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Quando a programação televisiva é boa,
Nós Aplaudimos

Na quarentena, a teleficção como melhor companheira

Os Dias Eram Assim: supersérie fala de Ditadura e revive Diretas Já !

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   Renato Goes e Sophie Charlotte vivem par romântico que a ditadura separa                                                            

A seleção brasileira fazia o jogo final da Copa de 1970. Nas ruas, um clima de euforia. Na história que pulsava por baixo dessa euforia de quem está prestes a sagrar-se campeão mundial, corria outra sensação, a de aviltamento da dignidade humana, alicerce do período sombrio da ditadura brasileira.

Há uma dor funda e recente que cerca esse momento da vida brasileira. Aquele tempo ainda não foi bem assimilado na memória nacional. É difícil falar sobre aqueles dolorosos anos e, talvez por isso, ainda há quem duvide que eles existiram de fato.

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Daniel de Oliveira, Antônio Calloni e Marco Ricca em atuações memoráveis como apoiadores do regime que suprimiu as liberdades no Brasil por mais de 20 anos.

O período sombrio que extirpou a liberdade do cotidiano nacional cheira a repressão, ditadura, violência, aviltamento dos direitos fundamentais, cerceamento da liberdade, e é sobre isso que fala a supersérie Os dias eram assim.

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Estreada no último dia 17 de abril, a obra tem co-autoria de Ângela Chaves e Alessandra Poggi, e direção capitaneada pelo mestre Walter Carvalho (o festejado paraibano diretor de fotografia de tantos trabalhos memoráveis), com direção geral de Carlos Araújo.

É nesse contexto da ditadura, tematizado em Os Dias eram assim, que Alice (Sophie Charlotte) e Renato (Renato Góes) se conhecem e iniciam uma história de amor que vai atravessar quase duas décadas, cruzando com eventos históricos importantes. Da repressão às Diretas Já, o amor vai passar por vários percalços, e talvez sobreviva: medo, intrigas, separação, dor, tristeza, esperança.

Renato é médico e primogênito de uma família de classe média, moradora de Copacabana. Tem dois irmãos, os estudantes Gustavo (Gabriel Leone) e Maria (Carla Salle).  O pai era professor universitário e a mãe é dona de uma livraria, Vera (Cássia Kis). Cada um a seu modo, estão todos engajados na luta pela liberdade: enquanto Gustavo sai às ruas, Maria usa a arte como forma de expressão.

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Alice (Sophie Charlotte), mocinha da trama, é a protagonista que simboliza o feminismo nascente nos anos de 1970.

No universo da jovem Alice (Sophie Charlotte), a batalha é contra o pensamento conservador da família. Questionadora, a estudante sempre bateu de frente com os pais. Dono de uma construtora, Arnaldo (Antônio Calloni) é um empresário rico e de padrões fascistas: não se conforma com o fato de a mulher, Kiki (Natália do Valle), nunca ter conseguido reprimir a inquietude da filha. Para ele, a mulher é a culpada por tudo de ruim que acontece no lar e na família. O empresário é um típico vilão, homem deplorável que causa nojo e revolta, feito com invejável maestria por um Ator do quilate de Antônio Calloni.

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Alice apaixona-se por Renato e, a partir daí, começa a ter rasgos de insuspeitada coragem: o primeiro passo é ir contra o desejo dos país e contrariar o principal projeto deles para a vida dela: a jovem rompe o namoro de anos com o machista Vitor (Daniel de Oliveira), que não se conforma com o rompimento. Tudo o que Vitor deseja é tornar-se dono da fortuna do pai de Alice. O casamento seria a concretização de seu ideal.

O abjeto Vitor é braço-direito de Arnaldo na construtora, e filho  arrogante e oportunista Cora (Susana Vieira). Os mundos de Renato e Alice se cruzam por amor e serão separados pela divisão ideológica entre as duas famílias, potencializada pelo ambiente político reinante no país. Ambientada entre as décadas de 70 e 80, período que vai da repressão às Diretas Já, a supersérie Os dias eram assim é exibida por volta das onze da noite e vem tendo boa audiência.

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O comício das Diretas Já serviu de belas cenas para a teleficção…

Aqui, como em todo o formato da teleficção audiovisual, o drama amoroso é o grande motim: “A História é o pano de fundo dessa trama de amor. Tratamos de encontros e desencontros desse casal que é separado de forma abrupta e, depois, vai se reencontrar quando os dois já não são mais os mesmos”, diz Ângela. Já Alessandra afirma: “Alice e Renato vivem uma história de amor muito forte no primeiro momento, mas, quando são separados, cada um resolve seguir sua vida. A maior parte da história ocorre após o reencontro, no período de pré-abertura política, em 1984”.

Para nós, soa engraçado, para não dizer apressado e preconceituoso, os comentários acerca da supersérie que pretendem analisar uma obra que não é a que está na TV. A supersérie fala sobre uma história de amor interrompido, como assim acontece em qualquer obra teledramatúrgica. Basta ler um pouquinho sobre o tema para saber que a telenovela tornou-se nosso maior produto cultural de exportação e ocupa um lugar de destaque na programação televisiva diária, sendo que existe desde  1951. A partir de 1963, tornou-se atração diária. De lá pra cá, o gênero se consolidou e tem clara filiação melodramática. Portanto, querer ver uma telenovela e acreditar que seu principal enfoque não será uma história de amor é desconhecimento, ingenuidade ou má vontade.

Seguindo o raciocínio, o que nos parece mais instigante é justamente o fato de repetir-se uma fórmula, absolutamente popular e consagrada, e, mesmo assim, continuar agradando e atraindo imensa audiência. Fazendo uma analogia com o cardápio gastronômico, a telenovela é assim uma espécie de bolo: todo mundo tem um preferido. Logo, sabemos haver uma enorme variedade, que atende a múltiplos gostos, mas a base da receita é sempre a mesma: atrai inúmeros seguidores, pode ser feita com diferentes ingredientes, e o que sobressai é um paladar de alta fidelidade: não há quem não goste de bolo, embora as preferências de gosto variem constantemente.

Pois é, e ainda argumenta-se que a história de Os dias eram assim tem clichês típicos de novela. Ora, pois, se uma mini ou superssérie é assim um ‘primo rico’ da telenovela, como não ter clichês típicos do gênero ? Como fugir ao padrão que tornou a ficção seriada o carro-chefe da programação televisiva brasileira ? E por que haveria de se mexer num ‘time que está ganhando’?

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Danilo e Camila, casal de “Amor de mãe”… Mas afinal, quem não gosta de um bom romance ?

Não estamos assistindo a um filme ou acompanhando uma encenação teatral: Os dias eram assim é uma supersérie. Segue o mesmo esquema básico clássico de uma telenovela, apenas o formato é menor que o desta, embora maior que o de uma minissérie. Seguindo com nossa analogia, o bolo pode ter outro formato e recheio, mas será sempre um bolo, e não um risoto, um uma macarronada ou uma feijoada.

A fórmula de telenovelas, minisséries, microsséries, casos especiais, superséries – teleficção audiovisual – é a mesma há dezenas, e o que encanta é ela permanecer sempre igual em sua diferença de cada novo título. Sempre com a mesma força e capacidade de atrair. E talvez aqui resida um dos trunfos de seu aprimoramento e apuro técnico: como há um sequenciamento ad infinitum do mesmo formato, as equipes realizadoras das telenovelas se esmeram, cada vez mais, ao longo de toda a história da Teledramaturgia Brasileira, em fazer com mais qualidade, primando pela capacitação de seus profissionais.

Isso é o que podemos constatar observando a enorme penetração da produção brasileira no exterior (mais de 130 países compram nossas telenovelas). E quanto mais esse mercado foi crescendo ao longo dos anos, mais o gênero se consolidou e as equipes técnicas, imensas e valorosas, foram sendo lapidadas – direção, fotografia, luz, cenário, maquiagem, direção de arte, trilha sonora e musical, caracterização –, chegando ao patamar que hoje vemos diariamente na telinha e que nos impactam, cada dia mais, pela excelência técnica e artística que exibem.

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Niko e Félix, o par romântico de “Amor à vida” que ganhou torcida nacional em 2014.

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Luzia e Beto Falcão: uma paixão que emocionou a audiência de “Segundo sol”

Afinal, se a história de amor incomoda por ser o fundamento dos enredos é porque o tempo consagra como clichê o que é  considerado bom para a grande maioria. E o clichê foi popularizado por ser reconhecidamente atraente e imbuído de qualidades intrínsecas: quem descobriu, aderiu, quis imitar, virou moda e contagiou. E o poeta Fernando Pessoa sabia tanto e tão bem disso que imortalizou o melhor e mais sábio de todos os clichês: o Amor.

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Leleco (Marcos Caruso) e Tessália (Débora Nascimento): casal rendeu bons momentos em “Avenida Brasil”

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Mercedes e Josafá: casamento na 3a idade foi das melhores coisas de “O outro lado do paraíso”

E, parafraseando o notável poeta português, dizemos:

Todas as histórias de amor são

Ridículas.

Não seriam histórias de amor se não fossem

Ridículas.

As histórias de amor, se há amor,

Tem de ser ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca curtiram

Histórias de AMOR

São ridículas.

As verdadeiras RIDÍCULAS !

É que são Rídiculas.

 

E por falar em quarentena, que tal rever “Amores Roubados” ?

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Minissérie de 2014 é trunfo da teleficção

*Aurora Miranda Leão

A começar pela expressividade do layout do título e pela impactante abertura, AMORES ROUBADOS é produção singular da nossa Teledramaturgia. Sou das que acompanharam a exibição na grade da programação da TV Globo em 2014 e recomendo que a assistam.

Quem me acompanha ao longo de minha caminhada como jornalista e pesquisadora de teleficção seriada, sabe o quanto aprecio a narrativa ficcional televisiva. Quando as obras são boas – como esta AMORES ROUBADOS -, aí mesmo é que faço questão de dizer que vejo e vejo com prazer ! Porque amo Dramaturgia – seja no Teatro, no Cinema ou na TV. Assumimos desde sempre que o bom é viajar por outras histórias, inventadas por outras cabeças, recheadas de outras fantasias, que não as nossas. Afinal, como diz o poeta gaúcho Carpinejar, nem a nossa história deixa de ser fantasiada por nós mesmos.

O roteiro de Amores roubados é de George Moura, pernambucano que também assina a autoria de “Onde nascem os fortes” (supersérie exibida em 2018), a partir de obra de Joaquim Maria Carneiro Vilela – advogado, ilustrador, pintor paisagista, cenógrafo, juiz, bibliotecário, secretário de Governo, fabricante de gaiolas, e escritor -, escrita entre 1909 e 1912, e merecedora de várias adaptações para o teatro e o cinema. Mas, por certo, o fato de ter obra sua exibida na programação da emissora líder de audiência no país, fará com que o nome do escritor seja definitivamente inscrito entre os grandes de nossa Literatura. Com o título original de “A emparedada da rua Nova”, Carneiro Vilela dizia que a história viera de um relato ouvido de uma escrava. Até hoje, não se sabe ao certo o que foi ficcionado pelo autor e o que realmente aconteceu.

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Cauã Reymond é Leandro, um típico “don juan” contemporâneo do sertão…

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Minissérie marca estreia de Jesuíta Barbosa na telinha: ele faz Fortunato, grande amigo de Leandro (Cauã Reymond).

Mas só em ter valido esta primorosa minissérie, já ganhou – e muito – a história de nossa Teledramaturgia, enriquecida pelas interpretações poderosas de Murilo Benício – um ator que consegue passar todo o sensório de seus personagens só com o olhar -, Irandhir Santos, Cauã Reymond, Isis Valverde, Patricia Pillar (soberba em sua angústia lancinante e silenciosa), Cássia Kiss, Osmar Prado, Dira Paes, César Ferrario, Jesuíta Barbosa, Magdale Alves e Thierry Tremouroux.

PRINCIPAIS DESTAQUES: 

– Direção precisa de José Luiz Villamarim, direção de arte, e fotografia de Walter Carvalho;

– O set, os enquadramentos e a atuação de Osmar Prado e Cássia Kiss na cena do acerto de contas;

– A frieza e vilania intrínseca do personagem Jayme, rapidamente tratando de se ‘descartar’ da conversa ‘incômoda’ do sogro Antônio;

– A luz da cena entre Jaime e o delegado (Walter Breda), num lindíssimo enquadramento em silhueta;

– A conversa entre Jaime e Cavalcante – Murilo Benício de costas, passando toda a emoção somente com a voz – genial !

– A comovente e quase pueril fala de Antônia, encharcada de emoção no velório do avô – ISIS VALVERDE divinal, uma nordestina com naturalidade, beleza singular e profunda empatia, levando o telespectador às lágrimas;

– O encontro de Antônia e Fortunato na beira do rio São Francisco…

* A inserção da bela Jura Secreta, música de Sueli Costa e Abel Silva, cantada de forma singular por um contagiante Raimundo Fagner;

* A qualidade das atuações de Irandhir Santos e César Ferrario numa pujança de força magistral entre dois talentos nordestinos;

* A tocante cena entre Cássia Kiss e Jesuíta Barbosa marcando mais pontos na atuação poderosa do elenco e ressaltando uma direção de arte poderosa a favorecer o contraste entre o vermelho ‘revelador’ da personagem de Cássia, o floral do guarda-chuva e a aridez rochosa às margens do São Francisco;

* Patrícia Pillar e Murilo Benício – contracena de Gigantes !

* Lindíssimos momentos de Isis Valverde, quer seja na fotografia magistral de Walter Carvalho, bem como da atuação emocionada e emocionante da atriz;

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* A sintonia precisa entre Isis e Benício em momentos de revelações perturbadoras;

* O quadro poderoso do grande campo de arames farpados como desfecho para o fim do grande vilão, o temido e maligno Jaime, quando a cena ganhou primorosos ares de réquiem;

* O belíssimo final à beira do rio reunindo 3 gerações – filha, neto e avó, preconizando possíveis (?) novos tempos de calmaria na vida conturbada, triste e sombria da família de Jaime – Isis e Patrícia em belos movimentos de interação mãe-filha X atriz tarimbada-atriz em ascensão !

Resultado de imagem para amores roubados cenas finais Patrícia Dira e Isis

Cena final une Isis Valverde e Patrícia Pillar.

De somenos: o não fechamento do destino de João (Irandhir Santos) – personagem e ator mereciam ter sua história amarrada junto ao público; e o do personagem Oscar (Thierry Tremouroux), professor de música da Orquestra Sanfônica, projeto idealizado por Isabel (Patrícia Pillar), ‘exilado’ da cidade a mando de Jaime, e tendo que se passar por Leandro…

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O diretor José Luiz Villamarim dirige Dira Paes e Cauã Reymond…

Amores Roubados é um produto de excelência, que ganhou (como apontamos em artigo de 2014) muitos prêmios: direção, fotografia, ritmo, direção de arte, edição, trilha e atuações magníficas num roteiro de suspense, rico em diálogos bem elaborados e coerentes com o cerne da história. DEZ é ainda pouco para AMORES ROUBADOS ! E é um orgulho para quem, como eu, fica feliz em poder aplaudir a grandiosidade dos nossos artistas e a qualidade a que chegaram os técnicos brasileiros ! Que Teledramaturgia de alto nÍvel faz o Brasil !

As casas dos moradores do distrito estão sendo usadas nas gravações. Um carrossel foi colocado perto da igreja do distrito, que foi expandida para as cenas. Os próprios moradores estão atuando como figurantes em 'Amores Roubados'

O interior do Nordeste brasileiro, fonte perene para a ficção teleaudiovisual.

*Você pode conferir a minissérie inteira acessando o Globo Play. A plataforma pode ser acessada de graça nestes tempos de pandemia.

Pandemia: assunto popular, como a novela. Valmir Moratelli comenta

Valmir Moratelli analisa contexto atual da narrativa preferida dos brasileiros diante da pandemia que fez TV Globo alterar programação

Jornalista, escritor, poeta, cineasta e doutorando em Comunicação pela PUC-Rio, Valmir Moratelli tem como epicentro de suas pesquisas acadêmicas a teleficção brasileira.

Convidado para escrever sobre o panorama atual, que alcança também as telenovelas da TV Globo, reproduzimos aqui a apreciação de Moratelli sobre o momento insólito pelo qual passa essa paixão nacional com quem convivemos desde que a TV Globo levou ao ar sua primeira telenovela, ainda em 1965.

Em nota oficial divulgada na segunda, 15 de março, a emissora informou sobre a suspensão das gravações de suas novelas, a antecipação do final de outras e a inclusão de novas reprises na grade de sua programação. A nota gerou diversas reportagens e causou bastante repercussão nas redes sociais esta semana.

Em bela matéria do colega Marcelo Canellas, a emissora afirma:

“não há novelas sem abraços, apertos de mãos, beijos, festas, cenas de briga, cenas de amor, cenas de carinho, tudo aquilo que reflete a vida real”.

As medidas, super acertadas, tomadas pela direção da TV Globo incluem: intensa cobertura jornalística sobre a Covid-19, liberação da plataforma Globo Play e dos canais de televisão fechada da Globosat (Globo News, SporTV, Multishow, Telecine, Canal Brasil, dentre outros). Uma demonstração clara, relevante e inconteste de responsabilidade social, solidariedade e exemplar respeito ao público, de parte da maior emissora de televisão do Brasil.

Vejamos então o que diz Valmir Moratelli* sobre o tema:

“Em decisão inédita na história da teledramaturgia brasileira, a medida adotada pela TV Globo é uma forma de prevenir a pandemia. Mas o que significa esta paralisação para o país que tem nas novelas sua principal fonte de entretenimento gratuito? Como a população vai se manter em casa, em quarentena pelas próximas semanas, se abstendo das tramas que vinha acompanhando como “Malhação”, “Salve-se Quem Puder” e “Amor de Mãe”? Apenas “Éramos Seis“, já nos últimos capítulos, terá um desfecho. Sua substituta, “Nos Tempos do Imperador”, precisará esperar o desenrolar do drama real que a população enfrenta no combate ao Covid-19.

“O silenciar das novelas acompanha o desenrolar de um assunto grave, da ordem de saúde pública”, afirma o especialista (Foto: Divulgação)

Interromper uma novela não é tão comum no Brasil. Por outros motivos, a TV Globo já teve que embargar produções em andamento. “Roque Santeiro”, de 1975, tinha 10 capítulos editados e quase 30 gravados quando, na noite de estreia, foi proibida de ir ao ar. No ano seguinte, o mesmo aconteceu com “Despedida de Casado”, que vinha sendo escrita para às 22 horas. Em ambos os casos, o bloqueio foi imposição da censura do Governo Militar.

Há também exemplos de produções que foram encurtadas drasticamente por rejeição do público e consequente queda da audiência. Os telespectadores largaram de lado “Cuca Legal”, de 1975, e a novela de Marcos Rey foi encurtada para 118 capítulos. Em 2001, “Bang Bang”, de Mario Prata, perdia público a cada exibição, o que fez a direção da emissora diminuir a duração dos capítulos que, dos habituais 55 minutos, passaram para 45. “As Filhas da Mãe”, de 2001, teve audiência abaixo do esperado. Resultado: A trama de Silvio de Abreu terminou com 125 capítulos. A título de comparação, o sucesso retumbante de “Avenida Brasil”, de 2012, teve 179 capítulos – dois meses a mais no ar.

O que acontece agora em nada se compara com os exemplos do período da ditadura, quando produções foram interrompidas por ordem do governo, ou com tramas encurtadas por questão de audiência, imprimindo a implacável força do mercado. O público fica, já na próxima semana, sem os capítulos inéditos por decisão estratégica da emissora, visando a não colocar em risco de contágio ao Covid-19 os quase 300 funcionários – entre elenco, equipe técnica e de produção – que trabalham em cada obra.

“O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma”

No comunicado enviado à imprensa, a TV Globo informou que tomou a decisão por coerência com os aspectos característicos da sua teledramaturgia, visto que “não há novelas sem abraços, apertos de mãos, beijos, festas, cenas de briga, cenas de amor, cenas de carinho, tudo aquilo que reflete a vida real, mas que, hoje, não pode ser encenado em segurança”. No livro “O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma” (2019, ed. Autografia), resultado de uma pesquisa de mestrado, detalhei duas décadas recentes de produções da emissora, entre 1998 e 2018, diante das transformações políticas de quatro presidentes (Fernando Henrique Cardoso, Luis Inácio Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer).

As telenovelas brasileiras são reflexo dos nossos tempos, servindo de registro histórico às mudanças sociais. Estabilidade econômica, diversidade sexual, a questão das cotas, ascensão da chamada classe C, maior participação das mulheres no mercado de trabalho. Nada passou incólume pelas ficções da TV. E agora que o mundo se vê obrigado a parar as atividades a fim de frear a pandemia, não seria diferente com a ficção. O silenciar das novelas acompanha o desenrolar de um assunto grave, da ordem de saúde pública, arremata Moratelli.

Protagonistas da novela ‘Amor de Mãe’, que teve gravações interrompidas esta semana TV Globo. (Reprodução/Globo)

Em um país onde 99% dos lares brasileiros têm televisão, forjando gerações diante dos amores e dissabores de protagonistas e vilões, fica difícil imaginar um cenário em que nossas rotinas, momentaneamente, serão sem novas novelas. É verdade que a audiência geral da TV aberta vem caindo em relação à última década, principalmente pela maior oferta de streaming, catapultando o telespectador a ser programador de sua TV. O momento é propício ao crescimento dessas novas plataformas– a própria GloboPlay vem lançando séries e documentários inéditos. Mas nem todos os órfãos de novelas vão migrar para a GloboPlay ou Netflix.

Dados do IBGE mostram que mais de um terço dos domicílios brasileiros ainda não têm acesso à internet. Interromper suas novelas é um recado que a TV Globo dá à sociedade e às autoridades. O cancelamento de uma “instituição nacional”, como é o caso da novela das 21h, transmite a ideia da seriedade coletiva que o país precisa ter pelas próximas semanas.

Parte do elenco da novelo Avenida Brasil, uma das reprises transmitidas pela Rede Globo neste momento de pandemia. (Reprodução/Globo)

No lugar das produções interrompidas nos últimos dias, a TV Globo vai reexibir tramas bem aceitas pelo público (“Totalmente Demais” e “Fina Estampa”, por exemplo), além de aumentar o tempo de transmissão dos telejornais no canal aberto e reforçar o conteúdo da GloboNews. O que também vem em boa hora para a emissora, visto que a CNN Brasil estreou no final de semana trazendo possibilidades de concorrência à altura de seus programas. Oferecer escolhas internas ao público, cada vez mais exposto a outras opções, é uma estratégia certeira. Enquanto a população fica sem os afagos de “Amor de Mãe” , ou aguarda pelas aventuras de “Nos Tempos do Imperador”, resta-nos entender que quarentena não é drama e nem histeria. É o mundo real chacoalhando nossas rotinas a tal ponto que interrompeu até a ficção. A telenovela há de resistir. Até porque esperamos todos por um happy end.

* Valmir Moratelli é jornalista e doutorando da PUC-Rio.

*Artigo originalmente escrito para o site da jornalista Heloisa Tolipan.

AMOR DE MÃE: seis razões para ver !

      * Por Aurora Miranda Leão

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A nova novela das 21h, AMOR DE MÃE, que estreia na próxima segunda, 25 de novembro, no horário nobre da TV Globo, pega o telespectador nas primeiras chamadas. 

E algumas razões são basilares para essa sintonia. Vamos apontar 5 delas:

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Adriana Esteves é Patrimônio da Cultura Brasileira ! 

Primeiro: tem Adriana Esteves, a Atriz Top das Tops !

                   * Antes dela, só Fernanda Montenegro !

Segundo: A direção é de José Luiz Villamarim e a autoria textual de Manuela Dias.

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 Villamarim e Manuela Dias à frente de Amor de Mãe

* Quem conhece  teledramaturgia brasileira, sabe que estes dois são garantia de qualidade.

CASÉ

Terceiro: A presença da estupenda Regina Casé, que já polariza todas as atenções nas chamadas de pré-lançamento da novela.

            * Casé tem tanto carisma e domínio do ofício que diz em primeiro plano que é nordestina (mesmo sendo carioca), e a gente embarca de imediato !

BRICHTA

Vladimir Brichta é ator-trunfo em qualquer obra !

Quarto: a temática é feminista, e traz de volta ao horário nobre a riqueza de ator que é Vladimir Brichta, que além de excelente intérprete, ainda estará com fios longos, incrementando ainda mais sua beleza !

IRANDHIR

Quinto: o retorno de Irandhir Santos, colossal ator pernambucano que engrandece qualquer obra, e assume com visual completamente insólito, de cabeça raspada, o que o deixa quase irreconhecível.

NOVE AMOR

AMOR DE MÃE tem fichas poderosas para tornar-se uma grande obra !

Sexto: a música de Raimundo Fagner, FRACASSO, momento sublime de inspiração do conterrâneo, que faz dessa sua mais linda composição, que assim vai estrear na Teledramaturgia e deve ganhar a boca e o coração popular !

 Ajayô !!!

AMOR DE MÃE é DEZ antes mesmo de estrear !

Portanto, segunda, dia 25, às 21h, estaremos ligados na telinha da Globo !

Fique esperto !

*Aurora Miranda Leão é jornalista, mestra em Comunicação, atriz, radialista e editora do #blogauroradecinema.

 

 

 

 

 

 

 

Novelas são tema de debate hoje com Valmir Moratelli na Livraria da Travessa

Avenida Brasil - Novela

“O que as Telenovelas Exibem enquanto o Mundo se Transforma” é o livro do jornalista Valmir Moratelli que será debatido hoje na Livraria da Travessa de Botafogo, logo mais, às 19h. O lançamento é da editora Autografia e haverá sessão de autógrafos.

Um importante diferencial do livro de Moratelli é que ele é fruto de uma intensa pesquisa de mestrado do autor, que acabou realizando um percurso que perfaz 20 anos de análise da Teledramaturgia Brasileira, com isso sagrando-se como escritor do primeiro livro-referência sobre o tema assinado por um carioca.

Valmir Moratelli traça um perfil instigante que envolve a construção das narrativas de teleficção com as trajetórias do cotidiano político brasileiro, evidenciando que analisar umas sem olhar as outras é um caminho incompleto e ineficaz.

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Camila Pitanga e Domingos Montagner em cena da novela Velho Chico (2016).

Em sua extensa pesquisa, realizada na PUC-Rio com orientação da profa Dra Tatiana Siciliano, Valmir Moratelli discute aspectos de gestões políticas e o quanto e como isso impactou na eleição de temáticas para as novelas da TV Globo. São abordados os períodos de Fernando Henrique Cardoso [1999-2002, segundo mandato]; Luiz Inácio Lula da Silva (2003-10]; Dilma Roussef [2011-16] e Michel Temer [2016-18].

“O objetivo deste livro é mostrar que a telenovela brasileira se diferencia das de outros países porque é totalmente relacionada com o que acontece de impacto em nossa sociedade. A novela é um retrato muito fiel do nosso tempo. Talvez seja o produto que melhor fale o que nós somos”, afirma Moratelli.

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“Foram dois anos de pesquisa para o meu mestrado que acabaram produzindo este material, que analisa assuntos considerados tabus da teledramaturgia, como empoderamento da mulher, inclusão do negro na sociedade como protagonista e diversidade sexual, nos últimos 20 anos. O que percebemos é que os temas das novelas da Rede Globo variam dentro da mudança de cada governo”, observa o autor.

“Na era FHC, com o início da estabilização financeira, as histórias tinham parte da trama fora do Brasil, e isso seguiu até ‘I love Paraisópolis’” (2015)”, salienta. “Com a gestão Lula, temos as transformações sociais. ‘Cheias de charme’ (2012) é um marco, porque colocou como protagonistas três empregadas domésticas. Depois, vêm Dilma e Temer, e a gente tem o aprofundamento da divisão social e as questões éticas acaloradas. Um bom exemplo é ‘Pega pega'”. (2017), conta Valmir.

“Se a gente tira do contexto o que está vivendo, deixa de entender aquilo que está indo ao ar”, finaliza Valmir Moratelli.

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O debate desta noite será na Livraria da Travessa, em Botafogo. A atriz Glamour Garcia, a Britney de A Dona do Pedaço, participará do encontro, que terá mediação de Tatiana Siciliano, professora da PUC-Rio, e a presença de Rosane Swartman, co-autora da novela das 19h, Bom Sucesso.

SERVIÇO

Sessão de autógrafos e debate sobre o livro

“O que as Telenovelas Exibem enquanto o Mundo se Transforma”

QUANDO: Hoje, terça, ENTRADA FRANCA

Horário: 19h

ONDE: Livraria da Travessa, em Botafogo (Rio).

AUTOR: VALMIR MORATELLI

Presença de Rosane Swartman (Bom Sucesso)

Tatiana Siciliano (PUC-RJ)

Glamour Garcia (A Dona do Pedaço)

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A atriz Glamour Garcia (em cena de A Dona do Pedaço com Juliana Paes) é presença confirmada esta noite na Livraria da Travessa.

Telenovelas ganham visão aprofundada de Valmir Moratelli

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“O que as novelas exibem enquanto o mundo se transforma”. Este é o título do livro que o jornalista, cineasta e doutorando em Comunicação pela PUC-RJ, Valmir Moratelli, lança daqui a pouco na concorrida Feira Literária de Paraty.

A obra de Moratelli traduz um mergulho profundo no universo da teledramaturgia, e apresenta um viés inédito sobre a mais importante produção brasileira da indústria cultural: o autor selecionou duas décadas de realização teledramatúrgica, voltando sua apreciação para as temáticas políticas evidenciadas nas telenovelas. Isso não só é um viés nunca antes abordado como é hercúleo, ousado, relevante e muito corajoso. Ademais, sendo um redator de mão cheia e um criador original de narrativas, a visão de Moratelli é precisa e de leitura instigante, logo seu livro é, além de muito bem-vindo, necessário.

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“O que as novelas exibem enquanto o mundo se transforma” é o terceiro livro do escritor, que lançou anteriormente Eu Rio, Tu Urcas, Ele Sepetiba, e Diálogos para Santos Cegos, um delicioso apanhado de contos divertidos e com uma visão perspicaz desta modernidade líquida emprenhada de fakes news, falsos mitos que se desfazem no ar em velocidade galopante e ridículas celebridades de fachada.

Outrossim, para apimentar o gostinho de conhecer o novo livro de Moratelli, ele mesmo conta: “As mudanças temáticas mais bruscas acontecem quando há ações de governo que transformam a percepção de vida da população”.

O livro de Valmir Moratelli mostra que, no período de 1998 a 2018, a TV brasileira experimentou avanços nunca antes vistos. Para tanto, há os exemplos das obras de João Emanuel CarneiroCobras e Lagartos, Avenida Brasil e A Regra do Jogo, que corroboram essas transformações sociais e políticas. Esse período abrange o segundo mandato de FHC (1999-2002), os dois de Lula (2003-2010), os de Dilma (2011-2016), além de Temer (2016-2018).

Nesta tarde, a partir das 16h, na Casa Autografia da FLIP, no Centro Histórico de Paraty, Valmir vai participar de debate cujo tema é Procuram-se novos protagonistas de novela: A ficção na TV, ao lado da atriz Dandara Mariana e da jornalista Ana Paula Gonçalves. A mediação fica por conta do emérito pesquisador, Mauro Alencar.

A seguir, reproduzimos entrevista do autor feita pela jornalista Luciana Marques, do site ArteBlitz (www.arteblitz.com):

Nessa sua imersão na teledramaturgia da Globo nesses últimos 20 anos, o que mais surpreendeu você nesse paralelo com a política? É impressionante perceber como a ficção televisiva – seja ela série, minissérie ou telenovela – mantém mãos dadas com os acontecimentos sociais e políticos. Essa era a hipótese da minha pesquisa, eu desconfiava que havia algo ali subentendido, daí fui pesquisar. Fiz um levantamento de todas as produções da TV Globo num recorte de 20 anos, traçando sua temática principal, para depois detectar onde começa a ter mudanças. E o que percebi é que as mudanças temáticas mais bruscas acontecem quando há ações de governo que transformam a percepção de vida da população. Um exemplo: desde 2015, quando o país entrou em recessão, nenhuma novela teve cena gravada no exterior. Por quê? Além de ter ficado caro demais gravar lá fora, o público deixou de planejar viagens em dólar. Novela acompanha hábitos e dita tendências.

Quais as novelas que trouxeram as principais transformações na sociedade desde a redemocratização? Como pesquisei as produções a partir de 1998, não me arriscaria a prolongar a análise até a redemocratização. Mas no período entre 1998 e 2018, cito as tramas de João Emanuel Carneiro como exemplos interessantes para se perceber as transformações que vivemos. Cobras & Lagartos foi ao ar em 2006, e falava de consumo. Vivíamos no país uma pujante fase econômica. O núcleo central se passava dentro de um shopping de luxo que imitava a Daslu. Depois, Avenida Brasil, em 2013, retratou a ascensão da classe C. João colocou o núcleo pobre como sendo o central e o rico como coadjuvante cômico da história. E o que vivíamos nas ruas? O protagonismo da classe popular, que agora tinha condições de frequentar aeroportos e comprar bens duráveis. Em A Regra do Jogo, de 2015, o que mais se falava era da pacificação dos morros e o poder paralelo de ex-policiais. João levou sua novela para o morro da Macaca dominado por facções de milícias. A meu ver, ele só errou com Segundo Sol, de 2018, que se passou na Bahia. Era uma chance e tanto de fazer uma novela histórica, com elenco majoritariamente negro.

E o que você destacaria da sua pesquisa em temas como mulher, racismo e homossexuais? O avanço foi grande ou ainda falta mostrar mais famílias de negros nas tramas, família de gays ou lésbicas criando seus filhos? Todos esses tabus só estarão superados quando não precisarmos mais falar deles como uma exceção. Mas vamos pegar o exemplo da diversidade sexual. Em 1995 teve uma novela, A Próxima Vítima, que trouxe um casal gay, Jeferson e Sandrinho. Os atores chegaram a apanhar nas ruas, porque não se aceitava aquele tipo de comportamento. Hoje tem casal gay em Malhação, na novela das 6, na das 7… Em 2016, por exemplo, Ricardo Pereira e Caio Blat protagonizaram cena de sexo em Liberdade Liberdade, e as redes sociais repercutiram muito isso. Assim como foi comemorado o beijo do Félix em Amor à Vida. Acredito que avançamos muito na temática da diversidade sexual. Algo que não vi ocorrer com tanta força em relação aos negros, visto que somos o país com a maior população negra fora da África. Nossa TV ainda não mostra isso. Em alguns casos, a julgar por certas produções, parece que somos um país escandinavo.

Esse protagonismo de mulheres em tramas, como a gente vê atualmente na novela das 9 com a figura da Maria da Paz, é algo que foi se construindo aos poucos? Não, a mulher sempre foi foco de interesse da telenovela no Brasil e no mundo, até por ser, historicamente, seu público-alvo. O que tem mudado é a forma como ela é tratada. Tivemos um ou outro respiro ao longo do tempo, como Malu Mulher em 1979, que tratava de agressão doméstica, alcoolismo, dupla jornada… Mas essas temáticas não condiziam com a época. A atualidade exige que se repense o papel da mocinha que só tinha final feliz nos braços do galã, tendo gêmeos ou subindo ao altar no último capítulo. A mocinha pode ser feliz sozinha, conquistando seu emprego dos sonhos ou fazendo uma viagem incrível. Pode ser até uma mecânica, como foi em Fina Estampa. A mulher moderna exige outras representações, como ser mãe solteira ou nem ser mãe. E isso tem a ver com conquistas que estão acontecendo hoje. Neste sentido, “A Dona do pedaço” mostra uma mulher independente, dona do próprio negócio. Vamos ver se ela não vai cair no padrão de felicidade do último capítulo (risos).

Na primeira parte do livro, você define como “Quarteto Mágico” um grupo de autores fundamentais para a telenovela moderna. Quem foram eles? Janete Clair, Dias Gomes, Jorge de Andrade e Lauro César Muniz. Os quatro, trazidos por Boni para a Globo, fundaram o que hoje se entende como “novela brasileira”. Trouxeram suas experiências com rádio, literatura e teatro, além de seus pensamentos de esquerda para construírem conflitos humanos críveis ao brasileiro. Tanto que são eles referências para todos os autores da atualidade que entrevistei. São atemporais, suas obras ainda dialogam com nosso tempo.

Já é possível prever como as novelas vão reagir ao atual momento da política brasileira? A pauta conservadora vai influenciar as tramas? Ainda é cedo para análise desse tipo, mas vai ser interessante daqui a um tempo analisar como a ficção na TV se comportou diante das discussões políticas que começam a dominar o cenário político. O atual governo se mostra contrário a discussões ambientais, à criminalização da homofobia, diz que racismo é algo “raro no Brasil”, quer acesso facilitado às armas… Ou seja, é um outro tipo de pauta que, desde janeiro, domina as ruas.

Qual é a sua novela inesquecível? Que difícil! Do período analisado no livro, Avenida Brasil é fortíssima, pelo que já falei há pouco. Antes disso, O Rei do Gado, do Benedito Ruy Barbosa, por ter trazido a “indigesta” questão da reforma agrária para o horário do jantar da elite brasileira. Coisas que só a novela é capaz de fazer.

Ficção Seriada ganha livro na Intercom

Na próxima quinta, dia 6, será lançado livro relevante para o estudo das várias formas de ficção seriada exibidas no Brasil e alvo de estudos acadêmicos no país.

O livro será lançado durante a 41a edição da INTERCOM, Congresso Nacional mais importante da área de Comunicação, que está sendo realizado em Joinville (Santa Catarina) até sábado, 8 de setembro.

LIVRO Ficção Seriada - menor

Os autores são:

Alexandre Tadeu dos Santos, Ana Carolina, Maoski, Andrei Maurey Leite, Aurora Miranda Leão, Camila Mendonça, Carlos Vinícius Lacerda, Daiana Sigilliano, Daniela Ortega,Gabriela Borges, Gêsa Cavalcanti, Guilherme Livardi, Guilherme Moreira Fernandes, Hertz Wendel de Camargo, Isabela Norton, Janiclei Aparecida Mendonça,  João Paulo Hergesel, Laryssa Prado, Lucas Martins Néia, Luiz Siqueira, Marcos Nicolau, Maria Amélia Abrão, Mariana Barbosa Gonçaves, Mariana Marques de Lima, Mateus Vilela, Naiane Almeida, Raphael Parreira e Silva, Robéria Nádia Nascimento, Soraya Ferreira, Tadeu Ribeiro, Tissiana Pereira e Vanessa Guimarães do Nascimento.

Saiba mais:

A INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – é uma instituição sem fins lucrativos, destinada ao fomento e à troca de conhecimento entre pesquisadores e profissionais atuantes no mercado. A entidade estimula o desenvolvimento de produção científica não apenas entre mestres e doutores, mas também entre alunos e recém-graduados em Comunicação, oferecendo prêmios como forma de reconhecimento aos que se destacam nos eventos promovidos pela entidade.

Fundada no dia 12 de dezembro de 1977 em São Paulo, a Intercom preocupa-se com o compartilhamento de pesquisas e informações de forma interdisciplinar. Além de encontros periódicos e simpósios, a instituição promove um congresso nacional – evento de maior prestígio na área de pesquisa em Comunicação, que recebe uma média de 3,5 mil pessoas anualmente, entre pesquisadores e estudantes do Brasil e do exterior. O evento, sediado em cidade escolhida pelos sócios no ano anterior, é precedido de cinco congressos regionais.

A sociedade é responsável, ainda pelo lançamento de livros e revistas especializados em Comunicação, e pela busca de parcerias com entidades de mesmo objetivo e institutos e órgãos de incentivo à pesquisa brasileiros e estrangeiros. Esse intercâmbio é um incentivo à formação científica, tecnológica, cultural e artística, além de uma forma de capacitar professores, estudantes e profissionais da Comunicação.

SERVIÇO

Lançamento do livro Ficção Seriada – Estudos e Pesquisas (vol 1)

Editoras: Jogo de Palavras e Provocare

Organizadoras: Fernanda Castilho e Lígia Prezia Lemos

DATA: 06 setembro 2018

Onde: Publicom, evento da INTERCOM

Realização: 41a INTERCOM

Local e Horário: Ginásio do Colégio Univille, em Joinville (SC), 17h 

ENTRADA FRANCA

 

 

Beto Falcão eleva emoção de Segundo Sol

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                     Novela tem cena com emoção típica de Último Capítulo

* Aurora Miranda Leão

         Segundo Sol é novela daquelas que Chegou, chegando. Tipo Celebridade, de Gilberto Braga, ou Jóia Rara, de Duca Rachid e Thelma Guedes. Desde a estreia, a novela nos evidenciou, com extrema vivacidade, a volta do melhor de João Emanuel Carneiro à narrativa teleaudiovisual.

      Quem acompanha novela, como esta redatora, ou quem conhece bem a dramaturgia de João Emanuel Carneiro, sabe: o autor se notabilizou por sua extrema competência em criar boas histórias. Mas tem mais do que isso: a capacidade singular do autor em criar ganchos, aquelas pausas ou interrupções que separam um capítulo de outro, suspendendo o suspense ou o desenrolar da cena num momento de muita emoção, para cativar o telespectador e fazer com que este retorne à telinha no horário combinado, dia seguinte.

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       Isso é uma característica primordial das telenovelas e esse aspecto não nos permite esquecer que foi assim que os romances-folhetins fizeram história no início do século XIX. A aceitação do público foi tamanha que os folhetins ganharam lugar cativo na imprensa, a partir da França, e se espalharam pelo mundo, sempre com extrema empatia popular. No Brasil, escritores famosos escreveram romances do gênero, especialmente para figurar nos rodapés das páginas dos jornais. E o êxito foi tanto que as vendas dos matutinos aumentaram e escritores chegaram a ser contratados para escrever especialmente para esse espaço dos jornais.

Autores como José de AlencarMachado de AssisManuel Antônio de AlmeidaLima Barreto e Joaquim Manuel de Macedo, por exemplo, criaram folhetins para publicação em jornais, os quais depois seriam editados em livros. O romance urbano A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, é considerado o exemplo de folhetim mais popular da história do Brasil, tendo feito sucesso em época na qual a maioria da população do país ainda era analfabeta.

Bom, mas essas informações, a título de introdução, são só para evidenciar que os ganchos são um fenômeno secular, que sempre teve como premissa conquistar leitores, amealhar seguidores e conquistar audiência. E nessa seara, quando chegamos à teledramaturgia, temos em João Emanuel Carneiro – autor de Da cor do pecado, Cobras e lagartos, A Favorita, Avenida Brasil, A regra do jogo, e Segundo sol, seu representante mais notório.

João Emanuel Carneiro é, apropriadamente, conhecido como o Rei do Gancho. E o codinome é mais que merecido, não só porque ele cria ganchos ótimos mas pela quantidade e qualidade dos ganchos que cria a cada capítulo. E mais além: os ganchos do autor acontecem também entre um bloco e outro de sequências, a cada intervalo. Ou seja: não é só de um capítulo para o outro que o telespectador fica vidrado esperando que rumo tomará o conflito da vez, e sim a cada pausa de bloco para entrar nos “reclames do plim plim”, como diria o incansável Faustão.

Daí, vem a excelência de João Emanuel: uma capacidade espetacular e incomparável de criar ganchos sem fazer a história voltar pra trás, sem criar inverossimilhanças, sem quebrar a diegese (coerência interna da história) e, sobretudo, sem tripudiar com a fidelidade do telespectador. Daí porque, quem assiste às novelas de João, vira fã e fica cativo da obra do dramaturgo, como esta que vos escreve.

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Karola, Remmy e Beto na cena fatídica que vitimou Beto e o marido de Luzia…

Um exemplo inconteste do que dizemos é a novela Segundo Sol, atração atual das 21h na Rede Globo. O que o autor tem emocionado seu público com a pertinência, beleza, eficácia e prodígio de sua narrativa não é coisa para se menosprezar, muito menos ignorar. Segundo Sol vai terminar sua trama como a novela mais bem realizada dos últimos 5 anos, pelo menos, e, oxalá, vai até bater a emblemática Avenida Brasil em termos de construção narrativa (aqui somando-se excelência do roteiro, dos diálogos, das estratégias argumentativas, dos conflitos, dos capítulos-chave, da sinergia perfeita com as músicas, da direção, atores, figurinos, fotografia).

Ou seja: tudo em Segundo Sol concorre para seu êxito. E, obviamente que, de Avenida Brasil pra cá, o autor viveu novas situações, aprimorou suas leituras, ouviu diversas narrativas, contabilizou novas histórias, e lapidou ainda mais sua aptidão para a escrita teleaudiovisual, assim como novos recursos tecnológicos apareceram e foram incorporados pela produção da emissora líder, fatos que contribuem, de forma inconteste, para a riqueza do constructo audiovisual que conferimos diariamente no horário nobre.

Acerca de tudo isso, vimos falando desde o início da novela em nosso instagram (@auroradecinema). Quem nos acompanha, já sabe de nossa imensa admiração por João Emanuel e de nossa adesão a Segundo Sol. O que queremos mesmo ressaltar neste post é o quão magnífico foi o capítulo desta quarta, 29 de agosto, no qual o ápice foi o novo julgamento de Luzia Batista, vivida com maestria por Giovanna Antonelli.

Toda a situação que envolve esse novo julgamento – incluindo a coragem de Luzia e de Beto de se submeterem ao tribunal sabendo dos grandes riscos que correm -, o drama e a apreensão dos filhos e da família dos dois, a dúvida sobre o depoimento da única testemunha (um senhor pobre e doente), anteriormente comprada, as ameaças de Laureta e Karola, a revelação da falsa morte do grande popstar do Axé -, tudo isso reveste o capítulo de uma dose emocional extra, com potência de último capítulo. Acresça-se ainda o grande show Tributo a Beto Falcão, que acontece em paralelo no centro histórico de Salvador para reverenciar a memória do ídolo morto. E quem organiza é a diretora-mor do fã clube de Beto, a despachada Goretti (Thalita Carauta em atuação excelente), namorada do irmão caçula do músico, que até fez música ‘psicografada’ pelo espírito do compositor Falcão.

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 O epicentro da cena do julgamento de Luzia foi Beto Falcão: com um texto pujante, de acentuado cunho ético, moral, social e amoroso, a cena foi de arrepiar ! Não bastassem as lindas palavras ditas por Beto, revelando toda a farsa em que se viu enrolado – as dificuldades que passou, os dias de coma, a separação drástica de Luzia, o afastamento dos filhos que esta teve de passar, o rompimento inesperado do relacionamento dos dois -, Beto anunciou, com toda veemência, que poderia ser preso ou sofrer qualquer tipo de punição mas estava ali prestando seu depoimento para salvar Luzia pois “ela é inocente e eu faço tudo isso para livrar Luzia da cadeia, porque ela é inocente, ela nunca teve culpa nenhuma pela morte do marido”.

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Emílio Dantas em interpretação magistral como o apaixonado e sofrido Beto/Miguel…

E, em nenhum momento, Beto acusou a verdadeira vilã, sua ex-mulher (e encosto permanente) Karola, nem o irmão cafajeste Remmy, nem a cafetina Laureta. Com a postura mais serena do mundo, e falando como quem extrai as sílabas do coração, Beto assumiu todas as culpas, pediu perdão aos pais, a toda a família, aos filhos de Luzia, aos fãs e, sobretudo, ao filho Valentim. E reiterou, diversas vezes, que Luzia é inocente e que a ama, e ama desde sempre. Desde quando a conheceu na ilha de Boiporã.

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Giovanna Antonelli, Chay Suede, Luisa Arraes e Emílio Dantas na fictícia Boiporã…

No tribunal, assistindo a tudo calados e extremamente comovidos, os enteados Icaro e Manuela, o filho Valentim, a futura cunhada Cacau, Groa (o amigo islandês de Luzia), e as vilãs Laureta e Karola. Uma cena lindamente construída, emoção de alta magnitude, com capacidade para fazer rir e chorar de empatia, em volume máximo. Emílio Dantas em atuação estupenda ! Aliás, o ator atua com tamanha espontaneidade que já virou Beto Falcão, dentro e fora da narrativa. Porque a gente simplesmente esquece que ele é Emílio (tal sua transformação), e só o vê como Beto Falcão, o autor da famosa Axé Pelô. Aplausos de pé para o Ator !!!

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Emílio Dantas e Danilo Mesquita em bela parceria no horário nobre…

A cena era apenas mais uma,  fruto da vocação extraordinária de João Emanuel de escrever belos textos, situações comoventes e diálogos preciosos. Que são enriquecidos pela competência de Maria de Médicis e a equipe de diretores que ela coordena com eficácia, e integram o núcleo do não menos competente Dennis Carvalho. Mas acabou tornando-se A Cena !

lau post meu - Cópia

A fala de Laureta após ouvir Beto defendendo Luzia em discurso emocionante…

Portanto, assistimos todos a um capítulo com potencial para ser o grandioso Último Capítulo. Mas o autor sabe tanto que tem muito mais para oferecer a seu telespectador, que não hesita em fazer de cada capítulo de Segundo Sol uma página de ouro a figurar na literacia dramática da ficção seriada televisiva.

                 Nota DEZ com louvor ! 

                Viva, Segundo Sol ! E Parabéns a toda a equipe de atores, atrizes e profissionais notáveis que fazem desta a melhor telenovela dos últimos anos no horário nobre !

equipe SS

Emílio Dantas, Gio Antonnelli, Fabrício Boliveira, a diretora Maria de Médicis, Deborah Secco, Vladimir Brichta e Adriana Esteves na coletiva de lançamento da novela.

 

Zefa revela talento de Claudia Di Moura ao país !

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Atriz baiana está fazendo de sua personagem um dos trunfos de Segundo Sol  
   * Aurora Miranda Leão

      A narrativa de Segundo Sol foi tema do nosso post anterior. Hoje, voltamos à novela para destacar o trabalho da atriz Cláudia Di Moura.

              Assim como eu, você, leitor amigo do #blogauroradecinema, também deve ter conhecido a atriz somente agora, no horário nobre da telinha. Sim, porque até então Cláudia era atriz ‘restrita’ a Bahia, já que o teatro não promove a mesma visibilidade da televisão, num país de passagens com preços tão exorbitantes como é este Brasil.

       Daí que a presença de Cláudia Di Moura, além de ser mais uma constatação da relevância da produção teleaudiovisual como espaço potencial para evidenciar as centenas de artistas valorosos que vivem espalhados Brasil afora, reforça a ambiência nordestina definida pela obra de João Emanuel, Márcia Prattes, Maria Di Médicis e Dennis Carvalho. Outrossim, além de ser importante para a carpintaria profissional da atriz, a presença de Cláudia Di Moura é uma aquisição significativa também para o cenário artístico da Bahia e um trunfo para a instigante história ambientada em Salvador. 

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Cláudia Di Moura e o abraço do diretor Dennis Carvalho…

  O primeiro grande momento da personagem Zefa no enredo talvez tenha sido quando seu filho Roberval (interpretado com brilhantismo por Fabrício Boliveira) descobre que é filho bastardo do patrão de Zefa, o rico e corrupto empresário Severo Athayde (vivido por Odilon Wagner). 

          Como seria esperado, mesmo fora da ficção, o jovem negro revolta-se contra o pai, que nunca o assumiu, faz um escarcéu diante de toda a família e decide ir embora dali. Sentindo-se aviltado, diminuído e vilipendiado por todos os anos de invisibilidade, Roberval arruma suas coisas e chama a mãe para seguir junto com ele, abandonando o passado de humilhação e aviltamento. Mas a mãe não adere a Roberval, o que o deixa surpreso e furioso, e ele se aparta dela, diminuído, indignado, e diz que ela não é mais sua mãe. A cena é de uma orça impressionante, não só pela atuação dos atores mas por tudo que cerca a narrativa: o confronto mais pujante da sequência é debaixo de chuva, e colaboram para a tensão a trilha, o enquadramento da direção, a fotografia e os diálogos bem construídos.

Zefa

A emocionante cena em que Roberval e Zefa se apartam…

Roberval então passa a trabalhar na construção civil e numa das construções onde trabalha, conhece a poderosa Laureta. Os dois tem um caso e Roberval termina ganhando um bom dinheiro, vai morar no exterior, e fica ausente do país por quase 20 anos. Nesse tempo, a mãe tenta algum contato com ele, mas ele não dá o menor sinal de vida pra ela. No tempo que ficou fora do país, acabou tornando-se um rico empresário na África e volta ao Brasil disposto a reencontrar um grande amor. Por conta desse amor, que é Cacau (interpretada por Fabíula Nascimento), Roberval volta a falar com a mãe.

A trama é muito boa e não chama Segundo Sol à toa: quem acompanha a novela, sente que há, no subtexto da história pessoal de cada personagem, um motivo para que suas vidas se apresentem, em diversos momentos, como regidas por duas energias distintas, ou seja: há sempre uma curva nas voltas do caminho; uma espécie de espelho subjaz em cada conflito ou situação criada pelo desenrolar da história. Embora isso seja um traço bem pertinente ao histórico criativo de João Emanuel Carneiro, em Segundo Sol isso emerge com uma força exponencial, pois há uma série de fatores atuando em uníssono para assegurar o êxito da novela. Mas isso já é tema para outro comentário, mais extenso, que faremos noutra ocasião. Por enquanto, queremos apenas registrar que  Segundo Sol tem potencial para alcançar o mesmo êxito da notável Avenida Brasil.

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Odilon Wagner, Cláudia Di Moura e Fabrício Oliveira: muito pano pra manga na ótima trama de Segundo Sol

Vamos então agora destacar duas cenas emblemáticas de Segundo Sol, nas quais a atuação de Cláudia Di Moura foi decisiva:

Nas duas cenas, o conflito mãe e filho está em relevo: a primeira foi exibida em 19 de julho e foi mais ou menos assim:

O capítulo teve como ponto alto o estopim da condição profissional de Rosa ser contada a seus pais, de forma humilhante, por Laureta. Foi uma cena fortíssima, na qual a atuação dos atores foi um ponto qualificadamente determinante. Adriana Esteves, Letícia Colin, Roberto Bonfim e Kelzy Ecard ganharam falas para arrebentar, e não fizeram por menos. Outro ponto que merece comentário nosso em outro post.

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Letícia Colin e Roberto Bonfim numa contracena de intensidade e emoção…

E em meio à avalanche de emoções mobilizada por essa situação – vivida por Rosa diante dos pais -, a cena de Zefa para a qual chamamos a atenção aqui, passou quase despercebida. Procuramos uma imagem na web que pudesse ilustrar e não encontramos sequer menção à cena, uma das mais belas entre mãe e filho, até hoje, protagonizadas na teledramaturgia: 

Foi quando a força do Amor se fez soberana e sobrepujou até a condição sempre submissa da linda personagem vivida pela querida baiana Cláudia Di Moura: 

Questionada pelo filho porque insistia em ficar ao lado de Severo (corrupto juramentado), Zefa emocionada diz que ama o patrão e pede ao filho que respeite suas escolhas !

Foi o primeiro sinal da personagem na direção de mostrar-se intensa, mulher, feminina, sexuada e também capaz de altivez em meio a uma história de submissão, subtração, e sentimentos escondidos sob muito silêncio e sofrimento.

A construção verbo-visual da cena foi primorosa, e terminou com o espanto filial ante tamanha revelação, para encerrar mostrando uma Zefa triste e chorosa dentro de um ônibus.

Ali abriu-se uma fresta importante para o telespectador conhecer uma profusão de emoções que pulsam na alma da personagem, submersos à custa de sentimentos escondidos e guardados sob a tutela da submissão, do racismo, da condição secular de opressão às mulheres !

Gol de placa do autor, da direção e da competência notável da atriz !

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Aplausos de pé para Cláudia Di Moura !

A outra cena é uma em que Zefa, em atitude inédita, enfrenta o patrão e assume e uma postura cheia de eloquência e altivez. É EMPODERAMENTO que fala, né ?! E, neste caso, duplo: da personagem e da atriz !

Em providencial analogia, podemos dizer que se trata de uma escala geométrica:
na medida em que a potência do discurso narrativo se intensifica, a interpretação de Cláudia Di Moura vai-se revelando arrancada das entranhas !

O que mais pode querer um autor do que encontrar um intérprete que eleva a qualidade do seu texto ? E uma atriz, o que mais pode desejar da profissão que receber um texto que lhe permita colocar a alma em cena e transfigurar-se em outro ser ?

Cláudia Di Moura está criando acordes poéticos com as palavras de João Emanuel Carneiro e Márcia Prates, e baila nas cenas lindamente desenhadas por Maria di Médicis e Dennis Carvalho !

Quem ganha e agradece, penhorado, são seus fãs, nos quais me incluo, GRATA.

Aplausos de pé para Cláudia Di Moura e a emblemática cena do capitulo do dia 26 de julho na casa da família de Severo Athayde !

Cláudia

                                     Bem-vinda sois, Cláudia Di Moura !

SEGUNDO SOL: Trama reafirma excelência dramatúrgica de João Emanuel Carneiro

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Adriana Esteves (em cena com Narcival Rubens) faz a poderosa Laureta, ‘rainha da Armação’…

Sem mimimi nem quaquaquá, novela das 9 é exemplo que dignifica Teledramaturgia

                                                                                             *Aurora Miranda Leão

luisa

                                    Luísa Arraes e Giovanna Antonelli são filha e mãe

         Há muito, a telenovela Segundo Sol está merecendo de nós um rasgado elogio público.

            Desde sua estreia, a trama de João Emanuel Carneiro (dirigida por Maria Di Médicis e Dennis Carvalho) nos chama atenção pela excelência: seja do texto, do discurso, das imagens, da fotografia, ou das atuações. Tudo em Segundo Sol (SS) destaca-se pela qualidade. E temos ressaltado isso desde a estreia da novela do horário nobre em nosso instagram @auroradecinema.

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Roberto Bonfim e Kelzy Ecard engrandecem seus personagens !

            É de tal modo pujante a narrativa de Segundo Sol que já podemos afirmar: a novela é uma outra Avenida Brasil (AB), Melhor e com maior capilaridade. Nisso não há comparação de valor artístico das obras mas a constatação de que tudo o que era/é excelente em Avenida, nesta atual o é igualmente. Com a vantagem, para Segundo Sol, de novos progressos tecnológicos, muito mais chão na trilha literária do autor, novos recursos imagéticos, maior sintonia entre ficção e realidade; técnicos com competências ainda mais aguçadas (afinal, de lá pra cá, foram alguns anos apreendendo novos formatos para destacar o mais relevante de cada cena), e um telespectador muito mais exigente.

            Certo é que Segundo Sol é uma obra que impressiona pela qualidade de sua narrativa ! Chega a ser surpreendente a capacidade de João Emanuel Carneiro de lançar toda noite para a audiência um novo novelo para tecer – e que a gente pensa que levará alguns dias para o bordado ser concluído) -, até que, de repente, o novo desenho se apresenta e ele já oferece outro, de bandeja, para nós que acompanhamos a obra com afinco.

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Chay Sued e Adriana Esteves em atuações primorosas !

           Fico do lado de cá da poltrona a aplaudir essa ousadia notável do escritor, como quem se joga do alto do despenhadeiro, sem rede de proteção, e ainda diz: “pode olhar, que não vou morrer !” Ou seja: pode curtir, telespectador, que a trama não vai parar de surpreender ! Muito ao contrário: quanto mais situações novas o autor coloca, mais e mais surpresas ele oferece ao público, sem medo de estancar o motor !

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Nanda Costa e Letícia Colin vivendo mulheres poderosas !

          Isso nos leva a lembrar o acertado codinome de João Emanuel Carneiro: o autor é sim, sem nenhum favor, o Rei do Gancho ! E como é prazeroso acompanhar uma novela dele.

Aliás, depois que você assiste a uma novela de Joõa Emanuel Carneiro, com a atenção necessária (sem perder um capítulo), nunca mais você precisa perguntar se tal ou qual novela é boa. Porque as novelas de João Emanuel são paradigmáticas: todas as tramas dele são notáveis, o que vem num crescendo indubitável desde A Favorita.

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Boliveira e Fabíula Nascimento fazem um casal muito enrolado…

             Outrossim, em Segundo Sol, o texto primoroso de João Emanuel Carneiro (que tem Márcia Prattes como parceira na redação) ganha relevo com a atuação magnânima do elenco – com destaque para Adriana Esteves, Vladimir Brichta, Letícia Colin, Chay Sued, Deborah Secco, Luísa Arres, Fabrício Boliveira, Cláudia Di Moura, Fabíula Nascimento, Emílio Dantas, Nanda Costa, Roberto Bonfim– e a profícua parceria de Maria Di Médicis e Dennis Carvalho na direção. Tudo junto e misturado, ressaltamos que daí decorrem todos os demais acertos da obra, da escolha das músicas à fotografia notável (a Bahia nunca vista de forma tão linda na telinha), passando pelos figurinos adequados e culminando com o sotaque espetacular que ouvimos através dos que traduzem em áudio as palavras de João Emanuel e Márcia Prates.

Zefa

Fabrício Boliveira e Cláudia Di Moura em atuações magnânimas !

Aliás, é mister sublinhar a enorme repercussão da novela nas redes sociais, nas quais há diversos twittes e contas no Instagram dedicadas aos personagens de maior sintonia com o público. Nesse viés, ressaltamos a emblemática atuação de Letícia Colin – que é, ressalvando as diferenças de caráter e atitude, a Carminha desta novela (no sentido de empatia da personagem); Chay Sued e Vladimir Brichta, os grandes destaques masculinos (como em AB foram Murilo Benício e Juliano Cazarré); Giovanna Lancelotti (atuação tão exponencial quanto o foi a de Isis Valverde em AB), e Cláudia Di Moura, que se destaca pelo magnetismo de sua atuação – tal como em AB tivemos a estreante Cacau Protásio se sobressaindo, embora a personagem Zefa tenha como pilar uma densidade dramática que não havia em Zezé, a qual a atriz assume com a maior competência.

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Letícia Colin e Chay Sued imprimem selo de Grandes Intérpretes a Rosa e Icaro.

   Um 10 GIGANTE para Segundo Sol, sobre a qual ainda pretendemos escrever vários outros artigos, pois motivos não faltam, e sobram percepções pelas quais a obra deve ser analisada. Além disso, evidências de que o enredo é forte candidato ao Emmy, e vários outros prêmios, desfilam na nossa telinha diariamente.

            O tema é palpitante demais. Retornaremos a Segundo Sol em breve.

Drica e Lê

Rosa e Laureta: protagonismo feminino traduzido em grandes personagens, vividas por duas atrizes soberbas !

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