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Coronavírus escancarou preconceito com idosos que telenovela já havia mostrado

Jornalista Valmir Moratelli analisa cenário inóspito para idosos 

Leopoldo e Flora Mulheres Apaixonadas (Foto: CEDOC/ TV Globo)

Flora (Carmem Silva) e Leopoldo (Oswaldo Louzada) sofriam nas mãos da neta.

 

Novela Mulheres Apaixonadas, 2003*: Dóris (vivida por Regiane Alves) é uma menina minada, que despreza e humilha os avós, Flora e Leopoldo (interpretados por Carmem Silva e Oswaldo Louzada), com quem divide o apartamento no Leblon, na zona sul do Rio. Em uma das cenas, do primoroso texto de Manoel Carlos, Dóris assim se dirige aos avós: “Tem que ter um pouco mais de juízo e um pouquinho mais de consciência de que vocês atrapalham, gente! (…) Vocês dão muito trabalho, dão muita despesa também. Vovô agora com esses chiliques, só de remédio foi uma fortuna. (…) Não servem pra nada. Já pensaram quando morrer? Vão ser enterrados onde? Já pensaram nisso?”.

As fortes cenas de Dóris maltratando os avós chocaram o país, a ponto do Congresso ter aprovado, ainda em 2003, o Estatuto do Idoso. O que o Brasil ouve agora nos discursos de governantes e empresários já foi denunciado lá atrás, há 17 anos, pela nossa ficção televisiva. É o chamado “ageísmo” – que vem do inglês “age” (idade), e significa discriminação etária. Na verdade, a pandemia do coronavírus (covid-19) apenas escancarou o preconceito com idosos sempre emudecido no Brasil.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), idoso é todo indivíduo com 60 anos ou mais. O Brasil tem mais de 28 milhões de pessoas nessa faixa etária, o que representa 13% da população. A projeção é que, em 2031, o número de idosos (43,2 milhões) supere pela primeira vez o de crianças de 0 a 14 anos (42,3 milhões). Esses números reforçam que os idosos são parcela significativa de uma população que, mesmo ainda se enganando como jovem, envelhece em ritmo acelerado.

O presidente Jair Bolsonaro, ao minimizar a pandemia e contrário às orientações da OMS, fez a seguinte declaração: “Eles têm outras doenças, mas dizem que morrem de coronavírus. (…) Não é o coronavírus que mata os velhinhos, essas pessoas já estão debilitadas”. Ainda nas primeiras temerosas semanas de março, o empresário e apresentador de TV Roberto Justus teve um áudio vazado, no qual conversava com amigos: “Na favela (o vírus) não vai matar ninguém. Vai matar só velhinho e gente doente”. No mesmo período, o empresário curitibano Júnior Dorski, sócio de uma rede de restaurantes, gravou um vídeo afirmando que “não podemos (parar) por conta de 5 mil ou 7 mil pessoas”.

O coronavírus, entre tantas consequências nefastas, desnudou o ageísmo do Brasil. E por isso o texto de Manoel Carlos permanece tão atual. Só que agora quem fala que os idosos “não servem pra nada” e “dão muito trabalho” não é obra de ficção. A agressividade com que tratam a população idosa, diminuindo sua importância econômica e – mais violento – menosprezando sua humanidade, é reflexo de um país que não quer se enxergar no espelho. Mas já foi escancarado na telenovela.

O Brasil assiste em 2020 à continuação do discurso de Dóris. Se aquela jovem atroz vivesse nos tempos atuais, mandaria seus doces avós, Flora e Leopoldo, circularem livremente pela orla, e ainda diria para não se preocuparem com o vírus que já contaminou mais de três milhões de pessoas no mundo, pois “é só uma gripezinha”.

▷ Aurora Miranda Leao 📷🎬📺🎶🎭 (@auroradecinema) • Instagram ...

* Valmir Moratelli é autor do livro “O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma e doutorando em Comunicação pela PUC-Rio.

Antropóloga Miriam Goldenberg atua para dirimir preconceito com 3a idade

Referendando a percepção de Moratelli, a antropóloga Mirian Goldenberg, que há duas décadas pesquisa sobre envelhecimento, também revela preocupação com o momento atual. Para a pesquisadora, esse preconceito sempre existiu e foi intensificado pela pandemia:

“O que temos visto nesta pandemia são discursos que chamo de velhofóbicos se generalizando. Políticos, empresários e até o presidente da República já disseram que ‘não se pode deixar a economia parar’ e que os jovens ‘têm que voltar a trabalhar’. Ou até que os velhos vão morrer ‘mais cedo ou mais tarde’. Estamos assistindo horrorizados a discursos sórdidos, recheados de estigmas, preconceitos e violências contra os mais velhos. […] Os velhos sempre foram vistos como um peso para a sociedade, ou seja, já experimentam o que chamo de ‘morte simbólica’. O valor que se dá a essas pessoas mais velhas é quase nulo, socialmente e dentro de casa”.

E dá uma importante dica:

“Tenho tentado fazer as pessoas escutarem os mais velhos. Esse é meu propósito desde que começou essa pandemia. Não dá para ficar dando ordem. Precisamos compreender a a realidade deles e juntos com eles encontrar alternativas para amenizar essa situação, de forma que eles não vivam como se estivessem numa prisão.

Isso seria uma morte antecipada para eles.

Ligue para eles, faça atividades junto com eles. Faça com que eles se sintam vivos, úteis, amados, cuidados”.

Goldenberg e seu amigo, Guedes, de 97 anos

Mirian Goldenberg e Guedes, seu amigo de 97 anos…

“Todos caminham para a velhice”, alerta Miriam Goldenberg:

“É urgente que todos aprendam uma lição importante: a única categoria social que une todo mundo é ser velho. A criança e o jovem de hoje serão os velhos de amanhã. Os velhofóbicos estão construindo o seu próprio destino como velhos, e também o destino dos seus filhos e netos: os velhos de amanhã. Ou seja, muitas dessas pessoas não se enxergam como velhos. A velhice é associada à imobilidade, à doença, à incapacidade, à inutilidade. Por isso ninguém se reconhece como velho, nem os próprios velhos.”

*Com informações de Luis Barrucho, da BBC News Brasil

Veja mais em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52425735

Adriana Esteves eterniza Avenida Brasil

Resumo semanal de Avenida Brasil de 20/01/2020 a 24/01/2020 ...

Adriana Esteves é Carminha e Débora Falabella é Rita: contracena de gigantes !

Avenida Brasil está desde outubro preenchendo a tarde nobre da TV Globo. A exibição do megasucesso, que desbancou Escrava Isaura em número de vendas para diversos países, está na reta final: termina no dia em que maio adentra o calendário, portanto, no Dia do Trabalho.

Por conta disso, decidi postar artigo escrito quando do final da exibição da novela, em 2012, numa homenagem a esta atriz formidável, que considero a maior do Brasil – não esquecendo que Fernanda Montenegro pertence à notória categoria Hors-Concours -, a protagonista Adriana Esteves.

O que mais surpreendeu em AVENIDA BRASIL não foi o mega ibope do último capítulo nem a forma como o autor se inspirou em autores famosos, nem a trilha, nem o encantamento com o subúrbio traduzido no Divino.

Tudo isso já houve antes, e continuará acontecendo. Há um farto arsenal de motivos pelos quais a novela de João Emanuel Carneiro virou um ícone nacional.

Mas o que mais nos chama a atenção – depois de ler, reler e encontrar, nos mais diferentes espaços informativos, comentários sobre a novela, é uma sensação de “Queremos Carminha !”, ainda no ar.

Vilã de 'Avenida Brasil', Adriana Esteves faz revelação: 'Eu não ...

A atriz acredita que, mesmo com as maldades, Carminha conquistou o público por ser corajosa e divertida: “Ela enxergava a vida com inteligência e humor”, disse em entrevista de divulgação da Globo sobre a reprise. Para ela, a maior maldade de Carminha era maltratar e debochar da própria filha, Ágata (Ana Karolina).

Adriana Esteves revela ainda que fazer a vilã foi sua maior entrega como atriz: “Quando terminou a novela, foi a primeira vez que eu senti uma dificuldade muito grande de abandonar a personagem […] Eu estava no 220 volts, e precisava voltar para o 110 para continuar a viver ou até para fazer outros trabalhos, porque como é que eu ia conseguir fazer outra coisa naquela vibração ?”

O que esta magnânima ATRIZ Adriana Esteves conseguiu, através da bem construída personagem criada por João Emanuel Carneiro, é algo ainda a ser estudado por especialistas da área, e quem sabe mereça muito mais a análise de quem atua na seara da psicologia.

Adriana Esteves alcançou através de Carminha muito mais do que o apoio popular e a adesão total de todo o público de Avenida Brasil. O que Adriana e sua irretocável CARMINHA conseguiram foi mexer no imaginário coletivo e fustigar a emoção de quantos puderam ver – e vibrar – com a estupenda interpretação desta Atriz para uma personagem capaz das maiores vilanias e atrocidades. Intérprete e personagem entrelaçaram-se no gosto popular criando um emaranhado de emoções e cumplicidade que responde por grande parte do êxito da trama de João Emanuel Carneiro.

Esta sensação é o que vai por baixo das afirmações, e corre no íntimo de quantos agora comentam o final da novela – todos viram a mobilização nacional gerada pela exibição do último capítulo da trama, praticamente parando São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre -, é o que aflora quando se afirmam coisas do tipo “Carminha podia ter reagido”, ou “Pensei que Carminha estava mentindo”, ou ainda “Achei que Carminha ia dar a volta por cima”, ou, mais agudo ainda, “Queria que Carminha tivesse terminado rica, numa mansão na zona sul”, ou “Queria Carminha milionária enganando um novo Tufão”…

Carminha (Adriana Esteves) - Personagens de "Avenida Brasil" | Amo ...

Isso tudo é a tradução mais latente e verdadeira de que o envolvimento com a Carminha de ADRIANA ESTEVES tomou tal proporção que o público desejava não só não ver a vilã ficar pobre e sem glamour, como gostaria de ver novamente a atriz – que ele aprendeu a amar e ver bela, mesmo com todas as maldades de Carminha – esbanjando charme e eloquência de vencedora.

Adriana Esteves não estará na próxima trama de João Emanuel ...

Criatura e Criador: Adriana Esteves e o autor João Emanuel Carneiro…

Foi isso que fez nascer Laureta, a personagem seguinte de João Emanuel Carneiro para a atriz em sua trama posterior para o horário nobre. Detalhe de extrema relevância na bela parceria dos dois. Mas isso será tema de artigo em fase de elaboração.

Este público queria rever/reencontrar sua Carminha-Adriana de novo linda, loura, derramada em elegância, destratando os pobres, enganando o marido, tripudiando com as funcionárias, fazendo exigências homéricas, zombando dos suburbanos e dizendo – sem papas na língua e com a maior desfaçatez – as insanidades que dizia. Porque a Carminha vencedora, bonita e altiva era também o alter ego da enorme classe C, ou de quantos se sentiram/sentem inferiorizados tantas vezes, e que, naqueles momentos de altivez sórdida da vilã, se sentiam vingados ou de alma lavada através dos ótimos diálogos da trama. E aqui entra, intenso e avassalador, o potencial artístico de ADRIANA ESTEVES, a quem a imensa maioria da plateia queria ver novamente brilhando e tendo as rédeas da história nas mãos. SENSACIONALLLLLLLL !

Globo pode trocar Êta Mundo Bom por Avenida Brasil na próxima ...

E isso só é possível de ser alcançado, em se tratando de personagem antagonista, quando se tem uma intérprete do quilate de Adriana Esteves, cuja maestria, competência e natural vocação fazem dela uma atriz do mais alto refinamento interpretativo.

Adriana Esteves foi de tal modo encantadora que, através de Carminha, alcançou instâncias que significam muito mais do que receber o apoio absoluto da audiência, a vibração da plateia, a emoção do telespectador, o entusiasmo dos colegas, a vibração da crítica, o encantamento do autor, ou o misto de adesão x revolta que se viu durante todo o desenrolar da telenovela. Tão arrebatadora foi a atuação de Adriana que “puxou” todo um corolário de êxitos para a novela: Avenida Brasil foi a primeira novela brasileira que bateu o recorde alcançado pela lendária “Escrava Isaura” (1976), de Gilberto Braga, até então a telenovela brasileira mais exportada.

Adriana Esteves enfrenta desafio como grande vilã de “Avenida ...

A capacidade impressionante e invejável de ADRIANA ESTEVES de criar expressões faciais diversas para ‘Carminha’, numa mesma cena – passando, em questão de segundos, de um semblante triste para a agressividade, de um sereno para um irônico, de um alegre para um raivoso, de um amoroso para um sarcástico – ecoou fundo na emoção do telespectador e criou uma empatia só explicável pelas leis do sentimento. Sua inserção na cena artística brasileira se dá como uma Atriz completa, disposta e capaz de se jogar em qualquer personagem com a mesma extrema e singular capacidade com a qual ela transformou Carminha na melhor personagem do ano e, quiçá, na vilã mais adorada de todas as novelas.

Adriana Esteves ganha troféu como Carminha; confira os destaques ...

O primeiro prêmio por Carminha foi o do Jornal Extra. Depois vieram outros 7…

Veja fotos do 15º Prêmio Contigo! de TV no Rio de Janeiro

Carminha deu a Adriana todos os prêmios como Atriz do ano de 2012, num total de 8 estatuetas.

         Atriz ganha prêmio da ABI pela personagem Inês, da novela “Babilônia”, de Gilberto Braga…            

                        Um DEZ gigante e emocionado para Adriana Esteves !

Malhação inclui pandemia e faz história

Malhação - Toda Forma de Amar": veja as primeiras impressões do ...

       Novela das 18h é única no país que adiciona o vírus à sua narrativa

Foi no capítulo final, exibido sexta, aos 3 primeiros dias de abril deste 2020.

Como é sabido, toda a programação da TV Globo foi alterada por conta da doença que assusta o mundo: a informação ganhou muito mais tempo e a equipe esmera-se na intensidade da cobertura jornalística. As gravações de todas as novelas pararam e somente “Éramos seis”, atração das 18h, foi finalizada no tempo previsto porque seu esquema de gravação já tinha sido finalizado. “Salve-se quem puder”, das 19h, e “Amor de mãe”, das 21h, tiveram suas histórias interrompidas, e devem retornar tão logo o isolamento social não seja uma premissa imperativa.

Elenco afinado e apuro estético marcam excelente estreia de ...
Éramos seis: novela cumpriu prazo previsto e trama não abordou pandemia.

“Nos tempos do Imperador”, novela de Alessandro Marson e Thereza Falcão, que iria estrear em substituição a “Éramos seis” e já tinha capítulos gravados, não entrou no ar e a estreia seguirá os protocolos de saúde necessários.

Desse modo, interrompidas abruptamente mas em decisão completamente acertada da direção da TV Globo, as novelas das 19h e 21h não puderam incluir em sua trama nenhuma citação ao caos social em que vivemos, quando uma doença gravíssima assombra gerações e deixa o mundo inteiro em estado de aflição.

“Toda forma de amar” inclui drama e impasse do coronavírus em sua diegese.

Entretanto, por algum motivo desses que só o Mistério responde, coube a “Malhação”, temporada Toda forma de amar, incluir as agruras deste tempo insólito, difícil e incongruente em seu discurso, o curso da comunicação que é verbo e imagem.

Essa insuspeitada inclusão funcionou bem demais porque muito bem realizada. Ainda havia muitas situações da narrativa à espera de resolução: conflitos pediam desfechos e personagens precisavam ter seus destinos definidos. Isso poderia gerar um tremendo vácuo na trama e tornar insosso e pouco plausível o final da história.

Ao contrário disso, o que se viu foi um diálogo pujante, importante e oportuno entre os dois protagonistas da trama. Foi lindo e, sobretudo, necessário. Nós não acompanhávamos a novela; aqui acolá, via uma cena ou outra. E foi por acaso que estava diante da telinha quando a cena em que a pandemia é inserida começa e me rouba a atenção.

Rita e Felipe formam o par romântico mas não trocam beijo nem abraço no capítulo final.

Rita (Alanis Guillen) e Filipe (Pedro Novaes) estão no centro da cena, no meio da cidade (a imagem evidencia o espaço cenográfico vazio) e travam um diálogo que começa assim: “A gente ainda tem que contar tudo que não vai poder mostrar para as pessoas por conta dessa epidemia de coronavírus”, diz ela, que havia sido sequestrada e passara dias num cativeiro. Filipe completa: “Realmente essa epidemia acabou atrapalhando um pouco o final da nossa história”. Ambos estão com fisionomia serena mas não escondem a sensação de desamparo e espanto diante do que estão vivendo. Embora estejam ali para indicar os rumos da trama, que está chegando ao final, há um subtexto que perpassa toda a ambiência e que comunica muito fortemente a perplexidade que toma conta de todos nós neste momento.

No encontro registrado pela cena, estavam tristes e com ar desenxabido não apenas a Rita e o Filipe, mas também a Alanis e o Pedro, ao mesmo tempo em papéis que lhes deram chance de revelar sua competência para o métier da interpretação (os dois ganharam bastante adesão do público), mas, sobretudo, simbolizando uma gama de sentimentos agora comuns a todos os brasileiros diante deste panorama invasivo e indesejável de pandemia.

Novela 'Malhação - Toda Forma de Amar': Rita fica com Filipe após ...
Alanis Guilen e Pedro Novaes: talento e carisma na Malhação 2020.

Tê-los como epicentro do último capítulo de “Toda forma de amar” tem uma simbologia ainda mais forte. Porque eram o par romântico que todos queriam ver juntos no final. Ademais para Alanis e Pedro, jovens atriz e ator, acostumados a gravar a novela cercados de pessoas as mais diversas — da figuração ao contrarregra, dos câmeras aos diretores -, ter de finalizar a história, que sempre tem um elenco majoritariamente jovem, sem um abraço, sem um beijo, num cenário vazio, no qual a solitude impera, inesperada e obrigatória, deve ter sido um momento inaugural estranho. E a sensação do espasmo diante de tantas interrogações e a imprecisão da continuidade, revestiu a cena de sutil assombro, afirmando a supremacia do enredo da vida real sobre a criação literária.

O que aconteceu com “Malhação” foi um caso claro de transcurso da comunicação, conforme a classificação proposta pelo mestre Artur da Távola em seus preciosos estudos sobre a linguagem televisiva, em especial sobre a telenovela. Segundo o jornalista/cronista/escritor, a comunicação segue um processo que abrange oito cursos. O mais conhecido deles é o discurso, sobre o qual recai a maior parte das análises. Mas há ainda os outros sete, que são: decurso, recurso, incurso, excurso, percurso, concurso e transcurso.

O transcurso é o mais complexo e profundo componente do curso da comunicação. Ele se faz em dois planos: através da comunicação e acima dela. Surge através de algo que vai além do curso habitual ou previsível, algo que o ultrapassa. Registra-se quando se estabelecem momentos muito especiais, únicos, dentro da comunicação: são fenômenos de integração súbita de toda uma equipe. Ele acontece raramente, jamais como norma ou técnica alcançada. Ao contrário, o transcurso escapa ao controle de qualquer técnica. É, por definição, súbito e incontrolável. A partir dele, obtém-se níveis profundos de comunicação e empatia.

O assunto é deveras instigante. Nesta “Malhação” 2020, há um caso claro de transcurso da comunicação no momento em que a pandemia de coronavírus se interpõe na vida do país. E foi isso que aconteceu com a atração das 18h: um transcurso, sabiamente incorporado à narrativa.

Câmera subjetiva substitui Domingos Montagner em 'Velho Chico' e ...
Morte de Domingos Montagner foi outro caso de transcurso encravado na narrativa.

Assim com “Toda forma de amar”, como semelhante foi no caso da morte do ator Domingos Montagner em plena realização da novela “Velho Chico”, em 2016. Lá, como cá, os autores do texto e a direção da novela (além da direção da emissora) absorveram com enorme competência e propriedade a manifestação do real em seus enredos ficcionais. Faz-se relevante, portanto, que ressaltemos o acerto na condução das narrativas.

No caso específico de “Malhação”, a autoria (escritores e diretores) assina seu passaporte para a história da teledramaturgia brasileira ao incluir, de forma oportuna, inteligente, importante e necessária, a dureza da pandemia na diegese da obra, na qual as tramas paralelas foram encerradas com o casal protagonista narrando em off os desfechos de cada uma.

O final de “Toda forma de amar” alcançou enorme repercussão nas redes sociais, dividindo-se os comentários entre elogios e críticas. A maioria não gostou do final sem um beijo, o que é sempre esperado nas histórias românticas, seja em que lugar ocorram, porém era absolutamente necessário cortar qualquer afago por conta da covid-19; outros tantos reclamavam que tal ou qual ponta da trama ficou sem esclarecimento.

Enfim, em que pese a validade das perguntas sobre a narrativa, o que mais conta é a afirmação da vitalidade da novela das 18h, como prova o grande índice de posts nas redes sociais. Outrossim, o que mais fica patente é o lugar de destaque que “Malhação” ganha na literacia da teleficção seriada.

“Malhação — Toda forma de amar” entra para a história da Teledramaturgia como o único exemplar brasileiro que incluiu a pandemia em seu discurso textual e imagético. Assim, o momento difícil e aflitivo pelo qual passa o Brasil (como de resto, o mundo inteiro) por causa do invisível inimigo, é histórico também através da narrativa dramatúrgica nacional, reafirmando, com louvor, a dialogia intensa, constante, bonita e convergente do real com a ficção.

Trama 2020 é de autoria de Emanuel Jacobina.

Enfim, Malhação — Toda forma de amar, de autoria de Emanuel Jacobina e com direção artística de Adriano Melo, teve final cercado de emoção, a qual veio muito mais da força do real invadindo o ficcional, do que propriamente dos impasses dramáticos que reclamavam solução. E, pela primeira vez na história, a Teledramaturgia Brasileira precisou mudar o rumo de sua trivialidade (a TV Globo interrompeu o curso normal de exibição das tramas e suspendeu todas as gravações de telenovela, por tempo indeterminado) para enfrentar uma pandemia como a que o planeta vive agora e #malhacao arrepiou colocando a gravidade da doença na diegese de “Toda forma de amar”.

Por tudo isso, “Malhação — toda forma de amar” entra para a posteridade com destaque e merece nosso aplauso. Portanto, a todos que participaram e contribuíram para a realização de mais uma MALHAÇÃO, nossos calorosos Parabéns !

Malhação: Toda Forma de Amar é menos vista que reprise de Por Amor ...

Novela teve boa audiência e temas fortes como o embate entre mãe biológica e adotiva.

Na quarentena, a teleficção como melhor companheira

Os Dias Eram Assim: supersérie fala de Ditadura e revive Diretas Já !

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   Renato Goes e Sophie Charlotte vivem par romântico que a ditadura separa                                                            

A seleção brasileira fazia o jogo final da Copa de 1970. Nas ruas, um clima de euforia. Na história que pulsava por baixo dessa euforia de quem está prestes a sagrar-se campeão mundial, corria outra sensação, a de aviltamento da dignidade humana, alicerce do período sombrio da ditadura brasileira.

Há uma dor funda e recente que cerca esse momento da vida brasileira. Aquele tempo ainda não foi bem assimilado na memória nacional. É difícil falar sobre aqueles dolorosos anos e, talvez por isso, ainda há quem duvide que eles existiram de fato.

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Daniel de Oliveira, Antônio Calloni e Marco Ricca em atuações memoráveis como apoiadores do regime que suprimiu as liberdades no Brasil por mais de 20 anos.

O período sombrio que extirpou a liberdade do cotidiano nacional cheira a repressão, ditadura, violência, aviltamento dos direitos fundamentais, cerceamento da liberdade, e é sobre isso que fala a supersérie Os dias eram assim.

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Estreada no último dia 17 de abril, a obra tem co-autoria de Ângela Chaves e Alessandra Poggi, e direção capitaneada pelo mestre Walter Carvalho (o festejado paraibano diretor de fotografia de tantos trabalhos memoráveis), com direção geral de Carlos Araújo.

É nesse contexto da ditadura, tematizado em Os Dias eram assim, que Alice (Sophie Charlotte) e Renato (Renato Góes) se conhecem e iniciam uma história de amor que vai atravessar quase duas décadas, cruzando com eventos históricos importantes. Da repressão às Diretas Já, o amor vai passar por vários percalços, e talvez sobreviva: medo, intrigas, separação, dor, tristeza, esperança.

Renato é médico e primogênito de uma família de classe média, moradora de Copacabana. Tem dois irmãos, os estudantes Gustavo (Gabriel Leone) e Maria (Carla Salle).  O pai era professor universitário e a mãe é dona de uma livraria, Vera (Cássia Kis). Cada um a seu modo, estão todos engajados na luta pela liberdade: enquanto Gustavo sai às ruas, Maria usa a arte como forma de expressão.

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Alice (Sophie Charlotte), mocinha da trama, é a protagonista que simboliza o feminismo nascente nos anos de 1970.

No universo da jovem Alice (Sophie Charlotte), a batalha é contra o pensamento conservador da família. Questionadora, a estudante sempre bateu de frente com os pais. Dono de uma construtora, Arnaldo (Antônio Calloni) é um empresário rico e de padrões fascistas: não se conforma com o fato de a mulher, Kiki (Natália do Valle), nunca ter conseguido reprimir a inquietude da filha. Para ele, a mulher é a culpada por tudo de ruim que acontece no lar e na família. O empresário é um típico vilão, homem deplorável que causa nojo e revolta, feito com invejável maestria por um Ator do quilate de Antônio Calloni.

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Alice apaixona-se por Renato e, a partir daí, começa a ter rasgos de insuspeitada coragem: o primeiro passo é ir contra o desejo dos país e contrariar o principal projeto deles para a vida dela: a jovem rompe o namoro de anos com o machista Vitor (Daniel de Oliveira), que não se conforma com o rompimento. Tudo o que Vitor deseja é tornar-se dono da fortuna do pai de Alice. O casamento seria a concretização de seu ideal.

O abjeto Vitor é braço-direito de Arnaldo na construtora, e filho  arrogante e oportunista Cora (Susana Vieira). Os mundos de Renato e Alice se cruzam por amor e serão separados pela divisão ideológica entre as duas famílias, potencializada pelo ambiente político reinante no país. Ambientada entre as décadas de 70 e 80, período que vai da repressão às Diretas Já, a supersérie Os dias eram assim é exibida por volta das onze da noite e vem tendo boa audiência.

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O comício das Diretas Já serviu de belas cenas para a teleficção…

Aqui, como em todo o formato da teleficção audiovisual, o drama amoroso é o grande motim: “A História é o pano de fundo dessa trama de amor. Tratamos de encontros e desencontros desse casal que é separado de forma abrupta e, depois, vai se reencontrar quando os dois já não são mais os mesmos”, diz Ângela. Já Alessandra afirma: “Alice e Renato vivem uma história de amor muito forte no primeiro momento, mas, quando são separados, cada um resolve seguir sua vida. A maior parte da história ocorre após o reencontro, no período de pré-abertura política, em 1984”.

Para nós, soa engraçado, para não dizer apressado e preconceituoso, os comentários acerca da supersérie que pretendem analisar uma obra que não é a que está na TV. A supersérie fala sobre uma história de amor interrompido, como assim acontece em qualquer obra teledramatúrgica. Basta ler um pouquinho sobre o tema para saber que a telenovela tornou-se nosso maior produto cultural de exportação e ocupa um lugar de destaque na programação televisiva diária, sendo que existe desde  1951. A partir de 1963, tornou-se atração diária. De lá pra cá, o gênero se consolidou e tem clara filiação melodramática. Portanto, querer ver uma telenovela e acreditar que seu principal enfoque não será uma história de amor é desconhecimento, ingenuidade ou má vontade.

Seguindo o raciocínio, o que nos parece mais instigante é justamente o fato de repetir-se uma fórmula, absolutamente popular e consagrada, e, mesmo assim, continuar agradando e atraindo imensa audiência. Fazendo uma analogia com o cardápio gastronômico, a telenovela é assim uma espécie de bolo: todo mundo tem um preferido. Logo, sabemos haver uma enorme variedade, que atende a múltiplos gostos, mas a base da receita é sempre a mesma: atrai inúmeros seguidores, pode ser feita com diferentes ingredientes, e o que sobressai é um paladar de alta fidelidade: não há quem não goste de bolo, embora as preferências de gosto variem constantemente.

Pois é, e ainda argumenta-se que a história de Os dias eram assim tem clichês típicos de novela. Ora, pois, se uma mini ou superssérie é assim um ‘primo rico’ da telenovela, como não ter clichês típicos do gênero ? Como fugir ao padrão que tornou a ficção seriada o carro-chefe da programação televisiva brasileira ? E por que haveria de se mexer num ‘time que está ganhando’?

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Danilo e Camila, casal de “Amor de mãe”… Mas afinal, quem não gosta de um bom romance ?

Não estamos assistindo a um filme ou acompanhando uma encenação teatral: Os dias eram assim é uma supersérie. Segue o mesmo esquema básico clássico de uma telenovela, apenas o formato é menor que o desta, embora maior que o de uma minissérie. Seguindo com nossa analogia, o bolo pode ter outro formato e recheio, mas será sempre um bolo, e não um risoto, um uma macarronada ou uma feijoada.

A fórmula de telenovelas, minisséries, microsséries, casos especiais, superséries – teleficção audiovisual – é a mesma há dezenas, e o que encanta é ela permanecer sempre igual em sua diferença de cada novo título. Sempre com a mesma força e capacidade de atrair. E talvez aqui resida um dos trunfos de seu aprimoramento e apuro técnico: como há um sequenciamento ad infinitum do mesmo formato, as equipes realizadoras das telenovelas se esmeram, cada vez mais, ao longo de toda a história da Teledramaturgia Brasileira, em fazer com mais qualidade, primando pela capacitação de seus profissionais.

Isso é o que podemos constatar observando a enorme penetração da produção brasileira no exterior (mais de 130 países compram nossas telenovelas). E quanto mais esse mercado foi crescendo ao longo dos anos, mais o gênero se consolidou e as equipes técnicas, imensas e valorosas, foram sendo lapidadas – direção, fotografia, luz, cenário, maquiagem, direção de arte, trilha sonora e musical, caracterização –, chegando ao patamar que hoje vemos diariamente na telinha e que nos impactam, cada dia mais, pela excelência técnica e artística que exibem.

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Niko e Félix, o par romântico de “Amor à vida” que ganhou torcida nacional em 2014.

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Luzia e Beto Falcão: uma paixão que emocionou a audiência de “Segundo sol”

Afinal, se a história de amor incomoda por ser o fundamento dos enredos é porque o tempo consagra como clichê o que é  considerado bom para a grande maioria. E o clichê foi popularizado por ser reconhecidamente atraente e imbuído de qualidades intrínsecas: quem descobriu, aderiu, quis imitar, virou moda e contagiou. E o poeta Fernando Pessoa sabia tanto e tão bem disso que imortalizou o melhor e mais sábio de todos os clichês: o Amor.

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Leleco (Marcos Caruso) e Tessália (Débora Nascimento): casal rendeu bons momentos em “Avenida Brasil”

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Mercedes e Josafá: casamento na 3a idade foi das melhores coisas de “O outro lado do paraíso”

E, parafraseando o notável poeta português, dizemos:

Todas as histórias de amor são

Ridículas.

Não seriam histórias de amor se não fossem

Ridículas.

As histórias de amor, se há amor,

Tem de ser ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca curtiram

Histórias de AMOR

São ridículas.

As verdadeiras RIDÍCULAS !

É que são Rídiculas.

 

E por falar em quarentena, que tal rever “Amores Roubados” ?

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Minissérie de 2014 é trunfo da teleficção

*Aurora Miranda Leão

A começar pela expressividade do layout do título e pela impactante abertura, AMORES ROUBADOS é produção singular da nossa Teledramaturgia. Sou das que acompanharam a exibição na grade da programação da TV Globo em 2014 e recomendo que a assistam.

Quem me acompanha ao longo de minha caminhada como jornalista e pesquisadora de teleficção seriada, sabe o quanto aprecio a narrativa ficcional televisiva. Quando as obras são boas – como esta AMORES ROUBADOS -, aí mesmo é que faço questão de dizer que vejo e vejo com prazer ! Porque amo Dramaturgia – seja no Teatro, no Cinema ou na TV. Assumimos desde sempre que o bom é viajar por outras histórias, inventadas por outras cabeças, recheadas de outras fantasias, que não as nossas. Afinal, como diz o poeta gaúcho Carpinejar, nem a nossa história deixa de ser fantasiada por nós mesmos.

O roteiro de Amores roubados é de George Moura, pernambucano que também assina a autoria de “Onde nascem os fortes” (supersérie exibida em 2018), a partir de obra de Joaquim Maria Carneiro Vilela – advogado, ilustrador, pintor paisagista, cenógrafo, juiz, bibliotecário, secretário de Governo, fabricante de gaiolas, e escritor -, escrita entre 1909 e 1912, e merecedora de várias adaptações para o teatro e o cinema. Mas, por certo, o fato de ter obra sua exibida na programação da emissora líder de audiência no país, fará com que o nome do escritor seja definitivamente inscrito entre os grandes de nossa Literatura. Com o título original de “A emparedada da rua Nova”, Carneiro Vilela dizia que a história viera de um relato ouvido de uma escrava. Até hoje, não se sabe ao certo o que foi ficcionado pelo autor e o que realmente aconteceu.

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Cauã Reymond é Leandro, um típico “don juan” contemporâneo do sertão…

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Minissérie marca estreia de Jesuíta Barbosa na telinha: ele faz Fortunato, grande amigo de Leandro (Cauã Reymond).

Mas só em ter valido esta primorosa minissérie, já ganhou – e muito – a história de nossa Teledramaturgia, enriquecida pelas interpretações poderosas de Murilo Benício – um ator que consegue passar todo o sensório de seus personagens só com o olhar -, Irandhir Santos, Cauã Reymond, Isis Valverde, Patricia Pillar (soberba em sua angústia lancinante e silenciosa), Cássia Kiss, Osmar Prado, Dira Paes, César Ferrario, Jesuíta Barbosa, Magdale Alves e Thierry Tremouroux.

PRINCIPAIS DESTAQUES: 

– Direção precisa de José Luiz Villamarim, direção de arte, e fotografia de Walter Carvalho;

– O set, os enquadramentos e a atuação de Osmar Prado e Cássia Kiss na cena do acerto de contas;

– A frieza e vilania intrínseca do personagem Jayme, rapidamente tratando de se ‘descartar’ da conversa ‘incômoda’ do sogro Antônio;

– A luz da cena entre Jaime e o delegado (Walter Breda), num lindíssimo enquadramento em silhueta;

– A conversa entre Jaime e Cavalcante – Murilo Benício de costas, passando toda a emoção somente com a voz – genial !

– A comovente e quase pueril fala de Antônia, encharcada de emoção no velório do avô – ISIS VALVERDE divinal, uma nordestina com naturalidade, beleza singular e profunda empatia, levando o telespectador às lágrimas;

– O encontro de Antônia e Fortunato na beira do rio São Francisco…

* A inserção da bela Jura Secreta, música de Sueli Costa e Abel Silva, cantada de forma singular por um contagiante Raimundo Fagner;

* A qualidade das atuações de Irandhir Santos e César Ferrario numa pujança de força magistral entre dois talentos nordestinos;

* A tocante cena entre Cássia Kiss e Jesuíta Barbosa marcando mais pontos na atuação poderosa do elenco e ressaltando uma direção de arte poderosa a favorecer o contraste entre o vermelho ‘revelador’ da personagem de Cássia, o floral do guarda-chuva e a aridez rochosa às margens do São Francisco;

* Patrícia Pillar e Murilo Benício – contracena de Gigantes !

* Lindíssimos momentos de Isis Valverde, quer seja na fotografia magistral de Walter Carvalho, bem como da atuação emocionada e emocionante da atriz;

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* A sintonia precisa entre Isis e Benício em momentos de revelações perturbadoras;

* O quadro poderoso do grande campo de arames farpados como desfecho para o fim do grande vilão, o temido e maligno Jaime, quando a cena ganhou primorosos ares de réquiem;

* O belíssimo final à beira do rio reunindo 3 gerações – filha, neto e avó, preconizando possíveis (?) novos tempos de calmaria na vida conturbada, triste e sombria da família de Jaime – Isis e Patrícia em belos movimentos de interação mãe-filha X atriz tarimbada-atriz em ascensão !

Resultado de imagem para amores roubados cenas finais Patrícia Dira e Isis

Cena final une Isis Valverde e Patrícia Pillar.

De somenos: o não fechamento do destino de João (Irandhir Santos) – personagem e ator mereciam ter sua história amarrada junto ao público; e o do personagem Oscar (Thierry Tremouroux), professor de música da Orquestra Sanfônica, projeto idealizado por Isabel (Patrícia Pillar), ‘exilado’ da cidade a mando de Jaime, e tendo que se passar por Leandro…

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O diretor José Luiz Villamarim dirige Dira Paes e Cauã Reymond…

Amores Roubados é um produto de excelência, que ganhou (como apontamos em artigo de 2014) muitos prêmios: direção, fotografia, ritmo, direção de arte, edição, trilha e atuações magníficas num roteiro de suspense, rico em diálogos bem elaborados e coerentes com o cerne da história. DEZ é ainda pouco para AMORES ROUBADOS ! E é um orgulho para quem, como eu, fica feliz em poder aplaudir a grandiosidade dos nossos artistas e a qualidade a que chegaram os técnicos brasileiros ! Que Teledramaturgia de alto nÍvel faz o Brasil !

As casas dos moradores do distrito estão sendo usadas nas gravações. Um carrossel foi colocado perto da igreja do distrito, que foi expandida para as cenas. Os próprios moradores estão atuando como figurantes em 'Amores Roubados'

O interior do Nordeste brasileiro, fonte perene para a ficção teleaudiovisual.

*Você pode conferir a minissérie inteira acessando o Globo Play. A plataforma pode ser acessada de graça nestes tempos de pandemia.

Pandemia: assunto popular, como a novela. Valmir Moratelli comenta

Valmir Moratelli analisa contexto atual da narrativa preferida dos brasileiros diante da pandemia que fez TV Globo alterar programação

Jornalista, escritor, poeta, cineasta e doutorando em Comunicação pela PUC-Rio, Valmir Moratelli tem como epicentro de suas pesquisas acadêmicas a teleficção brasileira.

Convidado para escrever sobre o panorama atual, que alcança também as telenovelas da TV Globo, reproduzimos aqui a apreciação de Moratelli sobre o momento insólito pelo qual passa essa paixão nacional com quem convivemos desde que a TV Globo levou ao ar sua primeira telenovela, ainda em 1965.

Em nota oficial divulgada na segunda, 15 de março, a emissora informou sobre a suspensão das gravações de suas novelas, a antecipação do final de outras e a inclusão de novas reprises na grade de sua programação. A nota gerou diversas reportagens e causou bastante repercussão nas redes sociais esta semana.

Em bela matéria do colega Marcelo Canellas, a emissora afirma:

“não há novelas sem abraços, apertos de mãos, beijos, festas, cenas de briga, cenas de amor, cenas de carinho, tudo aquilo que reflete a vida real”.

As medidas, super acertadas, tomadas pela direção da TV Globo incluem: intensa cobertura jornalística sobre a Covid-19, liberação da plataforma Globo Play e dos canais de televisão fechada da Globosat (Globo News, SporTV, Multishow, Telecine, Canal Brasil, dentre outros). Uma demonstração clara, relevante e inconteste de responsabilidade social, solidariedade e exemplar respeito ao público, de parte da maior emissora de televisão do Brasil.

Vejamos então o que diz Valmir Moratelli* sobre o tema:

“Em decisão inédita na história da teledramaturgia brasileira, a medida adotada pela TV Globo é uma forma de prevenir a pandemia. Mas o que significa esta paralisação para o país que tem nas novelas sua principal fonte de entretenimento gratuito? Como a população vai se manter em casa, em quarentena pelas próximas semanas, se abstendo das tramas que vinha acompanhando como “Malhação”, “Salve-se Quem Puder” e “Amor de Mãe”? Apenas “Éramos Seis“, já nos últimos capítulos, terá um desfecho. Sua substituta, “Nos Tempos do Imperador”, precisará esperar o desenrolar do drama real que a população enfrenta no combate ao Covid-19.

“O silenciar das novelas acompanha o desenrolar de um assunto grave, da ordem de saúde pública”, afirma o especialista (Foto: Divulgação)

Interromper uma novela não é tão comum no Brasil. Por outros motivos, a TV Globo já teve que embargar produções em andamento. “Roque Santeiro”, de 1975, tinha 10 capítulos editados e quase 30 gravados quando, na noite de estreia, foi proibida de ir ao ar. No ano seguinte, o mesmo aconteceu com “Despedida de Casado”, que vinha sendo escrita para às 22 horas. Em ambos os casos, o bloqueio foi imposição da censura do Governo Militar.

Há também exemplos de produções que foram encurtadas drasticamente por rejeição do público e consequente queda da audiência. Os telespectadores largaram de lado “Cuca Legal”, de 1975, e a novela de Marcos Rey foi encurtada para 118 capítulos. Em 2001, “Bang Bang”, de Mario Prata, perdia público a cada exibição, o que fez a direção da emissora diminuir a duração dos capítulos que, dos habituais 55 minutos, passaram para 45. “As Filhas da Mãe”, de 2001, teve audiência abaixo do esperado. Resultado: A trama de Silvio de Abreu terminou com 125 capítulos. A título de comparação, o sucesso retumbante de “Avenida Brasil”, de 2012, teve 179 capítulos – dois meses a mais no ar.

O que acontece agora em nada se compara com os exemplos do período da ditadura, quando produções foram interrompidas por ordem do governo, ou com tramas encurtadas por questão de audiência, imprimindo a implacável força do mercado. O público fica, já na próxima semana, sem os capítulos inéditos por decisão estratégica da emissora, visando a não colocar em risco de contágio ao Covid-19 os quase 300 funcionários – entre elenco, equipe técnica e de produção – que trabalham em cada obra.

“O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma”

No comunicado enviado à imprensa, a TV Globo informou que tomou a decisão por coerência com os aspectos característicos da sua teledramaturgia, visto que “não há novelas sem abraços, apertos de mãos, beijos, festas, cenas de briga, cenas de amor, cenas de carinho, tudo aquilo que reflete a vida real, mas que, hoje, não pode ser encenado em segurança”. No livro “O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma” (2019, ed. Autografia), resultado de uma pesquisa de mestrado, detalhei duas décadas recentes de produções da emissora, entre 1998 e 2018, diante das transformações políticas de quatro presidentes (Fernando Henrique Cardoso, Luis Inácio Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer).

As telenovelas brasileiras são reflexo dos nossos tempos, servindo de registro histórico às mudanças sociais. Estabilidade econômica, diversidade sexual, a questão das cotas, ascensão da chamada classe C, maior participação das mulheres no mercado de trabalho. Nada passou incólume pelas ficções da TV. E agora que o mundo se vê obrigado a parar as atividades a fim de frear a pandemia, não seria diferente com a ficção. O silenciar das novelas acompanha o desenrolar de um assunto grave, da ordem de saúde pública, arremata Moratelli.

Protagonistas da novela ‘Amor de Mãe’, que teve gravações interrompidas esta semana TV Globo. (Reprodução/Globo)

Em um país onde 99% dos lares brasileiros têm televisão, forjando gerações diante dos amores e dissabores de protagonistas e vilões, fica difícil imaginar um cenário em que nossas rotinas, momentaneamente, serão sem novas novelas. É verdade que a audiência geral da TV aberta vem caindo em relação à última década, principalmente pela maior oferta de streaming, catapultando o telespectador a ser programador de sua TV. O momento é propício ao crescimento dessas novas plataformas– a própria GloboPlay vem lançando séries e documentários inéditos. Mas nem todos os órfãos de novelas vão migrar para a GloboPlay ou Netflix.

Dados do IBGE mostram que mais de um terço dos domicílios brasileiros ainda não têm acesso à internet. Interromper suas novelas é um recado que a TV Globo dá à sociedade e às autoridades. O cancelamento de uma “instituição nacional”, como é o caso da novela das 21h, transmite a ideia da seriedade coletiva que o país precisa ter pelas próximas semanas.

Parte do elenco da novelo Avenida Brasil, uma das reprises transmitidas pela Rede Globo neste momento de pandemia. (Reprodução/Globo)

No lugar das produções interrompidas nos últimos dias, a TV Globo vai reexibir tramas bem aceitas pelo público (“Totalmente Demais” e “Fina Estampa”, por exemplo), além de aumentar o tempo de transmissão dos telejornais no canal aberto e reforçar o conteúdo da GloboNews. O que também vem em boa hora para a emissora, visto que a CNN Brasil estreou no final de semana trazendo possibilidades de concorrência à altura de seus programas. Oferecer escolhas internas ao público, cada vez mais exposto a outras opções, é uma estratégia certeira. Enquanto a população fica sem os afagos de “Amor de Mãe” , ou aguarda pelas aventuras de “Nos Tempos do Imperador”, resta-nos entender que quarentena não é drama e nem histeria. É o mundo real chacoalhando nossas rotinas a tal ponto que interrompeu até a ficção. A telenovela há de resistir. Até porque esperamos todos por um happy end.

* Valmir Moratelli é jornalista e doutorando da PUC-Rio.

*Artigo originalmente escrito para o site da jornalista Heloisa Tolipan.

AMOR DE MÃE: seis razões para ver !

      * Por Aurora Miranda Leão

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A nova novela das 21h, AMOR DE MÃE, que estreia na próxima segunda, 25 de novembro, no horário nobre da TV Globo, pega o telespectador nas primeiras chamadas. 

E algumas razões são basilares para essa sintonia. Vamos apontar 5 delas:

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Adriana Esteves é Patrimônio da Cultura Brasileira ! 

Primeiro: tem Adriana Esteves, a Atriz Top das Tops !

                   * Antes dela, só Fernanda Montenegro !

Segundo: A direção é de José Luiz Villamarim e a autoria textual de Manuela Dias.

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 Villamarim e Manuela Dias à frente de Amor de Mãe

* Quem conhece  teledramaturgia brasileira, sabe que estes dois são garantia de qualidade.

CASÉ

Terceiro: A presença da estupenda Regina Casé, que já polariza todas as atenções nas chamadas de pré-lançamento da novela.

            * Casé tem tanto carisma e domínio do ofício que diz em primeiro plano que é nordestina (mesmo sendo carioca), e a gente embarca de imediato !

BRICHTA

Vladimir Brichta é ator-trunfo em qualquer obra !

Quarto: a temática é feminista, e traz de volta ao horário nobre a riqueza de ator que é Vladimir Brichta, que além de excelente intérprete, ainda estará com fios longos, incrementando ainda mais sua beleza !

IRANDHIR

Quinto: o retorno de Irandhir Santos, colossal ator pernambucano que engrandece qualquer obra, e assume com visual completamente insólito, de cabeça raspada, o que o deixa quase irreconhecível.

NOVE AMOR

AMOR DE MÃE tem fichas poderosas para tornar-se uma grande obra !

Sexto: a música de Raimundo Fagner, FRACASSO, momento sublime de inspiração do conterrâneo, que faz dessa sua mais linda composição, que assim vai estrear na Teledramaturgia e deve ganhar a boca e o coração popular !

 Ajayô !!!

AMOR DE MÃE é DEZ antes mesmo de estrear !

Portanto, segunda, dia 25, às 21h, estaremos ligados na telinha da Globo !

Fique esperto !

*Aurora Miranda Leão é jornalista, mestra em Comunicação, atriz, radialista e editora do #blogauroradecinema.

 

 

 

 

 

 

 

Novelas são tema de debate hoje com Valmir Moratelli na Livraria da Travessa

Avenida Brasil - Novela

“O que as Telenovelas Exibem enquanto o Mundo se Transforma” é o livro do jornalista Valmir Moratelli que será debatido hoje na Livraria da Travessa de Botafogo, logo mais, às 19h. O lançamento é da editora Autografia e haverá sessão de autógrafos.

Um importante diferencial do livro de Moratelli é que ele é fruto de uma intensa pesquisa de mestrado do autor, que acabou realizando um percurso que perfaz 20 anos de análise da Teledramaturgia Brasileira, com isso sagrando-se como escritor do primeiro livro-referência sobre o tema assinado por um carioca.

Valmir Moratelli traça um perfil instigante que envolve a construção das narrativas de teleficção com as trajetórias do cotidiano político brasileiro, evidenciando que analisar umas sem olhar as outras é um caminho incompleto e ineficaz.

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Camila Pitanga e Domingos Montagner em cena da novela Velho Chico (2016).

Em sua extensa pesquisa, realizada na PUC-Rio com orientação da profa Dra Tatiana Siciliano, Valmir Moratelli discute aspectos de gestões políticas e o quanto e como isso impactou na eleição de temáticas para as novelas da TV Globo. São abordados os períodos de Fernando Henrique Cardoso [1999-2002, segundo mandato]; Luiz Inácio Lula da Silva (2003-10]; Dilma Roussef [2011-16] e Michel Temer [2016-18].

“O objetivo deste livro é mostrar que a telenovela brasileira se diferencia das de outros países porque é totalmente relacionada com o que acontece de impacto em nossa sociedade. A novela é um retrato muito fiel do nosso tempo. Talvez seja o produto que melhor fale o que nós somos”, afirma Moratelli.

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“Foram dois anos de pesquisa para o meu mestrado que acabaram produzindo este material, que analisa assuntos considerados tabus da teledramaturgia, como empoderamento da mulher, inclusão do negro na sociedade como protagonista e diversidade sexual, nos últimos 20 anos. O que percebemos é que os temas das novelas da Rede Globo variam dentro da mudança de cada governo”, observa o autor.

“Na era FHC, com o início da estabilização financeira, as histórias tinham parte da trama fora do Brasil, e isso seguiu até ‘I love Paraisópolis’” (2015)”, salienta. “Com a gestão Lula, temos as transformações sociais. ‘Cheias de charme’ (2012) é um marco, porque colocou como protagonistas três empregadas domésticas. Depois, vêm Dilma e Temer, e a gente tem o aprofundamento da divisão social e as questões éticas acaloradas. Um bom exemplo é ‘Pega pega'”. (2017), conta Valmir.

“Se a gente tira do contexto o que está vivendo, deixa de entender aquilo que está indo ao ar”, finaliza Valmir Moratelli.

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O debate desta noite será na Livraria da Travessa, em Botafogo. A atriz Glamour Garcia, a Britney de A Dona do Pedaço, participará do encontro, que terá mediação de Tatiana Siciliano, professora da PUC-Rio, e a presença de Rosane Swartman, co-autora da novela das 19h, Bom Sucesso.

SERVIÇO

Sessão de autógrafos e debate sobre o livro

“O que as Telenovelas Exibem enquanto o Mundo se Transforma”

QUANDO: Hoje, terça, ENTRADA FRANCA

Horário: 19h

ONDE: Livraria da Travessa, em Botafogo (Rio).

AUTOR: VALMIR MORATELLI

Presença de Rosane Swartman (Bom Sucesso)

Tatiana Siciliano (PUC-RJ)

Glamour Garcia (A Dona do Pedaço)

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A atriz Glamour Garcia (em cena de A Dona do Pedaço com Juliana Paes) é presença confirmada esta noite na Livraria da Travessa.

Telenovelas ganham visão aprofundada de Valmir Moratelli

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“O que as novelas exibem enquanto o mundo se transforma”. Este é o título do livro que o jornalista, cineasta e doutorando em Comunicação pela PUC-RJ, Valmir Moratelli, lança daqui a pouco na concorrida Feira Literária de Paraty.

A obra de Moratelli traduz um mergulho profundo no universo da teledramaturgia, e apresenta um viés inédito sobre a mais importante produção brasileira da indústria cultural: o autor selecionou duas décadas de realização teledramatúrgica, voltando sua apreciação para as temáticas políticas evidenciadas nas telenovelas. Isso não só é um viés nunca antes abordado como é hercúleo, ousado, relevante e muito corajoso. Ademais, sendo um redator de mão cheia e um criador original de narrativas, a visão de Moratelli é precisa e de leitura instigante, logo seu livro é, além de muito bem-vindo, necessário.

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“O que as novelas exibem enquanto o mundo se transforma” é o terceiro livro do escritor, que lançou anteriormente Eu Rio, Tu Urcas, Ele Sepetiba, e Diálogos para Santos Cegos, um delicioso apanhado de contos divertidos e com uma visão perspicaz desta modernidade líquida emprenhada de fakes news, falsos mitos que se desfazem no ar em velocidade galopante e ridículas celebridades de fachada.

Outrossim, para apimentar o gostinho de conhecer o novo livro de Moratelli, ele mesmo conta: “As mudanças temáticas mais bruscas acontecem quando há ações de governo que transformam a percepção de vida da população”.

O livro de Valmir Moratelli mostra que, no período de 1998 a 2018, a TV brasileira experimentou avanços nunca antes vistos. Para tanto, há os exemplos das obras de João Emanuel CarneiroCobras e Lagartos, Avenida Brasil e A Regra do Jogo, que corroboram essas transformações sociais e políticas. Esse período abrange o segundo mandato de FHC (1999-2002), os dois de Lula (2003-2010), os de Dilma (2011-2016), além de Temer (2016-2018).

Nesta tarde, a partir das 16h, na Casa Autografia da FLIP, no Centro Histórico de Paraty, Valmir vai participar de debate cujo tema é Procuram-se novos protagonistas de novela: A ficção na TV, ao lado da atriz Dandara Mariana e da jornalista Ana Paula Gonçalves. A mediação fica por conta do emérito pesquisador, Mauro Alencar.

A seguir, reproduzimos entrevista do autor feita pela jornalista Luciana Marques, do site ArteBlitz (www.arteblitz.com):

Nessa sua imersão na teledramaturgia da Globo nesses últimos 20 anos, o que mais surpreendeu você nesse paralelo com a política? É impressionante perceber como a ficção televisiva – seja ela série, minissérie ou telenovela – mantém mãos dadas com os acontecimentos sociais e políticos. Essa era a hipótese da minha pesquisa, eu desconfiava que havia algo ali subentendido, daí fui pesquisar. Fiz um levantamento de todas as produções da TV Globo num recorte de 20 anos, traçando sua temática principal, para depois detectar onde começa a ter mudanças. E o que percebi é que as mudanças temáticas mais bruscas acontecem quando há ações de governo que transformam a percepção de vida da população. Um exemplo: desde 2015, quando o país entrou em recessão, nenhuma novela teve cena gravada no exterior. Por quê? Além de ter ficado caro demais gravar lá fora, o público deixou de planejar viagens em dólar. Novela acompanha hábitos e dita tendências.

Quais as novelas que trouxeram as principais transformações na sociedade desde a redemocratização? Como pesquisei as produções a partir de 1998, não me arriscaria a prolongar a análise até a redemocratização. Mas no período entre 1998 e 2018, cito as tramas de João Emanuel Carneiro como exemplos interessantes para se perceber as transformações que vivemos. Cobras & Lagartos foi ao ar em 2006, e falava de consumo. Vivíamos no país uma pujante fase econômica. O núcleo central se passava dentro de um shopping de luxo que imitava a Daslu. Depois, Avenida Brasil, em 2013, retratou a ascensão da classe C. João colocou o núcleo pobre como sendo o central e o rico como coadjuvante cômico da história. E o que vivíamos nas ruas? O protagonismo da classe popular, que agora tinha condições de frequentar aeroportos e comprar bens duráveis. Em A Regra do Jogo, de 2015, o que mais se falava era da pacificação dos morros e o poder paralelo de ex-policiais. João levou sua novela para o morro da Macaca dominado por facções de milícias. A meu ver, ele só errou com Segundo Sol, de 2018, que se passou na Bahia. Era uma chance e tanto de fazer uma novela histórica, com elenco majoritariamente negro.

E o que você destacaria da sua pesquisa em temas como mulher, racismo e homossexuais? O avanço foi grande ou ainda falta mostrar mais famílias de negros nas tramas, família de gays ou lésbicas criando seus filhos? Todos esses tabus só estarão superados quando não precisarmos mais falar deles como uma exceção. Mas vamos pegar o exemplo da diversidade sexual. Em 1995 teve uma novela, A Próxima Vítima, que trouxe um casal gay, Jeferson e Sandrinho. Os atores chegaram a apanhar nas ruas, porque não se aceitava aquele tipo de comportamento. Hoje tem casal gay em Malhação, na novela das 6, na das 7… Em 2016, por exemplo, Ricardo Pereira e Caio Blat protagonizaram cena de sexo em Liberdade Liberdade, e as redes sociais repercutiram muito isso. Assim como foi comemorado o beijo do Félix em Amor à Vida. Acredito que avançamos muito na temática da diversidade sexual. Algo que não vi ocorrer com tanta força em relação aos negros, visto que somos o país com a maior população negra fora da África. Nossa TV ainda não mostra isso. Em alguns casos, a julgar por certas produções, parece que somos um país escandinavo.

Esse protagonismo de mulheres em tramas, como a gente vê atualmente na novela das 9 com a figura da Maria da Paz, é algo que foi se construindo aos poucos? Não, a mulher sempre foi foco de interesse da telenovela no Brasil e no mundo, até por ser, historicamente, seu público-alvo. O que tem mudado é a forma como ela é tratada. Tivemos um ou outro respiro ao longo do tempo, como Malu Mulher em 1979, que tratava de agressão doméstica, alcoolismo, dupla jornada… Mas essas temáticas não condiziam com a época. A atualidade exige que se repense o papel da mocinha que só tinha final feliz nos braços do galã, tendo gêmeos ou subindo ao altar no último capítulo. A mocinha pode ser feliz sozinha, conquistando seu emprego dos sonhos ou fazendo uma viagem incrível. Pode ser até uma mecânica, como foi em Fina Estampa. A mulher moderna exige outras representações, como ser mãe solteira ou nem ser mãe. E isso tem a ver com conquistas que estão acontecendo hoje. Neste sentido, “A Dona do pedaço” mostra uma mulher independente, dona do próprio negócio. Vamos ver se ela não vai cair no padrão de felicidade do último capítulo (risos).

Na primeira parte do livro, você define como “Quarteto Mágico” um grupo de autores fundamentais para a telenovela moderna. Quem foram eles? Janete Clair, Dias Gomes, Jorge de Andrade e Lauro César Muniz. Os quatro, trazidos por Boni para a Globo, fundaram o que hoje se entende como “novela brasileira”. Trouxeram suas experiências com rádio, literatura e teatro, além de seus pensamentos de esquerda para construírem conflitos humanos críveis ao brasileiro. Tanto que são eles referências para todos os autores da atualidade que entrevistei. São atemporais, suas obras ainda dialogam com nosso tempo.

Já é possível prever como as novelas vão reagir ao atual momento da política brasileira? A pauta conservadora vai influenciar as tramas? Ainda é cedo para análise desse tipo, mas vai ser interessante daqui a um tempo analisar como a ficção na TV se comportou diante das discussões políticas que começam a dominar o cenário político. O atual governo se mostra contrário a discussões ambientais, à criminalização da homofobia, diz que racismo é algo “raro no Brasil”, quer acesso facilitado às armas… Ou seja, é um outro tipo de pauta que, desde janeiro, domina as ruas.

Qual é a sua novela inesquecível? Que difícil! Do período analisado no livro, Avenida Brasil é fortíssima, pelo que já falei há pouco. Antes disso, O Rei do Gado, do Benedito Ruy Barbosa, por ter trazido a “indigesta” questão da reforma agrária para o horário do jantar da elite brasileira. Coisas que só a novela é capaz de fazer.

Ficção Seriada ganha livro na Intercom

Na próxima quinta, dia 6, será lançado livro relevante para o estudo das várias formas de ficção seriada exibidas no Brasil e alvo de estudos acadêmicos no país.

O livro será lançado durante a 41a edição da INTERCOM, Congresso Nacional mais importante da área de Comunicação, que está sendo realizado em Joinville (Santa Catarina) até sábado, 8 de setembro.

LIVRO Ficção Seriada - menor

Os autores são:

Alexandre Tadeu dos Santos, Ana Carolina, Maoski, Andrei Maurey Leite, Aurora Miranda Leão, Camila Mendonça, Carlos Vinícius Lacerda, Daiana Sigilliano, Daniela Ortega,Gabriela Borges, Gêsa Cavalcanti, Guilherme Livardi, Guilherme Moreira Fernandes, Hertz Wendel de Camargo, Isabela Norton, Janiclei Aparecida Mendonça,  João Paulo Hergesel, Laryssa Prado, Lucas Martins Néia, Luiz Siqueira, Marcos Nicolau, Maria Amélia Abrão, Mariana Barbosa Gonçaves, Mariana Marques de Lima, Mateus Vilela, Naiane Almeida, Raphael Parreira e Silva, Robéria Nádia Nascimento, Soraya Ferreira, Tadeu Ribeiro, Tissiana Pereira e Vanessa Guimarães do Nascimento.

Saiba mais:

A INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – é uma instituição sem fins lucrativos, destinada ao fomento e à troca de conhecimento entre pesquisadores e profissionais atuantes no mercado. A entidade estimula o desenvolvimento de produção científica não apenas entre mestres e doutores, mas também entre alunos e recém-graduados em Comunicação, oferecendo prêmios como forma de reconhecimento aos que se destacam nos eventos promovidos pela entidade.

Fundada no dia 12 de dezembro de 1977 em São Paulo, a Intercom preocupa-se com o compartilhamento de pesquisas e informações de forma interdisciplinar. Além de encontros periódicos e simpósios, a instituição promove um congresso nacional – evento de maior prestígio na área de pesquisa em Comunicação, que recebe uma média de 3,5 mil pessoas anualmente, entre pesquisadores e estudantes do Brasil e do exterior. O evento, sediado em cidade escolhida pelos sócios no ano anterior, é precedido de cinco congressos regionais.

A sociedade é responsável, ainda pelo lançamento de livros e revistas especializados em Comunicação, e pela busca de parcerias com entidades de mesmo objetivo e institutos e órgãos de incentivo à pesquisa brasileiros e estrangeiros. Esse intercâmbio é um incentivo à formação científica, tecnológica, cultural e artística, além de uma forma de capacitar professores, estudantes e profissionais da Comunicação.

SERVIÇO

Lançamento do livro Ficção Seriada – Estudos e Pesquisas (vol 1)

Editoras: Jogo de Palavras e Provocare

Organizadoras: Fernanda Castilho e Lígia Prezia Lemos

DATA: 06 setembro 2018

Onde: Publicom, evento da INTERCOM

Realização: 41a INTERCOM

Local e Horário: Ginásio do Colégio Univille, em Joinville (SC), 17h 

ENTRADA FRANCA

 

 

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