens em preto e branco reportando ao período nefasto que tomou conta do Brasil nos anos 60 -70 – 80, embalada pela canção Aos nossos filhos, de Ivan Lins e Victor Martins, por mais que se queira, jamais poderá deixar de ser política, desde sua gênese.

Arrepio toda vez que escuto a canção: Aos nossos filhos semelha uma ode. É quase um estribilho (cantado na abertura pelos próprios atores, mas a música ganhou o país quando de seu lançamento com a gravação emblemática de Elis Regina), um emocionado/emocionante pedido de ‘perdão’ às gerações que se seguiram após às que viveram/sobreviveram ao período da ditadura no país. Escutar “Perdoem a falta de ar… os dias eram assim” é como um estilete penetrando fundo na alma. Precisa não conhecer nada de história para não se sensibilizar com  o que a supersérie mostra todas as noites na tela da TV (excetuando a quarta, para tristeza nossa), e de forma absolutamente bem realizada.

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A maestria com que a direção cuida de cada cena – os enquadramentos, os movimentos de câmara, a fotografia, a condução do elenco, a escolha das músicas -, a interpretação dos atores (todos numa entrega notória e necessária para dar veracidade às cenas), a caracterização e a reconstituição de época (direção de arte esmerada), a qualidade da produção, e a primorosa edição fazem de Os dias eram assim a teleficção mais relevante exibida pela TV Globo este ano, até então.

Acompanhar a supersérie, sabendo que o enredo foca nos anos 70-80, é visitar aquele tempo sombrio um pouco a cada noite. Não é agradável ver o que vemos, mas é necessário, importante, corajoso e iluminador.  Cada cena é apresentada com inegável rigor estético e dramatúrgico, perpassada com muita coerência e com implícito vigor moral e psicológico. O país vivia uma convulsão sócio-política que deixou profundas marcas em sua história, e a supersérie apresenta tudo isso num painel pungente que inaugura uma página nova, e altamente expressiva, na teledramaturgia.

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Cláudia Abreu e Betty Lago em cena de Anos Rebeldes

Gilberto Braga e Sérgio Marques foram os pioneiros na teledramaturgia ao mostrar os abomináveis anos de chumbo em sua linda e inesquecível Anos Rebeldes, de quem Os dias eram assim claramente descende. Nesta como naquela, a qualidade estética e dramatúrgica são inegáveis e dignas dos maiores aplausos. 

O que hoje Os dias eram assim traz de novo e de suma relevância é a abordagem por um viés inaugural. Motivado decerto pelo galope indomável do tempo, este “senhor dos enganos” de que nos fala a canção de Herbert Vianna, o enfoque que conduz a supersérie é fruto da contemporaneidade veloz e tecnologicamente conectada que liga o mundo em redes, das quais seus criadores, em saudável sintonia, não esqueceram na hora de retomar a questão. Em Anos Rebeldes, a notável criação do querido Gilberto Braga (!), a abordagem foi pioneira também. E tão meritória que até hoje é alvo de estudos e pesquisas no país e além fronteiras. Os dois marcos que as minisséries simbolizam enriquecem nossa Teledramaturgia.

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Gilberto Braga quando do lançamento do livro sobre Anos Rebeldes em 2001

Os dias eram assim acrescenta uma nova perspectiva para a memória teleaudiovisual do país naquele período, não abordada até então.  Mostrar que os padrões do empresariado e da classe dominante do país eram avessos à liberdade e à justiça social, ou seja, estavam contaminados pelos mesmos valores sórdidos, abjetos, deploráveis e desumanos que motivaram parte dos militares a promover o cerceamento de todas as liberdades no país, é novo, forte, corajoso, relevante.

Isso é o que mais avulta em Os Dias Eram Assim !

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Antônio Calloni em atuação digna de todos os prêmios: Colossal !

Quando você assiste a um painel televisual com a intensidade e a qualidade – histórica, imagética, dramatúrgica – de Os dias eram assim, e de repente ouve músicas como Deus lhe pague (Chico Buarque), Pra não dizer que não falei de flores (Geraldo Vandré), e Cálice (Chico Buarque e Milton Nascimento), a emoção lhe toma de assalto. Mais ou menos como diria nosso saudoso amigo e emérito cronista Artur da Távola:

“Quando a razão volta, o coração já se derramou”.

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Portanto, desliguem o botão do preconceito e assistam à obra com coragem de se emocionar e revisitar um passado nem tão distante assim. Sugiram a filhos, netos, sobrinhos, pais, mães, tios, primos, amigos, alunos e vizinhos que assistam à supersérie. A hora não é mais problema na grade televisiva: quem não pode ver no horário marcado, assiste quando couber na agenda ! Basta ligar no Globo Play ! Ainda por cima, é de graça.

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*Já elogiamos aqui a interpretação magistral de Antônio Calloni, o esteio visceral de Os dias eram assim. Mas nossos aplausos estendem-se a todos, em especial para Gabriel Leone, Sophie Charlotte, Cássia Kiss, Daniel de Oliveira, Renato Goes e todos os demais, incluindo a prodigiosa equipe técnica, que participa de um marco da nossa Teledramaturgia.

Voltaremos ao tema.

* Confira a letra de AOS NOSSOS FILHOS 

Perdoem a cara amarrada

Perdoem a falta de abraço

Perdoem a falta de espaço

Os dias eram assim

 

Perdoem por tantos perigos

Perdoem a falta de abrigo

Perdoem a falta de amigos

Os dias eram assim

 

Perdoem a falta de folhas

Perdoem a falta de ar

Perdoem a falta de escolha

Os dias eram assim

 

E quando passarem a limpo

E quando cortarem os laços

E quando soltarem os cintos

Façam a festa por mim

 

E quando largarem a mágoa

E quando lavarem a alma

E quando lavarem a água

Lavem os olhos por mim

 

Quando brotarem as flores

Quando crescerem as matas

Quando colherem os frutos

Digam o gosto pra mim 

Perdoem a falta de ar…. Precisa dizer mais ?