A Poderosa Empatia de Roberto Carlos

A cada vez vejo Roberto Carlos cantar, e uma enorme platéia, apaixonada, acompanhá-lo, mais impressiono-me com a poderosa força de sua expressividade artística.

São legiões de pessoas que há anos acompanham sua trajetória – no meio dessas, muitas crianças e pessoas que não acompanharam sua fase mais criativa – anos 70/80. Mesmo assim, a audiência é tomada de emoção por suas músicas e sua voz agradável, estando ademais o Rei cantando melhor a cada dia.

Tudo isso me vem a propósito do belo show de Natal na praia de Copacabana, famosa mundo afora por conta das emblemáticas canções feitas em sua homenagem. Aliar Roberto Carlos à famosa praia carioca em pleno final de ano foi dos maiores acertos já anotados em se tratando de eventos de grande porte na capital carioca. Tudo concorria para o êxito da noite, atestado pela imprensa de qualquer parte do mundo.

Foi uma noite primorosa. Faltaram algumas canções, outros convidados poderiam ter acrescentado mais. Mas essas coisas serão sempre sentidas ante a qualquer show do Rei. Afinal, nós, público, sempre queremos muito mais além de Detalhes, Cama e Mesa, Proposta, Côncavo e Convexo, Jesus Cristo…

Eu, por exemplo, gostaria de ter ouvido a belíssima Cavalgada, e os clássicos As Canções que Você fez pra Mim, As Curvas da Estrada de Santos, De Tanto Amor, Quando, Você, A Distância, Rotina, Os Seus Botões, e outras as quais ele deu uma interpretação soberana, como Ninguém Vai Tirar Você de Mim (Edson Ribeiro & Hélio Justo), Força Estranha (Caetano Veloso), e Mais uma Vez (Mauricio Duboc – Carlos Colla), dentre uma infinidade de pérolas.

Já disse no Twitter que a homenagem que a escola de samba carioca Beija-Flor fará ao Rei no carnaval 2011 fará com que o público do Sambódromo aumente significativamente no próximo carnaval. Homenagem justíssima. Há muito, Roberto Carlos já poderia ter sido tema de samba-enredo.

O capixaba de Cachoeiro do Itapemirim é ídolo pop no país, e também no exterior. Em abril deste 2010 recebeu homenagem na sede da gravadora Sony Music, em New York, pelos seus 50 de carreira e por ter alcançado a marca de 100 milhões de discos vendidos no mundo. O REI é, portanto, um grande tema para a avenida-matriz do samba, onde sonoridades várias e múltiplas coreografias dão o tom, transmutando corações de todo o país e além-fronteiras em alegrias multicores, próprias à cobiçada espontaneidade carioca.

A presença da cantora Paula Fernandes foi uma grata surpresa. E é importante destacar o naipe de músicos, há muito na estrada com Roberto. Isso de se olhar para o palco e ver senhores de meia-idade (a começar pelo maestro) e até o trio que atua como backing vocal, sem a “obrigatoriedade” de vender sempre o jovem como o que tem valor, é um traço de singular significado na trajetória do REI. Nele estão embutidos o valor que o artista consagra às amizades, a confiança nos companheiros de vida artística, o respeito que dedica à experiência, o lastro de carinho e apreço que os une há décadas. Isso é, no mínimo, um grande exemplo para os que estão ingressando na laboriosa sina musical.

No mais, nosso comovido e mais sincero aplauso a Roberto Carlos, Artista Brasileiro de inegável carisma, cuja trajetória intensa, profunda, serena e coerente sempre agrega passos de inestimável valor aos princípios norteadores de qualquer cidadania mais justa, fraterna e amorosa.

Sobretudo neste momento, no qual a informação corre célere, embora nem sempre verdadeira, é de suma relevância apostar na difusão de um Artista como RC, renovando as esperanças no ato da comunicação como uma saudável comunhão com o próximo.

Pra finalizar, deixo com você, leitor amigo, a abalisada análise do saudoso cronista Artur da Távola, intitulada Roberto Carlos, o rei simbólico:

A idolatria de um artista popular transborda os conceitos puramente artísticos, penetrando-se de elementos empático-mitológicos de impossível aprisionamento por palavras, conceitos ou análises de exclusivo corte lógico-ideológico-racional. No caso de Roberto Carlos, o lugar-comum expressa-se antes de mais nada por sua mediania. Não é bonito ou feio. A voz é normal, apenas afinada. Nada (salvo talento e sensibilidade) possui em forma de exceção. A sua mediania o identifica com as multidões porque consegue sujeitar o turbilhão de sua sensibilidade, a força do seu talento e as dores de suas amarguras, dentro de um invejável equilíbrio.

De todas as forças que se entrecruzam dentro de sua figura pessoal e a de comunicação resulta a percebida tristeza, representação do que todos sentem e nem sempre sabem e podem expressar.

Fortalece a mitologia do lugar-comum na arte de Roberto Carlos o fato de que o público percebe não haver ódio ou azedume em sua dor por conter-se. Nela, sim, há frustração, impossibilidade, tristeza. Não há raiva, imprecação, ressentimento. O que foi contido, não se recalcou: distribuiu-se pelas várias partes do seu ser, fecundando-as. O público fareja, longe, os representantes da sua frustração. Em maior ou menos escala, há, na vida, uma carga obrigatória de frustração. Ninguém vive sem se frustrar. Quando aparece um artista que, além de representar a frustração transforma-a em arte, em beleza, encanto, em canto, poesia, mensagem ,este receberá a adesão emocional de todos. Principalmente, se na maneira de o fazer mantenha vivos os elos de sua relação com o público, ou seja, a sua mediania […]Em suma: alguém que não ressalta o que o difere. Assim é, pois, um ídolo: a exata expressão de todos os demais em estado de equilíbrio, um igual !

[…] Parece ser a relação misteriosa e secreta com a Transcendência que o fez e faz ser, dela, um representante, carismático leigo a obter a idolatria, título máximo da profundidade do lugar-comum. Está mais para apóstolo que para mártir”.

Uma resposta para “A Poderosa Empatia de Roberto Carlos

  1. Admirável Aurora! Daqui, das alterosas em que me encontro mergulhado no oceano Bergman (o paradoxo é intencional), visito seu blog e deparo com mais um ponto comum entre mim e você: a paixão pela figura indefinível de Roberto Carlos, este intérprete incomparável das alegrias e tristezas de todos nós. O outro é o cinema, claro, além da figura queridíssima de seu pai e meu amigo L.G., com quem tenho por hábito dividir as manhãs de sábado em casa do não menos querido Cesar Lincoln. Passo por aqui, pois, para me apresentar e tornar público o meu carinho e a minha admiração!
    Álder Teixeira, Belo Horizonte, dezembro de 2012.

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